Santiago Aguaded Landero

Poemas ibéricos

Santiago Aguaded Landero

Poemas ibéricos (12) MARIO LOURTAU

O POEMA Rinoceronte de Durero, de Mario Lourtau, pertence ao livro “O olhar do condor”, publicado por De la luna libros (Mérida, 2012) na coleção de livros de poesia Luna de poniente. O poema forma parte deste moderno animalario na sua secção Álbum de Zoologia. Os seus versos surgem como entrada a esta segunda parte do poemário, onde o reino animal ganha espaço entre as diferentes emoções que podem surgir através da contemplação destes seres selváticos. Rinoceronte de Durero, longe de ficar-se por um mero retrato da nobreza e beleza deste animal, submerge-se na intra-história europeia, olhando 5 século atrás, quando pela primeira vez se pode observar este paquiderme no velho continente. As desiguais viagens que teve de afrontar um animal de tal tamanho (chegou a ser comparado com um ser lendário) contrastam com o impacto social que produziu, maravilhando as cortes europeias e todos aqueles que puderam contemplá-lo. Ganda, como assim se chamava o paquiderme, passou por diferentes mãos até chegar a formar parte da corte de D. Manuel I de Portugal, que mais tarde o obsequiaria ao pontificado. As viagens de Ganda marcaram também as artes na Europa. D. Manuel I, que deu nome ao estilo arquitetónico manuelino, variante portuguesa do estilo gótico final, mais tarde com incorporações renascentistas, foi exemplo disso. A Torre de Belém, em Lisboa, construída por Francisco de Arruda e Diogo de Boitaca entre 1515 e 1519, é considerada como um dos monumentos mais belos e representativos deste estilo, neste caso uma variante do gótico e do luso-mourisco. Num dos lados da Torre de Belém, encontra-se a gárgula do rinoceronte, ao qual o poema faz referência.  

RINOCERONTE DE DURERO

Han pasado ya siglos desde entonces, casi
quinientos años. Ganda, enorme paquidermo,
llegó desde la India a tierras lusas como un ser legendario,
apenas contemplado en la vieja Europa. Agasajo
del Sultán para Alfonso de Alburquerque,
pasó más tarde a manos del rey Manuel I,
que mostró su anatomía de bestia imaginaria
a extraños y curiosos. Antes de ofrecer a la criatura
al Papa León X, el rey quiso enfrentarlo
con un joven elefante, mas fue en vano la afrenta.
Viajó al Pontificado haciendo escalas,
fue expuesto, y admirando por Francisco I;
vivió sus días de gloria y desconcierto
igual que un gran actor perdido por la fama.
Su buque no alcanzó jamás la costa.
Murió terriblemente, encadenado,
bajo el glaciar furtivo de las olas,
en esa selva espesa de algas y salitre
donde se hunden con la vida los seres prodigiosos.
Sucumbió bajo el mar, mas su cadáver
llegó hasta el Vaticano embalsamado.
La Historia guarda un hueco para Ganda
en el libro singular de los obituarios:
En la torre lisboeta de Belém,
asomada a la belleza de sus muros,
la gárgola del rinoceronte respira sobre el mar.

Alberto Durero, sin ver a la criatura,
realizó el primer grabado de su estampa:
poco fiel al animal, repleto de defectos;
mas hermoso al fin y al cabo por su historia.

RINOCERONTE DE DÜRER

Passaram-se séculos desde então, quase
quinhentos anos. Ganda, o enorme paquiderme,
chegou da Índia a terras portuguesas como um ser lendário,
dificilmente contemplado na velha Europa.
Uma festa do Sultão para Afonso de Albuquerque,
passou mais tarde para as mãos do Rei D. Manuel I
que mostrou a sua anatomia de besta imaginária
a estranhos e curiosos. Antes de oferecer a criatura
ao Papa Leão X, o Rei quis confrontá-lo
com um elefante, mas foi em vão a afronta.
Viajou para o Pontificado, fazendo escalas,
foi exposto e admirado por Francisco I;
viveu os seus dias de glória e desconcerto
tal qual um grande actor perdido pela fama.
O seu navio nunca alcançou a costa.
Morreu terrivelmente, acorrentado,
debaixo do glaciar furtivo das ondas,
nessa selva espessa de algas e salitre,
onde se fundem com a vida os seres prodigiosos.
Sucumbiu debaixo do mar, mas o seu cadáver
chegou até ao Vaticano embalsamado.
A história guarda um lugar para Ganda,
no livro singular dos obituários:
na Torre de Belém,
assomada à beleza dos seus muros,
a gárgula do rinoceronte respira sobre o mar.

Albrecht Dürer, sem ver a criatura,
fez a primeira gravura da sua estampa:
não muito fiel ao animal, cheio de defeitos,
mas belo ao fim e ao cabo, pela sua história.

Tradução para português: Neuzâ Tomé
Nota biográfica do autor: https://www.aeex.es/autores/lourtau-mario/


Poemas ibéricos (11) JORGE SOUSA BRAGA

Jorge Sousa Braga (Cervães, 1957) es uno de los poetas y traductores portugueses más reconocidos de su generación. Traductor de excelentes poetas españoles como Borges y franceses como Apollinaire, entre otros. Es una delicia leer a este poeta que usa todos los tonos, desde el más lírico, al más procaz, con un fino sentido del humor o la ironía (véase poema Ulises). El autor me envía su poesía reunida en el volumen O poeta nu / El poeta desnudo (Assírio e Alvim) con el aviso de usar à vontade. Elijo un poema ya traducido por Martín López Vega y otro por mí mismo, en el que optado por una traducción literal.

 

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os
      infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe
      atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante
      D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiros dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar
      estava no poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que
      emigraram nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
      a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

PORTUGAL

Portugal
Tengo veinte años pero tú a veces haces que me sienta como si tuviera ochocientos
Qué culpa tengo yo de que D. Sebastião se fuera a combatir infieles al norte de África
sólo porque no podía combatir la enfermedad que atacaba sus órganos genitales
y nunca volviera
Casi me da por pensar que todo es mentira que el Infante D. Henrique es un invento de Walt Disney
y Nuno Álvares Pereira una imitación chusca del Príncipe Valiente
Portugal
Ni te imaginas cómo me excito cuando oigo el himno nacional
(que mis egregios abuelos me perdonen)
Ayer estuve jugando al póker con el viejo de Restelo
Está yendo a la consulta externa de Júlio de Matos
Le dieron unos electroshocks y está recuperándose
dejando a un lado su empeño en convencerme de que nos espera un futuro de rosas
Portugal
Un día me encerré en el monasterio de los Jerónimos a ver si contraía la fiebre del Imperio
pero lo único que conseguí pillar fue un resfriado
Puse la Torre do Tombo del revés sin encontrar ni un mal pétalo
de las roas que Gil Eanes se trajo del Cabo Bojador
Portugal
Te voy a contar algo que nunca he contado a nadie
Sabes
estoy locamente enamorado de ti
Me pregunto a mí mismo
cómo he podido enamorarme de un viejo decrépito e idiota como tú
por más que tenga el corazón aún más dulce que los pasteles de Tentúgal
y el cuerpo lleno de puntos negros que puedo arrancar cuando quiera
Portugal ¿me estás escuchando?
Nací en mil novecientos cincuenta y siete Salazar estaba en el poder sin resentimientos
Mi hermano estuvo en la guerra tengo amigos que emigraron sin resentimientos
Un día bebí vinagre sin resentimientos
Portugal después de haber salvado innumerables veces los Lusíadas nadando en la piscina municipal de Braga
quería proponerte ahora un proyecto eminentemente nacional
Que fuésemos todos a Ceuta a buscar el ojo perdido de Camões
Portugal
¿sabes de qué color son mis ojos?
Son castaños como los de mi madre
Portugal
querría besarte muy apasionadamente
en la boca

ULISSES

I

Suicidara-se a escassas milhas de Ítaca quando o
     
perfil da ilha se recortava já nitidamente no horizonte
A notícia que vinha na página insular de um dos
     
jornais de maior tiragem de Atenas
referia apenas que se tratava de um marinheiro
     
o número da sua carta marítima e o apelido
(muito comum por aquelas paragens)
o resultado da autópsia
a suspeita de que alguém o tivesse amarrado a um mastro
tatuagens de sereias e de monstros marinhos
a bagagem extremamente reduzida que o acompanhava
um velo de oiro algumas peças de roupa interior. 

II 

Apanhara o barco em Salónica
Durante a maior parte da viagem manteve-se fechado no seu camarote
Debruçado da amurada via agora a sua ilha
       emergindo lentamente das águas
Um cheiro almiscarado dilatava-lhe as narinas
Ítaca perfumara-se de propósito para a sua chegada
e envergara o vestido mais decotado que possuía
Depois de muitos séculos de ausência Ulisses estava de volta
Expedira um telegrama lacónico a anunciar a sua chegada
A esperá-lo dois representantes do governo grego alguns operadores
      de televisão vários professores de mitologia
a comissão de trabalhadores da fábrica «Penélope»
      (uma florescente indústria de tapeçarias) …
Debruçado na amurada do barco que estabelecia a ligação entre as inúmeras ilhas do Mar Egeu
Ulisses
ia revendo mentalmente
todas as privações por que passara
anónimo tripulante de um petroleiro navegando sob a bandeira do Panamá
lavando pratos
para que um dia pudesse voltar a Ítaca
Quantos anos em vão a procurara nos mares mais
     
azuis que em sonhos conseguira pintar
no corpo de uma negra na Bronx das mulheres
     
expostas nas montras do porto de Amsterdam
Quantos anos em vão a procurara…
Debruçado na amurada via agora a sua ilha
     
emergindo lentamente das águas
da memória
com o vestido mais decotado que possuía e cheirando a almíscar…
Suicidou-se a escassas milhas de Ítaca quando o
     
perfil da ilha se recortava já nitidamente no horizonte
a escassas milhas de Ítaca
de Í-TA-CA.

ULISES

I

Se suicidó a pocas millas de Ítaca cuando el
      perfil de la isla ya se recortaba nítidamente en el horizonte
La noticia que venía en las páginas insulares de uno de los
      periódicos de mayor tirada de Atenas
se refería sólo a que era un marinero
      el número de su folio y el apellido
(muy común por aquellos lares)
el resultado de la autopsia
sospecha que alguien lo hubiere atado a un mástil
tatuajes de sirenas y de monstruos marinos
el equipaje extremadamente ligero que lo acompañaba
un vellón de oro y algunas piezas de ropa interior.
 

II

Embarcó en Tesalónica
Durante la mayor parte del viaje permaneció encerrado en su camarote
Inclinándose sobre la barandilla, vio su isla
      emerger lentamente del agua
Un olor almizclado dilató sus fosas nasales
Ítaca se había perfumado a propósito para su llegada
y se había puesto el vestido más escotado que tenía
Después de muchos siglos de ausencia, Ulises regresaba
Había enviado un lacónico telegrama anunciando su llegada
Esperaban por él dos representantes del gobierno griego algunos cámaras de
      televisión varios profesores de mitología
el comité de trabajadores de la fábrica "Penélope"
(una floreciente industria de tapices) ...
Inclinado sobre la barandilla del barco que establecía la conexión entre las innumerables islas del Mar Egeo
Ulises
estaba revisando mentalmente
todas las penurias que había soportado
como anónimo tripulante de un petrolero que navegaba
      bajo pabellón panameño
lavando los platos
para que un día pudiese volver a Ítaca
Cuántos años en vano la había buscado en los mares más azules
Que consiguiera pintar en sus sueños
en el cuerpo de una negra en el Bronx
en las mujeres expuestas en los escaparates del puerto de Ámsterdam
Cuántos años la había buscado en vano...
Inclinado sobre la barandilla vio su isla
emergiendo lentamente de las aguas
      de la memoria
con el vestido más escotado que tenía y oliendo a almizcle...
Se suicidó a pocas millas de Ítaca cuando el
perfil de la isla ya se recorta en el horizonte
a pocas millas de Itaca
de I-TA-CA.


Poemas ibéricos (10) GOYA GUTIERREZ LANERO

GOYA GUTIÉRREZ, (Cabolafuente, 1954 - Zaragoza, Espanha) é licenciada em Filologia Hispânica pela Universidade de Barcelona. Foi professora titular do Ensino Secundário. Desde o ano 2003 é co-editora e diretora da revista literária Alga (www.castelldefels.org/alga). Até à data editou duas plaquettes (pequena publicação para difusão de obras literárias de curta extensão como poemas ou contos) e sete livros de poesia, além de uma novela em ebook. Tem dois poemários inéditos.

 

LISBOA

Nos sorprendió desnudos
El azul
Expulsado del cielo,
Sobre el rojo carmín
De los tejados
En Alfama.

Más allá, el forjado
Metal oscurecido
Arqueando las aguas,
Coronando corrientes,
Pincelando barcos y raíles.
Más próximo el tranvía
Zigzaguea en tus sienes
Las estrellas fugaces
De la infancia.

Entre grises de nieve
De antiguos monumentos
Frente al agua
Serpentea la tarde,
Y el río nos devuelve
De nuevo a las tabernas
Donde se moja el vino
Con maderas de oriente
Y occidente, que saben
A esos días caobas
De refugio
En los ojos de alguien
Que escucha de otros labios
Un poema,
O a esas noches de ébano
Sin sueño, reticentes...

Que apuran, se resisten
Al frío amanecer
De la partida

LISBOA

Surpreendeu-nos despidos
O azul
Expulso do céu,
Sobre o vermelho carmim
Dos telhados
Em Alfama.

Mais além, o forjado
Metal escurecido
Arqueando as águas,
Coroando correntes,
Pincelando barcos e carris.
Mais proximo o eléctrico
Ziguezagueia nas tuas têmporas
As estrelas fugazes
Da infância.

Entre cinzentos de neve
De antigos monumentos
De frente à água
Serpenteia a tarde,
E o rio devolve-nos
De novo às tabernas
Onde se molha o vinho
Com madeiras do oriente
E ocidente, que sabem
A esses dias de mogno
No abrigo
Dos olhos de alguém
Que escuta de outros lábios
Um poema,
Ou a essas noites de ébano
Sem sono, reticentes…

Que apressam, resistem
Ao frio amanhecer
Da partida.

Do Livro “La mirada y el viaje” / “O olhar e a viagem” (Barcelona, 2004)

Tradução para português por Neuza Tomé (NT), junho 2021
Web de la autora: https://goya-gutierrez-lanero.com/ 


Poemas ibéricos (9) MARGARIDA VALE DE GATO

Margarida Vale de Gato (Vendas Novas,1973) es profesora de literatura norteamericana y traducción en la Facultad de Letras en la Universidad de Lisboa. Ha traducido poesía y prosa de Lewis Carroll, Marianne Moore (o Pangolim e otros poemas, Relogio d’Água, 2018), Charles Dickens, Mark Twain, Oscar Wilde, W.B. Yeats, Christina Rossetti, Vladimir Nabokov, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, George Sand, Jean Giono, Henri Michaux, Nathalie Sarraute y René Char. Es autora de los libros de poemas Mulher ao mar (2010), cuya última edición ampliada se titula Mulher ao mar e Grinalda (mariposa azual, 2018), Lançamento (douda correría, 2016) y en junio 2021 acaba de publicar Atirar para o Torto (Tinta da China). Margarida me envía una cantiga de amigo del siglo XXI y una declaración de intenciones.

Sobre ella, el poeta francés Jack Landes, ha escrito: «Hay quien [no] se cansa de ser bella. Pero la Belleza no es el Bien, cuando se trata de escribir sobre flores enfermas, imágenes de insectos o las sombras de la noche. La Belleza también mata, encerrada (o fuera) de la crisálida. Así es la poesía de Margarida, como un silencio frágil a lo largo de un hilo de seda o como una pira de palabras después de la demolición del espejo /del edificio del yo».

Marinha

Nem aranha nem sereia, antes fora marinheira,
mas por costume da terra, fiquei sendo pescadeira
a ver da areia o mar, o homem levando a barca.
 
Nem urdir nem cativar, antes queria navegar,
mas por costume da terra, me pus peixes a contar,
a ver da areia o mar, o homem levando a barca.
 
Mas por costume da terra, fui de redes lançadeira,
tal a renda, densa, onda, que levantou como fraga;
a ver da areia o mar, levando o homem na barca.
 
Mas por costume da terra, me pus corda a enrolar
tal essa renda da vaga, um vale branco a cavar,
a ver da areia o mar, levando o homem na barca.
 
Até a renda na água se soerguer como fraga,
caindo o casco ao vazio, partindo tábua na vaga,
a vir à areia o homem, levada no mar a barca.
 
Até a renda na água um oco de espuma cavar,
a vaga cobrindo tábua até a marca apagar,
a vir à areia o homem, levada no mar a barca.

Marina

Ni araña ni sirena, antes era marinera,
mas por costumbre de la tierra, me quedé en pescadera
viendo el mar de arena, el hombre levando la barca.

Ni tejedora ni seducida, antes quería navegar,
mas por costumbre de la tierra, me puse a contar peces,
viendo el mar de arena, el hombre levando la barca.

Pero por costumbre de la tierra, fui hilandera de redes,
como encaje, denso, ondulado, que se levantaba como roca;
viendo el mar de arena, zarpando el hombre en la barca.

Mas por costumbre de la tierra, me puse a enrollarr cuerdas
y, como el encaje de la ola, me dispuse a cavar un blanco valle,
viniendo el hombre a la arena, zarpando el hombre en barca.

Hasta que el encaje en el agua se levantó como una peña,
cayendo el casco al vacío, rompiendo la tabla en la ola,
viniendo el hombre a la arena, zarpando al mar en barca.

Hasta el encaje excavó en el agua huecos espumosos,
las olas cubrieron las tablas hasta que se borró la marca,
viniendo el hombre a la arena, zarpando al mar en barca.

.

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

Para aqueles que insistem em diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.

DECLARACION DE INTENCIONES

Para aquellos que insisten en diluir
esto que escribo aquello que vivo
es incluso así, aunque aluda aquí
a la elegancia que con rigor esquivo.

Echo fuego por la lengua, lo que invoco
te llama, es llama más allá de ti, mas los
[versos
son una disciplina que macera
el cuerpo y exaspera cuanto toco.

Escribir poesía es ardiente cilicio,
incluso si enciende la sangre, sólo pus
se extrae, ni nunca la palabra escrita

balancea un sólido o lo levita.
Así sobre el poema, el artificio,
difumina el poso, a mí sobria luz

Aquí, o seu ultimo libro de poemas:
https://www.bertrand.pt/livro/atirar-para-o-torto-margarida-vale-de-gato/24780386


Poemas ibéricos (8) MARIA DO SAMEIRO BARROSO

Maria do Sameiro Barroso (Braga, 1951), es una de las poetas más reconocidas de su generación. Y quizás la más internacional. Tiene una extensa obra poética y numerosos premios, entre ellos el PREMIO PALABRA IBERICA (2009), que compartió conmigo mismo. Desde entonces somos amigos y hermanos en las letras. Su poesía se caracteriza por una turbulencia de vivencias y sentimientos, trasladada a una escritura limpia y clara, con fuerte carga simbólica, teniendo como primeras referencias la búsqueda de la inocencia primordial y la totalidad cósmica. Aquí presentamos un poema escrito directamente en castellano del libro “Molinos del Tiempo”.

QUIJOTE
Al poeta Miguel de Cervantes

Heinrich Heine lo ha leído en un día claro de mayo,
escuchando a los ruiseñores, a los riachuelos
y subía por los rosales olorosos para conocer
la purpura y las perlas en los umbrales de la vida.
La ironía no era un desierto, ni lo grotesco una risa
de lágrimas, y Heine, en la Alameda de los Suspiros,
escuchaba al viento, al silencio,
y a la verdad, cerrada en su cráneo de enigmas.
En los ópalos de sus ojos, la grosería y la llama
de los sueños se mezclaban conlas ramas
de los árboles, la cintura de Dulcinea,
los molinos blancos, Quijote, el ingenioso,
y los relinchos de su rocinante escuálido.
En Sancho Panza, leía la tierra,en su jardín
de raíces verdes.
La grandeza y la pequeñez del mundo
sonaban hondo en el corazón de Heine
que en Cervantes trasfiguró su rostro.
En cada línea, leía el oro, los zafiros,
la lúcida mirada, el rocíode la mañana.
Los caballeros de la luna suelen ser barberos
que los poetas descifran en sus castillos puros
de sombra, musgo y niebla transparente.


Poemas ibéricos (7) GISELA RAMOS ROSA

“PARA escribir el poema la mano se abandona / a las palabras, al vacío de la posibilidad de un fragmento/ del mundo” escribe Gisela Gracias Ramos Rosa (GGRR) en uno de sus poemas. Efectivamente, parecen que Palabra y Silencio toman el control de su mano para decir el mundo, el yo y el nosotros. En este poema, que presentamos hoy, GGRR vuelve a los poemas de su libro “El libro de las manos” (Coisas de Ler, 2018) ganador del premio Glória de Sant’Anna. La poesía de GGRR se caracteriza por la búsqueda y el diálogo con sus pares y las cosas. Escribir es preguntar y responder a no se sabe quién y la palabra instaura su propia belleza y ética/estética. Ella encuentra el lugar justo para poner las manos, el lugar donde las manos son todo lo que son y también algo más.

“Mais que a beleza são as mãos erguidas
Que incendeiam o peito, que sussurram
Todo o mistério singular contrito
Que aponta ardentemente para a Luz
(...)”
António Salvado, em La Hora Sagrada, p. 116

Universidade de Salamanca, o manto perene do tempo

Chegam de lugares distantes as mãos ignotas
tecem o manto perene do tempo, tocam a pedra
de um sabor oculto entre os dedos
esculpem a busca com instrumentos antigos, a imagem
do Gral.  

Território sagrado, tecido lentamente por símbolos
ancestrais, onde vozes ressurgem intensas
metamorfoseando-se entre o silêncio profundo e a mó
maturada do pensamento em vagar floração. 

Inabalável pena a do copista desafiando a arte
do escriba com lentos sulcos de um escopro vincados
no Livro, corpo e universo pulsando códigos antigos
numa viagem de frente e de verso mapeando
a expansão cava que define a linha o sulco em espiral de um lugar
onde amanhecem todos os que em trânsito chegaram
partem, regressam. 

Homens e mulheres, bebendo das fontes sagradas,
inscrevem a voz e o silêncio em vincos de um sabor
para além do tempo.  

Gisela Gracias Ramos Rosa
Versão Maio 2021 para um poema de 2018. 


"Más que la belleza son las manos alzadas
que incendian el pecho, que susurran
todo el misterio, único, contrito,
que apunta ardientemente hacia la luz.
(...)”
António Salvado, em La Hora Sagrada, p. 116

Universidad de Salamanca, el perenne manto del tiempo

De lugares lejanos llegan manos anónimas
tejen el manto perenne del tiempo, tocan la piedra
de sabores escondidos entre los dedos
esculpen con instrumentos antiguos la búsqueda, la imagen del Grial. 

Territorio sagrado, lentamente tejido por símbolos
ancestrales, donde las voces resurgen intensas
transformándose entre el silencio profundo y la rueda de molino
madurada de pensamiento en lenta floración. 

Pluma inquebrantable ladel copista que desafía el arte
del escriba con lentas incisiones por el cincel marcadas
en el Libro, cuerpo y universo pulsando códigos antiguos
en un viaje de ida y vuelta, cartografiando
la honda expansión que define la línea o el surco espiral de un lugar
donde amanecen todos los que en tránsito llegan, se van o regresan. 

Hombres y mujeres, bebiendo de manantiales sagrados,
inscriben voz y silencio en los pliegues de un sabor
más allá del tiempo.
 

Gisela Gracias Ramos Rosa
Versión de mayo de 2021 para un poema de 2018. 

Traducción al castellano por SAL y Pedro S. Sanz.

BIBLIOGRAFIA
R. Cagiano (2019). O Corpo como reverberação do eu lírico. Revista Caliban. [link]

Nota Biográfica:
Poeta, (1964, Maputo), com formação em Relações Internacionais, Mestre em Relações Interculturais e pós-graduada em Migrações Etnicidade e Racismo. Profissionalmente foi perita forense durante de trés décadas. Publicou os seguintes livros Vasos Comunicantes, Diálogo poético com António Ramos Rosa (2006, ed. Labirinto), reeditado em 2017 (Poética edições) em formato bilingue português/espanhol; tradução das manhãs (2013, Lua de Marfim) vencedor do Prémio Glória de Sant´Anna 2014; as palavras mais simples, (2014 Poética edições); O livro das mãos (2017, Coisas de Ler 1ª edição e 2º edição 2018; 3º edição no Brasil, editora Moinhos 2019) vencedor do Prémio Glória de Sant´Anna 2018 e nomeado na lista de semifinalistas do Prémio Oceanos; A pedra e o corpo (2018,Poética edições).


Poemas ibéricos (6) PEDRO S. SANZ

Pedro S. Sanz (Sevilha, 1970). É licenciado em Filologia Inglesa pela Universidade de Sevilha. Desde os seus anos de universidade que tem um gosto viciante pela tradução. Actualmente vive em Jerez de la Frontera, onde trabalha como professor. Publicou vários livros de poesia, incluindo La templanza y otros georemas (2013), Abisales (2015) e Razón de las islas (2017). A sua última colecção de poemas, Refugio en el vuelo, foi publicada em 2019 pela Chamán Editora. Recebeu alguns prémios literários tanto pela sua narrativa, Platero International Short Story Prize (ONU), na sua poesia há uma tentativa cuidadosa de encontrar um equilíbrio entre o lírico, a narrativa e o conceptual, entendendo o poema como um instrumento de investigação sobre o ser perante o mundo, uma testemunha do que acontece, sobre o ser no mundo, como uma engrenagem do mesmo, e sobre o processo da própria criação poética. Este autor irá colaborar comigo em sucessivas traduções do português para o espanhol.

DEL OTRO LADO

1
Bajo los tejados orantes del mercado, las conversaciones, susurradas, rebotan contra los ladrillos rojos y despiertan en ti un leve rubor, temblor que evoca un pasado inexistente, en el que nunca fuiste, y un futuro que será más deseo que sangre y tacto. Este presente, sin embargo, reverbera con la misma solidez que la densa luz que golpea en el mar.

2
De un lado y de otro lado, de cualquier lado, río u océano mediante, el dolor siempre llega en forma de letanía silenciosa.

3
¿Será la gaviota un ser fuera del tiempo, criatura angelical que con su voz, grito, oración o advertencia, nos convoca? La gaviota que, tierra adentro, sobrevuela la ciudad ¿nos vigila, nos protege? ¿es sólo plumas, carcasa, pico, vuelo? ¿es arcángel que nos recuerda, en una lengua primigenia, que pertenecemos al agua, primera cuna, que somos onda, abismo insondable?

4
Las islas no gustan del Verano. El sol no es amable, reseca su piel antigua. Se acercan barcos, sueltan su carga de cuerpos, que se solazan con ellas como si fueran juguetes de la naturaleza, de un sólo día ¿Dejarán huellas indelebles, ellos en ellas, ellas en ellos? Sin duda el mar lamerá sus heridas. Las islas no gustan del Verano. Ahora que está por llegar el invierno, una cortina de niebla esconde sus cuerpos de sirenas varadas. Mis ojos las llaman desde la orilla ¿Dónde? ¿Dónde os ocultáis? Y en el eco parece venir un canto desvaído, unas notas musicales enredadas en jirones de niebla: ¡Do-La-Do-De-Lá! ¡Do-La-Do-De-Lá! Al otro lado, siempre al otro lado. Las islas no gustan del Verano, prefieren su fresco mutismo de gigante sumergido
.

Olhão, otoño 2019


DO OUTRO LADO

1
Sob os telhados orantes do mercado, as conversas, murmuradas, chocam contra os tijolos vermelhos e despertam em ti um ligeiro rubor, um tremor que evoca um inexistente passado, no que jamais foste, e um futuro que será mais desejo do que sangue e toque. No entanto, este presente, reverbera com a mesma solidez que a luz densa que atinge o mar.

2
De um lado e do outro, de qualquer lado, rio ou oceano no meio, a dor chega sempre sob a forma de uma silenciosa ladainha.

3
Será a gaivota um ser fora do tempo, uma angelical criatura que com a sua voz, grito, oração ou aviso, nos convoca? A gaivota que terra dentro, a cidade sobrevoa, nos vigia, nos protege? é tão só penas, carcaça, bico, voo? é um arcanjo que nos lembra, numa primogénita linguagem, que pertencemos à água, primeiro berço, que somos onda, insondável abismo?

4
As ilhas não gostam do Verão. Não é dócil o sol, seca a sua pele anciã. Aproximam-se os barcos, descarregam a sua tripulação de corpos, que com elas confortam-se como se fossem brinquedos da natureza, de somente um dia. Deixarão indeléveis pegadas, eles nelas, elas neles? Por certo o mar lamberá as suas feridas. As ilhas não gostam do Verão. Agora que o Inverno se anuncia, uma cortina de nevoeiro esconde os seus corpos de sereias encalhadas. Os meus olhos chamam-lhes da costa. Onde? Onde as escondeis? E no eco parece vir uma desbotada canção, umas quantas notas musicais enleadas em farrapos de neblina: Do-La-Do-De-Lá! Do-La-Do-De-Lá! Do outro lado, sempre do outro lado. As ilhas não gostam do Verão, preferem o arrefecido mutismo de gigante submerso.

Olhão, Outono de 2019
Tradução para português de Manuel Neto dos Santos
Web de autor: https://pedrossanzurdo.wixsite.com/escritor


Poemas ibéricos (5) ANTÓNIO RAMOS ROSA

Mucho se ha escrito sobre la poesía de António Ramos Rosa (ARR) y se escribirá en el futuro. En el poema que presentamos hoy, traducido por Ángel Campos Pámpano (ACP), el poeta utiliza la écfrasis para (d)escribir la figura central del lienzo de Magritte Le domaine echante (VI). La poesía y la pintura utilizan dos lenguajes diferentes, pero pueden complementarse y a la vez enriquecerse. Además de interesarse por el arte, el poeta desarrolló una importante labor de traducción de poetas franceses e hispano-americanos: Octavio Paz (México),  Alejandro Aguirre (Ecuador), Rodolfo Alonso (Argentina), Mario Benedetti (Uruguay), Alfredo Silva Estrada (Venezuela), Nicolás Guillén (Cuba), Vicente Huidobro (Chile), Roberto Juárroz (Argentina), Ulalume González de León (México), Eugenio Montejo (Venezuela), César Moro (Peru), Olga Orozco (Argentina), César Vallejo (Perú) y entre los españoles a Jorge Guillén, Pedro Salinas, Tomás Segovia, Juan Eduardo Cirlot y Carlos Edmundo de Ory. Esta labor seguramente le hizo permeable a la lengua española, así como él influenció a otros poetas españoles como ACP. En la poesía de ACP vemos características de la poesía de ARR, como las elipsis que comienzan con un complemento circunstancial o el uso de la voz de la segunda persona del singular para referir una anécdota personal del pasado (Véase Pérez Parejo, 2012).

LE DOMAINE ENCHANTÉ (1980)
(PROPOSIÇÕES SOBRE LE DOMAINE ENCHANTÉ DE MAGRITTE)

António Ramos Rosa 

O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma
palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só
porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo. 

Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo. 

O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo
íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso. 

Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre. 

Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver. 

Ela olha... Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro. 

Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo. 

Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.
 

Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança. 

Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado. 

Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser. 

Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver. 

Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer. 

Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo
Mas é antes o seu corpo que nos olha. 

O seu corpo é palavra e silêncio da palavra. 

A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
 

António Ramos RosaLe Domaine Enchanté (proposições sobre um fragmento de «Le Domaine Enchanté» de Magritte), Porto, O Oiro do Dia, 1980

René Magritte, Le Domaine Enchanté (VI), 1953

LE DOMAINE ENCHANTÉ
(Propuesta sobre un fragmento de le domaine enchanté de Magritte)

António Ramos Rosa

¿Qué nos dice la imagen? Nos dice lo que es y no lo dice.
Porque no es una palabra. Sino un silencio,
una ausencia, un vacío.
Su sentido es una promesa de sentido
o el silencio del sentido que respira y se transparenta.
Ausencia en la presencia plena,
titilación silenciosa y fija de una mirada sin fin.
Una mirada vacía de todo: que ve y no ve
y sólo ve porque es ciega.
Todo en ella es visión, más la visión lo ve todo.

Un signo que apunta a una infinidad de sentidos
o el sentido es infinito. Un sentido imposible.
Este es el aspecto incesante del signo,
su vacío y su vida,
todos los signos de un signo,
de un incesante signo.

La mirada vacía es visión de un puro espacio
donde todo es exterior y al mismo tiempo íntimo.
Todo lo interno es en ella la pura mirada de lo exterior
Y la profundidad infinita de la mirada silenciosa.

Todo lo que en ella ve a partir del puro espacio,
el horizonte que está en ella y por delante
y viene de dentro, de lo íntimo exterior,
y es todo él mirada en sí,
la pura exterioridad de sí mismo
que al abrirse se cierra y hacia dentro se abre.

Pero esta mirada vacía
es aún más externa que cualquier mirada
porque refleja en la superficie todo el exterior
el puro exterior a partir del cual nos mira
y en sí mismo ve
en una esfera
donde la visión es presencia fascinante
de lo que no vemos,
la ausencia de lo que ella ve:
el todo y la nada de la visión,
la vacuidad del propio acto de ver.

Ella mira… No. No mira. Ve.
No ve. Mira.
ella es armonía azul del cielo
y la plenitud terrestre. El supremo equilibrio.
Pero ella no ve. Mira.
Mira el vacío, el vacío del centro.
Y ella ve.
Pero cuando ve
deja de ver: mira
sólo.
Porque la visión se suspende
ante el vacío del centro.

Ella no puede vernos. Ella nos mira.
Mirémosla.
Miremos sus ojos, su mirada
porque en ella nosotros estamos presentes
a través de una contemplación
que se niega a mirar lo que no debe ser visto,
que atraviesa lo visible para ver.

Ella ve lo que se oculta en lo visible.
lo único, el ser,
el centro donde no estamos,
pero que tal vez en nosotros madure,
que su mirada hace madurar.

No la vemos. La miramos.
Y es todo su cuerpo quien nos mira,
Quien no cesa de mirarnos.
Vemos su cuerpo.
Pero es ante su cuerpo quien nos mira.

Su cuerpo es palabra y silencio de la palabra.

La palabra-silencio de su cuerpo
entra en lo íntimo de nosotros
donde recoger el sueño de vivir
que sólo puede revelarse en una infinita
contemplación
que no puede detenerse en ningún sentido
porque es el incesante, el interminable sí del amor.

Versión de Ángel Campos Pámpano (Revista de Occidente)

Nota biográfica do poeta: http://antonioramosrosa.blogspot.com/p/biografia.html

Agradecimientos especiales a M. Filipe Ramos Rosa por la cesión de derechos y su amabilidad al requerimiento del firmante de esta rúbrica

BIBLIOGRAFIA:
PÉREZ PAREJO R. (2012). La influencia de la poesía portuguesa en la obra de Ángel Campos Pámpano: ejemplos y significación. Revista Tejuelo. Vol. 14:58-84.


Poemas ibéricos (4)
ALBANO MARTINS Y SAL

Albano Martins nasceu no Fundão, Beira Baixa, 1930 e morreu em Vila Nova de Gaia, 2018. Licenciado em Filologia Clássica, foi autor duma vasta obra poética, reunida em três volumes, com os seguintes títulos: Vocação do Silêncio (1990), Assim São as Algas (2000) e As Escarpas do Dia (2010). Além de poeta, foi também tradutor de poetas – gregos do período clássico, latinos, italianos, espanhóis e sul-americanos. Várias vezes premiado e condecorado, está traduzido em diversas línguas, incluindo o castelhano. Ontem, 6 junho, foi o terceiro aniversario de a morte do poeta. Dedico-lhe este poema como uma homenagem, pois teve a gentileza de participar da minha antologia poética "Alquimia do fogo" (Amargord, 2014) com dois poemas inéditos do livro O Nome da Cratera. Também me enviou uns poemas (carmina) de Catulo, traduzidos para português.

HOMENAJE / DIÁLOGO COM ALBANO MARTINS

¿QUÉ QUEDA cuando el fuego sólido de la carne

se apaga, Albano?

Pertenço a aquela geração de homens de água e fogo, que languesce nas sombras e nos incêndios. Evoco, entonces, las palabras que arden siempre bajo el techo del rocío. Sólo los versos que inflaman son poesía, como el fuego mueve el universo. Así nombro la alquimia del verbo con el yodo de los huesos, con la carne desnuda de los hombros.


HOMENAGEM / DIÁLOGO COM ALBANO MARTINS

O QUE FICA quando o fogo sólido da carne

extingue-se, Albano?

Pertenço a essa geração de homens de água e fogo, que languesce nas sombras e nos incêndios. Evoco, então, as palavras que ardem sempre sob o tecto de orvalho. Apenas os versos que inflamam são poesia, assim como o fogo é o motor do universo. Assim, nomeio a alquimia do verbo com o iodo dos ossos, com a carne nua dos ombros.

Inédito, SAL, 01-06-2021

Tradução por SAL, revisão por Maria do Sameiro (MSB)


Poemas ibéricos (3)
ANTONIO MACHADO Y VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA

El poeta Vergílio Alberto Vieira (VAV) de Braga me envía este poema evocativo de António Machado y una traducción de poema XII del libro “soledades” (Obras completas). VAV tiene una extensa obra poética y ensayística. El poeta insiste en «que la traducción es una recreación en portugués, porque sería incapaz de sacrificar la belleza estética del original español».

POEMA XII DE SOLEDADES A. MACHADO

     Amada, el aura dice
tu pura veste blanca...
No te verán mis ojos;
¡mi corazón te aguarda!

     El aura me ha traído
tu nombre en la mañana;
el eco de tus pasos
repite la montaña...
No te verán mis ojos;
¡mi corazón te aguarda!

     En las sombrías torres
repican las campanas...
No te verán mis ojos;
¡mi corazón te aguarda!

     Los golpes del martillo
dicen la negra caja;
y el sitio de la fosa,
los golpes de la azada...
No te verán mis ojos;
¡mi corazón te aguarda!

    Perpassa, amor, no enlevo
da branca veste pura...
Já se apagam meus olhos;
atende-a, coração!

     O vento balbucia
teu nome pela manhã;
os passos do que foste
alongam a montanha...
Já se apagam meus olhos;
atende-a, coração!

     Por anoitecidas torres
rejubilam os sinos...
Já se apagam meus olhos;
atende-a, coração!

     Os golpes do macete
cortejam o caixão;
e o sítio do coval,
a fúria das enxadas...
Já se apagam meus olhos;
atende-a, coração!


ANTÓNIO MACHADO

(Lendo o poeta pelo Ervedelo)
Vergílio Alberto Vieira

Agora que a solidão
Busca na terra o que outra natureza
Contra a lonjura deixou
Perdido pelos Campos de Castilla
E a luz ácida do exílio
Afeita ao mar
Converte em sonho
A procurada Ítaca de outrora
Anónimo trágico perfeito
Da ausência regressado ao mundo volta
O rosto do que nas mãos
Fixando as linhas do destino
A incerta pátria vive
Antes da aurora

ANTÓNIO MACHADO

(Leyendo al poeta por Ervedelo)
Vergílio Alberto Vieira

Ahora que la soledad
Busca en la tierra lo que otra naturaleza
dejó contra la lejanía
Perdido por los campos de Castilla
Y la luz acre del exilio
Afecta al mar
Convierte en sueño
La codiciada Ítaca de antaño
Perfecto trágico anónimo
De la ausencia regresado al mundo vuelve
El rostro que en las manos
Fija las líneas de destino
La incierta patria vive
Antes del alba.

Traduzido por SAL

VAV. (Amares, Braga, 1950)
.
Véase https://pt.wikipedia.org/wiki/Verg%C3%ADlio_Alberto_Vieira 

 


Poemas ibéricos (2) ANTONIO ORIHUELA

Antonio Orihuela (Moguer, Huelva 1965). Poeta, profesor, doctor en Historia por la Universidad de Sevilla, arqueólogo del presente. Viene elaborando desde comienzos de los noventa un discurso crítico sobre la vida dañada y las resistencias en la sociedad tardocapitalista. Su poesía se caracteriza por su sencillez y lirismo de manera que llega al lector a pesar (o a favor) de su posición política evidente. Desde 1999, coordina los encuentros «Voces del extremo», extendidos por España y Francia, foro de la llamada poesía de la conciencia. Cuenta con una extensa obra, con más de sesenta libros publicados, entre poesía y narrativa experimental. Antonio envia dos poemas sobre dos ciudades portuguesas:

COIMBRA

El único lugar de Portugal donde aún suena
Grândola, Vila Morena
es en Beco da Carqueja.

Hace cuarenta y cinco años de aquel 25 de abril,
suficientes para que el fascismo
se haya comido todos los claveles.

COIMBRA

O único lugar em Portugal onde ainda soa
Grândola, Vila Morena
fica no Beco da Carqueja.

Há quarenta e cinco anos desse 25 de abril,
o suficiente para o fascismo
ter comido todos os cravos.

Tradução: SAL
Segundo o autor, este poema foi escrito quando descobriu, na rua citada, um azulejo dedicado a José Afonso (Zeca) ... onde viveu e compôs a famosa canção, o que significava e a situação atual em Portugal. Este poema foi escrito em 25 de abril de 2019, aniversário da revolução dos cravos.


OPORTO

Creo que fuimos felices allí.

Corazones de papel volaban por el azul
y oscuras golondrinas nos dijeron que volvían,
después de sesenta años,
sus cuerpos de cerámica vidriada
en las paredes de la taberna Aduela a colgar.

Creo que fuimos felices allí,
donde la vida repite en círculos, una y otra vez
los rostros de los jóvenes que somos
y no somos nosotros,
como esas piedritas blancas
bajo el olivo de la plaza
que están allí sabiendo que no es ese su lugar
aunque sí su blancura, o esas personas
que andan por las fachadas de Via Catarina
para recordarnos la escasa distancia que hay
entre la realidad y los sueños.

Cuánta confianza había en los años treinta
en este Portugal futurista de gasolineras y garajes
que aún vivía en la rua de Cimo Vila
y se reflejaba mucho más real
en los azulejos del hospital de la Caridad.

Bajamos por Chá hasta una cabina roja
desde la que me llamaste.

Siempre me estás llamando.
Un día, cuando no pueda más
o un día que lo pueda todo,
prometo descolgar ese teléfono,
abrir un vano en la ventana tapiada de Terreiro da Sé,
porque la pasión siempre se encuentra
a la vuelta de la esquina,
en un barco camino de Southampton
o en una flor amarilla de los tiempos
de los amores amarillos.

Creo que fuimos felices allí,
donde los Armazéns Cunhas coronan
tu foto con un pavo real
y el puente de Luis I se llena de turistas
para despedir el sol en su baile último
mientras tú pintas con tus ojos
la noche estrellada de la ribeira de Gaia.

Hay una cabina roja en Largo de Mompilher,
dentro, un mendigo acaricia su última moneda.

Amor, soy yo.

PORTO

Confesso quanto ali fôramos felizes.

Pelo azul voavam corações de papel
enquanto assombradas andorinhas nos diziam que estavam de volta
corações de papel esvoaçavam no azul,
seis décadas depois,
suas formazinhas de cerâmica vidrada
figuravam nas paredes da taberna Aduela.

Confesso que fôramos felizes lá
onde a vida uma vez, outra vez em círculos se repete
os jovens rostos que somos
não sendo nós,
composição de pedras brancas
sob a oliveira da praça
sabendo que aí estando não é esse o seu lugar
apesar da brancura, tal como os transeuntes
que deambulam pelas montras de Santa Catarina
recordando-nos quão pouca distância vai
da realidade aos sonhos.

Quanto se confiava nos anos trinta
nesse Portugal futurista de gasolineiras e garagens
que proliferava pelo Cimo de Vila
e muito mais dava nas vistas na azulejaria do Hospital da Caridade.

"Bajamos por Chá" até à vermelha cabine
donde me contactaste.

Não paras de me ligar.
Um dia, quando não puder aguentar mais
ou num dia em que tudo possa suportar
prometo atender esse telefone,
abrir um rombo na janela lavrada do Terreiro da Sé,
porque a paixão está sempre
ao dobrar da esquina, num barco rumo a Southampton
ou nessa flor amarela do tempo
dos amores desvanecidos.

Confesso quanto éramos felizes lá
onde os Armazéns Cunhas ornamentam
teu semblante com um pavão
e a Ponte D. Luís I se amotina de turistas
despedindo-se do sol em seu último bailado,
enquanto iluminas com teus olhos
a noite cintilante da Ribeira de Gaia.

Numa cabine vermelha do Largo Mompilher
um mendigo afaga sua última moeda.

Meu amor, sou eu.

Traduzido por VAV e SAL, maio 2021
Este poema é um passeio pela cidade, filtrado pelas minhas reflexões sobre a minha história pessoal e a história da cidade... (António Orihuela)
Blog do autor:
VOCES DEL EXTREMO


Poemas ibéricos (1)

Los mejores versos de la poesía hispánica se han dado cada vez que ha sido permeable a literaturas en otras lenguas. Baste mencionar a Machado con la poesía francesa y a Juan Ramón Jiménez, acendrado lector y transmisor de valores poéticos europeos, norteamericanos y asiáticos (Tagore). Lo mismo ocurre con la poesía lusófona desde Pessoa (léanse sus poemas ingleses) a Miguel Torga con la poesía española. En la obra de Miguel Torga, el tema de la patria portuguesa, su pueblo y su cultura es central pero también transciende las fronteras para ver la península ibérica como una sola tierra, ignorando la ancestral rivalidad entre portugueses y españoles. Entre los autores más relevantes de ambos lados de las fronteras podemos citar a Unamuno, Saramago (A Jangada de Pedra), José Bento y un largo etcétera.
En esta rúbrica mensual trataremos de establecer puentes, casamientos y buenos vientos a ambos lados de la frontera invitando a poetas portugueses que hablen de España y autores españoles que hablen de Portugal, sin olvidar cualquier manifestación literaria que concierna a la Iberia global en la que vivimos como buenos vecinos. Empezaremos esta sección con el poema Iberia de Miguel Torga traducido por el que suscribe:

IBÉRIA

Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.

Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...

Terra de pão e vinho
( A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).

Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.

 

Tierra.
Mientras llegue la palabra, y nada más.
Solo así la resume
Quien la contemple desde la cima más alta,
Cargado de sol y pinares.

Tierra-tumor-de-angustia de saber
si el mar es hondo y al final lo dejas ir...
Una antena de Europa para recibir
la voz que desde lejos quiere hablar ...

Tierra de pan y vino
(El hambre y la sed solo vendrán después,
cuando la espuma salada fuere camino
donde se camina desdoblado en dos).

Tierra desnuda e inmensa
en la que cupo el Viejo Mundo y el Nuevo ...
y también cabe Portugal y España
y la locura con alas de su Pueblo.

Os melhores versos da poesia hispânica têm-se dado cada vez que tem sido permeável a literaturas em outras línguas. Basta mencionar Machado com a poesia francesa e Juan Ramón Jiménez, fiel leitor e transmissor de valores poéticos europeus, norte-americanos e asiáticos (Tagore). O mesmo acontece com a poesia lusófona desde Pessoa (leiam seus poemas ingleses) até Miguel Torga com a poesia espanhola. Na obra de Miguel Torga, o tema da pátria portuguesa, seu povo e sua cultura é central, mas também transcende as fronteiras para ver a península ibérica como uma só terra, ignorando a antiga rivalidade entre portugueses e espanhóis. Entre os autores mais relevantes de ambos os lados das fronteiras podemos citar Unamuno, Saramago (A Jangada de Pedra), José Bento e um longo etc.
Nesta rubrica mensal tentaremos estabelecer pontes, casamentos e bons ventos de dois lados da fronteira convidando a poetas portugueses que falam / escrevem de Espanha e autores espanhóis que falem de Portugal, sem esquecer qualquer manifestação literária que diga respeito à Ibéria global em que vivemos como bons vizinhos. Começaremos esta secção com o poema Ibéria de Miguel Torga traduzido pelo que assina:

Santiago Aguaded Landero (nota biográfica)