Santiago Aguaded Landero

Poemas ibéricos

Santiago Aguaded Landero

Poemas ibéricos (24) SANTIAGO AGUADED LANDERO


Poema inédito de SAL, para Rute
Versao VAV e SAL, junho 2021

* longa contagem do calendário maia. Corresponde a 21 Janeiro de 2021.
** Visco: muerdago; visgo: musgo.


Poemas ibéricos (23) ANA PERES SOUSA

Ana Peres Sousa, nació en Freixo de Espada à Cinta, mítico lugar de lejanía y aislamiento, a orillas de Duero internacional. Vive y trabaja en Lisboa. Licenciada en Filología Románica, se ha dedicado a la escritura y a la pintura. Desde 2002 a 2013 participó en exposiciones colectivas y desde 2005, realizo seis exposiciones individuales. La ultima de ella dedicada enteramente a la creación y trabajo de la seda en su tierra natal.
De su escritura, considera que los poemas de ‘Demanda do Poético no Retábulo da Igreja Matriz de Freixo de Espada à Cinta’, 2018 es de lo mejor que ha escrito. En este poema se pone en la piel de António Vaz discípulo del pintor Grão Vasco (Viseu, 1475-Tomar, 1542).


Penedos, fragas, precipicios…
Lá em baixo o rio poderoso, fundo
As acácias subindo rumo às águias
E, coraçao apertado, eu olho o mundo.

Assuta ver da altura a imensidão
Assombra o poder da Natureza.
Deslumbra ver daqui tanta beleza
Quem dera poder rezar una oração!

O vento morno sopra e embala.
A noite vai chegando devagar…
Tivera eu palavras pra te dar

Este momento de estreita comunhão
Com a terra, as aves, a montanha, o ar
Um verso de Junqueiro pra te amar!

Peñascos, riscos, precipicios...
Allí abajo, el río poderoso, profundo
Acacias elevándose hacia las águilas
Con el corazón encogido, miro el mundo.

Espanta ver de lo alto la inmensidad
Asombra el poder de la Naturaleza.
Deslumbra el paisaje de tanta belleza
¡Quién pudiera decir una plegaria!

El viento tibio sopla y arrulla.
La noche lentamente se acerca….
Ojalá tuviera palabras para darte

Este instante de estrecha unión
Con la tierra, las aves, la montaña, el aire
¡Un verso de Junqueiro para amarte!

Un soneto inédito
Traducción al español por SAL, Septiembre 21


Poemas ibéricos (22) MARÍA ÁNGELES MAESO

María Ángeles Maeso (MAM) é poeta e escritora espanhola, nascida em Valdanzo (Soria) em 1955. Tem uma licenciatura em Filologia Hispânica. Em diferentes fases: Professora de Língua e Literatura e oficinas de criação literária; coordenadora de programas socioculturais em áreas de marginalização social; membro de equipas editoriais para a produção de guias didácticas. Colaborou com o Instituto Cervantes, Radio Circulo de Bellas Artes e outros meios como Reseña, Artes hoy, Diagonal... É autora de oito livros de poesia: Sin Regreso (Jorge Manrique Poetry Prize, 1990) Trazado de la Periferia (1996, 2ª ed. 1919); El bebedor de los arroyos (2000); Vamos, Vemos (Homenaje a León Felipe Poetry Prize, Salamanca, 2003); Basura mundi (2008); ¿Quién crees que eres yo? (2012); Huy, qué miedo, (para crianças, 2016); Puentes de mimbre (2017). A sua poesia foi incluída em mais de vinte antologias e os seus poemas foram traduzidos para inglês, português e esperanto. Como romancista, publicou: La voz de la Sirena, Premio de cuentos "Teresa León" 1986; Perro, 2004; Los condes del No y No (infantil) 2006. Como oradora, participou em diferentes cursos, congressos e encontros de escritores organizados por várias instituições:
A sua poesia caracteriza-se pela presença de um discurso ideológico (quanto mais não seja devido à sua conce
pção intelectual do mundo circundante), MAM afirma que é incapaz de escrever imparcialmente, destacando-se dos acontecimentos imediatos que se desenrolam à sua volta e afirma, com Sophia de Mello:
Sabemos que a vida não é uma coisa e a poesia outra.
Sabemos que a política não é uma coisa e a poesia outra.
 
“Poesía y revolución” (1975)


IN ITINERE
Claro que es infinita la distancia
que va de una hormiga a otra.

Entre la gratitud
y el grano de trigo rechazado,
hay un desierto para hozar una palabra.

Casi siempre, entre la lengua
y la miguita, una hilera.
O muchas vueltas.

Y veces, yo escribe gracias
con el no sonriente a cuestas.

IN ITINERE
Claro, há uma distância infinita
de uma formiga para outra.

Entre a gratidão
e o grão de trigo rejeitado
há um deserto para fuçar uma palavra.

Quase sempre, entre a lingua
e a migalha, uma fila.
Ou muitas voltas.

E às vezes, eu escreve obrigado
com o "não" sorridente a reboque

(Inédito).
Tradução pelo SAL e Maria do Sameiro, outubro 21


PRIMAVERA NUEVAMENTE
Hora a hora el suelo se está abriendo.
Lo saben la piel del alma y la de un zapato.
Lo saben en las afueras de Madrid y en Barcelona
y aquí, cada labrador lo sabe.

Vamos, vemos que obstinadas hierbas
y nervios diminutos,
entre un corazón de roca, abren su senda.

Hora a hora, un insignificante tallo
se atreve cada marzo
a mirar de abajo arriba,

atraviesa el granito o el asfalto,
sortea la metralla, el peso del tractor
y el de las terribles miradas...

Simplemente asoma,
y en el aire deja su denuncia y su convocatoria.

Vamos, vemos que sucede a cada hora.

Sólo es el imperio quien desprecia cuanto ignora.

PRIMAVERA OUTRA VEZ
Hora a hora o solo está se abrindo.
Sabem-no a pele da alma e a de um sapato.
Sabem-no nos arredores de Madrid e em Barcelona
e aqui, cada lavrador já sabe.

Vamos, vemos que obstinadas ervas
e nervos diminutos,
em um coração de pedra, abrem sua senda.

Hora a hora, um insignificante talo
se atreve a cada março

a olhar de baixo para cima,
atravessa o granito ou o asfalto,
sorteia metralha, o peso do trator
e o das terríveis miradas...

Simplesmente assoma,
e no ar deixa sua denúncia e sua convocatória.

Vamos, vemos que sucede a cada hora.

Somente é o império que despreza quanto ignora.

(De Vamos, Vemos, 2004).
Tradução de Antonio Miranda


TRIGO GENÉTICAMENTE MODIFICADO...
...para una sola cosecha,

Cada grano enterrado
hace un recorrido de abajo arriba,
a derecha y a izquierda cae,
y se va hacia el pan o vuelve
para ser de nuevo, de mil en mil,
espiga, tallo, raíz.

¿Quién ha invertido el movimiento?

¿Quién, desde arriba abajo,
ha castrado la simiente?

¿Tras qué golpe, dado de norte a sur,
el campo cierra hacia sí los ojos?

¿Con qué derecho al sembrador le dejan
sin semillas de Su anterior cosecha?

Vamos, vemos, si a derecha e izquierda
por arriba y por abajo,
hay una geometría por ocupar,
¿quién será puesto en cruz sobre el trigal?

TRIGO GENETICAMENTE MODIFICADO...
...para uma única colheita,

Cada grão enterrado
faz o seu caminho de baixo para cima,
cai a direita e para a esquerda,
e vai para o pão ou regressa
para de novo ser, mil vezes mil,
espiga, caule, raiz.

Quem reverteu o movimento?

Quem, por cima e por baixo,
castrou a semente?

Depois de que golpe, dado de norte para sul,
o campo fecha os olhos para si próprio?

Com que direito deixam o semeador
sem as sementes da Sua colheita anterior?

Venha, vemos, se à direita e à esquerda
Por acima e por abaixo,
haverá uma geometria por ocupar,
quem será posto em cruz sobre a seara?

(De Vamos, Vemos, 2004).
Tradução pelo SAL e Maria do Sameiro, outubro 21


Poemas ibéricos (21) BEATRIZ RUSSO

Beatriz Russo (Madrid, 1971) é licenciada em Filologia Hispânica (linguística) e um mestrado em ELE (ensino do espanhol como língua estrangeira). É poeta e romancista. Uma vez que viveu um confinamento de vários anos, e descobriu que para ser poeta não é preciso morrer. Há mais de duas décadas que participa em eventos literários nacionais e internacionais em universidades em Espanha, Europa e América Latina, em várias sedes do Instituto Cervantes e em festivais internacionais de poesia (Morelia, México, D.F.). (Morelia, Cidade do México, Toluca, Lima, Santiago do Chile e Costa Rica). Em 2004 publicou a sua primeira colecção de poemas, En la salud y en la enfermedad, dos quais não cessou os seus esforços para encontrar a sua própria voz, que encontrou em La prisión delicada (Calambur, 2007). Publicou os livros de poesia En la salud y en la enfermedad (Sial, 2004), La prisión delicada (Calambur, 2007), Aprendizaje (Polibea), 2010), Universos paralelos (EEC, 2010), Los huecos de la lluvia (Universidad de Costa Rica, 2010), Node Costa Rica, 2010), Nocturno insecto (Tigres de Papel, 2014), Perfil anónimo (Perfil anónimo)  (Exemplar Único, 2017) e Naobá y los pájaros (La hoja de Baobab, 2018), La memoria de los grillos (Municipalidad de Lima, 2020), La llama inversa (Huerga & Fierro, 2020),  e o romance Bruna (Lince, 2021). O seu trabalho aparece em várias antologias e em numerosas revistas literárias, tanto em papel como online. Vive actualmente em Málaga e é escritora de guião e consultora literária na produtora Kandale Films.


MORAR EN LA EDAD DE LOS INCENDIOS y resistir en este páramo infestado de reptiles ajenos a la humedad. Todo lo que una vez tuve se desvanece sin testimonio. Las brasas cumplen su función colateral. Ni el viento que a veces retorna logra prender la llama que ahora invoco. Tocar la otra piel con la incandescencia del deseo, traspasar la pátina que cubre el oro de los cuerpos y acoplar los perfiles en comunión mutante sobre su altar. Guiarse a través del aliento y galopar sobre el delirio mientras ocurre el milagro de la impregnación. Ser y estar en cada víscera y avivarlas tras el beso. Sentir la destilación hepática de la sangre pulsada, la savia temprana rehabilitando cada hueso, y articular las vértebras, las palabras, hasta desprenderse de la carne que convierte en cenizas todo fuego provocado.

***

MORAR NA IDADE DOS INCÊNDIOS e resistir neste deserto infestado de répteis alheios à humidade. Tudo o que em tempos tive desvanece sem testemunho. As brasas cumprem a sua função colateral. Nem o vento que por vezes regressa consegue apanhar a chama que agora invoco. Tocar a outra pele com a incandescência do desejo, perfurar a pátine que cobre o ouro dos corpos e colar os perfis em mutante comunhão no seu altar. Guiar-se  através do fôlego e galopar sobre o delírio enquanto  acontece o milagre da impregnação. Ser e estar em cada víscera  e avivá-las após o beijo. Sentir a destilação hepática do sangue latejante, a seiva temporã reabilitando cada osso, e articular as vértebras, as palavras, até descolar-se da carne que torna em cinzas todo o fogo provocado.

Do livro La llama inversa (2020) Editorial Huerga & Fierro


BAJO LA CAPA AZUL DE LÊDO IVO

Morar bajo la misma capa azul que construyó el hogar de Lêdo Ivo.
Arrastrarse en la itinerancia del pasado como un perro callejero cargando el ladrido en la hojalata de su pata trasera.
El rumor de la lluvia al caer no cambia de idioma, pese a algún pseudónimo que aspira a colarse en la memoria del viajero melancólico.
Así la nomenclatura del poema habla del mismo amor, la soledad misma, la misma muerte.
Una radio de pilas rescata la infancia toda en mi casa y en Brasil, idéntica exaltación de la maravilla que exhala voces invisibles.
Lêdo Ivo es una cajita de música que vibra en sus poemas.
Las púas del peine mesan el lamento solitario, diluyendo ortigas en un nido de gorriones.
Suyo es su trino primigenio, del universo es la versión de quien lo vuelve a pronunciar.
Algo queda tras la ausencia de cada hombre;
el sueño de los peces, las cabriolas de un papagayo, dientes de un mar que muerde…
O aquel desayuno compartido en Morelia buscándole un nombre a la sospecha que habría de cumplirse unos meses después.
Él me dijo Morelia, pero fue varón.
Conversar sobre la no existencia significa alegría cuando hay porvenir.
Hablar de la no existencia tras la huella insuficiente se convierte en trámite y resignación.
Así el poeta nos dejó teclas de piano en los bolsillos para espantar a los cuervos del silencio en la noche helada que se acaba.

(inédito, noviembre, 2021
)

***

SOB O MANTO AZUL DO LÊDO IVO

Morar sob o mesmo manto azul que construiu o lar de Lêdo Ivo.
Arrastar-se pela itinerância do passado tal como um cão calcorreador de ruas levando o latido na lata da sua pata traseira.
O ruívo da chuva não muda de idioma quando cai, apesar de algum pseudónimo que anseia colar-se à memória do melancólico viandante.
De igual modo a nomenclatura do poema fala do mesmo, da mesma solidão, da mesma morte.
Um rádio de pilhas resgata toda a infância na minha casa e no Brasil, idêntica exaltação, da maravilha exalando vozes invisíveis.
Lêdo Ivo numa caixinha de música que treme nos seus poemas.
Os dentes do pente puxam o solitário lamento, diluindo urtigas num ninho de pardais.
Seu é o primogénito trinado, do universo é a versão de quem o queira pronunciar.

Algo fica depois da ausência de cada homem;
o sonho dos peixes, os saltos de um papagaio, dentes de um mar que morde...
Ou aquele pequeno-almoço partilhado em Morelia procurando-lhe um nome à suspeita que uns meses depois se haveria de cumprir.
Ele disse-me Morelia, mas foi varão.
Conversar sobre a não existência significa alegria quando há porvir.
Falar da não existência depois da insuficiente peugada torna-se em trâmite e resignação.
Por isso nos deixou o poeta teclas de piano nas algibeiras para afugentar os corvos do silêncio na noite (re)gelada que termina.

Tradução de Manuel Neto dos Santos, Novembro 21
Ver biografia y poemas em Poemas ibéricos nº 16


Poemas ibéricos (20) AMOSSE MUCAVELE

Amosse Mucavele nació en Maputo (1986), Mozambique, donde vive actualmente. Poeta y periodista cultural, coordinador del proyecto de divulgación literaria “Esculpindo a Palavra com a Língua”, fue jefe de redacción de “Literatas – Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona” y director de otros periódicos en Mozambique, Angola y España. Miembro del Consejo Editorial de la Revista Mallarmargens (Brasil), y de la Academia de Letras de Teófilo Otoni (Brasil) y de la Internacional Writers Association (Ohio – USA). Publicó los libros: “A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua – Antología Poética”, Revista Literatas, 2013 (coordinación) y “Geografia do Olhar: Ensaio Fotográfico Sobre a Cidade” (editora Vento de Fondo, Córdoba, Argentina, 2016), libro premiado como Libro del Año del Festival Internacional de Poesia de Córdoba; en Brasil (Dulcineia Catadora Edições, Rio do Janeiro, 2016); em Moçambique (Cavalo do Mar, Maputo, 2017).


Maputa

Att. Eduardo White


A cidade é a cédula de um sono rastejante
com assinaturas das águas sob o papel
de plumas
a chorar de medo
das suas vozes sujas
do congestionamento
menstrual das luzes

Maputa

Att. Eduardo White

La ciudad es la cédula de un sueño reptante
con firmas de agua bajo el papel
de plumas
llorando de miedo
de sus voces sucias
de la congestión
menstrual de las luces


Mafalala*

Os sinos da munhuana estão velhos
Tocam nas enrugadas horas da esperança
Murcha, o cansaço das lembranças estampadas
nas casas de madeira e zinco
E no chão cimentado por pântanos
As rãs fazem ajuste de contas com o eco do abandono.

Mafalala*

Las campanas de munhuana son antiguas
Tocan en las horas arrugadas de la esperanza
Marchita, el cansancio de los recuerdos estampados
En las casas de madera y zinc
Y en el suelo cimentado por pantanos
Las ranas ajustan cuentas con el eco del abandono.

* Barrio de Maputo y también Munhuaña


Jardim Tunduro

Pisei algumas flores no céu
e cai desequilibrado numa lagoa cheia de algas
perfumadas
pela cor da urina
em seguida bebi toda febre que revestia o
espaço rasgado do jardim
em constante mutação no corpo das rosas que não eram
vermelhas e revestiam-se de uma cor doentia
a apodrecer no nocturno voo dos mochos
circunscrito nas frondosas árvores de abandono
as rosas que eram vermelhas
exploravam a condução do vento
dos passos incendiados na fogueira dos
casais sentados nos bancos
escondidos pela luz do sol
a murchar nos olhos de uma estátua

Jardín de Tunduro

Pisé unas flores en el cielo
y caí desequilibrado en una laguna llena de algas
perfumadas
por el color de la orina
luego bebí toda la fiebre que cubría el
espacio desgarrado del jardín
en constante mutación en el cuerpo de las rosas que no eran
rojo y se cubrieron de un color enfermizo
pudriéndose en el vuelo nocturno de los búhos
circunscrito en los feraces árboles del abandono
las rosas que eran rojas
exploraban la dirección del viento
de los pasos que arden en el fuego de las
parejas sentadas en bancos
ocultos por la luz del sol
marchitándose en los ojos de una estatua

Traducido por SAL, junio 21.


Poemas ibéricos (19) JOÃO RASTEIRO

JOÃO RASTEIRO (Coimbra, 1965). Poeta y ensayista, se graduó en estudios superiores por la Universidad de Coimbra, en la licenciatura ‘Estudios Portugueses y Lusófonos’. Es miembro de la ‘Asociación Portuguesa de Escritores’ y del ‘Pen Club Portugués’, donde actualmente integra la dirección.
Ha traducido varios poemas del castellano de poetas como, Harold Alvarado Tenorio, Juan Armando Rojas Joo o Antonio Colinas.
Tiene poemas publicados en diversas revistas y antologías, de Portugal y extranjero, y varios poemas traducidos al español, catalán, francés, inglés, italiano, finlandés, checo, húngaro, japonés, occitano y persa.
Ha obtenido varios y prestigiados premios, entre ellos, el ‘Prémio Literário Manuel António Pina’, 2010. En 2012 fue uno de los finalistas del ‘Prémio Portugal Telecom de Literatura’ (poesía), Brasil.
Publicó 19 libros (Portugal, Brasil e Espanha), el primero, “A Respiração das Vértebras”, 2001 y los últimos, “Governadores de Orvalho” (Cuentos, 2020) y OFÍCIO Poesia: 2000-2020, 2021, publicada por Porto Editora, en sua colección de poesía, ‘Elogio da Sombra’, y hoy quizás la editorial portuguesa más importante.
Su libro “A rose is a rose is a rose et coetera”, 2017 (2º Ed. 2018), Portugal ha sido llevado a la escena por el grupo de teatro ‘Os Controversos’ a finales de 2017.
En 2009 organizó un número especial de la revista colombiana de poesía ‘Arquitrave’, sobre la nueva poesía portuguesa y en 2018 la antología de poesía portuguesa contemporánea: “Aqui Nesta Babilónia” (Amargord, Espanha).
Es autor de algunas letras para la 'Canción (fado) de Coimbra'. Ha sido invitado a intervenir en varios festivales de poesía, en Portugal y en el extranjero. Vive y trabaja en Coimbra (Casa de la Escritura) y sigue creyendo en la poesía, quizás porque aún es su inutilidad lo que puede ser una pequeña luz que brille en el futuro.


MADRID

“É a ebriedade da melancolia; como aproximar
o rosto de uma rosa enferma, indecisa
entre o perfume e a morte.”

Antonio Gamoneda

Como gostaria de te percorrer sísmico Madrid
sentindo o entrevir puro do coração
sob o misterioso vento da Plaza Mayor
e como Colombo em sua incomum fome de cosmos,
em sua despida e louca utopia entre terra e céu
partir à descoberta da luz de deus
no deífico e omnipotente triângulo de ouro.
                                *
Sentir descer sobre mim as fronteiras do divino,
a boca do último mistério irrefutável
do Jardim das Delícias Terrenas onde todas os seres
às cinco da tarde em ponto” na Puerta del Sol
aquecem os olhos da pele e se perduram cíclicos
nos talhos da utopia à primeira caricia do efémero
amor de um girassol grávido de mundo.
                                *
Manzanares expurga a descrença e a solidão,
como gostaria de te apreender Madrid
e como os gatos escalar os céus para te ver melhor,
ó Unamuno, em nossa matéria estridente
não basta pensar, é preciso sentir nosso destino,
ardermos inteiros na nossa própria procura
e morrer se preciso for nos braços abertos de las ventas.
                                *
Aí, todas as coisas se retomam antes de voltar a noite
em seu límpido silêncio de melancólicas vozes temíveis
e uma honrosa gota de sangue em teu sorriso” alastra pura.

Junho 2021


MADRID


Es la ebriedad de la melancolía;
como acercar el rostro a una rosa enferma,
indecisa entre el perfume y la muerte
.
Antonio Gamoneda


Me encantaría recorrerte sísmico Madrid
sintiendo el vislumbre puro del corazón
bajo el misterioso viento de la Plaza Mayor
y como Colón en su inusitada hambre de cosmos,
en su desnuda y loca utopía entre tierra y cielo
partir al descubrimiento de la luz de dios
en el deífico y omnipotente triángulo de oro.
                                *
Sentir descender sobre mí las fronteras de lo divino,
la boca del último misterio irrefutable
del Jardín de las Delicias Terrenas donde todos los seres
a las cinco en punto de la tarde” en la Puerta del Sol
calientan los ojos de la piel y perviven cíclicos
en los tajos de la utopia en la primera caricia del efímero
amor de un girasol grávido de mundo.
                                *
Manzanares expurga la incredulidad y la soledad,
cómo me gustaría entenderte Madrid
y como los gatos escalar los cielos para verte mejor,
oh Unamuno, en nuestra materia estridente
no basta pensar, es preciso sentir nuestro destino,
arder por entero en nuestra propia búsqueda
y morir si fuera preciso en los brazos abiertos de Las Ventas.
                                *
Ahí, todas las cosas se retoman antes de que vuelva la noche
con su límpido silencio de melancólicas y temibles voces
y una honrosa gota de sangre en tu sonrisa” se esparce pura.

Junio, 2021


CLOUD ATLAS
ao Abílio Hernandez

Eu, como um E.T.
fútil personagem cinematográfica
de simples ramalhete de poema secundário
que adornei de barco as orlas corais do Pacífico Sul,
que saboreei de bicicleta as ruas orvalhadas da Toscânia,
e que, como os deuses em seu crepúsculo, segui o roteiro de salomé,
essa misteriosa jornada que se sprinta pelos olhos dos dias
neste puro e breve “cinema paraíso” de “ladrões de bicicletas”.
                                    *
Eu, como um E.T.
que calculei os meus tentáculos em “terra de ninguém”,
que levianamente me apaixonei “no reino do sangue e do mel”,
que em Kyoto fui gueixa com escamas de peixe,
que trespassei o medo em “la frontera infinita”,
e fui vaqueiro atormentado na montanha de Brokeback,
e sobrevoei em avião a silhueta de Lisboa procurando o autor,
Eu que conquistei o Oeste Americano fantasiando na Western Union,
e à ilha de Sicília no paraíso de Giancaldo aportei
e fiz “por merecer” matar a sede dos bárbaros na Praia de Omaha
não olvidarei através de flashes o sagrado retiro da Cidade Proibida,
nem como Pompeu, os campos de algodão vermelho da Tessália,
ou uma noite em Camelot agasalhado em estandartes de utopia.
A minha memória vai banhar o peito no vulcão de La Brea Tar Pit
e admirar as mil e uma noite sob as estrelas de Bagdad,
e em Nova York nutrir a habitação do seu fogo.
                                    *
Eu, como um E.T.
que como Gollum me dirigi às terras desertas da Montanha Solitária,
que percorri o vento com “la poderosa” até ruínas de Machu Picchu,
Eu nunca me senti tão solitário como na ilha de Noland,
que jamais provarei bagos como as uvas das vinhas de Oklahoma,
nem comerei chocolate como comi em Lansquenet.
Eu, que um dia de mil dias viajei seis vezes
por uma “espécie de mosaico pontilhista”,
quero retornar para a realidade imaginada, o salto
para o intervalo que há entre os dois cortes dos meus olhos,
para a unidade de tempo e de espaço da minha fantasia,
para a sequência fantasmagórica das minhas elipses,
para o fotograma que produz a minha eterna ilusão.
O sublime e aconchegante lugar da película
que ainda claramente prefiro sob a projecção do mundo
é o escárnio do verbo: “o pátio das cantigas”.
                                    *
A bicicleta da vida é o corpo de libertação:
a força da Foz para a quimera e o sonho da palavra,
e como Wadjda, possuir uma bicicleta é a fonte
primordial para poder fazer a corrida, “o caminho das nuvens”
porque, sempre, “mais importante que o destino é a viagem”.


CLOUD ATLAS
para Abílio Hernandez

Yo, como un E.T.
fútil personaje cinematográfico
de simple ramillete de poema secundario
que adorné en barco las costas corales del Pacífico Sur,
que saboreé en bicicleta las calles cubiertas de rocío de la Toscana,
y que como los dioses en su crepúsculo, seguí los pasos de Salomé,
esa misteriosa jornada que esprinta por los ojos de los días
en este puro y breve “cinema paradiso” de “ladrones de bicicletas”.
                                     *
Yo, como un E.T.
que calculé mis tentáculos en “tierra de nadie”,
que frívolamente me enamoré “en el reino de la sangre y la miel”,
que en Kyoto fui geisha con escamas de pez,
que traspasé el miedo en “la frontera infinita”,
y fui vaquero atormentado en la montaña de Brokeback,
y sobrevolé en avión la silueta de Lisboa en busca de autor,
Yo que conquisté el Oeste Americano fantaseando en la Western Union,
y la isla de Sicilia en el paraíso de Giancaldo aporté
e hice matar de sed “por merecerlo” a los bárbaros en la Playa de Omaha
no olvidaré a través de flashes el sagrado retiro de la Ciudad Prohibida,
ni como Pompeyo, los campos de algodón rojo de Tesalia,
o una noche en Camelot cubierto con estandartes de utopía.
Mi memoria bañará su pecho en el volcán de La Brea Tar Pit
y admirará las mil y una noches bajo las estrellas de Bagdad,
y en Nueva York nutrirá la habitación con su fuego.
                                     *
Yo, como un E.T.
que como Gollum me dirigí a las tierras desiertas de la Montaña Solitaria,
que recorri el viento con “la poderosa” hasta las ruínas de Machu Picchu,
yo nunca me sentí tan solo como en la isla de Noland,
y jamás probaré racimos como las uvas de las viñas de Oklahoma,
ni comeré chocolate como el que comí en Lansquenet.
Yo, que un día de mil días viajé seis veces
por una “especie de mosaico puntillista”,
quiero retornar a la realidad imaginada, el salto
al intervalo que hay entre los dos cortes de mis ojos,
a la unidad de tiempo y espacio de mi fantasía,
a la secuencia fantasmagórica de mis elipses,
al fotograma que produce mi eterna ilusión.
El sublime y acogedor lugar de la película
que claramente prefiero bajo la proyección del mundo
es el escarnio del verbo: “el patio de las cantigas”.
                                     *
La bicicleta de la vida es el cuerpo de la liberación:
la fuerza de la Ría para la quimera y el sueño de la palabra,
y como Wadjda, poseer una bicicleta y la fuente
primordial para poder hacer la carrera, “el camino de las nubes”
porque, siempre, “más importante que el destino es el viaje”

Traducción para el español por Pedro S. Sanz


Poemas ibéricos (18) PEDRO MEXIA

Pedro Mexia (Lisboa, 1972) es poeta, ensayista, traductor y crítico literario. Licenciado en Derecho por La Universidad Católica. Trabajó de cronista y crítico literario en los periódicos Diario de Noticias, Público y, actualmente, en el semanario Expresso. Publicó seis volúmenes de crónicas y cuatro de diarios, siendo los títulos mas recientes “Lá Fora” (2018) y “Lei Seca” (2014), respectivamente, además tiene diez libros de poemas. Los primeros seis fueron objeto de una antología en “Menos por Menos” (2011), a la que siguió “Uma Vez Que Tudo se Perdeu” (2015). Sus últimos poemarios son: Contratempo (2016). Antología publicada por Tinta-da-China (Brasil) y también editado por Al-manar Éditions en francés en el año 2018 y Poemas Escolhidos (2018). Tinta-da-China. Es autor de un libro de teatro Nada de Dois (2009). Tinta-da-China. También ha sido traductor de Robert Bresson, Tom Stoppard, Martin Crimp e Hugo Williams.  Coordina la colección de poesía de las Ediciones Tinta-da-China. Fue dos veces miembro del jurado del Premio Camões.
Eucanaã Ferraz ha escrito sobre la poesía de Pedro Mexia: «Su poesía
transita casi sin espanto y sin asombro, entre ruinas, lúcida e melancólica. Los versos se hacen, sobre todo, como diapasón de la simplicidad. Los misterios surgen entonces, como resquicios, restos que emergen del recuerdo, testigos silenciosos y confusos: casas, automóviles, libros, escopetas, fotografías, animales, canciones. He aquí una escritura vuelta hacia las cosas materiales — acumuladas en la basura o en una chatarrería de hierros viejos —, mas en su apego a la materia y al cuerpo no renuncia al extrañamiento, a la sorpresa, a la duda.



Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.

Polvo

En las estanterías los libros permanecen
(hasta que se dispersan o se deshacen)
mientras todo
pasa. El polvo se acumula
y después de la limpieza
se acumula de nuevo
encima de los lomos.
Cuando la ciudad está sucia
(obras, coches, polvaredas)
el polvo es más negro y a veces
espeso. Los libros permanecen,
valen más que todo,
mas a pesar del amor
(amor de cosas silenciosas
que susurran)
y del cuidado doméstico
queda siempre, en el fondo,
en el lado opuesto al lomo
una pequeña marca negra
de polvo en las páginas.
La marca forma parte de los libros.
Viven marcados. Nosotros también.

De Contratempo. Poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Tinta-da-China, 2016. 132 p.

ÁRVORES

Noite e cidade não são
diferentes, a luz entre vidros
pisados, um sopro entre detritos.
As árvores nunca estiveram
assim vivas e atentas,
estremecendo quando a vozes
passam, uma sombra, depois
outra, depois nada
. 

ÁRBOLES

La noche y la ciudad no son
diferentes, la luz entre cristales
pisoteados, un aire entre detritus.
Los árboles nunca estuvieron
así tan vivos y atentos,
temblando cuando las voces
pasan, una sombra, luego
otra, y luego nada
.

De “Eliot e outros poemas” Gótica, 2003
Traducción por SAL, noviembre, 2021
.


Poemas ibéricos (17) ANTONIO CARVAJAL MILENA

Antonio Carvajal nasceu em Albolote (Granada, 1943), numa família de agricultores na Vega de Granada. Aos dez anos, foi inscrito como aluno interno no Colegio de los Escolapios de Granada, onde começou a ler escritores clássicos e contemporâneos. Em 1961 começou a escrever poesia, embora não tenha publicado nada até quatro anos mais tarde. Depois de deixar o internato, mudou-se permanentemente para a capital para continuar os seus estudos. Em 1966, começou a estudar Filologia Românica na Faculdade de Filosofia e Letras de Granada, estudando de forma descontínua, concluindo os seus estudos em 1981. Foi por volta desta altura que ele reuniu os poemas que viriam a fazer parte da Tigres en el jardín, o seu primeiro livro, publicado em 1968. Desde então, não deixou de publicar poesia, que foi recolhida e publicada pela Fundação Jorge Guillén sob o título Extravagante Jerarquía (1968-2017). Foi o fundador das colecções de poesia "Suplementos de Pliegos de Vez en Cuando" (Granada, 1986-1988) e "Corimbo de Poesía" (Granada, 1987-1989), dirigindo a colecção "Genil de Literatura" da Diputación Provincial de Granada e a Cátedra Federico García Lorca da Universidade de Granada, no qual desenvolveu uma intensa actividade de divulgação e apoio às novas vozes da poesia, como tem sido o caso, desde 1998, com o Prémio Internacional de Poesia Jovem "Antonio Carvajal" patrocinado pela Câmara Municipal de Albolote. Para ele, a poesia é a forma menos imperfeita de comunicar com o leitor, que é uma minoria porque a capacidade de responder verbalmente ao pedido que é cada poema não é generalizada. E quanto à originalidade poética, ele pensa que esta é menos importante do que a autenticidade criativa, uma autenticidade que prevalece no diálogo com a tradição e nos usos intertextuais.

A las azucenas que Natalia y José Antonio Fotografiaron para el poeta.

Cuerpo nacido para amor del agua,
agua espigada para amor del aire,
aire concreto para ser tu aroma, cándido lilio,
cuando en las aras de la virgen yergas
núbiles copas que la luz moldea,
piensa en mis labios que beber quisieron
en ti el rocío.
Piensa en mis labios que al celar el nombre
discreto de su amor dijeron todos
los amores posibles que en la tierra
trenzan sus nidos,
nidos con sal donde la herida diosa
por arista de trigo y agria espina
de granado sus úlceras repara
con óleo untuoso.
Si al borde mismo del salar salieres
y tu perfume otros ensueños nutre,
recuerda que hubo unas miradas mías
que te buscaban.

Às açucenas que Natália e José António fotografaram para o poeta

Corpo nascido pelo amor à água,
água espigada pelo amor ao ar,
ar concreto para ser teu perfume,
cândido lírio,
quando nos altares da virgem ergues
núbeis taças que a luz molda,
pensa nos meus lábios que quiseram de ti
beber o orvalho.
Pensa nos meus lábios que ao zelar pelo nome
discreto do seu amor disseram todos
os amores possíveis que na terra
entrelaçam os seus ninhos,
desditosos ninhos onde a deusa ferida
pela espiga do trigo e pelo áspero espinho
da romãzeira as suas úlceras cura
com suave óleo.
Se na beira do salar partires
e o teu perfume alimentar outros sonhos,
recorda que de mim tiveste um olhar
que te procurava.

Oda casi horaciana

A Paco Domene,
el primero que me habló del petricor

Seda mis labios áridos la humuvia,
seda mi pecho con sutil fragancia
y los rigores y el hervor disipa,
leve, del alma.

A las ansias y al tiempo pone olvido,
brillos recobra el prado de esmeralda
y el monte su alta cumbre despereza
sintiendo el agua.

Me sé mantillo y soy semilla y doy
a la felicidad nueva palabra,
humuvia, hija del suelo y de la lluvia
llena de gracia.. 

Ode quase horaciana

Para Paco Domene
o primeiro que me falou do petricor

Acalma os meus lábios áridos con humuvia*,
acalma o meu peito com subtil fragrância
e os excessos e inquietação dissipa,
leve, da alma.

As angústias e o tempo faz esquecer,
ao campo devolve o brilha de esmeralda
e o alto do monte acorda
ao sentir a água.

Sei que sou húmus e semente e dou
à felicidade novo significado,
humuvia, filha da terra e da chuva
cheia de graça.

* Nota do tradutor: “humuvia” é uma palavra criada pelo poeta, daí manter-se no original.

Endecha sobre un motivo* de Josep Piera

Ay, tu olor me recrea,
sáname tu memoria

PEDRO ESPINOSA

Se van las madres. Quedan sus sabores
adheridos al son de la palabra,
sanan memorias y el aroma vuelve
con cada silaba
pronunciada, contada, recobrada.
No es hinojo, es fenoll, no atún, toñina,
y baladre la adelfa, el algarrobo
garrofer y aigua
aquello cuyo nombre solo suena
a rubor de frescor entre los dientes.
¿Poeta? Sí, si su palabra tiene
rumor de madre.

Motril, 12 de Agosto de 2020


*PIERA.JOSEP. Els fantàstics setanta. 1969/1974.
Valéncia, Institució Alfons el Magnànim, 2020
PÁG. 109 

Nénia sobre um motivo* por Josep Piera

Oh, alegra-me o teu aroma,
cura-me a tua memória

PEDRO ESPINOSA

As mães partem. Os seus sabores
aderem ao som da palavra,
curam memórias e o aroma regressa
em cada sílaba
dita, contada, recuperada.
Não é funcho, é fenoll, não é atum, toñina,
e baladre o oleandro, a alfarroba
garrofer e aigua*
aquilo cujo nome apenas soa
a uma rubra brisa entre os dentes.
Poeta? Sim, se a sua palavra tem
rumor de mãe.

Motril, 12 de Agosto de 2020

*JOSEP. Els fantàstics setanta. 1969/1974.
Valéncia, Institució Alfons el Magnànim, 2020.
P. 109
** Nota do tradutor (SAL): As palavras em itálico estão em língua valenciana, daí manter-se no original

*Tradução de Manuel A. Domingos, excepto para o terceiro poema, que foi traduzido pelo SAL e revisto pelo Manuel. Obrigadíssimo.


Poemas ibéricos (16) MANUEL NETO DOS SANTOS

Poeta, actor, recitador, traductor, políglota. Nació en Alcantarilha (Silves, Algarve) - en Enero de 1959. Una figura indispensable en la poesía portuguesa moderna. Autor de una importante y polifacética obra poética, gran parte de ella aún inédita. Las 34 obras ya publicadas reflejan su esencia lírica y telúrica, recordando una clara y marcada ascendencia arábigo-andaluza, en la clara sensualidad, ritmo y luminosidad de la narrativa. Su poesía tiene la riqueza de un léxico lingüístico onírico aliado a la frescura de una "voz poética" libre, única y universal. Traductor de 22 obras. Su poesía se caracteriza por el dominio del verso blanco, un profundo rigor de la lengua materna y una escritura desenfadada, fuertemente metafórica, a la vez que amorosa -algo mística- cuando se inviste de un poder rítmico en el cruce de la carne sustantiva de las palabras. Poeta de la realidad interior. La voz intimista de sus versos tiene el pulso de la vida a través de una expresión confesional y registra una clara identificación con el entorno, estableciendo, desde la soledad vivida, el tono melancólico y, a la vez, el vértigo creativo. Sus poemas se han traducido al español, francés, inglés, árabe y rumano.

MATER MATÉRIA

(quando a sepultura é nenhures)
para F. García Lorca, in memoriam

Não temas, vem ao meu encontro através da premente transparência das palavras; nuas e limpas. Sou o lugar poético das coisas que se me cravam na carne, e nos sentidos... Mater Matéria, reyno onde o espírito, temporariamente, permanece.

Não temas, vem crescer comigo (fibra a fibra) nesta verdade entre a blasfémia e a prece.

Beijemos a terra húmida, a canção aflorada nesse lugar onde a brisa nos dispersa a mágoa, onde a tarde se declina sobre a erma planície quando a enorme presença do silêncio se faz anunciar; entre as ancas da noite, ensaiam-se os clarins e emudecem os cobardes pois que jamais os instantes da verdade hesitarão... ao romper do novo dia. "Verde, que te quero verde"!

Irmão, não temas! vem ao meu encontro com a lassidão das sementeiras e pousa, sobre a minha alma inquieta (como se os os dedos não fossem raízes mas antes asas) rasgando um sorriso na boca da terra que, agora, na ante-primavera germina o fruto nasciturno da poesia...

Frederico, não tardes... pois que renasce a tua voz... na Andaluzia.

Monte Boi, 9 Março 2019
(inédito)

MADRE MATERIA

(cuando la tumba está en ninguna parte)
para F. García Lorca in memoriam

No temas, ven a mí a través de la urgente transparencia de las palabras; desnudas y limpias. Soy el lugar poético de las cosas que se clavan en mi carne, y en los sentidos... Mater Matéria, reino donde el espíritu, temporalmente, permanece.

No temas, ven a crecer conmigo (fibra a fibra) en esta verdad entre la blasfemia y la oración.

Besemos la tierra húmeda, el canto que emerge en ese lugar donde la brisa dispersa nuestra pena, donde la tarde declina sobre yerma llanura cuando se anuncia la enorme presencia del silencio; entre las caderas de la noche se ensayan los clarines y se callan los cobardes porque los instantes de la verdad no vacilarán nunca... al romper el nuevo día. "¡Verde, que te quiero verde!
Hermano, no temas; ven hacia mí con la lasitud de las siembras y posa sobre mi alma inquieta (como si los dedos no fueran raíces sino alas) rasgando una sonrisa en la boca de la tierra que, ahora, en la pre-primavera germina el fruto naciente de la poesía...

Federico, no tardes... porque tu voz renace... en Andalucía.

Monte Boi, 9 de marzo 2019
(Traducción al español por el autor)


Poemas ibéricos (15) LORQUIANA POR VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA

LA AURORA
Federico García Lorca. Poeta en Nueva York (1929-1930)

LA AURORA de Nueva York tiene
cuatro columnas de cieno
y un huracán de negras palomas
que chapotean las aguas podridas.
La aurora de Nueva York gime
por las inmensas escaleras
buscando entre las aristas
nardos de angustia dibujada.
La aurora llega y nadie la recibe en su boca
porque allí no hay mañana ni esperanza posible.
A veces las monedas en enjambres furiosos
taladran y devoran abandonados niños.
Los primeros que salen comprenden con sus huesos
que no habrá paraíso ni amores deshojados;
saben que van al cieno de números y leyes,
a los juegos sin arte, a sudores sin fruto.
La luz es sepultada por cadenas y ruidos
en impúdico reto de ciencia sin raíces.
Por los barrios hay gentes que vacilan insomnes
como recién salidas de un naufragio de sangre.

A AURORA

SOBRE quatro colunas de lodo
já alvorece em Nova York
enquanto um furacão de negras pombas
chafurda em águas podres.
Pela interminável escadaria vai
soluçando a novaiorquina aurora
colhendo nas fendas
nardos de aflorada angústia.
Chega o alvor e ninguém o leva à boca
porque ali não há manhã nem esperança possível:
furiosos enxames de moedas atacam
de quando em vez abandonados rapazinhos.
Os primeiros a ceder pagam com os ossos
a desilusão de que não há paraísos nem amores traídos:
atolados no lodo dos números e das leis,
perversos jogos, fútil ardor.
Martirizada de ruídos cai a luz
na impudica ameaça da mais estéril ciência.
Eis como sobrevivem ao massacre os insones vagabundos
que agora andam à toa pelos bairros.

Traducido por VAV, publicado en Rosa Amoris, 2011. Revisión en junio 2021

PANORAMA CIEGO DE NUEVA YORK

Si no son los pájaros
cubiertos de ceniza,
si no son los gemidos que golpean las ventanas de la boda,
serán las delicadas criaturas del aire
que manan la sangre nueva por la oscuridad inextinguible.
Pero no, no son los pájaros,
porque los pájaros están a punto de ser bueyes;
pueden ser rocas blancas con la ayuda de la luna
y son siempre muchachos heridos
antes de que los jueces levanten la tela.

Todos comprenden el dolor que se relaciona con la muerte,
pero el verdadero dolor no está presente en el espíritu.
No está en el aire ni en nuestra vida,
ni en estas terrazas llenas de humo.
El verdadero dolor que mantiene despiertas las cosas
es una pequeña quemadura infinita
en los ojos inocentes de los otros sistemas.

Un traje abandonado pesa tanto en los hombros
que muchas veces el cielo los agrupa en ásperas manadas.
Y las que mueren de parto saben en la última hora
que todo rumor será piedra y toda huella latido.
Nosotros ignoramos que el pensamiento tiene arrabales
donde el filósofo es devorado por los chinos y las orugas.
Y algunos niños idiotas han encontrado por las cocinas
pequeñas golondrinas con muletas
que sabían pronunciar la palabra amor.

No, no son los pájaros.
No es un pájaro el que expresa la turbia fiebre de laguna,
ni el ansia de asesinato que nos oprime cada momento,
ni el metálico rumor de suicidio que nos anima cada madrugada,
Es una cápsula de aire donde nos duele todo el mundo,
es un pequeño espacio vivo al loco unisón de la luz,
es una escala indefinible donde las nubes y rosas olvidan
el griterío chino que bulle por el desembarcadero de la sangre.
Yo muchas veces me he perdido
para buscar la quemadura que mantiene despiertas las cosas
y sólo he encontrado marineros echados sobre las barandillas
y pequeñas criaturas del cielo enterradas bajo la nieve.
Pero el verdadero dolor estaba en otras plazas
donde los peces cristalizados agonizaban dentro de los troncos;
plazas del cielo extraño para las antiguas estatuas ilesas
y para la tierna intimidad de los volcanes.

No hay dolor en la voz. Sólo existen los dientes,
pero dientes que callarán aislados por el raso negro.
No hay dolor en la voz. Aquí sólo existe la Tierra.
La Tierra con sus puertas de siempre
que llevan al rubor de los frutos.

PANORAMA CIEGO DE NUEVA YORK

Se acaso não são pássaros
amortalhados de cinza, gemidos
violentando a janela nupcial,
levíssimas criaturas do ar serão
irrompendo como sangue novo contra a infinda obscuridade.
Mas não, não são pássaros,
porque os pássaros querem ser bois.
Com o beneplácito do luar podem ser pedras brancas,
não se tratasse de rapazes feridos
cabendo aos juízes desenredar o imbróglio.

A dor que se abeira da morte todos conhece
sempre que a verdadeira dor volta costas ao espírito.
Não anda no ar, muito menos na nossa vida,
ainda que na saturação das esplanadas.
A dor autêntica mantém as coisas despertas
aos olhos inocentados doa sistemas.
Como pesa nos ombros o traje rejeitado,
que o céu não raro acasala em promíscuas manadas;
já as que morrem no parto só à última hora
saberão que todo o clamor há-de tornar-se pedra;
toda a passagem, latido.

Ignoramos que o pensamento tem seus esconsos
onde o filósofo é devorado por varas de porcos e lagartas
e certos rapazinhos idiotas já repararam que pelas cozinhas
chegam a andar discretas andorinhas com muletas
capazes de ciciar a palavra amor.

Não, não são pássaros, não.
Pássaro não será o que exsuda a inóspita febre da lagoa,
nem a inquietude assassina que nos invade cada momento,
nem a anavalhada ameaça de suicídio que nos agita pela madrugada:
digamos que é do casulo do ar nos vigia todo o mundo,
exíguo espaço donde se evade o vergão de luz,
vaga escalada através da qual nuvens e rosas abafam
o grunhido que irrompe pela goela do sangue.
É certo que muitas vezes me perdi de mim
para não perder o ardor que mantém as coisas despertas
e só dei com marinheiros mortos de bêbados pelos saguões
e criaturinhas divinas enterradas na neve.

A insanável dor, contudo, já escalava outras praças
onde petrificados pés apodrecem dentro dos troncos,
praças sob cujo saturado céu antigas estátuas acolhem
paixões como vulcões de lama.

A dor exarou a voz. Só os dentes se mantêm,
os dentes que a solidão disseminou pelo descampado ‘scuro.
A dor exarou a voz. Cansada terra neste lugar ficou.
A mesma terra da qual uma eternidade inteira
tornará íntima do rubor dos frutos.

Tradução por VAV, publicado em Rosa Amoris, 2011, revisão junho 2021.

DOS SONETOS

EL POETA PIDE A SU AMOR QUE LE ESCRIBA

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena pues de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.

O POETA PEDE AO SEU AMOR QUE LHE ESCREVA

Meu entranhado amor, ardente morte,
tua palavra dada espero em vão
pensando, pois, que sem mim vivo então
como flor que murcha entregue à sorte.

Perene é o ser. Da pedra, o corte
que a inane sombra ignora sem razão.
De nada serve, no fundo, ao coração
o derramado mel, que a lua aborte.

Sofri por ti sofrendo. Veias abri
qual tigre e pomba, à roda da cintura
com mordimentos e açucenas combati.

Com palavras satisfaz minha loucura
ou deixa-me vive, se não por mim, por ti
nocturna alma, eternamente ‘scura

II

Yo sé que mi perfil será tranquilo
en el norte de un cielo sin reflejo:
Mercurio de vigilia, casto espejo
donde se quiebre el pulso de mi estilo.

Que si la yedra y el frescor del hilo
fue la norma del cuerpo que yo dejo,
mi perfil en la arena será un viejo
silencio sin rubor de cocodrilo.

Y aunque nunca tendrá sabor de llama
mi lengua de palomas ateridas
sino desierto gusto de retama,

libre signo de normas oprimidas
seré, en el cuello de la yerta rama
y en el sinfín de dalias doloridas.

Sei quão sereno será o meu perfil
a norte de que céu embaciado
Mercúrio me protege, espelho inculpado
em que se quebra meu pulso febril.

Pudera a hera ter-me sido hostil
tal a inclinação do corpo profanado
em praça pública, silenciado
crocodilo sem disfarce nem ardil.

Já extinta chama sou, já meu gemido
de pomba amedrontada chega ao fim
nesse desterro de giestas florido.

A salvo de opressoras leis, assim
desfrutarei do paraíso então perdido
onde
mil dálias se juntaram para mim.

Tradução: VAV, 2021


Poemas ibéricos (14) ÁGUEDA GARCÍA GARRIDO

Águeda García Garrido nasceu em Huelva, Andaluzia. É doutora pela Universidade da Sorbonne e professora titular na Universidade de Caen-Normandia (França) desde 2011. Águeda, combina a sua atividade universitária com a criação literária. Ganhou vários prémios nacionais e internacionais de poesia. Publicou em numerosas revistas de literatura e cultura (Barcarola, círculo de poesia, Cadernos do matemático, Dos filos, Fábula, Borderad, o Colóquio dos cães, Nayagua...) e os seus poemas apareceram em várias antologias: a Alquimia do Fogo (Amargord, 2014), XXIV prémios de poesia "luz" (Tarifa, 2017), entre outros. Traduziu vários poetas franceses inéditos em castelhano. É autora do poemário “O Espaço Ausente” (Coleção Donaire, n.° 3, Diputación Provincial de Huelva, 1998). A sua poesia explora a linguagem da itinerância, brinca com as emoções do desenraizamento e reconstrói a memória dos lugares vividos num mundo onde o habitável é apenas um refúgio.

POR LO QUE VIVIMOS

Empieza el día y ya es de noche.
Hay un árbol azul en medio del vacío
esperando que la luz sea el refugio
de su savia continua. 
Despacio mueve su ramaje,
sin alterar su melodía, 
igual que una pluma de nadie
baja del cielo y nos sorprende.
En su cima hay algo que escapa
a los anillos del aire,
todavía oscuros y cerrados.
Un nimbo helado que tiembla
como mi voz en tu nuca.

Logo se faz noite, mal o dia começa.
Uma árvore azul no lugar desabitado
espera que a luz absorva
sua primeira seiva.
De vez em quando agita seus ramos
qual pluma translúcida
que do céu cai, e nos deslumbra,
Em seu fulgor algo se dispersa sem alterar sua melodia,
nos volteios do ar,
assombrosa ocultação.
Gélida obscuridade, meu trémulo
gemido na tua nuca ecoa.

VOLENDAM

En la casa número 19 vive Klaas.
Es un templo de ébano que ya ha ardido
la noche en que vino el soldado de las botas sucias
golpeando la puerta con el pomo de su espada.
El fuego se llevó el tibio olor de los corpiños
con sus trencillas rotas y su apretado aliento,
la primera humedad de la achicoria,
el dormido acorde del laúd
en la irisada piel de los lirios,
el agua inmóvil del caldero
que brillaba en el hueco de las manos,
el rápido abrazo que todo lo retiene, 
la felicidad azul de la pupila,
dilatada en su furtivo oleaje,
el corazón que un día lo vio todo perdido.

En la casa número 19 vive un hombre que busca
la tierna vocación de la hierba,
abrigada en su pecho como esquivo
temblor del paraíso.
Sale cada día a medir la sal que delinea
la puntualidad del estuario
porque allí las raíces ignoran los incendios
y la tristeza se agita en su látigo precoz.

Triunfante, rendido, jadeante
atraviesa el campo con la memoria
saciada en los desvanes.

Se dirige al mar a detener el mundo,
sus olímpicas llantas en la tierra.
Su bicicleta está oxidada
como el gozne de una larga primavera
zurcida en su nociva pendiente
del tiempo y el camino.
Con ella reconstruye la oquedad
de su infancia, su primer amanecer
en otro cuerpo que hoy descansa
bajo el linde solar de las luciérnagas. 

Na casa a que foi dado o n.º19 vive Klaas.
Queimado templo de ébano na noite
em que o soldado
das botas sórdidas
arromb
ou a porta com o cabo da espada.
As chamas consumiram os corpetes flácidos
com cordõezinhos retalhados e sua respiração aflita,
a primeira fragrância da chicória,
o sonolento acorde do alaúde
na irid
escente textura dos lírios,
a água dormente no caldeiro
refulgindo na concha das mãos,
o esquivo abraço que tudo prende,
o radiante azul do olhar.
espargido em seu furtivo tremular
o coração em que um dia tudo naufragou.

Na casa n
.º19 vive um homem
que implorou
a branda consolação da erva,
acolhida em seu peito como indócil
lucilação do paraíso.

Dia a dia sai a calcular a salinidade
com que assegura a harmonia do estuário
onde as raízes enjeitam os incêndios
e a desolação vibra seu açoite precoce.

Exultante, rendido, sufocado
percorre o descampado com a memória
exaurida em recônditas paragens.

Para suster o mundo segue com destino ao mar,
suas olímpicas rodas na terra,
montando a bicicleta mais enferrujada
que os gonzos de uma juvenilidade
passajada em seu desgaste irreparável.
ora pelo tempo, ora pela jornada.
Com ela recupera a vacuidade
da infância, seu primeiro alvor
numa outra compleição hoje protegida
sob a cúpula solar dos pirilampos.

(Inédito, Diciembre 2021)
Tradução para português pelo VAV

*Nota do tradutor: Mantive a tradução literal do vocábulo "hierba" explorando a analogia com a poética de Walt Whitman e da leitura que deve ser feita da obra "Leaves of grass" - enquanto estupefaciente.

Volendam es una pequeña ciudad portuaria y turística de Holanda perteneciente a la comuna de Edam-Volendam. Su población se sitúa en torno a los 22.000 habitantes.


Poemas ibéricos (13) DELMAR MAIA GONÇALVES

Delmar Maia Gonçalves (Quelimane, Mozambique, 1969) es un escritor, que destaca como divulgador de la literatura de su país en el extranjero. Reside actualmente en Portugal. Escribió siete libros de poesía. Su poesía se caracteriza por una constante falta de respeto a la norma, saltándose el canon literario y lo normativo. Se considera un poeta dadaísta, zen y libre. Siempre practica el verso libre. Delmar envía este poema de tan elegante sencillez que me gustaría convertirme en un "xirico" mozambiqueño.

POEMAS

I

"Mussa Bin Bique"
Entre
o orvalho paradisíaco,
lúcido e transparente
da ilha
mora um xirico (1).
No canto
melodioso do pássaro
dorme o paraíso.


II

Vou de asas
de nuvens
para o sonho
Que a realidade
é só um pormenor.


III

Inconformado
me quedarei
dando um valente estalo
no vazio do meu pranto.


IV

Minha pátria
é o rio dos Bons Sinais
Por lá navego
com a constância das ondas
Foi lá
que bebi sura
dos seios de Augusta
Era doce o néctar
de Artemis.


V

O poeta
é sempre bélico
quando se vislumbram
Lobos mascarados de Cordeiros
com discursos dóceis de Pombas
e falsos pergaminhos de Hienas
Guarda as flechas
num mar de nuvens neutras
veladas por um bando de Corvos.


VI

"Porvir"

E o coração mestiço
que batuca dentro de mim
apesar da ausência de bússola
Ainda encontra
o leme que me arrasta
para o porvir.


VII

Se um dia
vos pudesse dar um presente sem medida
de certo vos ofereceria
um poeta
louco e sóbrio
para que pudessem
degustar sem limites
suas palavras.


VIII

Num país de sombras
sem contornos
onde todas as paisagens são outras
reinam mentes amordaçadas
quando o verbo se faz cio.

I

"Mussa Bin Bique" (2)
Entre
el rocío paradisíaco,
claro y transparente
de la isla
habita un canario.
En la canción
melodiosa del ave
el paraíso duerme.


II

Voy con alas
de las nubes
al sueño
Donde la realidad
es sólo un detalle.


III

Insatisfecho
me quedaré
dando una valiente bofetada
en el vacío de mi llanto.


IV

Mi patria
es el río de las Buenas Señales
Por él navego
con la constancia de las olas
Fue allí
Donde bebí sura
de los pechos de Augusta
Dulce era el néctar
de Artemisa.


V

El poeta
es siempre belicoso
cuando vislumbra
Lobos disfrazados de corderos
con dóciles discursos de Palomas
y falsos pergaminos de Hienas
Guarda las flechas
en un mar de nubes neutras
veladas por una bandada de cuervos.


VI

"Porvenir"

Y el corazón mestizo
que late dentro de mí
a pesar de la carencia de brújula
Aún encuentra
el timón que me arrastra
al porvenir.


VII

Si un día
os pudiera dar un regalo sin medida
Seguro que os ofrecería
un poeta
loco y sobrio
para que pudieseis
degustar sin límites
sus palabras.


VIII

En un país de sombras
sin contornos
donde todos los paisajes son otros
donde reinan mentes amordazadas
cuando el verbo se hace celo.

* Notas do traductor (SAL)
(1) Xirico (Serinus mozambicus) es ave canora típica de Mozambique, perteneciente a la familia de los fringílidos. Parecido a los canarios ibéricos.
(2) Mussa Bin Bique, otros nombres Mossa Al Bique o Mussa Ben Mbiki o Mussa Ibn Malik, era gobernante de la isla de Mozambique y comerciante adinerado, antes de que los portugueses conquistaran la isla en 1544.


Poemas ibéricos (12) MARIO LOURTAU

O POEMA Rinoceronte de Durero, de Mario Lourtau, pertence ao livro “O olhar do condor”, publicado por De la luna libros (Mérida, 2012) na coleção de livros de poesia Luna de poniente. O poema forma parte deste moderno animalario na sua secção Álbum de Zoologia. Os seus versos surgem como entrada a esta segunda parte do poemário, onde o reino animal ganha espaço entre as diferentes emoções que podem surgir através da contemplação destes seres selváticos. Rinoceronte de Durero, longe de ficar-se por um mero retrato da nobreza e beleza deste animal, submerge-se na intra-história europeia, olhando 5 século atrás, quando pela primeira vez se pode observar este paquiderme no velho continente. As desiguais viagens que teve de afrontar um animal de tal tamanho (chegou a ser comparado com um ser lendário) contrastam com o impacto social que produziu, maravilhando as cortes europeias e todos aqueles que puderam contemplá-lo. Ganda, como assim se chamava o paquiderme, passou por diferentes mãos até chegar a formar parte da corte de D. Manuel I de Portugal, que mais tarde o obsequiaria ao pontificado. As viagens de Ganda marcaram também as artes na Europa. D. Manuel I, que deu nome ao estilo arquitetónico manuelino, variante portuguesa do estilo gótico final, mais tarde com incorporações renascentistas, foi exemplo disso. A Torre de Belém, em Lisboa, construída por Francisco de Arruda e Diogo de Boitaca entre 1515 e 1519, é considerada como um dos monumentos mais belos e representativos deste estilo, neste caso uma variante do gótico e do luso-mourisco. Num dos lados da Torre de Belém, encontra-se a gárgula do rinoceronte, ao qual o poema faz referência.  

RINOCERONTE DE DURERO

Han pasado ya siglos desde entonces, casi
quinientos años. Ganda, enorme paquidermo,
llegó desde la India a tierras lusas como un ser legendario,
apenas contemplado en la vieja Europa. Agasajo
del Sultán para Alfonso de Alburquerque,
pasó más tarde a manos del rey Manuel I,
que mostró su anatomía de bestia imaginaria
a extraños y curiosos. Antes de ofrecer a la criatura
al Papa León X, el rey quiso enfrentarlo
con un joven elefante, mas fue en vano la afrenta.
Viajó al Pontificado haciendo escalas,
fue expuesto, y admirando por Francisco I;
vivió sus días de gloria y desconcierto
igual que un gran actor perdido por la fama.
Su buque no alcanzó jamás la costa.
Murió terriblemente, encadenado,
bajo el glaciar furtivo de las olas,
en esa selva espesa de algas y salitre
donde se hunden con la vida los seres prodigiosos.
Sucumbió bajo el mar, mas su cadáver
llegó hasta el Vaticano embalsamado.
La Historia guarda un hueco para Ganda
en el libro singular de los obituarios:
En la torre lisboeta de Belém,
asomada a la belleza de sus muros,
la gárgola del rinoceronte respira sobre el mar.

Alberto Durero, sin ver a la criatura,
realizó el primer grabado de su estampa:
poco fiel al animal, repleto de defectos;
mas hermoso al fin y al cabo por su historia.

RINOCERONTE DE DÜRER

Passaram-se séculos desde então, quase
quinhentos anos. Ganda, o enorme paquiderme,
chegou da Índia a terras portuguesas como um ser lendário,
dificilmente contemplado na velha Europa.
Uma festa do Sultão para Afonso de Albuquerque,
passou mais tarde para as mãos do Rei D. Manuel I
que mostrou a sua anatomia de besta imaginária
a estranhos e curiosos. Antes de oferecer a criatura
ao Papa Leão X, o Rei quis confrontá-lo
com um elefante, mas foi em vão a afronta.
Viajou para o Pontificado, fazendo escalas,
foi exposto e admirado por Francisco I;
viveu os seus dias de glória e desconcerto
tal qual um grande actor perdido pela fama.
O seu navio nunca alcançou a costa.
Morreu terrivelmente, acorrentado,
debaixo do glaciar furtivo das ondas,
nessa selva espessa de algas e salitre,
onde se fundem com a vida os seres prodigiosos.
Sucumbiu debaixo do mar, mas o seu cadáver
chegou até ao Vaticano embalsamado.
A história guarda um lugar para Ganda,
no livro singular dos obituários:
na Torre de Belém,
assomada à beleza dos seus muros,
a gárgula do rinoceronte respira sobre o mar.

Albrecht Dürer, sem ver a criatura,
fez a primeira gravura da sua estampa:
não muito fiel ao animal, cheio de defeitos,
mas belo ao fim e ao cabo, pela sua história.

Tradução para português: Neuzâ Tomé
Nota biográfica do autor: https://www.aeex.es/autores/lourtau-mario/


Poemas ibéricos (11) JORGE SOUSA BRAGA

Jorge Sousa Braga (Cervães, 1957) es uno de los poetas y traductores portugueses más reconocidos de su generación. Traductor de excelentes poetas españoles como Borges y franceses como Apollinaire, entre otros. Es una delicia leer a este poeta que usa todos los tonos, desde el más lírico, al más procaz, con un fino sentido del humor o la ironía (véase poema Ulises). El autor me envía su poesía reunida en el volumen O poeta nu / El poeta desnudo (Assírio e Alvim) con el aviso de usar à vontade. Elijo un poema ya traducido por Martín López Vega y otro por mí mismo, en el que optado por una traducción literal.

 

PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os
      infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe
      atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante
      D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiros dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar
      estava no poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que
      emigraram nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
      a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

PORTUGAL

Portugal
Tengo veinte años pero tú a veces haces que me sienta como si tuviera ochocientos
Qué culpa tengo yo de que D. Sebastião se fuera a combatir infieles al norte de África
sólo porque no podía combatir la enfermedad que atacaba sus órganos genitales
y nunca volviera
Casi me da por pensar que todo es mentira que el Infante D. Henrique es un invento de Walt Disney
y Nuno Álvares Pereira una imitación chusca del Príncipe Valiente
Portugal
Ni te imaginas cómo me excito cuando oigo el himno nacional
(que mis egregios abuelos me perdonen)
Ayer estuve jugando al póker con el viejo de Restelo
Está yendo a la consulta externa de Júlio de Matos
Le dieron unos electroshocks y está recuperándose
dejando a un lado su empeño en convencerme de que nos espera un futuro de rosas
Portugal
Un día me encerré en el monasterio de los Jerónimos a ver si contraía la fiebre del Imperio
pero lo único que conseguí pillar fue un resfriado
Puse la Torre do Tombo del revés sin encontrar ni un mal pétalo
de las roas que Gil Eanes se trajo del Cabo Bojador
Portugal
Te voy a contar algo que nunca he contado a nadie
Sabes
estoy locamente enamorado de ti
Me pregunto a mí mismo
cómo he podido enamorarme de un viejo decrépito e idiota como tú
por más que tenga el corazón aún más dulce que los pasteles de Tentúgal
y el cuerpo lleno de puntos negros que puedo arrancar cuando quiera
Portugal ¿me estás escuchando?
Nací en mil novecientos cincuenta y siete Salazar estaba en el poder sin resentimientos
Mi hermano estuvo en la guerra tengo amigos que emigraron sin resentimientos
Un día bebí vinagre sin resentimientos
Portugal después de haber salvado innumerables veces los Lusíadas nadando en la piscina municipal de Braga
quería proponerte ahora un proyecto eminentemente nacional
Que fuésemos todos a Ceuta a buscar el ojo perdido de Camões
Portugal
¿sabes de qué color son mis ojos?
Son castaños como los de mi madre
Portugal
querría besarte muy apasionadamente
en la boca

ULISSES

I

Suicidara-se a escassas milhas de Ítaca quando o
     
perfil da ilha se recortava já nitidamente no horizonte
A notícia que vinha na página insular de um dos
     
jornais de maior tiragem de Atenas
referia apenas que se tratava de um marinheiro
     
o número da sua carta marítima e o apelido
(muito comum por aquelas paragens)
o resultado da autópsia
a suspeita de que alguém o tivesse amarrado a um mastro
tatuagens de sereias e de monstros marinhos
a bagagem extremamente reduzida que o acompanhava
um velo de oiro algumas peças de roupa interior. 

II 

Apanhara o barco em Salónica
Durante a maior parte da viagem manteve-se fechado no seu camarote
Debruçado da amurada via agora a sua ilha
       emergindo lentamente das águas
Um cheiro almiscarado dilatava-lhe as narinas
Ítaca perfumara-se de propósito para a sua chegada
e envergara o vestido mais decotado que possuía
Depois de muitos séculos de ausência Ulisses estava de volta
Expedira um telegrama lacónico a anunciar a sua chegada
A esperá-lo dois representantes do governo grego alguns operadores
      de televisão vários professores de mitologia
a comissão de trabalhadores da fábrica «Penélope»
      (uma florescente indústria de tapeçarias) …
Debruçado na amurada do barco que estabelecia a ligação entre as inúmeras ilhas do Mar Egeu
Ulisses
ia revendo mentalmente
todas as privações por que passara
anónimo tripulante de um petroleiro navegando sob a bandeira do Panamá
lavando pratos
para que um dia pudesse voltar a Ítaca
Quantos anos em vão a procurara nos mares mais
     
azuis que em sonhos conseguira pintar
no corpo de uma negra na Bronx das mulheres
     
expostas nas montras do porto de Amsterdam
Quantos anos em vão a procurara…
Debruçado na amurada via agora a sua ilha
     
emergindo lentamente das águas
da memória
com o vestido mais decotado que possuía e cheirando a almíscar…
Suicidou-se a escassas milhas de Ítaca quando o
     
perfil da ilha se recortava já nitidamente no horizonte
a escassas milhas de Ítaca
de Í-TA-CA.

ULISES

I

Se suicidó a pocas millas de Ítaca cuando el
      perfil de la isla ya se recortaba nítidamente en el horizonte
La noticia que venía en las páginas insulares de uno de los
      periódicos de mayor tirada de Atenas
se refería sólo a que era un marinero
      el número de su folio y el apellido
(muy común por aquellos lares)
el resultado de la autopsia
sospecha que alguien lo hubiere atado a un mástil
tatuajes de sirenas y de monstruos marinos
el equipaje extremadamente ligero que lo acompañaba
un vellón de oro y algunas piezas de ropa interior.
 

II

Embarcó en Tesalónica
Durante la mayor parte del viaje permaneció encerrado en su camarote
Inclinándose sobre la barandilla, vio su isla
      emerger lentamente del agua
Un olor almizclado dilató sus fosas nasales
Ítaca se había perfumado a propósito para su llegada
y se había puesto el vestido más escotado que tenía
Después de muchos siglos de ausencia, Ulises regresaba
Había enviado un lacónico telegrama anunciando su llegada
Esperaban por él dos representantes del gobierno griego algunos cámaras de
      televisión varios profesores de mitología
el comité de trabajadores de la fábrica "Penélope"
(una floreciente industria de tapices) ...
Inclinado sobre la barandilla del barco que establecía la conexión entre las innumerables islas del Mar Egeo
Ulises
estaba revisando mentalmente
todas las penurias que había soportado
como anónimo tripulante de un petrolero que navegaba
      bajo pabellón panameño
lavando los platos
para que un día pudiese volver a Ítaca
Cuántos años en vano la había buscado en los mares más azules
Que consiguiera pintar en sus sueños
en el cuerpo de una negra en el Bronx
en las mujeres expuestas en los escaparates del puerto de Ámsterdam
Cuántos años la había buscado en vano...
Inclinado sobre la barandilla vio su isla
emergiendo lentamente de las aguas
      de la memoria
con el vestido más escotado que tenía y oliendo a almizcle...
Se suicidó a pocas millas de Ítaca cuando el
perfil de la isla ya se recorta en el horizonte
a pocas millas de Itaca
de I-TA-CA.


Poemas ibéricos (10) GOYA GUTIERREZ LANERO

GOYA GUTIÉRREZ, (Cabolafuente, 1954 - Zaragoza, Espanha) é licenciada em Filologia Hispânica pela Universidade de Barcelona. Foi professora titular do Ensino Secundário. Desde o ano 2003 é co-editora e diretora da revista literária Alga (www.castelldefels.org/alga). Até à data editou duas plaquettes (pequena publicação para difusão de obras literárias de curta extensão como poemas ou contos) e sete livros de poesia, além de uma novela em ebook. Tem dois poemários inéditos.

 

LISBOA

Nos sorprendió desnudos
El azul
Expulsado del cielo,
Sobre el rojo carmín
De los tejados
En Alfama.

Más allá, el forjado
Metal oscurecido
Arqueando las aguas,
Coronando corrientes,
Pincelando barcos y raíles.
Más próximo el tranvía
Zigzaguea en tus sienes
Las estrellas fugaces
De la infancia.

Entre grises de nieve
De antiguos monumentos
Frente al agua
Serpentea la tarde,
Y el río nos devuelve
De nuevo a las tabernas
Donde se moja el vino
Con maderas de oriente
Y occidente, que saben
A esos días caobas
De refugio
En los ojos de alguien
Que escucha de otros labios
Un poema,
O a esas noches de ébano
Sin sueño, reticentes...

Que apuran, se resisten
Al frío amanecer
De la partida

LISBOA

Surpreendeu-nos despidos
O azul
Expulso do céu,
Sobre o vermelho carmim
Dos telhados
Em Alfama.

Mais além, o forjado
Metal escurecido
Arqueando as águas,
Coroando correntes,
Pincelando barcos e carris.
Mais proximo o eléctrico
Ziguezagueia nas tuas têmporas
As estrelas fugazes
Da infância.

Entre cinzentos de neve
De antigos monumentos
De frente à água
Serpenteia a tarde,
E o rio devolve-nos
De novo às tabernas
Onde se molha o vinho
Com madeiras do oriente
E ocidente, que sabem
A esses dias de mogno
No abrigo
Dos olhos de alguém
Que escuta de outros lábios
Um poema,
Ou a essas noites de ébano
Sem sono, reticentes…

Que apressam, resistem
Ao frio amanhecer
Da partida.

Do Livro “La mirada y el viaje” / “O olhar e a viagem” (Barcelona, 2004)

Tradução para português por Neuza Tomé (NT), junho 2021
Web de la autora: https://goya-gutierrez-lanero.com/ 


Poemas ibéricos (9) MARGARIDA VALE DE GATO

Margarida Vale de Gato (Vendas Novas,1973) es profesora de literatura norteamericana y traducción en la Facultad de Letras en la Universidad de Lisboa. Ha traducido poesía y prosa de Lewis Carroll, Marianne Moore (o Pangolim e otros poemas, Relogio d’Água, 2018), Charles Dickens, Mark Twain, Oscar Wilde, W.B. Yeats, Christina Rossetti, Vladimir Nabokov, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, George Sand, Jean Giono, Henri Michaux, Nathalie Sarraute y René Char. Es autora de los libros de poemas Mulher ao mar (2010), cuya última edición ampliada se titula Mulher ao mar e Grinalda (mariposa azual, 2018), Lançamento (douda correría, 2016) y en junio 2021 acaba de publicar Atirar para o Torto (Tinta da China). Margarida me envía una cantiga de amigo del siglo XXI y una declaración de intenciones.

Sobre ella, el poeta francés Jack Landes, ha escrito: «Hay quien [no] se cansa de ser bella. Pero la Belleza no es el Bien, cuando se trata de escribir sobre flores enfermas, imágenes de insectos o las sombras de la noche. La Belleza también mata, encerrada (o fuera) de la crisálida. Así es la poesía de Margarida, como un silencio frágil a lo largo de un hilo de seda o como una pira de palabras después de la demolición del espejo /del edificio del yo».

Marinha

Nem aranha nem sereia, antes fora marinheira,
mas por costume da terra, fiquei sendo pescadeira
a ver da areia o mar, o homem levando a barca.
 
Nem urdir nem cativar, antes queria navegar,
mas por costume da terra, me pus peixes a contar,
a ver da areia o mar, o homem levando a barca.
 
Mas por costume da terra, fui de redes lançadeira,
tal a renda, densa, onda, que levantou como fraga;
a ver da areia o mar, levando o homem na barca.
 
Mas por costume da terra, me pus corda a enrolar
tal essa renda da vaga, um vale branco a cavar,
a ver da areia o mar, levando o homem na barca.
 
Até a renda na água se soerguer como fraga,
caindo o casco ao vazio, partindo tábua na vaga,
a vir à areia o homem, levada no mar a barca.
 
Até a renda na água um oco de espuma cavar,
a vaga cobrindo tábua até a marca apagar,
a vir à areia o homem, levada no mar a barca.

Marina

Ni araña ni sirena, antes era marinera,
mas por costumbre de la tierra, me quedé en pescadera
viendo el mar de arena, el hombre levando la barca.

Ni tejedora ni seducida, antes quería navegar,
mas por costumbre de la tierra, me puse a contar peces,
viendo el mar de arena, el hombre levando la barca.

Pero por costumbre de la tierra, fui hilandera de redes,
como encaje, denso, ondulado, que se levantaba como roca;
viendo el mar de arena, zarpando el hombre en la barca.

Mas por costumbre de la tierra, me puse a enrollarr cuerdas
y, como el encaje de la ola, me dispuse a cavar un blanco valle,
viniendo el hombre a la arena, zarpando el hombre en barca.

Hasta que el encaje en el agua se levantó como una peña,
cayendo el casco al vacío, rompiendo la tabla en la ola,
viniendo el hombre a la arena, zarpando al mar en barca.

Hasta el encaje excavó en el agua huecos espumosos,
las olas cubrieron las tablas hasta que se borró la marca,
viniendo el hombre a la arena, zarpando al mar en barca.

.

DECLARAÇÃO DE INTENÇÕES

Para aqueles que insistem em diluir
isto que escrevo aquilo que eu vivo
é mesmo assim, embora aluda aqui
a requintes que com rigor esquivo.

À língua deito lume, o que invoco
te chama e chama além de ti, mas versos
são uma disciplina que macera
o corpo e exaspera quanto toco.

Fazer poesia é árido cilício,
mesmo que ateie o sangue, apenas pus
se extrai, nem nunca pela escrita

um sólido balança, ou se levita.
Então sobre o poema, o artifício,
a borra baça, a mim a extrema luz.

DECLARACION DE INTENCIONES

Para aquellos que insisten en diluir
esto que escribo aquello que vivo
es incluso así, aunque aluda aquí
a la elegancia que con rigor esquivo.

Echo fuego por la lengua, lo que invoco
te llama, es llama más allá de ti, mas los
[versos
son una disciplina que macera
el cuerpo y exaspera cuanto toco.

Escribir poesía es ardiente cilicio,
incluso si enciende la sangre, sólo pus
se extrae, ni nunca la palabra escrita

balancea un sólido o lo levita.
Así sobre el poema, el artificio,
difumina el poso, a mí sobria luz

Aquí, o seu ultimo libro de poemas:
https://www.bertrand.pt/livro/atirar-para-o-torto-margarida-vale-de-gato/24780386


Poemas ibéricos (8) MARIA DO SAMEIRO BARROSO

Maria do Sameiro Barroso (Braga, 1951), es una de las poetas más reconocidas de su generación. Y quizás la más internacional. Tiene una extensa obra poética y numerosos premios, entre ellos el PREMIO PALABRA IBERICA (2009), que compartió conmigo mismo. Desde entonces somos amigos y hermanos en las letras. Su poesía se caracteriza por una turbulencia de vivencias y sentimientos, trasladada a una escritura limpia y clara, con fuerte carga simbólica, teniendo como primeras referencias la búsqueda de la inocencia primordial y la totalidad cósmica. Aquí presentamos un poema escrito directamente en castellano del libro “Molinos del Tiempo”.

QUIJOTE
Al poeta Miguel de Cervantes

Heinrich Heine lo ha leído en un día claro de mayo,
escuchando a los ruiseñores, a los riachuelos
y subía por los rosales olorosos para conocer
la purpura y las perlas en los umbrales de la vida.
La ironía no era un desierto, ni lo grotesco una risa
de lágrimas, y Heine, en la Alameda de los Suspiros,
escuchaba al viento, al silencio,
y a la verdad, cerrada en su cráneo de enigmas.
En los ópalos de sus ojos, la grosería y la llama
de los sueños se mezclaban conlas ramas
de los árboles, la cintura de Dulcinea,
los molinos blancos, Quijote, el ingenioso,
y los relinchos de su rocinante escuálido.
En Sancho Panza, leía la tierra,en su jardín
de raíces verdes.
La grandeza y la pequeñez del mundo
sonaban hondo en el corazón de Heine
que en Cervantes trasfiguró su rostro.
En cada línea, leía el oro, los zafiros,
la lúcida mirada, el rocíode la mañana.
Los caballeros de la luna suelen ser barberos
que los poetas descifran en sus castillos puros
de sombra, musgo y niebla transparente.


Poemas ibéricos (7) GISELA RAMOS ROSA

“PARA escribir el poema la mano se abandona / a las palabras, al vacío de la posibilidad de un fragmento/ del mundo” escribe Gisela Gracias Ramos Rosa (GGRR) en uno de sus poemas. Efectivamente, parecen que Palabra y Silencio toman el control de su mano para decir el mundo, el yo y el nosotros. En este poema, que presentamos hoy, GGRR vuelve a los poemas de su libro “El libro de las manos” (Coisas de Ler, 2018) ganador del premio Glória de Sant’Anna. La poesía de GGRR se caracteriza por la búsqueda y el diálogo con sus pares y las cosas. Escribir es preguntar y responder a no se sabe quién y la palabra instaura su propia belleza y ética/estética. Ella encuentra el lugar justo para poner las manos, el lugar donde las manos son todo lo que son y también algo más.

“Mais que a beleza são as mãos erguidas
Que incendeiam o peito, que sussurram
Todo o mistério singular contrito
Que aponta ardentemente para a Luz
(...)”
António Salvado, em La Hora Sagrada, p. 116

Universidade de Salamanca, o manto perene do tempo

Chegam de lugares distantes as mãos ignotas
tecem o manto perene do tempo, tocam a pedra
de um sabor oculto entre os dedos
esculpem a busca com instrumentos antigos, a imagem
do Gral.  

Território sagrado, tecido lentamente por símbolos
ancestrais, onde vozes ressurgem intensas
metamorfoseando-se entre o silêncio profundo e a mó
maturada do pensamento em vagar floração. 

Inabalável pena a do copista desafiando a arte
do escriba com lentos sulcos de um escopro vincados
no Livro, corpo e universo pulsando códigos antigos
numa viagem de frente e de verso mapeando
a expansão cava que define a linha o sulco em espiral de um lugar
onde amanhecem todos os que em trânsito chegaram
partem, regressam. 

Homens e mulheres, bebendo das fontes sagradas,
inscrevem a voz e o silêncio em vincos de um sabor
para além do tempo.  

Gisela Gracias Ramos Rosa
Versão Maio 2021 para um poema de 2018. 


"Más que la belleza son las manos alzadas
que incendian el pecho, que susurran
todo el misterio, único, contrito,
que apunta ardientemente hacia la luz.
(...)”
António Salvado, em La Hora Sagrada, p. 116

Universidad de Salamanca, el perenne manto del tiempo

De lugares lejanos llegan manos anónimas
tejen el manto perenne del tiempo, tocan la piedra
de sabores escondidos entre los dedos
esculpen con instrumentos antiguos la búsqueda, la imagen del Grial. 

Territorio sagrado, lentamente tejido por símbolos
ancestrales, donde las voces resurgen intensas
transformándose entre el silencio profundo y la rueda de molino
madurada de pensamiento en lenta floración. 

Pluma inquebrantable ladel copista que desafía el arte
del escriba con lentas incisiones por el cincel marcadas
en el Libro, cuerpo y universo pulsando códigos antiguos
en un viaje de ida y vuelta, cartografiando
la honda expansión que define la línea o el surco espiral de un lugar
donde amanecen todos los que en tránsito llegan, se van o regresan. 

Hombres y mujeres, bebiendo de manantiales sagrados,
inscriben voz y silencio en los pliegues de un sabor
más allá del tiempo.
 

Gisela Gracias Ramos Rosa
Versión de mayo de 2021 para un poema de 2018. 

Traducción al castellano por SAL y Pedro S. Sanz.

BIBLIOGRAFIA
R. Cagiano (2019). O Corpo como reverberação do eu lírico. Revista Caliban. [link]

Nota Biográfica:
Poeta, (1964, Maputo), com formação em Relações Internacionais, Mestre em Relações Interculturais e pós-graduada em Migrações Etnicidade e Racismo. Profissionalmente foi perita forense durante de trés décadas. Publicou os seguintes livros Vasos Comunicantes, Diálogo poético com António Ramos Rosa (2006, ed. Labirinto), reeditado em 2017 (Poética edições) em formato bilingue português/espanhol; tradução das manhãs (2013, Lua de Marfim) vencedor do Prémio Glória de Sant´Anna 2014; as palavras mais simples, (2014 Poética edições); O livro das mãos (2017, Coisas de Ler 1ª edição e 2º edição 2018; 3º edição no Brasil, editora Moinhos 2019) vencedor do Prémio Glória de Sant´Anna 2018 e nomeado na lista de semifinalistas do Prémio Oceanos; A pedra e o corpo (2018,Poética edições).


Poemas ibéricos (6) PEDRO S. SANZ

Pedro S. Sanz (Sevilha, 1970). É licenciado em Filologia Inglesa pela Universidade de Sevilha. Desde os seus anos de universidade que tem um gosto viciante pela tradução. Actualmente vive em Jerez de la Frontera, onde trabalha como professor. Publicou vários livros de poesia, incluindo La templanza y otros georemas (2013), Abisales (2015) e Razón de las islas (2017). A sua última colecção de poemas, Refugio en el vuelo, foi publicada em 2019 pela Chamán Editora. Recebeu alguns prémios literários tanto pela sua narrativa, Platero International Short Story Prize (ONU), na sua poesia há uma tentativa cuidadosa de encontrar um equilíbrio entre o lírico, a narrativa e o conceptual, entendendo o poema como um instrumento de investigação sobre o ser perante o mundo, uma testemunha do que acontece, sobre o ser no mundo, como uma engrenagem do mesmo, e sobre o processo da própria criação poética. Este autor irá colaborar comigo em sucessivas traduções do português para o espanhol.

DEL OTRO LADO

1
Bajo los tejados orantes del mercado, las conversaciones, susurradas, rebotan contra los ladrillos rojos y despiertan en ti un leve rubor, temblor que evoca un pasado inexistente, en el que nunca fuiste, y un futuro que será más deseo que sangre y tacto. Este presente, sin embargo, reverbera con la misma solidez que la densa luz que golpea en el mar.

2
De un lado y de otro lado, de cualquier lado, río u océano mediante, el dolor siempre llega en forma de letanía silenciosa.

3
¿Será la gaviota un ser fuera del tiempo, criatura angelical que con su voz, grito, oración o advertencia, nos convoca? La gaviota que, tierra adentro, sobrevuela la ciudad ¿nos vigila, nos protege? ¿es sólo plumas, carcasa, pico, vuelo? ¿es arcángel que nos recuerda, en una lengua primigenia, que pertenecemos al agua, primera cuna, que somos onda, abismo insondable?

4
Las islas no gustan del Verano. El sol no es amable, reseca su piel antigua. Se acercan barcos, sueltan su carga de cuerpos, que se solazan con ellas como si fueran juguetes de la naturaleza, de un sólo día ¿Dejarán huellas indelebles, ellos en ellas, ellas en ellos? Sin duda el mar lamerá sus heridas. Las islas no gustan del Verano. Ahora que está por llegar el invierno, una cortina de niebla esconde sus cuerpos de sirenas varadas. Mis ojos las llaman desde la orilla ¿Dónde? ¿Dónde os ocultáis? Y en el eco parece venir un canto desvaído, unas notas musicales enredadas en jirones de niebla: ¡Do-La-Do-De-Lá! ¡Do-La-Do-De-Lá! Al otro lado, siempre al otro lado. Las islas no gustan del Verano, prefieren su fresco mutismo de gigante sumergido
.

Olhão, otoño 2019


DO OUTRO LADO

1
Sob os telhados orantes do mercado, as conversas, murmuradas, chocam contra os tijolos vermelhos e despertam em ti um ligeiro rubor, um tremor que evoca um inexistente passado, no que jamais foste, e um futuro que será mais desejo do que sangue e toque. No entanto, este presente, reverbera com a mesma solidez que a luz densa que atinge o mar.

2
De um lado e do outro, de qualquer lado, rio ou oceano no meio, a dor chega sempre sob a forma de uma silenciosa ladainha.

3
Será a gaivota um ser fora do tempo, uma angelical criatura que com a sua voz, grito, oração ou aviso, nos convoca? A gaivota que terra dentro, a cidade sobrevoa, nos vigia, nos protege? é tão só penas, carcaça, bico, voo? é um arcanjo que nos lembra, numa primogénita linguagem, que pertencemos à água, primeiro berço, que somos onda, insondável abismo?

4
As ilhas não gostam do Verão. Não é dócil o sol, seca a sua pele anciã. Aproximam-se os barcos, descarregam a sua tripulação de corpos, que com elas confortam-se como se fossem brinquedos da natureza, de somente um dia. Deixarão indeléveis pegadas, eles nelas, elas neles? Por certo o mar lamberá as suas feridas. As ilhas não gostam do Verão. Agora que o Inverno se anuncia, uma cortina de nevoeiro esconde os seus corpos de sereias encalhadas. Os meus olhos chamam-lhes da costa. Onde? Onde as escondeis? E no eco parece vir uma desbotada canção, umas quantas notas musicais enleadas em farrapos de neblina: Do-La-Do-De-Lá! Do-La-Do-De-Lá! Do outro lado, sempre do outro lado. As ilhas não gostam do Verão, preferem o arrefecido mutismo de gigante submerso.

Olhão, Outono de 2019
Tradução para português de Manuel Neto dos Santos
Web de autor: https://pedrossanzurdo.wixsite.com/escritor


Poemas ibéricos (5) ANTÓNIO RAMOS ROSA

Mucho se ha escrito sobre la poesía de António Ramos Rosa (ARR) y se escribirá en el futuro. En el poema que presentamos hoy, traducido por Ángel Campos Pámpano (ACP), el poeta utiliza la écfrasis para (d)escribir la figura central del lienzo de Magritte Le domaine echante (VI). La poesía y la pintura utilizan dos lenguajes diferentes, pero pueden complementarse y a la vez enriquecerse. Además de interesarse por el arte, el poeta desarrolló una importante labor de traducción de poetas franceses e hispano-americanos: Octavio Paz (México),  Alejandro Aguirre (Ecuador), Rodolfo Alonso (Argentina), Mario Benedetti (Uruguay), Alfredo Silva Estrada (Venezuela), Nicolás Guillén (Cuba), Vicente Huidobro (Chile), Roberto Juárroz (Argentina), Ulalume González de León (México), Eugenio Montejo (Venezuela), César Moro (Peru), Olga Orozco (Argentina), César Vallejo (Perú) y entre los españoles a Jorge Guillén, Pedro Salinas, Tomás Segovia, Juan Eduardo Cirlot y Carlos Edmundo de Ory. Esta labor seguramente le hizo permeable a la lengua española, así como él influenció a otros poetas españoles como ACP. En la poesía de ACP vemos características de la poesía de ARR, como las elipsis que comienzan con un complemento circunstancial o el uso de la voz de la segunda persona del singular para referir una anécdota personal del pasado (Véase Pérez Parejo, 2012).

LE DOMAINE ENCHANTÉ (1980)
(PROPOSIÇÕES SOBRE LE DOMAINE ENCHANTÉ DE MAGRITTE)

António Ramos Rosa 

O que nos diz a imagem? Diz-nos o que é e não o diz.
Porque não é uma
palavra. Antes um silêncio,
uma ausência, um vazio.
O seu sentido é uma promessa de sentido
ou o silêncio do sentido que respira e transparece
Ausência na presença plena
Cintilação silenciosa e fixa de um olhar sem fim
Um olhar vazio de tudo — que vê e não vê
e só
porque é cego.
Tudo nele é visão, mas a visão vê tudo. 

Um signo que aponta a uma infinidade de sentidos
ou o sentido é infinito. Um sentido impossível.
Este é o aspecto incessante do signo,
o seu vazio e a sua vida,
todos os signos de um signo
de um incessante signo. 

O olhar vazio é visão de um puro espaço
onde tudo é exterior e ao mesmo tempo
íntimo
Todo o interior é nele o puro olhar do exterior
e a profundidade infinita do olhar silencioso. 

Tudo o que ele vê a partir do puro espaço
o horizonte que está em si e à sua frente
e vem de dentro, do íntimo exterior,
e é todo ele olhar em si
a pura exterioridade de si mesmo
que ao abrir-se fecha-se e para dentro se abre. 

Mas este olhar vazio
é ainda mais exterior do que qualquer olhar
porque reflecte à superfície todo o exterior
o puro exterior a partir do qual nos olha
e em si mesmo vê
numa esfera
em que a visão é presença fascinante
do que não vemos,
a ausência do que ela vê
— o tudo e o nada da visão,
a vacuidade do próprio acto de ver. 

Ela olha... Não. Não olha. Vê.
Não vê. Olha.
Olha o vazio, o vazio do centro.
E ela vê.
Mas quando vê
deixa de ver: olha
apenas.
Porque a visão suspende-se
ante o vazio do centro. 

Ela não pode ver-nos. Ela olha-nos.
Olhemo-la.
Olhemos os seus olhos, o seu olhar.
Não vemos, olhamos apenas.
Estes olhos não se vêem.
Como não se vê a luz vazia,
a luz do imo,
o fundo sem fundo do próprio fundo. 

Mas podemos olhá-la
porque olhar é deixar-se fascinar
e o que olhamos é a fascinação do vazio
sem fundo algum.
 

Mas o seu rosto reflecte a harmonia
do seu fundo sem fundo com a superfície pura
O seu rosto fala do silêncio
que é o silêncio da sua beleza.
E a discreta plenitude deste rosto
revela-nos
que o puro espaço inacessível
é também a pura presença da terra,
a misteriosa transparência de cada ser,
a plenitude de uma semelhança. 

Este rosto reconhece-nos
porque é a própria semelhança
Esta semelhança reúne-nos,
reconcilia-nos connosco
é o nosso coração reencontrado. 

Este rosto aceita-nos no seu silêncio
na sua distância próxima.
É um sorriso de uma serena plenitude,
um sorriso de aceitação e amor,
uma amizade no mistério do ser. 

Este rosto atrai-nos para uma distância
uma longínqua proximidade
ponderação da nossa transparência
porque nela nós estamos presentes
através de uma contemplação
que recusa olhar o que não deve ser visto
que atravessa o visível para ver. 

Ela vê o que se oculta no visível,
o único, o ser,
o centro onde não estamos
mas que talvez em nós amadureça
que o seu olhar faz amadurecer. 

Não a vemos. Olhamo-la.
E é todo o seu corpo que nos olha
que não cessa de nos olhar.
Vemos o seu corpo
Mas é antes o seu corpo que nos olha. 

O seu corpo é palavra e silêncio da palavra. 

A palavra-silêncio do seu corpo
entra no íntimo de nós
onde recolhe o sonho de viver
que só pode revelar-se numa infinita
contemplação
que não pode deter-se em nenhum sentido
porque é o incessante, o interminável sim do amor.
 

António Ramos RosaLe Domaine Enchanté (proposições sobre um fragmento de «Le Domaine Enchanté» de Magritte), Porto, O Oiro do Dia, 1980

René Magritte, Le Domaine Enchanté (VI), 1953

LE DOMAINE ENCHANTÉ
(Propuesta sobre un fragmento de le domaine enchanté de Magritte)

António Ramos Rosa

¿Qué nos dice la imagen? Nos dice lo que es y no lo dice.
Porque no es una palabra. Sino un silencio,
una ausencia, un vacío.
Su sentido es una promesa de sentido
o el silencio del sentido que respira y se transparenta.
Ausencia en la presencia plena,
titilación silenciosa y fija de una mirada sin fin.
Una mirada vacía de todo: que ve y no ve
y sólo ve porque es ciega.
Todo en ella es visión, más la visión lo ve todo.

Un signo que apunta a una infinidad de sentidos
o el sentido es infinito. Un sentido imposible.
Este es el aspecto incesante del signo,
su vacío y su vida,
todos los signos de un signo,
de un incesante signo.

La mirada vacía es visión de un puro espacio
donde todo es exterior y al mismo tiempo íntimo.
Todo lo interno es en ella la pura mirada de lo exterior
Y la profundidad infinita de la mirada silenciosa.

Todo lo que en ella ve a partir del puro espacio,
el horizonte que está en ella y por delante
y viene de dentro, de lo íntimo exterior,
y es todo él mirada en sí,
la pura exterioridad de sí mismo
que al abrirse se cierra y hacia dentro se abre.

Pero esta mirada vacía
es aún más externa que cualquier mirada
porque refleja en la superficie todo el exterior
el puro exterior a partir del cual nos mira
y en sí mismo ve
en una esfera
donde la visión es presencia fascinante
de lo que no vemos,
la ausencia de lo que ella ve:
el todo y la nada de la visión,
la vacuidad del propio acto de ver.

Ella mira… No. No mira. Ve.
No ve. Mira.
ella es armonía azul del cielo
y la plenitud terrestre. El supremo equilibrio.
Pero ella no ve. Mira.
Mira el vacío, el vacío del centro.
Y ella ve.
Pero cuando ve
deja de ver: mira
sólo.
Porque la visión se suspende
ante el vacío del centro.

Ella no puede vernos. Ella nos mira.
Mirémosla.
Miremos sus ojos, su mirada
porque en ella nosotros estamos presentes
a través de una contemplación
que se niega a mirar lo que no debe ser visto,
que atraviesa lo visible para ver.

Ella ve lo que se oculta en lo visible.
lo único, el ser,
el centro donde no estamos,
pero que tal vez en nosotros madure,
que su mirada hace madurar.

No la vemos. La miramos.
Y es todo su cuerpo quien nos mira,
Quien no cesa de mirarnos.
Vemos su cuerpo.
Pero es ante su cuerpo quien nos mira.

Su cuerpo es palabra y silencio de la palabra.

La palabra-silencio de su cuerpo
entra en lo íntimo de nosotros
donde recoger el sueño de vivir
que sólo puede revelarse en una infinita
contemplación
que no puede detenerse en ningún sentido
porque es el incesante, el interminable sí del amor.

Versión de Ángel Campos Pámpano (Revista de Occidente)

Nota biográfica do poeta: http://antonioramosrosa.blogspot.com/p/biografia.html

Agradecimientos especiales a M. Filipe Ramos Rosa por la cesión de derechos y su amabilidad al requerimiento del firmante de esta rúbrica

BIBLIOGRAFIA:
PÉREZ PAREJO R. (2012). La influencia de la poesía portuguesa en la obra de Ángel Campos Pámpano: ejemplos y significación. Revista Tejuelo. Vol. 14:58-84.


Poemas ibéricos (4)
ALBANO MARTINS Y SAL

Albano Martins nasceu no Fundão, Beira Baixa, 1930 e morreu em Vila Nova de Gaia, 2018. Licenciado em Filologia Clássica, foi autor duma vasta obra poética, reunida em três volumes, com os seguintes títulos: Vocação do Silêncio (1990), Assim São as Algas (2000) e As Escarpas do Dia (2010). Além de poeta, foi também tradutor de poetas – gregos do período clássico, latinos, italianos, espanhóis e sul-americanos. Várias vezes premiado e condecorado, está traduzido em diversas línguas, incluindo o castelhano. Ontem, 6 junho, foi o terceiro aniversario de a morte do poeta. Dedico-lhe este poema como uma homenagem, pois teve a gentileza de participar da minha antologia poética "Alquimia do fogo" (Amargord, 2014) com dois poemas inéditos do livro O Nome da Cratera. Também me enviou uns poemas (carmina) de Catulo, traduzidos para português.

HOMENAJE / DIÁLOGO COM ALBANO MARTINS

¿QUÉ QUEDA cuando el fuego sólido de la carne

se apaga, Albano?

Pertenço a aquela geração de homens de água e fogo, que languesce nas sombras e nos incêndios. Evoco, entonces, las palabras que arden siempre bajo el techo del rocío. Sólo los versos que inflaman son poesía, como el fuego mueve el universo. Así nombro la alquimia del verbo con el yodo de los huesos, con la carne desnuda de los hombros.


HOMENAGEM / DIÁLOGO COM ALBANO MARTINS

O QUE FICA quando o fogo sólido da carne

extingue-se, Albano?

Pertenço a essa geração de homens de água e fogo, que languesce nas sombras e nos incêndios. Evoco, então, as palavras que ardem sempre sob o tecto de orvalho. Apenas os versos que inflamam são poesia, assim como o fogo é o motor do universo. Assim, nomeio a alquimia do verbo com o iodo dos ossos, com a carne nua dos ombros.

Inédito, SAL, 01-06-2021

Tradução por SAL, revisão por Maria do Sameiro (MSB)


Poemas ibéricos (3)
ANTONIO MACHADO Y VERGÍLIO ALBERTO VIEIRA

El poeta Vergílio Alberto Vieira (VAV) de Braga me envía este poema evocativo de António Machado y una traducción de poema XII del libro “soledades” (Obras completas). VAV tiene una extensa obra poética y ensayística. El poeta insiste en «que la traducción es una recreación en portugués, porque sería incapaz de sacrificar la belleza estética del original español».

POEMA XII DE SOLEDADES A. MACHADO

     Amada, el aura dice
tu pura veste blanca...
No te verán mis ojos;
¡mi corazón te aguarda!

     El aura me ha traído
tu nombre en la mañana;
el eco de tus pasos
repite la montaña...
No te verán mis ojos;
¡mi corazón te aguarda!

     En las sombrías torres
repican las campanas...
No te verán mis ojos;
¡mi corazón te aguarda!

     Los golpes del martillo
dicen la negra caja;
y el sitio de la fosa,
los golpes de la azada...
No te verán mis ojos;
¡mi corazón te aguarda!

    Perpassa, amor, no enlevo
da branca veste pura...
Já se apagam meus olhos;
atende-a, coração!

     O vento balbucia
teu nome pela manhã;
os passos do que foste
alongam a montanha...
Já se apagam meus olhos;
atende-a, coração!

     Por anoitecidas torres
rejubilam os sinos...
Já se apagam meus olhos;
atende-a, coração!

     Os golpes do macete
cortejam o caixão;
e o sítio do coval,
a fúria das enxadas...
Já se apagam meus olhos;
atende-a, coração!


ANTÓNIO MACHADO

(Lendo o poeta pelo Ervedelo)
Vergílio Alberto Vieira

Agora que a solidão
Busca na terra o que outra natureza
Contra a lonjura deixou
Perdido pelos Campos de Castilla
E a luz ácida do exílio
Afeita ao mar
Converte em sonho
A procurada Ítaca de outrora
Anónimo trágico perfeito
Da ausência regressado ao mundo volta
O rosto do que nas mãos
Fixando as linhas do destino
A incerta pátria vive
Antes da aurora

ANTÓNIO MACHADO

(Leyendo al poeta por Ervedelo)
Vergílio Alberto Vieira

Ahora que la soledad
Busca en la tierra lo que otra naturaleza
dejó contra la lejanía
Perdido por los campos de Castilla
Y la luz acre del exilio
Afecta al mar
Convierte en sueño
La codiciada Ítaca de antaño
Perfecto trágico anónimo
De la ausencia regresado al mundo vuelve
El rostro que en las manos
Fija las líneas de destino
La incierta patria vive
Antes del alba.

Traduzido por SAL

VAV. (Amares, Braga, 1950)
.
Véase https://pt.wikipedia.org/wiki/Verg%C3%ADlio_Alberto_Vieira 

 


Poemas ibéricos (2) ANTONIO ORIHUELA

Antonio Orihuela (Moguer, Huelva 1965). Poeta, profesor, doctor en Historia por la Universidad de Sevilla, arqueólogo del presente. Viene elaborando desde comienzos de los noventa un discurso crítico sobre la vida dañada y las resistencias en la sociedad tardocapitalista. Su poesía se caracteriza por su sencillez y lirismo de manera que llega al lector a pesar (o a favor) de su posición política evidente. Desde 1999, coordina los encuentros «Voces del extremo», extendidos por España y Francia, foro de la llamada poesía de la conciencia. Cuenta con una extensa obra, con más de sesenta libros publicados, entre poesía y narrativa experimental. Antonio envia dos poemas sobre dos ciudades portuguesas:

COIMBRA

El único lugar de Portugal donde aún suena
Grândola, Vila Morena
es en Beco da Carqueja.

Hace cuarenta y cinco años de aquel 25 de abril,
suficientes para que el fascismo
se haya comido todos los claveles.

COIMBRA

O único lugar em Portugal onde ainda soa
Grândola, Vila Morena
fica no Beco da Carqueja.

Há quarenta e cinco anos desse 25 de abril,
o suficiente para o fascismo
ter comido todos os cravos.

Tradução: SAL
Segundo o autor, este poema foi escrito quando descobriu, na rua citada, um azulejo dedicado a José Afonso (Zeca) ... onde viveu e compôs a famosa canção, o que significava e a situação atual em Portugal. Este poema foi escrito em 25 de abril de 2019, aniversário da revolução dos cravos.


OPORTO

Creo que fuimos felices allí.

Corazones de papel volaban por el azul
y oscuras golondrinas nos dijeron que volvían,
después de sesenta años,
sus cuerpos de cerámica vidriada
en las paredes de la taberna Aduela a colgar.

Creo que fuimos felices allí,
donde la vida repite en círculos, una y otra vez
los rostros de los jóvenes que somos
y no somos nosotros,
como esas piedritas blancas
bajo el olivo de la plaza
que están allí sabiendo que no es ese su lugar
aunque sí su blancura, o esas personas
que andan por las fachadas de Via Catarina
para recordarnos la escasa distancia que hay
entre la realidad y los sueños.

Cuánta confianza había en los años treinta
en este Portugal futurista de gasolineras y garajes
que aún vivía en la rua de Cimo Vila
y se reflejaba mucho más real
en los azulejos del hospital de la Caridad.

Bajamos por Chá hasta una cabina roja
desde la que me llamaste.

Siempre me estás llamando.
Un día, cuando no pueda más
o un día que lo pueda todo,
prometo descolgar ese teléfono,
abrir un vano en la ventana tapiada de Terreiro da Sé,
porque la pasión siempre se encuentra
a la vuelta de la esquina,
en un barco camino de Southampton
o en una flor amarilla de los tiempos
de los amores amarillos.

Creo que fuimos felices allí,
donde los Armazéns Cunhas coronan
tu foto con un pavo real
y el puente de Luis I se llena de turistas
para despedir el sol en su baile último
mientras tú pintas con tus ojos
la noche estrellada de la ribeira de Gaia.

Hay una cabina roja en Largo de Mompilher,
dentro, un mendigo acaricia su última moneda.

Amor, soy yo.

PORTO

Confesso quanto ali fôramos felizes.

Pelo azul voavam corações de papel
enquanto assombradas andorinhas nos diziam que estavam de volta
corações de papel esvoaçavam no azul,
seis décadas depois,
suas formazinhas de cerâmica vidrada
figuravam nas paredes da taberna Aduela.

Confesso que fôramos felizes lá
onde a vida uma vez, outra vez em círculos se repete
os jovens rostos que somos
não sendo nós,
composição de pedras brancas
sob a oliveira da praça
sabendo que aí estando não é esse o seu lugar
apesar da brancura, tal como os transeuntes
que deambulam pelas montras de Santa Catarina
recordando-nos quão pouca distância vai
da realidade aos sonhos.

Quanto se confiava nos anos trinta
nesse Portugal futurista de gasolineiras e garagens
que proliferava pelo Cimo de Vila
e muito mais dava nas vistas na azulejaria do Hospital da Caridade.

"Bajamos por Chá" até à vermelha cabine
donde me contactaste.

Não paras de me ligar.
Um dia, quando não puder aguentar mais
ou num dia em que tudo possa suportar
prometo atender esse telefone,
abrir um rombo na janela lavrada do Terreiro da Sé,
porque a paixão está sempre
ao dobrar da esquina, num barco rumo a Southampton
ou nessa flor amarela do tempo
dos amores desvanecidos.

Confesso quanto éramos felizes lá
onde os Armazéns Cunhas ornamentam
teu semblante com um pavão
e a Ponte D. Luís I se amotina de turistas
despedindo-se do sol em seu último bailado,
enquanto iluminas com teus olhos
a noite cintilante da Ribeira de Gaia.

Numa cabine vermelha do Largo Mompilher
um mendigo afaga sua última moeda.

Meu amor, sou eu.

Traduzido por VAV e SAL, maio 2021
Este poema é um passeio pela cidade, filtrado pelas minhas reflexões sobre a minha história pessoal e a história da cidade... (António Orihuela)
Blog do autor:
VOCES DEL EXTREMO


Poemas ibéricos (1)

Los mejores versos de la poesía hispánica se han dado cada vez que ha sido permeable a literaturas en otras lenguas. Baste mencionar a Machado con la poesía francesa y a Juan Ramón Jiménez, acendrado lector y transmisor de valores poéticos europeos, norteamericanos y asiáticos (Tagore). Lo mismo ocurre con la poesía lusófona desde Pessoa (léanse sus poemas ingleses) a Miguel Torga con la poesía española. En la obra de Miguel Torga, el tema de la patria portuguesa, su pueblo y su cultura es central pero también transciende las fronteras para ver la península ibérica como una sola tierra, ignorando la ancestral rivalidad entre portugueses y españoles. Entre los autores más relevantes de ambos lados de las fronteras podemos citar a Unamuno, Saramago (A Jangada de Pedra), José Bento y un largo etcétera.
En esta rúbrica mensual trataremos de establecer puentes, casamientos y buenos vientos a ambos lados de la frontera invitando a poetas portugueses que hablen de España y autores españoles que hablen de Portugal, sin olvidar cualquier manifestación literaria que concierna a la Iberia global en la que vivimos como buenos vecinos. Empezaremos esta sección con el poema Iberia de Miguel Torga traducido por el que suscribe:

IBÉRIA

Terra.
Quanto a palavra der, e nada mais.
Só assim a resume
Quem a contempla do mais alto cume,
Carregada de sol e de pinhais.

Terra-tumor-de-angústia de saber
Se o mar é fundo e ao fim deixa passar...
Uma antena da Europa a receber
A voz do longe que lhe quer falar...

Terra de pão e vinho
( A fome e a sede só virão depois,
Quando a espuma salgada for caminho
Onde um caminha desdobrado em dois).

Terra nua e tamanha
Que nela coube o Velho-Mundo e o Novo...
Que nela cabem Portugal e Espanha
E a loucura com asas do seu Povo.

 

Tierra.
Mientras llegue la palabra, y nada más.
Solo así la resume
Quien la contemple desde la cima más alta,
Cargado de sol y pinares.

Tierra-tumor-de-angustia de saber
si el mar es hondo y al final lo dejas ir...
Una antena de Europa para recibir
la voz que desde lejos quiere hablar ...

Tierra de pan y vino
(El hambre y la sed solo vendrán después,
cuando la espuma salada fuere camino
donde se camina desdoblado en dos).

Tierra desnuda e inmensa
en la que cupo el Viejo Mundo y el Nuevo ...
y también cabe Portugal y España
y la locura con alas de su Pueblo.

Os melhores versos da poesia hispânica têm-se dado cada vez que tem sido permeável a literaturas em outras línguas. Basta mencionar Machado com a poesia francesa e Juan Ramón Jiménez, fiel leitor e transmissor de valores poéticos europeus, norte-americanos e asiáticos (Tagore). O mesmo acontece com a poesia lusófona desde Pessoa (leiam seus poemas ingleses) até Miguel Torga com a poesia espanhola. Na obra de Miguel Torga, o tema da pátria portuguesa, seu povo e sua cultura é central, mas também transcende as fronteiras para ver a península ibérica como uma só terra, ignorando a antiga rivalidade entre portugueses e espanhóis. Entre os autores mais relevantes de ambos os lados das fronteiras podemos citar Unamuno, Saramago (A Jangada de Pedra), José Bento e um longo etc.
Nesta rubrica mensal tentaremos estabelecer pontes, casamentos e bons ventos de dois lados da fronteira convidando a poetas portugueses que falam / escrevem de Espanha e autores espanhóis que falem de Portugal, sem esquecer qualquer manifestação literária que diga respeito à Ibéria global em que vivemos como bons vizinhos. Começaremos esta secção com o poema Ibéria de Miguel Torga traduzido pelo que assina:

Santiago Aguaded Landero (nota biográfica)