José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

Alvorada I

A cigarra acordou na noite, estonteada e trémula, desdobrou nervosamente as asas, arrebitou as antenas relaxadas e começou a cantar, como se tivesse “pilhas novas” (ainda o galo estava no primeiro sono) uma inédita melodia que nunca cantara. À volta toda a natureza diurna, dormia à exceção dum grilo embriagado pelo calor e pelo odor que transpirava no tufo de ervas húmidas onde se acoitara, depois da última serenata...
Nos formigueiros silenciosos, apenas os guardas faziam, à paisana, a ronda discretamente ensonados. Da espessa folhagem das árvores circundantes podia ouvir-se o estrilho do ressonar suave da passarada stressada de mais uma jornada de mais umas voltinhas…
A noite ia alta, (estava mesmo lá em cima) a brisa espraiava-se suavemente sob as cricas nebuladas dos montes trazendo de vez em quando um sopro de frescura ao vale adormecido.
Voando para uma idosa pedra, jacente entre duas margaridas, a cigarra olhou desassombrada para a noite e desatou a cantar com uma tonalidade. Um timbre e uma altura de som como se tivesse a suportar-lhe a voz todos os microfones de feiras e concertos rock do mundo!!!
No céu as estrelas piscavam tremulamente a sua luz difusa espalhadas `há milénios no lençol da noite pareciam dormir um sono eterno.
Pouco a pouco, o canto frenético e contínuo da cigarra, aquela cigarra (sabe-se lá porquê?!) começou a ouvir-se em toda a terra. O primeiro a dar-se conta do acontecimento foi o grilo que esfregando os olhos, sacudiu a grila, que dormia ao lado e começou a cantar com ele, depois outras vozes – milhões de vozes – foram-se elevando no espaço, em espiral de olímpica! As cigarras acordaram os grilos, as abelhas mais distantes, entravam também naquele coral, banhado pela lua cheia, que despertara sorridente por detrás dum outeiro, as abelhas acordavam, os pássaros, os pássaros, os pequenos mamíferos, os pequenos repteis, os médios herbívoros, os grandes batráquios, os grandes batráquios os homens, as mulheres as crianças …cães e gatos! Todo o mundo acordou cantando, estrondosamente, sabe-se lá porque…
Até os ursos, que tinham um sono pesado e sepultado na neve, despertaram! Sob as pétalas adormecidas das pequeninas plantas caíam agora as últimas gotas de orvalho da noite quente e brilhante, que ia alimentar a terra ressequida. O orvalho não participou na epidemia orfeónica!
No diáfano véu celeste a aurora começava a despontar, terna e fresca, mas mais irisada e pendurada na atmosfera envolvente foi banhando tudo num trémulo pincelar de miríades de cores; o canto agora era mais firme, cheio dos estranhos requebros – quase que se via! O horizonte de lés a lés era um banho infinito de luz e som. Tudo era êxtase. Era a nova canção da madrugada, o grato reconhecimento da natureza ao pai solar que acabava de aparecer; maciço, que também ele estremunhou cintilante espalhou o olhar em redor e deu início ao dia, numa outra encarnação!
Um novo paradigma abraçou de novo a terra, o grande rei, senhor da natureza compensava a frescura do sono da noite, com o calor dos seus dardos alegres, brilhantes e rebrilhantes de amor e harmonia.
Só formigas, essas trabalhadoras compulsivas, e obsessivamente stressadas, amigas de dias de 48 horas e odiosas de férias, misteriosamente, naquele dia continuavam a dormir…
Há quem diga que o trabalho mata e foi a maior praga que Deus rogou à natureza!
Era tempo de “cigarras” … a Natureza entrava definitivamente de férias.
Naquele dia o Sol sabe-se lá porquê, acordou quadrado e vestido com várias cores…


MANIFESTO INCONDICIONAL

Vertical, mas curvilínea criatura, tu que taciturnamente arrastas o teu espectro entre as sombras do quotidiano...
Tu que obliquamente mendigas o gesto magnânimo das tuas crenças.
Tu que teimosamente insistes em arrastar contigo um amontoado de capas, fardas e andrajos...
DESPE-TE! — A tua nudez é a tua liberdade.
Arranca as tuas armaduras ressequidas e deixa que a carne (tu próprio) que maltratas, seja invadida pelo pulsar da VIDA ! 

CIDADÃO DO MUNDO !
RESSUSCITA!
a NOVA ERA CHEGOU!
O HOMEM SERÁ FINALMENTE IGUAL
SI PRÓPRIO — ESCRAVO E SENHOR!
A MULHER DEIXARA DE SER A IMAGEM CÓMODA DO HOMEM !
A PALAVRA REGRESSERÁ AO GRITO!
O GESTO RENASCERÁ PERENE E VIÇOSO, NO QUOTIDIANO, LIBERTO E SENHOR DE SI, NESTE FLUIR ETERNO QUE É O PRESENTE!
PROPOMOS-TE A IMORTALIDADE EM VIDA
PROPOMOS-TE A DESTRUIÇÃO DO FANTASMA DO TEMPO !
DAMOS-TE O OUTRO LADO DA MORTE!
          NÓS SOMOS A ALEGRIA !!! 

AMIGO:
AMIGA:

Cidadão do Universo com estatuto de grandeza nunca visto:
Chegou a altura de te dizer quem somos.
Chegou a altura de te dizer onde estamos.
Chegou a altura de te dizer qual a terra prometida onde encontrarás a reencarnação das nossas palavras.
Chegou a altura de te convidar a Erguer!
Enlaça docemente aqueles que amas (se não sabes o que é o amor nós ensinamos-te) e vem ter connosco.
Se estás disponível vem, verás que não estás só (a solidão é um espantalho da tua consciência servil), verás que somos muitos, milhões, biliões num perpétuo abraço!
PODERÁS ENTÃO COMUNGAR NO NOSSO GESTO!
BEBER DO NOSSO VINHO!
COMPARTILHAR DA NOSSA ALEGRIA!
1, 2 e 3 DE MARÇO SERÁ O FIM DO TEU INVERNO E AS PORTAS ABERTAS PARA A PRIMAVERA DA VIDA!
NÓS NÃO TEMOS IDADE! SOMOS ATEMPORAIS! ! ! !
(velho e novo são para nós conceitos de museu)
NÓS NÃO TEMOS FRONTEIRAS! O MUNDO É PARA NÓS A NOSSA PÁTRIA!
NÓS NÃO TEMOS IDEOLOGIA! SOMOS A CONSCIÊNCIA UNIVERSAL DE NÓS PRÓPRIOS!
NÃO DAMOS, NEM PEDIMOS! COMPARTILHAMOS!
ENCONTRARÁS FINALMENTE O PARAÍSO!
A SEIVA DA VIDA: A ALEGRIA!

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NOS SOMOS
OS ARAUTOS DA FOLIA


OS LADRÕES SOLARES

Quando vim para o Algarve, há muitos anos, o Sol era ainda uma bênção democrática dos céus, que entrava casas adentro, ricas ou pobres, tudo inundando com a sua bênção purificadora de luz e calor.
O Algarve era (e ainda é, sobretudo no interior profundo) um paraíso soalheiro para os que cá vivem ou para aqui vêm, na demanda de sossego e da suave luminosidade mediterrânica destas terras de Santa Maria…

Foi o meu caso, quando aqui cheguei (quase de fraldas) em 1948, com os meus pais.
Desde então, até me fixar no sítio onde hoje moro, percorri uma boa dezena de casas térreas - desde a Senhora da Saúde até ao Largo da Sé, em Faro.
Outro dia, recordando, entre amigos, este itinerário de vivências, dei comigo a perguntar para onde foi o Sol que todas aquelas casas desfrutavam, então, a maior parte do dia! Algumas delas ainda existem, contudo ensombradas, perdidas ao fundo de saguões bafientos e salubres, servindo, muitas vezes, de vazadouros de ocasião para muitos daqueles que moram num qualquer mamarracho de 30 ou 40 metros de altura.
Hoje, teimam ainda em subsistir por este Algarve fora, algumas destas antigas vivendas urbanas emparedadas entre silenciosos e sombrios abismos de betão!
Uma coisa, porém, é certa, estão roubando, por todo o lado, o Sol aos algarvios sem qualquer compensação, pedido de desculpa, ou mais-valia - quiçá brindando-nos, por vezes com tímidos espaços verdes: - ou quando o rei faz anos (o que já não acontece há muito tempo) ou o mais certo, em períodos eleitorais, entre um punhado de boas intenções! É sempre esta a forma airosa com que os nossos "politicamente corretos" representantes nos têm tratado!
Já chega de montanhas de calhaus de cimento que nos derramam, permanentemente, sobre as cabeças, talvez para nos obrigarem, qual foto tropismo, a crescermos cada vez mais, para procurar um Sol cada vez mais alto e que, em tempos, nos vinha "comer à mão"!
Estão roubando o pouco Sol que teima ainda em brincar nos últimos telhados do vermelho citadino do Algarve.
Quase todas as cidades da orla algarvia vão-se apagando no seu traçado antigo
E assim, por todo o lado se vai destruído, ou procurado destruir uma Arquitetura Popular Urbana. Onde platibandas terraços, varandas de ferro forjado, portas e janelas policromáticas e poli variadas, - em nome de projetos cada vez mais despersonalizados, de cimento e alumínio, por vezes de construção duvidosa, e vazios de Arte e de História que os caracterize e procure integrar minimamente!

Acusar quem, para quê? Não delapidamos nomes e, muito menos, consciências; também não somos os Juízes de Nuremberga!
Resta-nos a doce esperança de que há mais vida para além do cimento, e, "tal como a água mole em "argamassa dura"... Tantas fazem que mais ninguém os atura"…Por outro lado, estão chegando as gerações de edis, do terceiro milénio; são já certamente muitos dos nossos filhos, cansados de "políticos pimba", com ideias novas, ecológicas, sustentáveis, humanizadas...
A raiva dos espezinhados de hoje - vítimas do "progresso" - descerá então à rua, trazendo, nos dentes e nos olhos, o gesto vingador das águas correntes para lavar a valeta e o que resta das estátuas de sal que hoje esterilizam o nosso quotidiano de secura e desalento e ainda havemos de voltar a petiscar na nossa rua com o alegre chilreado das crianças que na minha infância enchiam as noites de verão…
O tempo dos "cangalheiros de cidades" está chegando ao fim!
As cidades latrina, de hoje, falam por si! E há tantas em Portugal, meu Deus!
Acreditamos, piamente, que muitos dos novos autarcas trazem já consigo aquele punhado de sonhos que nenhuma tecnocracia, ou lucro furibundo, irá fazer destruir.
Mal de nós se, um dia, deixarmos de acreditar no Homens e nos seus Profetas!
Vêm aí as Cidades de Luz!

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Finalizo, enviando daqui o meu singelo abraço de gratidão (que creio será também o da maioria dos algarvios esclarecidos e amantes da sua terra) à Nobre Cidade de Tavira (talvez a única cidade do Algarve que tem sabido, com elegância e dignidade, crescer sem ter perdido a Alma), extensivo a todos os seus autarcas, aqui, "rosas" ou "laranjas" tanto faz, desde que os tenham tido no sítio, quando precisaram! Bem hajam!
Até ver são um bom exemplo para os urbanistas do 5º. Império, como diria Pessoa. 


“MOÇAMBIQUE”
(A síndroma do medo)

Nem toda a gente a conhece! -  A TRAGÉDIA PÁTRIA!
Como descrevê-la?
Como preveni-la?
Como enfrentá-la?
Cruel, gélida, fulminante e “negra” como a pele dos que por vezes ataca!
Outras vezes será “branca” e lívida porque é esse o tom com que amortalha os rostos sem fim que vai ceifando!
As suas vítimas não têm nome, nem cor nem credo... perdem-se nas encruzilhadas do tempo, nos labirintos do mundo, nos abismos da memória.
A tragédia “serve-se fria!
Ora aqui, ora ali, quem sobrevive só vive, quando "vive", da generosidade humana e da presença de mil fantasmas - Outras vezes ceifa tudo...e tudo terá de recomeçar, mas certamente diferente, com outros, porque ninguém, nem nada, se repete.
Agora foi (e continua a ser) Moçambique um país mártir por excelência: e tudo a água levou e agora tudo, o ódio e a loucura dos homens querem levar! Causa terror, e carnificinas por isso chamam-lhe terrorismo, mas é infinitamente mais: é o caos que nos habita desde sempre, paralelamente com um “cosmos” que teima em existir…
Gentes, casas, lavouras e o que resta, tudo a água levou, desbaratado, dispersando, afogado, numa mistura de lama e sangue  de milhares de inocentes…
E nós o que faríamos na pele desses milhões de moçambicanos? Deus não nos basta nestas alturas e, normalmente, só se faz representar, por aqueles que O têm – com ou sem nome – no coração, pelo sentimento da compaixão, da solidariedade, da empatia da verdadeira religião: o sentimento de pertencermos a um todo.
Este apelo é para si amigo(a) leitor(a), que talvez nem sequer sonhe, e ainda bem, o que é perder tudo, mas mesmo tudo, e ficar sem nada, como quando se cai no mundo, sem pai nem mãe, mas com mais dor à mistura!
Como sempre o homem continua a sofrer…  é a sua condição… e a generosidade é ainda uma das muitas virtudes que nos distingue do que resta da horda selvagem que nos habitou desde sempre e isso faz de nós seres “empáticos” o que nos faz sentir na pele a dor dos outros como se fosse a nossa.
Dizem-me alguns, muitos, (demasiados) para ser tranquilizador:
- O Estado que pague!
- O Estado que faça!
- O Estado que dê!
A ONU que trate do assunto!

Também já pensei assim, quando atirava as culpas dos meus males para os outros e nada melhor que o “estado” (entidade pai) para bode expiatório da nossa falta de iniciativa, generosidade, de coragem, de capacidade de entrega e de amor!
Eu, pessoalmente, gosto de dar, dou por mim, o que posso, muitas vezes, quando posso, e sinto-me sempre mais rico! E, até hoje, ainda nada me faltou por ter dado, por dar!
Quanto ao Estado:  que dê por ele, quando puder ou quando quiser... também ele é “feito” de fragmentos da consciência colectiva, e aqueles que o constituem, como células que são, também não se devem escudar, impunemente, debaixo do seu transitório “estado de graça” e impunidade.
Amigos: Moçambique não pode esperar, hoje eles, amanhã nós, quem sabe!?
Não espere por amanhã, pois há sempre amanhãs que nunca chegarão!
Não deixe apagar a sua chama solidária!

HÁ MUITA GENTE BOA EM CAMPO A RECOLHER DONATIVOS:
INFORME-SE, MAIS UMA VEZ (AS QUE FOREM PRECISAS) VAMOS AJUDAR MOÇAMBIQUE!!!
 


“OS CANIBAIS”

Em tempos de pandemia

Inicio hoje uma nova série de “fábulas surrealistas” que penso levar a bom termo até ao princípio do fim, isto é ainda sou daqueles que acredita que um milénio tem mil anos!

E nada melhor, para descomprimir e compreender este conturbado período que antecede os Armajedões, as Pandemias, os Apocalipses e outros Endworlds afins, que um conjunto de minicrónicas surrealistas onde não deixará de estar presente a nossa pertinente “paranoia erótico crítica” (como diria S. Dalí) ... Tudo isto para o preparar condignamente para o acelerar deste percalço do milénio, (e sair da crise) pois, certamente, pode ter a grata certeza que o tempo não para e tudo cura…

E o caso não era para menos: D. Belinda Gomes, recentemente enviuvada, já tinha consultado, desde o desaparecimento do seu Prosápio, três otorrinos, um gastro, um úrico, um vidente, um naturopata, duas cartomantes, um osteopata, um quiroprático, um endireita, uma radiestesista e um guru tibetano da Guiné, que aparecera a habitar, há pouco tempo, ao fundo da sua rua... e, tudo isto, por causa de uns grandes calores que lhe começavam no baixo ventre e só paravam ao fundo da garganta, quando não chupava ardentemente duas ou três pedrinhas de gelo!

Os sintomas agravavam-se cada vez mais, surgindo, invariavelmente, lá para o sol poente e só aliviando por volta das duas da manhã, e sempre com aquele recurso que acidentalmente lhe surgiu, quando, uma noite sequiosa, se atirou a um grande copo de água, com as tais pedrinhas de gelo dentro.

Mas, com o tempo, aquela mezinha foi deixando de resultar e, aos calores de ontem, acrescentavam-se agora grandes tremores e maiores ardores que só finalizavam, após algumas convulsões em que não conseguia evitar um longo gemido (por vezes um ronco profundo) e um estranho revirar de olhos... e tudo isto com grande ansiedade e espalhafato à mistura!

Por vezes, fazia umas orações noturnas a São Cipriano, São Cosme e ao Anjo Rafael, o que normalmente acompanhava com alguns beijos fugazes e sentidos na urna onde dormiam "ad eterno" os restos mortais do seu ido Prosápio.

E, foi assim, entre preces e percalços que numa serena noite de verão, após três sentidas orações, duas ladainhas e um credo, que D. Belinda, ao tocar ardentemente no mini sarcófago do ex., sentiu uma súbita gula pelo macabro conteúdo daquele vaso funerário. Num gesto trémulo, lacrimejado, ululante, quase irrefletido e desfeito abre sofregamente o recipiente em alabastro rosa alcantilado, e, mergulhando o indicador esquerdo (D. Belinda era canhota) e suado naquelas pacatas cinzas, deixou que as mesmas se lhe colassem ao dedo e com os olhos semicerrados sorveu deliciada e cataléptica aquele insípido e inodoro pó, cinzento chumbo... E, oh milagre entre os milagres, como por encanto, os calores cessaram instantaneamente - o corpo estremeceu-lhe, numa longa convulsão nunca sentida até aí, o seu cansado espírito recolhe "a casa" e, no mais profundo recanto da sua atormentada alma, sentiu um alívio como também nunca tinha sentido na vida...e diga-se, também um estranho sentimento de culpa… mitigada. O torpor invadiu-a, irremediavelmente, e, pela primeira vez, dormiu a sono solto, como uma inocente donzela, dia a dentro...

O tempo passa! Escusado será dizer que, ao fim de meia dúzia de meses, D. Belinda tinha "devorado" por completo os sais miraculosos jacentes na mini urna de Prosápio (mais uma vítima do covid 19). Ela que odiara sempre aquela expressão do seu defunto, quando lhe sussurrava com ternura aos ouvidos, na intimidade da sua conjugal alcova - "Gosto tanto de te comer, Belinda!"… e que ela nunca o conseguiu desligar mentalmente, duma oculta tendência antropofágica… o seu Prosápio!

As azias, os arrepios e os calores desapareceram, bem como as cinzas que já não lhe aqueciam agora o irrequieto dedo indicador da mão direita!

Ouse dizer-se, no derradeiro folgo desta estória verídica, que D. Belinda, anteriormente frígida, descobrira, durante um curto espaço de tempo, o mitificado Orgasmo e Prosápio Gomes perdido no limbo dos "malcomidos" sentia-se finalmente vingado!!! Tenha sido totalmente devorado e sorvido, pela sua “ausente” esposa que ainda pairava neste virulento mundo do aquém…


“O APRENDIZ DE ALZHEIMER”

Fimósio Lopes olhou para trás deixando a perder de vista o velho vale florido donde partira há cerca de duas horas, a fazer a sua caminhada...

Sentia-se bem nos seus oitenta e quatro anos. Sempre tivera saúde e não se podia queixar da vida que sempre lhe fora grata — talvez por nunca ter sido demasiado exigente — pois, lá no fundo, a única coisa que lhe “doía” um pouco, era a sensação de ingratidão em relação aos filhos, que por vezes “esquecem” o que fazemos por eles e que após duas tentativas falhadas para o encurralar num lar, desses, tipo penitenciária, que há para aí aos milhares, acabaram por ter do aceitar em regime de internamento rotativo a “dividir por quatro”: assim, ao fim de cada quatro meses, descrevia ele, como dizia de brincadeira, o seu movimento de translação, pois as casas de cada filho eram um pouco como as quatro estação do ano…

A casa da filha mais velha, divorciada, com dois filhotes de onze e treze anos era a Primavera: Os miúdos ajudavam, a filha não o chateava muito e ele gostava de os ensinar naquilo que sabia...

Seguia-se o Verão, o filho mais velho continuava igual a si próprio, trabalhava que nem um Mouro de Fez, já tinha um filho com 22 anos e a nora era, uma choninhas que só pensava em trapos, seca que nem uma serapilheira a torrar ao sol, sem emoções, tal como a mãe dela, com quem já tivera alguns desaguisados e que passava as tardes lá em casa, a chatear tudo e todos desde que enviuvara, com a mania das doenças e a dar conselhos, a torto e a direito, a quem inadvertidamente passavam lá por casa…aquilo era um autêntico “pincel”…

Seguia-se o Outono: a casa da filha mais nova — acolhedora e embora tivesse bom ambiente raramente estava em casa, pois vivia a maior parte do tempo com o namorado no Barreiro, onde tinha uma gráfica, ao que consta com algum sucesso. Ela fazia-lhe todo o expediente, mas era tudo gente muito atarefada. Tinham um lindo bebé, o Diogo que ficava todos os dias no infantário.

Finalmente o Inverno a casa da outra filha a quem tinha dado uma boa maquia, para a compra do último carro, ia para três anos. Como paga, acedeu a tê-lo lá em casa de quatro em quatro meses... tudo isto uma pechincha, dizia ela!

Fimósio já andava por estas vidas ia para cinco anos — desde que a mulher, dez anos mais nova que ele, lhe deu na veneta e com os pés e foi viver para casa dum antigo gerente bancário, reformado. Um pulha qualquer que gastava a reforma toda na batota... Também não se perdeu nada, tenho para mim que ela andou para trás!

Mas começava a estar farto disto tudo, as conversas dos filhos não passavam dum chorrilho constante de futilidade vazias e aquela agressividade com que falavam com ele quando aparecia de malas aviadas e de que já há muito reparara, começava a chateá-lo... também as leituras que outrora adorava fazer, pois andava sempre com uma boa dúzia de livros às costas e a velha máquina fotográfica com que gostava de fixar os netos (a sua predileção) pouco ou nada lhe diziam agora, verdades de há trinta anos tinham ido todas por água abaixo, tudo mudava, e ele que sempre gostara de “verdades consistentes” assistiu ao longo de meio século como elas — as verdades de outrora — se esgueirava por entre ou dedos desfeitas qual torrão de areias movediças. No fundo ninguém continuava a saber nada de nada e o resto da informação que lhe chegava era aquela profusão de ladainhas abonecadas, em que a Internet dos seus tempos de moço, se transformara, pior que uma droga dourada de 24 quilates!

Com o tempo apetecia-lhe cada vez falar menos, e ia também se desligando de pequenos hábitos desnecessários que o caracterizaram, a vida inteira... adorava contemplar a vida e a sua delícia principal era absorver as benesses do quatro elementos que Deus lhe ofertara à nascença – a Terra, a Luz, a Água e o Ar… Aí bebia tudo o que precisava de mais puro e gratuito: as brisas, as sombras estivais, a frescura do mar, as promessas dos horizontes, os frutos doirados do sol… os filhos viam-no assim deste modo a “alhear-se” e começando a preocupar-se, acabaram por levá-lo a meia dúzia de médicos e o último remate dum grande sapiente veio entre os dentes, mas que ele conseguiu ouvir — É Alzheimer! Não há dúvidas! E quem seria eu para desconfiar daquela eminência parda, a que chamavam doutor?

No fundo deu-me uma imensa vontade de rir, aquelas preocupações, as outras, mais veladas, para saber a quem “o velho” iria deixar as massas, as casas, as meia dúzia de ações e uns quantos cacos de família, que se recusava a tirar da velha vivenda onde de vez em quando ia, pois o neto, que já tinha carta, levava-o lá à surdina, sem que ninguém soubesse, a não ser o outro neto mais crescido, que sempre o adoraram e trataram por avô, num tom, que ele, todo dado às músicas, não deixava de estremecer como se fosse a sua ausente mãe quando o embalava em criança com doces nanas de amor... sim, porque também ela depois endureceu e não era mais do que uma das muitas mães, sem tempo para nada, de tal modo o espelho, as amigas, e o conferir as cadernetas com o meu pai lhe assoberbavam o tempo!... Mas aquela “do Alzheimer” era demais... e que diabo: é que vinha mesmo a calhar, talvez agora com o estatuto de “parvoíce galopante” se pudesse começar a “vingar” em pequenas doses, (porque no fundo nunca fora rancoroso), das pulhices que as noras e os filhos de vez em quando lhe fossem fazendo e que ele não gostava… que diabo! Porque não merecia!!!

Uma vez foi dar um passeio pelos arredores, entreteve-se a falar com um velho colega de escola que caíra na mendicidade o que veio às quinhentas. Foi o fim do mundo, tiveram-no guardado cinco dias e cinco noites. Depois começou a fazer-se desentendido às conversas, sobretudo quando não lhe interessavam, ou então quando lhe perguntavam onde tinha o dinheiro, quanto tinha, quando fazia testamento... e que “merda” há mais de um ano que não sabia o que era um leite-creme que ele tanto adorava, não fossem os doces que lhe traziam os netos às escondidas e estava feito! Para eles nunca faltara a massa, aliás já tinha feito o testamento em nome dos três netos, às escondidas, e deixava uma velha casa a um amigo de infância, um pouco mais novo do que ele e que nunca dera meia para a caixa, sempre com a mania de era poeta e só tinha uma reforma de 250 euros, de quatro anos passados na guerra colonial donde veio meio passado! Merdas da “democracia” do nosso quotidiano!

Agora aquela do Alzheimer era demais: Começou a dizer o que pensava, a fazer o que gostava, inclusivamente um dia pregou uma lambada na nora mais velha que tinha a mania que era filha de gente fina, e andava há uns tempos a “ornamentar” o palerma do filho, esquecendo-se que sempre fora bem tratada e que viera para casa dele com uma mão à frente o outro atrás...quase que aposto que nem trouxera cuecas!

Quanto aos medicamentos que lhe davam, para “o Alzheimar”, metia-os debaixo da prótese palatal e quando ia à retrete: — Pia com eles!

No fundo de si próprio sentia-se bem, resistente, cheio de apetite e duma lucidez “maligna” ..., mas na frente dos filhos e doutros estranhos “cada vez mais tolo e esquecido” e agora aprendera a armar-se em surdo — era um sucesso, as coisas que ouvia!!!... E então se apareciam lá em casa dos filhos alguns dos pindéricos amigos que tinham a mania que eram “ingleses” — só dizia baboseiras, e de vez em quando até partia um copo! Uma vez peidou-se (estava a casa cheia de gente fina), foi o fim da macacada! Era um espectáculo; perdão: a doença!

Foi-se habituando “àquilo”, e lá por dentro, cada vez rejubilava mais nos seus 84 anos. Adorava passear com os três netos mais velhos, pelos campos ou quando iam de carro, a alguma petiscada clandestina. Por vezes vinha à noite, com os netos do meio para o jardim, e se estivesse só com eles perdia a seu ar de ché-ché, deixando no salão os filhos ou a fazer contas de cabeça aos seus dinheiro, e olhava então para o céu estrelada e ia dissertando para os netos embevecidos: Olha Catarina aquela estrela além brilhante é Siriús, uma estrela dupla... mais além vês, aquele “molhinho”, são as Pleiades, e falava depois sobre os “deuses” que andavam lá por cima, enquanto para os seus botões, ia revivendo a história maravilhosa dum velho de cabelos brancos, que descobrira a Totalidade da Vida e que uma bela noite de verão sob a penumbra doce duma latada... resolveu adormecer no Universo!


“VIROSES DE A-LETRIA”

A excessiva tolerância das democracias modernas veio expor à praça pública, de forma impressionantemente dramática, através da chamada comunicação social, as idiossincrasias mais vulneráveis dos cidadãos, que, apesar de deixarem aos tribunais, se necessário, a contestação das mesmas, quando para tal são instados, o certo é que cada vez mais expostos e esventrados os nossos comportamentos menos convencionais... arrastando, se “necessário”, famílias inteiras para a valeta sem o mínimo decoro, pudor e respeito pela dignidade da pessoa humana. A vida dos cidadãos, aqueles que mexem, está cada vez mais a saque, a começar pelos protagonistas da coisa pública…

Tudo isto deu já origem a uma epidémica psicose comportamental a que não é alheio um certo reacionarismo larvar, mal pensante e endógeno (de raiz judaico-cristã) onde a inveja é a “dama de espadas” de um certo tipo de imprensa, bem instalada, de sicários com craveira moral e profissional medíocre e devotada a escândalos fáceis de leitura tipo “cigana de sinas”, ou o “grande e horrível crime” dos folhetos de feira do antigamente.

Os orgãos de comunicação social, de vocação antropofágica, que se servem da intimidade dos cidadãos como fonte de sustento, prestam assim, conscientemente, um “óptimo serviço” aos sectores mais reacionários da nossa sociedade, por mais que se tentem decorar com ornamentos “intelectuais”, crónicas progressistas, falem elas em nome de quem falarem! Mal dos “média” que tem de estar sempre a “mexer nas fezes” ou na “libido” dos outros para comprarem e alimentarem as suas clientelas e fabricar assim os seus salários de miséria. Tudo Isto, temperado com um certo “jesuitismo” e não deixa de ser mais uma forma de prostituição, da má prostituição...

Concluindo; o “politicamente correto” institui-se e instalou-se, na sociedade “bem-pensante” de hoje, como forma de armadura caracterial, a partir da qual o branqueamento da existência, a liofilização da inteligência, o amesquinhamento do “corpo” e a construção de “consciências de cristal”, são um facto consumado!

Nem a Inquisição, no seu auge, faria melhor!

Não falta muito tempo para que, a “nossa” classe política tenha de usar “lavandas” ecológicas, cuecas biodegradáveis, fatos recicláveis, sapatos sintéticos, luvas e máscaras, falar português vernáculo ser perito em virologia e nada de preservativos, a não ser, está claro, a pele que Deus nos deu, (o biologicamente correcto)!!!

O resultado final, disto tudo, é que nos arriscamos a ter cada vez mais, com a nossa conivência, (fabricados por nós), dirigentes insípidos, castrados, recalcados, manhosos, corruptos, incompetentes e parasitas do voto fácil.

É preciso saber dizer não à má imprensa e pô-la no seu devido lugar! E ninguém melhor o pode fazer que os cidadãos, recusando-se e comprar pasquins. Ou os temos no sítio… ou estamos “quilhados”!

Tal como a cebola ou o alho-francês, revestimo-nos de sucessivos invólucros de perfeccionismo q.b., mascarando a nossa pseudocompetência, de ontem e hoje, para não nos expormos ao (mau) juízo público e concomitantemente assim, sentimo-nos não só protegidos, mas mais capazes de atacar nos outros as nossas próprias “fraquezas” recalcadas!

A “liberdade de imprensa” trouxe, ao de cima, este velho hábito do “cortar na casaca” (os fatos dos outros só são bons quando nos podem servir) e, se alguém tem o azar de subir na vida, só pode tê-lo feito: atropelando tudo e todos, com grandes padrinhos, (se é mulher deve ter certamente “passado por baixo” de muitos “chefes”) e quando se tem muito dinheiro: só pode ter sido roubado!!! É dos livros!

A malta gosta de escândalos e a má imprensa dá dinheiro! Quantos “triliões” não se faturaram à conta das “quecas” dos famosos – a maior parte artificialmente criados…

A intolerância, o ódio, o vazio, a militarização da vida civil, (onde prosperam os fundamentalismos mais exacerbados), a banalidade, o desamor, a raiva, o ódio e a solidão são alguns dos filhos bastardos da nossa viver de hoje!

Aproveitemos a PANDEMIA para refletir, para quando as portas do social e os abraços se abrirem de novo, estarmos mais precavidos contra aquilo que de mau fomos abrigados a mascar e mascarar…

Esta forma de canibalismo e de “roer em seco” o osso do alheio, vem de longe, de muito longe, (é tribal) e finalizamos parafraseando o velho profeta:

– “Se aparecer alguém a dizer que em Sodoma e Gomorra há dois justos, o mal dos céus não cairá sobre as nossas cabeças...” e o resultado está à vista: as estátuas de sal de ontem cristalizaram no acrílico de hoje, enquanto a louça das caldas está cada vez mais em baixa nas cotações do bolso! Ou será da bolsa!?

Resguardem-se e perdoem-me este desabafo virulento. q.b.


O PERU DE NATAL OU O NATAL DO PERU

INTRÉPIDO, VIVAZ…
DE CRISTA À BANDA,
APRUMADO NO GESTO,
SINCERO NO ANDAR,
DIZIA GLU,GLU, GLU
A TODO A GENTE, 
A AFORA ISSO
NINGUÉM O VIU VOTAR… 

JÁ FORA PAI DE TRÊS ÍNCLITAS NINHADAS
E À SUA COMPANHEIRA
SE ALGUÉM LHE PERGUNTAR
 VAI CERTAMENTE OUVIR,
 ENTRE DUAS BICADAS,
QUE O SEU PERU ERA O MÁIOR
DOS PERUS A GLUGLUSAR… 

VIVIAM NUMA QUINTA
NOS ARREDORES DA ALDEIA
COM OUTROS CAMARADAS,
 NA ARTE DE CANTAR…
JÁ TINHA MUITOS ANOS
E ENTRE MUITAS BICADAS
 ERA UM VETERANO ACÉRRIMO,
 DO PORTE, AO DESFILAR… 

APROXIMAVA-SE O NATAL
(DIZIAM OS HOMENS)…
DATA BOA PRÓS MENINOS
MAS MÁ PARA AS CAPOEIRAS.
POIS TODOS OS ANOS POR ALI HAVIA
FARTA MORTANDADE
E GRANDE CHINFRINEIRAS… 

JULGAVA A DIVINA AVE
POR VELHA E REFORMADA,
QUE NINGUÉM
 PARA A GUERRA DAS FORNALHAS
O IA ALI BUSCAR!
MAS PASME-SE BOM POVO
(A VIDA É TÃO MALVADA)
O ANO ERA DE CRISE
E A FOME DE PASMAR!... 

NAQUELA MANHÃ LEDA
DA SANTA MADRUGADA
(EM QUE O MENINO NASCEU
NUMA CAMA “PALHAR”)
O CASEIRO DA QUINTA
ALI O FOI BUSCAR! 

DESALINHADA, A PERUA (ESPOSA) GRASNAVA, SUFOCADA,
QUATRO PERUZINHOS ÓRFÃOS
IAM ALI FICAR
E MAIS CINCO OVINHOS,
NUM MONTE DE PALHINHAS, 

AGUARDAVAM OUTRO FIM:
A MÁ SORTE DE GORAR!

.......

NA COZINHA DO MONTE
UM VELHO PERU ESPERAVA,
DEPOIS DE EMBEBEDADO,
PARA SE TORNAR MANJAR.
E QUANDO ALGUÉM, PASME-SE,
A FACA LHE CHEGAVA:
OUVIU-SE UM LONGO UIVO…
A CHEGAR… A CHEGAR!

ERAM OS LOBOS DA SERRA,
 QUE POR ALI RONDAVAM…
(A FOME CHEGA A TODOS)
E NUM AR QUE LHE DEU,
PELA PORTA ESCANCARADA,
ENTRAVAM, SEIS, UIVANTES,
E AO QUINTEIRO, COITADO,
NEM A FACA VALEU!

O PERU “CHEIRAVA A VINHO”
(POIS ESTAVA EMBRIAGADO)
E OS LOBOS “ECOLÓGICOS” COMO NÃO BEBIAM
PASSARAM A SEU LADO, DESCUIDADOS, ENQUANTO DO QUINTEIRO
JÁ NEM RESTOS SE VIAM…

RECUPEROU O PERU DAQUELA CARRASPANA,
REGRESSOU PARA O LAR,

ONDE OS DOCES FILHINHOS:
O ENCHERAM DE GLU…GLUS.
E MIL BICADAS,
E O FOI ASSIM O NATAL
DESTES GRANDES
PASSARINHOS…


Estrelas para um natal confinado…

Pouco a pouco, as nuvens foram desaparecendo na inquieta e atormentada abóbada celeste. Sobre o véu enrugado das montanhas, a noite começava a desenhar as primeiras sombras róseas e aniladas.
Aqui e além, pequenos charcos atestavam a borrasca desencadeada momentos antes. A urze transpirava ainda sobre o peso da ventania espessa, que despenteara os montes.
Na estrada que conduzia à vila caminhavam apressadamente, pai e filho, temendo um novo desencadear dos elementos.
A noite estendia-se agora sobre a paisagem imensa e calma. Nos olhos grandes da criança começavam a reflectir-se as primeiras estrelas. Uma pergunta há muito formulada queimava-lhe a garganta. Porque não caíam as estrelas? Como seria bom correr para elas, apanhá-las e acariciá-las de encontro ao seu peito! Ah, se elas caíssem... iria nem que fosse à montanha grande, que fica no outro lado do lago... teria depois uma caixinha bonita para as guardar a todas, debaixo da sua almofada branca. Elas podiam cair, pois não lhe dissera o avozinho, que o menino Jesus tinha uma grande estrela?

Oh, pai, quando é que caem as estrela?
O homem olhou para a criança, embasbacado e perguntou:
Gostavas que elas caíssem?
Oh, sim, iria apanhar muitas para ter comigo!
Meu filho, mal de nós se as estrelas caíssem. Onde tu as vês, são pequeninas; mas se elas se aproximassem queimariam tudo, pois são grandes como o nosso sol e tão quentes que algumas delas, se estivessem onde ele está morreríamos. Todos.
Mas então não caem? – Perguntou a criança.
Não, meu filho; não caem!

Ah, como ele gostaria de ter uma estrela, nem que fosse a mais pequenina. Aquilo que o pai disse não podia ser verdade; as estrelas não eram grandes mas sim pequeninas e douradas como as via no céu e um dia arranjaria uma para lhe mostrar...
Após o jantar, a família reuniu-se em volta da TV olhando as notícias: A pandemia, a guerra no Oriente, o último lançamento, o boletim meteorológico, etc... A criança olhou para os pais e irmãos, esfregou os olhitos e silenciosamente afastou-se para junto dos seus brinquedos.
De novo as estrelas vieram à sua imaginação. Quantas caberiam na sua camioneta pequenina?...
Não! Os soldados eram feios, todos iguais, pequeninos e de chumbo cinzento. Gostava mais do palhaço; estava sempre a rir e tinha duas estrelas grandes no seu chapéu, duas estrelas,... Quando no céu elas eram tantas... E se ele pedisse ao Menino Jesus para lhe dar uma?... Pois não eram todas d’Ele?... Que lhe custaria ficar sem duas ou três?
Devagarinho, a criança caminhou para a porta. Queria ver as estrelas... Lá fora a brisa soprava; silenciosa, suave e embalando a copa negra das árvores. Uma frescura doce emanava da terra e além, no céu distante, as estrelas sorriam, sorriam sempre, pequeninas e palpitantes.
Dois olhos negros rasgavam as trevas opalinas do espaço e perdiam-se cobiçosos na distância.
As estrelas brilhavam... como eram lindas – murmurava o petiz, para consigo, e inadvertidamente estendeu os braços para elas, implorando... implorando.
– Vinde a mim, estrelinhas, vinde a mim!
A aragem soluçava melodias sobre a quietude da planície silenciosa. Além, distante, a coroa dourada da lua, ressuscitava do ventre de uma montanha.
– Vinde, estrelinhas, vinde brincar comigo...
Os seus olhitos começaram a embaciar-se, as estrelas tremiam no céu, eram agora muitas mais, e a sua garganta murmurava: – Vinde... só uma pequenina...aquela!
Tinha as mãozinhas rente ao peito e implorava – aquela!
Umas a uma, as estrelas foram-lhe caindo nas mãos plangentes, como pequeninas pérolas cristalinas. A lua sorria através delas num caleidoscópio multicolor e encantado.
Eram as suas primeiras lágrimas vazias...


Os caprichos duma flor

UM MENINO ENCONTROU  UM DIA
ESTRANHA FLOR NO SEU JARDIM
QUE NASCEU COM A MAGIA
DE TER UMA SINA ASSIM:
   

DE MÃO EM MÃO PELO MUNDO
ESTA FLOR VIAJOU.
MUITOS SÁBIOS A MIRARAM…
MUITAS SENTENÇAS ESCUTOU.
 

UM BOTÂNICO FAMOSO,
AO IR-LHE PARAR À MÃO,
TEVE NUM TOM PRESUNÇOSO
ESTA DOUTA OPINIÃO: 

OITO PETALAS ESTREITAS
NUMA COROLA ESTRANGULADA
AS CÉPALAS SÃO IMPERFEITAS
DO CÁLICE NÃO ESCORRE NADA… 

OS ESTAMES TRILOBADOS
ENCABEÇAM O ANDROCEU,
AS ANTERAS SÃO OVAIS
É RASGADO O GENECEU…  

VEIO ENTÃO UM MATEMÁTICO
E ESTA SENTENÇA RESOU,
AO OLHAR PARA A FLOR
LOGO O SÁBIO VOCIFEROU: 

A RAIZ QUADRADA ENCAIXA
LOGARÍTMOS DE MONTA
COM AS DERIVADAS DOS LADOS
NAS ABSISSAS DA PONTA 

FAZENDO O EXPOENCIAL
NUM PERFIL TRIGONOMÉTRICO
ACHAMOS QUE A INCÓGNITA
NÃO MEDE MAIS QUE UM METRO!…

HEIS UM FÍSICO FAMOSO
NOBEL DE GRANDE TALENTO
QUE AOS OUVINTES DISSE ISTO:
É UM COSMOS EM MOVIMENTO 

NOS PLANOS INCLINADOS,
QUE A GRAVIDADE CONTÉM,
EXISTEM VÓRTICES VAGOS
E UMA TRANSLAÇÃO TAMBÉM!
 

OS ATÓMOS TEM CARBONO,
E AS MOLÉCULAS COMPLEXAS,
NA TEORIA DAS CORDAS
SÃO UM UNIVERSO  ÀS AVESSAS…
 

E NÃO FICOU POR AQUI
A LINGUAGEM SAPIENTE
DAS DOUTAS PROEMINÊNCIAS
DESTE MUNDO INCONSEQUENTE
. 

TAMBÉM UM ARTISTA LOUCO,
NESTAS COISAS DO PINTAR,
VEIO ARMADO DE PINCÉIS
PARA A FLOR “RETRATAR” 

GASTOU O AZUL DA PRÚSSIA,
ACABOU O VERDE TURQUESA,
E COM O QUE SOBROU DO CARMIM
BORROU O TAMPO DA MESA… 

LOGO AO VIRAR DA ESQUINA
UM VIRTUOSO MAESTRO
DEDICOU-LHE TRÊS SONATAS
E UM MINUETO EM VERSO! 

OS VIOLINOS GEMERAM,
O PIANO ENLOUQUECEU,
QUATRO TROMBONES GEMERAM
E O BATERISTA MORREU. 

QUEM NÃO PODIA FALTAR
A ESTE ELENCO FAMOSO,
FOI UM POLÍTICO SÁBIO
QUE DISSE EM TOM DESDENHOSO: 

PELO CHEIRO É DE DIREITA,
NAS CORES, A ESQUERDA ESTÁ VISTA
CONTUDO VISTA DO CENTRO
PARECE-ME PLURALISTA. 

E EMBORA EM BOA VERDADE,
SEJA MINHA A OPINIÃO,
PARA A EXPLORARMOS A FUNDO
SÓ COM UMA COLIGAÇÃO.
 

E ENTRE NOTAS DE IMPRENSA
E ABRIR OS TELEJORNAIS
A FLOR GARRIDA ERA
MUITO? POUCO? E TUDO O MAIS?!
 

Jmho – in a dialéctica da simplicidade


A Flor Cinzenta

O pequeno insecto voou mais uma vez. No seu doce deambular ia colando nas patinhas reluzentes o pólen das mil folhas coloridas que encontrava na sua peregrinação.

De quando em vez quedava-se e saboreava docemente um pouco daquele pó dourado que só as flores mais coloridas têm. Para ele, no fundo, eram esses grãozinhos minúsculos a sua riqueza, os seus bens...

Por vezes rumava ao Sol para, deliciado, retemperar o calor a fim de evitar que o néctar das flores que transportava, solidificasse demais; outras vezes, quando o calor abrasava, temia que tudo se derretesse e mergulhava, por instantes, numa pequena gota de orvalho perdida algures numa folha esquecida nas sombras do caminho...

E assim foi que num belo dia, quando enlouquecido pela fragrância das flores do seu prado, reparou numa linda flor cinzenta que nunca tinha visto. Embevecido e trémulo, aproximou-se e apercebeu-se que aquela flor não tinha néctar, estava sequinha e triste semienrolada na sua solidão. Então, docemente, com as patinhas fervendo de amor depositou um pouco de cada grãozinho de néctar que transportava no seu bornal e que o Sol lhe oferecera.

Atrás do pólen ia também ficando o colorido das muitas flores que visitara em tempos e a pequenina flor cinzenta foi-se matizando de miríades de cores transformando-se na mais bonita flor daquele lugar enquanto o astro rei sorria…

O pequeno insecto olhou a sua obra e ziguezagueando, de novo no espaço, partiu alegremente à procura de mais flores cinzentas.

Distante, o Sol dourado da madrugada começava a iluminar o prado para mais um dia, e no meio daquele imenso mar florido uma pequenina flor sorria lançando ao céu a cintilação radiosa dum alegre arco-íris.

E tudo isto aconteceu num dia em que o teu olhar estava triste…


O GARANHÃO

(crónica virulenta duma tarde sonolenta de agosto no Alentejo profundo)

Só quem o viu naquele dia!

Largo e profundo, narinas tensas e erectas, olhos em sangue, semicerrados e aquele resfolgar trovejante que lhe fazia jorrar  a baba farta e espessa que lhe brincava nos beiços, como um aditivo catalisador ao anseio espermático  a ferver-lhe nas entranhas,  pronto a inundar o mundo e a reiniciar, assim, um novo capítulo do sempre eterno milagre da Criação!

A fêmea, doce e fecunda, preparara já nas suas entranhas, sem "sombra de pecado", os paramentos biológicos com que a vida a dotara e que haviam de receber aquela embaixada de amor a percorrer-lhe processionalmente, fremente e avassaladora, a antecâmara escaldante e por onde fluímos todos!

Tudo se passou, mais uma vez, numa sonolenta tarde de finais de agosto, na antiga ganadaria, algures perdida num dos muitos montes do agora bem tratado e sequioso Alentejo...

.....

Se alguém o visse, naquele dia, iria encontrá-lo mais uma vez desvairado e arquejante, olhando para o sexo, sem vida, de soslaio, como se alguma maldição lhe tivesse sido lançada – imagine-se a rogo de quem!?

Na aldeia, todos o apontavam à socapa, mas havia mais; muitos encharcavam-se, lá para o fim da tarde, com uma mistela que o taberneiro lhes impingia à guisa de vinho... de outros, dizia-se que o abade enfeitiçara as mulheres  com estranho sermões e "rezas do fim do mundo", o que é certo é que muitas se recusavam  já a cumprir "os deveres" com os  seus homens, tementes, quiçá da sida, do mafarrico mascarado de corona, se do cansaço de serem cobertas, uma vida inteira, como vacas e sempre, sempre, com aquela estranha sensação que estavam sendo agredidas por eles... por vezes, algumas choravam em silêncio. Depois, havia também, na terra,  funcionários... muitos deles a funcionar há mais de quarenta anos, naquela pasmaceira, sem horizontes que não fossem aquela imprecisa linha, ao fundo, que no rigor do verão desfocava o olhar e não fosse um ou outro estafado calendário com lindas mulheres nuas que lhes decoravam o fundo das gavetas das ressequidas  secretárias de pinho, e o jornal, dito desportivo que, depois de devorado na sanita do serviço, ainda servia para outras azáfamas.

Em casa era sempre a mesma coisa. Televisão aos berros ou celulares balbuciantes para esquecer o calor, muitos tiros, um roço permanente de corpos escaldantes e aquelas estafadas histórias de corrupção, todos os dias, a todas as horas,  como uma maldição,  de que todos falavam, dispunham e "faziam", enquanto diariamente  morria gente indefesa, virosa, e sempre sem  ninguém fazer a ponta dum corno a não ser o ódio dos beligerantes e a impotência dos circunspectos. Vergonhas!

Os albergas da Mitra continuavam vivos e recomendavam-se!...

Ah, mas as carnes... na tevê, fartas, cheirosas, sem pelos, tão lindas e limpas   que até por vezes parecia que os corpos cevados, de tanto delírio, espalhavam estranhos aromas por toda a casa e pátios de entradas deixavam, nas bocas ressequidas de tantas e tantas famílias, aquela estranha e perturbadora sensação que a "vida adiada" ainda não  tinha passado por eles... como se o que viam (virtual) fosse também vida!

....

Naquela tarde, a multidão estava ululante. Largos milhares de pessoas enchiam a velha praça de terra batida, mascarado a rigor, com os focinhos tapados com coloridos “açaimos” rodeada de tapumes, onde fora improvisado à pressa, um hipotético curro, quase a desmanchar-se por si próprio, à espera da hora decisiva.

Um silêncio de morte antecedeu, por milésimos de segundo, a entrada da "fera".

Destro, enraivecido, mas não louco, trepidante mas não senil, viril até ao tutano dos  ossos, com toda a sua dignidade de macho que lhe era possível assumir naquela tarde sinistra,  o touro  foi empurrado à pressa para a arena onde fedia, há muito, um cheiro pútrido a morte, mas não a dele, que os touros morrem de pé!

Mirou  em redor a massa hilariante que não lhe dizia absolutamente nada - por isso era genuinamente  uma  besta - onde nem sequer havia desprezo, depois foi a estrafega total, a luta bárbara, aos encontrões, desigual, desleal, os ferros traiçoeiros a rasgar-lhe as carnes suadas, o confronto sem motivo a que o sujeitavam, pois não lutava por nenhuma fêmea, e aquele chão coberto de pó, sem pastos, também não era o seu, e aquele berrar de fundo que o enlouquecia, avassalador, vindo das gargantas roucas que em seu redor não paravam de gritar: MATA! MATA! MATA! MATA!!!

Esquálido e cúmplice, o presumível "lidador", mais uma vez escondia, o ferro da morte debaixo da capa onde se amortalhara a poeira suja e babada da tarde.

A luta chegava ao fim, não seria mais uma vez leal:  Cornos com cornos, ou se quiser à mão! Pois assim mesmo é que devia ser, para ser nobre, embora continuasse a faltar ainda um motivo, de frente, sem ferros espetados e já sangrado com as forças desvanecidas, como fazem alguns forcados!

Herói? Aquele gajo? – Uma merda!!!

Depois, foi o fim, ou talvez, quem sabe, o princípio do fim!

Ferido de morte o animal, arquejou, barbaramente assassinado na praça pública, mas  não sem antes ter deixado de  limpar, como por desprezo, por  segundos o falo desencabrestado que sempre exibira durante a refrega, pelas calças borradas do heroico e  famoso toureiro, que, entretanto desaparecera,  como qualquer criminoso de segunda, depois  de perpetrado o crime!

Havia, na assistência, quem se sentisse intimamente vingado, pois o desgraçado bovino, ao fim e ao cabo, sem se aperceber, arrestara  na sua morte inglória, as frustrações odiosas de muitas "vacas" mal cobertas e de muitos "touros" do nosso vasto  sequeiro lusitano e provinciano, há muito com "os ferros"  em baixo e impróprios para as "lides"!...

Finalmente, oremos para que a curto prazo seja retomado, em Portugal, o ancestral e salutar culto do "BOI APIS"! Que melhor bênção nos podia calhar, entre outras, para despedida deste milénio dito "das luzes" e agora dos vírus?!

Entretanto, do outros pontos do planeta,  o  povo continua a ser abatido às "manadas", pois talvez seja também uma "tradição" que venha de longe - sim, porque estas coisas da morte podem tornar-se tradicionais e entrar para o "folclore";  ante a passividade de quem se habituou a comer índios ao pequeno almoço,  a brincar aos polícias e ladrões e a "participar" em Guerras, via tevê!.

Qualquer dia a guerra é considerada uma tradição folclórica…

Mas não pensem que sou puritano: adoro comer um bom bife – seja de vaca ou de boi...  sou, no entanto, daqueles que defendem que a morte, qualquer morte, deve ter recato, motivo natural e dignidade q.b.!


PESADELOS DUM MEXILHÃO MASOQUISTA

Todos conhecem esse heroico bivalve – preto por fora, vermelho por dentro, cabeleira fortemente enraizada na rocha madrasta que o viu nascer, crescer e findar-se - carnes musculosas rubicudas e casca dura que a agrura das marés, ao longo de milhões de anos de rebentação a cascar-lhe em cima, impiedosamente, foi moldando… tudo isto, sem que alguma vez lhe tenham dado o devido valor como manjar dos assim assim, dos filósofos das fábulas a beira rocha, quer dos artesãos do "bricolage ideológico", a não ser pela sua carga erótico-existencial: É sempre, sempre, desde que o mundo é mundo e que este bivalve existe, que os deuses do diz que disse, vociferam: – já "quando o mar bate na rocha...”.

É essencialmente a sua dedicação masoquista ao calhau "madrasto" a que a sua condição o acorrenta à nascença ao calhau (o mexilhão não é por assim dizer um andarilho) onde é sempre tão maltratado - come mal e parcamente, e leva porrada do mar todo o santo dia enquanto mastiga e quanto mais porrada leva mais se agarra à rocha!!!

Mas donde vem este profundo sentimento de apego ao calhau do mexilhão?

Por que não quis ele seguir as peugadas dos seus irmãos bivalves, deambulantes, muito melhor sucedidos e menos mal tratados?

Veja-se o caso da sua prima a vieira, há tantos anos dedicada, com sucesso, às indústrias petrolíferas!

E algumas das suas irmãs ostras transformadas em industriais de joalharia! Até o estouvado berbigão, conhecido como o marisco dos pobres, a indiscreta conquilha e a pornográfica amêijoa, passando pelo obsceno lingueirão, tiveram todos destinos bem mais felizes!

Há, contudo, na sina do mexilhão essa bizarra analogia com outro "molusco" de polpa mol e casca dura (esta por dentro) – o chamado "Zé Povinho"!

Também ele amarrado ao "calhau" que o viu nascer e a que dá, por vezes, langorosamente o nome de pátria (seria mais correto "madrástia" ou até “bastardia”), se vê permanentemente entalado e fustigado pelas agruras dos flagelos ondulantes que a sua precária e dependente existência busca e tem de suportar para seu tormento! Um molusco masoquista!!! Concretamente, aqui nesta reflecção ao ter inventado, para seu tempero o "destino" e o "credo" e concomitantemente, o baile mandado entre os dois!

Há muitos anos os homens eram todos diferentes e embora parecessem iguais, facilmente se distinguiam pela sua grande verosimilhança!

Hoje, são todos iguais, e, na verdade, embora pareçam diferentes, cada vez mais nos apercebemos que só as moscas é que mudam à sua volta…

Assim, no seu acantonamento obsceno ao solo "madrasto" o mexelhão humano foi produzindo e segregando, com as suas glândulas "mais dotadas", as classes sociais que tradicionalmente o haviam de lixar, espremer, ou, se preferirem, sodomizar "ad eterno" por todo o lado e por todos os cantos …

A sina do mar é malhar nos mexilhões!!! Pessoa e Camões aperceberam-se dessa relação.

Um deles disse:
“Oh, mar salgado quanto do teu sal são lágrimas – (digo eu dos mexilhões) de Portugal” …

No início da História o mexilhão humano começou, logo, a dar o flanco à classe castrense – os pré ancestrais dos consumidores de farda: militares, nobres, clérigos, etc. – que o protegiam das agressões do exterior e, hoje mesmo, sem agressões exteriores à vista, essas classes (incluindo os acionistas) continuam a dominar em todo o mundo dito civilizado… e se o mexilhão refila: Pum, pum! Dois submarinos ao fundo!

Depois apareceram, também, há muitos anos, os iluminados e à conta das “divindades" (com quem diziam falar) e da "vida eterna" (que nunca conheceram, mas que arranjavam para todos a troco de uns trocos bem trocados) mamavam do melhor – por cima e por baixo, sem sombra de pecado… O mexilhão (desde que pensou que existia como marisco importante) tem uma droga preferencial que dá pelo nomo de “credoína” e nunca tantos comeram e comem à conta desse apreciado néctar que dá pelo nome de ideologia – para tratar do “corpo” e religiões para tratar do “espírito”. Este S.M.S. – Serviço Mundial de Saúde é universal como não podia deixar de ser! É, no fundo, a forma mais higiénica dos fortes e dos chicos espertos tratarem do mais fraco ou o mais tolo!

Quase na mesma altura em que apareceram estes credores (pessoas que vendem credos) o nosso mexilhão clonou-se num  outro tipo de bivalve afim, mas com a casca mais fina: O primeiro do género apareceu no Egito antigo e teve por patrono o célebre escriba acocorado, que por norma, entre outros serviços mais modestos, fazia a limpeza e lubrificação dos sinetes do faraó e restante família e comensais, fiscalizava a contabilidade dos saques – hoje conhecido pelo pomposo titulo de "contribuições e impostos. Esta classe dos acocorados evoluiu por mil e uma peripécias acrobáticas e progressivas, para os chamados homens públicos (não pudicos nem púbicos), dando origem a todas as coleções de burocratas, artistas, contabilistas, doutores, políticos e treinadores de café, etc., etc., que hoje povoam o planeta.

Como é lógico, toda esta mariscada, de que a princípio "falei", procurou e procurará, sempre, perpetuar o seu domínio sobre o ainda auto denominado "povo" que, das baralhadas que há para aí, neste momento, por causa dum pedaço de DNA mal acabado, só é possível distinguir e encontrar açaimado nas grandes superfícies e agora com os calores nas praias, e a quem se aplica, a velha sentença:

"Quando o mar bate na rocha quem se espreme é o mexilhão" e nós acrescentamos,  para que não restem dúvidas, que  não é só ele quem sente os balanços desta orgia constante das ondas do fisco, que há alguns iluminados bivalves que atingiram a fase madrepérola, procurando nas Nações Unidas e noutras montras de socorros mútuos e afins,  controlar o ímpeto das marés vivas deste tão maltratado marisco!!!

Entrámos, já uns meses, no primeiro ano da E.P.C. – Era Pós Corona – Uma nova classe de moluscos encascados está a nascer juntamente com os "netocratas", são os “caçavírus”! Preparam-se pois, para levar com mais uns vagalhões nas depauperadas cascas… e, enquanto a onda vai e vem, uma nova forma de governação começa a surgir no horizonte com uma divindade virtual, tão de agrado dos povos (adorar seres que não se vêm… os vírus não se vêm mas que existem? Existem!) e que assusta toda agente e dá pelo antisséptico nome de: CORONOCRACIA!


CANTIGAS EM SOL MAIOR

Quando toca uma guitarra,
Teu corpo abre-se em sonhos
Teus sonhos abrem-se em rosas
E as rosas abrem-se em braços
Os braços cantam abraços
E os abraços são regaços
Desaguando em mil cascatas
De serenas serenatas… 

Quando toca uma guitarra
Beijada por dedos quentes
Sobem as lavas eternas
Nos peitos rubros das gentes… 

Por isso frágil guitarra
Toca, toca… sem parar
Embala nas tuas cordas
Os prantos do meu cantar…
Pois jamais separarei
Da tua forma tão bela
Essa figura singela
Onde deus pôs tal feitiço
Engenho, arte, derriço
Que dá por nome: mulher. 

Mulher, guitarra, mulher…
Desgarra na minha alma
O pranto da tua dor
E seja sempre o amor
O teu sustento guitarra. 

Guitarra minha guitarra
Minha doce e eterna amante!
Minha eterna companheira
Deste viver de estudante…
Guitarra minha guitarra
Minha doce e eterna amante!  

Zé Maria 2019


RUMO À VITÓRIA FINAL

(vem aí o verão e os seus pequenos percalços nouturnos…)

Isto já está a durar demais!

Ou eu, ou ele!

Neste preciso momento, estou em crer que o universo é terrivelmente pequeno para os dois!

Porra, Estou farto!!!

Em plena Idade do Ouro Apocalíptica, quando todas as forças Anti-Eros se congeminam para a arrancada final que dará início ao princípio do fim do terceiro milénio, em que tudo leva a crer, quando os quatro Cavaleiros do Apocalipse formaram a "holding", prevista, com quatro novos maiores empresários da atualidade: o Lixo, o Consumo, o Ruído e a Globalização, quando tudo isto acontece a uma escala nunca vista, dizíamos, o Lacerda teima. Insiste, remorde, intenta, remexe, chateia, empertiga, em não me deixar dormir e beber-me o sangue, vai para dez noites consecutivas!

Já tentei tudo, desde o ligeiro ao pesado, passando por emboscadas, cercos, tácticas de terra queimada, golpes de mão, guerrilha de elástico, armadilhas de fita gomada, xeltox, D.D.T., ácido sulfúrico, vudu, processos crime, telefonemas anónimos, cartoons, meditação, notas de imprensa, impostos, promessas eleitorais, tolerância zero, em sei lá, e o F. D. P. não descola!

Basta começar a cerrar os olhos e deixar-me embalar nos braços de "Morfina" (nunca gostei de Morfeu; prefiro a sósia), e aí vem ele qual Kamikaze, turbinas ao rubro, no máximo, pronto a ferrar-me pela enésima vez, e a procurar alimentar-se "ad eterno" à custa do meu precioso sangue (1º colheita 42, Serra da Estrela, meia encosta, carrascão)!

Os estragos não param lá em casa e, quando eu mais uma vez vou pensar que o limpei – o bandido tem dezenas de clones a trabalhar para ele – lá vem ele de novo, no silêncio da noite, em voo picado a fazer "rasemotes", "himellmens", "chik munkes", "folhas caídas", "loopings" "oito cubano", e outras acrobacias aéreas radicais, por cima da minha cabeça, totalmente aturdida e enterrada sob as mantas e apenas com a ponta do nariz de fora por motivos de sobrevivência, óbvia!

Tenho o divórcio à porta por causa dele, já dei dez murros na mulher em pleno sono, para além de indiretamente a ter agredido com dois sapatos, um pufo persa, uma prótese dentária da minha avó, em pirex, que serve de pisa papéis, e uma bíblia asteca!

Da minha mobília de quarto, estilo Império, já só resta inteiro o baú, que foi a arranjar vai para seis meses, bem como a arrastadeira que herdei dos meus antepassados, em loiça da Provença, que só escapou ao meu "apocalypse now" porque tem servido de gamela à minha bichana, e eu só ainda não pus a casa à venda, porque esta raiva cega, surda e sibilante que me invade e ferve em mim até aos tutanos, qual vulcão das Filipinas, me diz que mais tarde ou mais cedo hei-de apanhá-lo!

O nosso último confronto foi demolidor: os candeeiros de cabeceira, um anjinho de terracota de Barcelos, um aplique de porcelana, dos "cento e cinquenta", e a coleção de budas da patroa foram à vida!

A minha raiva, nesse dia, atingiu o paroxismo. A minha noite de sono foi igual a zero! O pulha, quando sentiu a minha perseguição impiedosa, fez-me uma finta de mestre, deixei do ver e logo a seguir enfiou-se-me pela orelha direita adentro, quase até ao córtex, assobiou uma valsa lenta e ainda teve tempo para me chamar de tudo!

Passei-me! Peguei no jarro de água que tenho sobre a mesa de cabeceira e despejei-o por cima de mim na esperança do afogar! Fiquei feito num pinto!

E o mais dramático disto tudo é que ele nunca vai morder a minha mulher, nem que seja uma vez por outra, para me dar tréguas!

Mas agora, finalmente, depois de muito pensar, creio que tenho a solução final para o problema: Vou apanhar uma real piela e a patroa; e ela, que é mais artista do que eu a apanhar mosquitos, vai ficar de atalaia, pois talvez ele se embebede, quando me picar pela décima vez e ela, a minha mulher a quem já prometi o testamento por inteiro, se me ajudar apanhá-lo, zás! Vai certamente deitar a mão ao Lacerda vivo, que é como eu o quero, para depois lhe fazer o mesmo, ou... melhor, ainda!

Não sei bem quais as tácticas que vou usar devido às nossas grandes diferenças de cultura e de escala, mas vou consultar a Internet e, depois, logo vos narro o resto... se sobrar alguém para contar!


O Corredor

Um dia, quatro bichinhos (a carocha, a formiga, a aranha e a mosca) resolveram dar um passeio conjunto através dum lindo túnel que descobriram na floresta.

A carocha foi pelo chão, a formiga pela parede, a aranha mandou a sua cordinha transparente de lado a lado e foi pelo ar, quanto à nossa amiga mosca, como estava cansada de voar, foi caminhando pelo tecto.

Quando chegaram ao fim do seu percurso resolveram falar das suas aventuras e cada um contou o que viu. Aí começou a discussão pois a carocha disse que tinha visto ervinhas, pequenas pedras, alguns buracos, meia dúzia de flores e um casalinho de bichos-de-conta, era assim o túnel para ela; a formiga, que foi pela parede, falou de musgo, pedrinhas bicudas, outras companheiras suas que ali moravam, pedacinhos de madeira a desprenderem-se, etc., era assim o túnel para ela; a aranha, que tinha viajado no seu teleférico brilhante, falou das alturas, de libelinhas que a cumprimentaram, dum passarinho que quase a ia derrubando, dum rio que se via ao longe,... Era assim o túnel para ela; finalmente a mosca falou do tecto onde encontrou cinco morcegos, muitas teias de aranhas pequeninas, gotas de água que escorriam das paredes, e muito mais, era assim o túnel para ela.

Os bichinhos deram com eles quase zangados a chamarem-se de mentirosos uns aos outros. Estava quase tudo envolvido em bulha quando apareceu uma borboleta azul que ali morava e que nas suas viagens pelo túnel, tanto conhecia as paredes, como o tecto, como o chão e como o ar. Ouvia-as a discutir surpreendida e pedindo licença meteu-se na discussão dizendo:

— Não  percebo o vosso desacordo. Todos têm razão; só que cada um viu as coisas à sua maneira e como não pode ver o resto pensa que aquilo que viu era tudo o que havia para ver.

Eles escutaram a borboleta, perceberam a lições continuaram amigos por muito tempo e sempre que podiam juntavam-se para contarem uns aos outros as aventuras que passavam e que muito deliciavam os outros companheiros do grupo.

Com o tempo todos foram conhecendo melhor a floresta e como tinham aprendido a lição da borboleta ficavam sempre pensando quão bonita seria o resto da floresta vista por outros bichinhos que eles não conheciam, mas que por ali andavam por todo o lado...


A MÃO DE FREI JANUÁRIO

Frei Januário era um daqueles irmãos especiais, que aparecem de quando em onde, como se vindo directamente das calendas franciscanas, cheio de bonomia, pachorrice, boa vontade e um certo sortilégio gastronómico, sobretudo para rebuçados, pelos quais se sentia, pecadoramente, melodependente... e, quantos perdões a Deus já lhe tinham saído, sentidos, da alma, ainda mal os papelinhos tinha jogado ao chão (os frades nunca foram muito ecológicos)! Mas da boca é que ele não os largava.

Vivia, descuidado, numa pequena congregação comunitária, com Beneditinos e, para além das esmolas, que placidamente compartilhava com os mais carentes, dedicava-se a apascentar meia dúzia de bezerras, e a amanhar uma viçosa leira de couves lombardas nas cercanias dum pequeno convento, adaptado dum velho “shopping” (1.ª geração) abandonado, que compartilhava, entre biombos de contraplacado com mais 17 irmãos, irmãs e semi-irmãos, em grande austeridade e recato.

Ora aconteceu, numa bela e soalheira tarde de Verão, daquelas em que nem as varejeiras, se atrevem a zumbir sobre o que quer que seja, que, um pequeno cachorro, que andava ali por perto, se enfiou para dentro da emaranhada engrenagem duma debulhadora placidamente, (parecia) adormecida, à espera das próximas espigas.

Frei Januário não hesitou. Num gesto irreflectido, como quase todos os gestos que partem do coração, enfiou o braço para dentro da máquina e zás! O diabo teceu-as! A máquina desatou a trabalhar e a mão direita do bom do frade, desencaminhou-se por entre lâminas, rodízios, ferrugens, muito barulho e ... restos de palha.

Foi uma sorte! (!?). No hospital onde deu entrada, acabara de chegar, ainda quente, sob a forma de cadáver, um conhecido larápio, vítima de atropelamento, quando fugia a um grupo de comerciantes enfurecidos, (coisas da crise) que o tinham apanhado em flagrante gamanço! A equipa médica que o transplantou foi imbatível. Em três horas, com a mais lapidar e sábia microcirurgia, enxertaram-lhe a mão direita do foragido, que parecia ter caído do céu, em forma e em tempo, às maravilhas, por milagre (acrescentamos nós)!

Mas, Oh, desígnios do insondável, a mão, aquela mão que nos primeiros dias se encontrava adormecida sob os efeitos da anestesia, à medida que despertava do seu passado necrótico, começava a dar evidentes sinais de rejeição e não só. Mas o que deixava a comunidade médica “de pantanas” era a descontinuidade daquelas “crises” que só acontecem – nas estatísticas – por excepção; passando, a mão, por longos períodos de normalidade, sem inchaços visíveis, até fases agudas com formigueiro, tumefacção, latejar e tremores, como se quisesse saltar para fora do antebraço ao qual, acidentalmente, “pertencia” agora!

Frei Januário, que nunca rejeitara nada do que viesse da vontade do Supremo, apenas rezava mais fervorosamente nestes momentos de sofrimento, afastando então, agastado e meio em pânico, alguns estranhos sentimentos e pensamentos, que o assaltavam durante estas crises em que, pasme-se, tinha vontade de roubar, de deitar a mão ao que quer que fosse, mesmo que não lhe fizesse a menor falta! Era como que um impulso vindo não se sabe de onde e nesses “entretantos” a mão fervia-lhe, agitava-se caprichosa, e os dedos entravam num frenesim de tal ordem que tinha de escondê-los por debaixo do manto, para ninguém se aperceber daquela agitação frenética... passando mesmo a ser mal interpretado, pois começou a correr o boato que se coçava por debaixo do burel!

Entre Deus e o Diabo era por onde Frei Januário andava agora. E enquanto as sumidades ortopédicas estudavam a raridade científica daquele caso, o santo irmão vivia num profundo dilema: Uma vontade louca de roubar à direita e uma febre incontida de dar à esquerda!

A tomada de consciência desta realidade, caricata, e simultaneamente trágica, arrasou-o ainda mais quando se perguntou: estaria ele a transformar-se num “diabólico comunista”?! Daqueles que já só constavam nos manuais da necromancia mais ateia?

Um dia, há sempre um dia, em que o Sol se espreguiçava caprichoso por entre os braços da frondosa madressilva ancorada, adormecida, há longos anos, à parede da sua cela, frei Januário pôs-se a olhar (e meditar), para a sua nova mão com se quisesse sondar-lhe os desígnios ocultos, como que a interrogá-la sobre a sua inquietude, e bem no fundo o seu “querer”. Veio-lhe então à memória a imagem do miserável pecador que lhe tinha “oferecido” aquele precioso órgão manipulador, órgão que servira ao seu antigo proprietário para sobreviver: roubando, Fora uma mão que nunca aprendera a dar e era, no fundo, uma mão que continuava a querer viver, como sempre tinha vivido, roubando aqui e além... como se tivesse memória própria, uma cons(ciência), e um destino para cumprir, muito para além duma “mera mão” a quem os médicos, apenas aplicavam os seus conhecimentos mecanicistas e estratificados – sem alma.

Agora, para Frei Januário aquela mão procurava, isso sim, “recuperar” a sua giesta própria, um pouco da essência do seu ser e do ser a quem pertencera: uma mão “gamante” e que estava prisioneira à espera da libertação, ou à espera dum pouco de paz desde que lhe dessem o “alimento” que precisava!

Frei Januário sentiu-se iluminado. Resplandecente! O Senhor, na sua Infinita Grandeza, abrira-lhe, um pouco mais, o manto das Maravilhas da Vida.

Frei Januário tinha de ir ao encontro dos anseios daquela sua nova aliada e convertê-la, sem trair a Deus, e sem agradar ao Diabo. Assim de cada vez que passava por uma loja onde houvesse rebuçados de que tanto gostava, e onde os comerciantes, que o conheciam como “guloso”, o autorizavam, desde sempre, a tirar um rebuçadinho, passou a tirar dois, com a mão direita: – um que chupava deleitadamente e o outro que guardava, sorrateiro, para depois o oferecer, com a mão esquerda, às crianças que ia encontrando pelo caminho; enquanto vociferava baixinho, para consigo:
– Uma mão não deve saber o que a outra faz! E alargava aos Céus o seu grande e misericordioso olhar bovino, sorrindo como só os frades sábios, bondosos, bonacheirões e gulosos, sabem sorrir…

Escusado será dizer que as crises, ditas de “rejeição”, desapareceram...

Entretanto a comunidade médica continua; ainda hoje, a esta hora em que estas palavras estão sendo lidas; atónita, a fazer congressos, debates, mesas redondas, comissões de inquérito, simpósios… para estudar o caso, e até já há até alguns clínicos, on-line, que não conhecendo o miolo desta singela narrativa, começam a acreditar que estas coisas de “rejeição” e “aceitação” têm mais que se lhes diga!!!

FRANGÉLICO


A Muralha dos Imortais

Em tempos fora apenas um lugar escampado... um daqueles escanifrados ermos suburbanos que costumam ficar ao abandono – ou porque nunca foram de ninguém, ou porque pura e simplesmente a civilização cansou-se de passar por ali, e partiu para outras bandas…
Terra barrenta de malaquite arenosa, gretada, por onde espreitavam, de quando em vez, agrestes rochedos de crómio, compartilhando o espaço com uma espécie de trepadeira rastejante, acastanhada, que mais parecia uma artéria crestada ao sol dum recém retalhado cadáver.
Lá longe, na linha do horizonte, o astro rei, vermelho rubro de raiva, derramava os últimos restos de calor e luz sobre a paisagem, naquele dia.
A meia encosta, descambando sobre o mar, estendia-se um extenso e estranha “muro”, com largos quilómetros, a esfumar-se ao longe, como cauda de serpente morta, há muito escanifrada...
O viajante aproximou-se, transido pelo medo e pelo frio, que àquelas horas da tarde começavam-se a fazer sentir. Mas o que mais o vergava era o temor, sobretudo pelo arrepio que sentia na mórbida curiosidade que o levara a percorrer centenas de quilómetros, para ver “aquilo”.
Desde criança que ouvira falar nesse sítio amaldiçoado, onde só alguns “desviados” ainda iam aparecendo, quem sabe se para cumprir velhas promessas de rituais esconjuratórios.
Até os maiores delinquentes da Terra, que em tempos fizeram “permanência” obrigatória naquele local, tinham sido despenalizados das suas penas, após longas lutas com o governo das nações, para os transferirem, nem que fosse para o inferno!
Talvez por isso mesmo é que as únicas ruínas que por ali jaziam pertencessem a uma velha fortaleza penitenciária, que albergara, em tempos, uma população de quase um milhão dos piores facínoras produzidos pelo planeta, sem contar com uma boa centena de milhares de funcionários prisionais, famílias, comerciantes, proxenetas e rameiras, entre outros, que englobavam o ramalhete.
Os tempos foram correndo, a engenharia genética, na sua expressão mutante, tinha sido posta de lado há muito, bem como os assassinos das espécies, os tarados dos catecismos, os loucos da esperança e todos os que eram “diferentes”. Nessa imensa multidão desapareceram igualmente (aperceberam-se disso “os árbitros” das nações, demasiado tarde) os últimos artistas da Terra. Os poetas, os pintores, os filósofos, os escritores e todos os outros sonhadores que ousavam pensar, sentir e agir diferente e por conta própria, tinham sido extintos!
Com a crise da globalização viera o novo holocausto, a extinção da floresta verde, o esgotamento dos mares, a “Guerra do Lixo”, a Guerra da Água Potável, o esgotamento dos crudes, o cisma das energias alternativas, a extinção dos automóveis, a supressão dos electrodomésticos e para colmatar esta sucessão de maldições “modernas” uma desvairada manipulação genética dera origem às primeiras gerações de imortais.
Por ironia do destino a ciência desenterrara das entranhas da Terra (para onde há muito eram lançados os lixos da superfície, através das chaminés gigantes tecidas nas entranhas de velhos vulcões semi-controlados, a fim de serem cremados nas longas torrentes de lava que fervilhavam nos abismos) um meteoro fóssil com esporos vivos congelados, numa geleira petrificada, com quase 15.000 milhões de anos; gerado, acreditava-se, quase no início do Big Bang... hipótese essa que mais tarde viria a ser rejeitada quando se descobriu que esse “esporo” sobrevivera e transitara, não se sabe como, doutro Universo anterior ao último Big Bang...
Nele foi encontrado aquilo que a ciência resolveu baptizar por gene da auto-suficiência; uma espécie de Genoma “moto-continuo” da vida, que extrai toda a energia que necessita, por osmose, directamente do meio envolvente, seja ele qual for, sem precisar da complexidade de orgãos especializados para a elaboração e manutenção de tudo o que em si processa. Esta “eternidade genética” fora transferida para o homem - alguns homens - através de tecnologias caríssimas, e, quando, passadas algumas centenas de anos, começaram a surgir os primeiros “arrependidos” já era demasiado tarde para voltar atrás. O gene trouxera, sem dúvida, a imortalidade, mas não a interrupção do envelhecimento, e que envelhecimento…
A eutanásia falhara!!!

Quase cinquenta mil imortais tinham sido engendrados artificialmente, depois... com o decorrer dos séculos e dos milénios esses “humanos” foram-se cansando de tudo, sobretudo de si próprios, mas óh maldição das maldições, não conseguiam morrer porque isso lhes estava eternamente interditado até ao mais profundo da sua essência cósmica.
Ao tentarem destruir-se e como tentaram tudo, de novo se reiniciava um eterno ciclo de regeneração, de perpetuidade e tédio infinito…
Essa turba estranha de “imortais” convergira, há muito, para ali, como que a procurar, com os seus iguais, dum “cemitério para vivos”, para encontrar a paz e o descanso eterno…em “vida”… A estranha massa humana, que se espraiava ululante ao longo do muro, transformara-se sinistra trepadeira fóssil, semi petrificada, esquecida, ondulante como um vómito de vento, no tempo de todos os tempos, revestia-se de tons acastanhados e negro ressequido...
Singular “muro das lamentações” aquele, onde Deus não chegara e onde um murmúrio constante de rogativas, crepitava ao longo da extensa muralha como eco dum grito arrancado, em uníssono, às almas penadas dos mais profundos abismos dos Infernos de Dante!
Lá estavam eles envelhecidos como raízes, já quase sem forma humana, arbóreos, frutos da desilusão dum velho sonho da loucura humana, acoitados, ao longo de milénios, numa singular “confraria” de zombis, tecida com “mortos vivos”, semiapagados, esgotados, ululantes, perdidos na memória do esquecimento… mas sobretudo vazios de alma, numa necrose eternamente adiada sem encantos, novidades, esperança e fé.

Eram a “nata” dos antigos rapinadores do planeta Terra, que tudo investiram, sequiosos, nesse estranho “elixir da longa vida”, cozinhado na aventura apocalíptica dum conjunto de experiências genéticas, só para ricos, forjada em laboratórios secretos, daqueles em que se fabricam os “antraxes”. Os “coronavírus” e outros venenos apocalípticos, longe dos povos, que começaram primeiro com os “congelados”, e acabaram por fim, ali, às “portas de Deus”, como pensavam, e por onde queriam penetrar, em vida, no apex dourado dos seus orgasmos paranóicos... esquecendo-se que Deus é em si o Único Eterno e a Única Porta!

O Viajante, ajeitou definitivamente a gola do borel que o revestia dos pés à cabeça, e preparou-se para abalar sem contudo ter conseguido evitar, num “adeus” derradeiro, de olhar, sobre a longa perspectiva da infindável trepadeira humana, a apagar-se aos poucos no horizonte do fim da tarde...
No ar pairava um estranho odor adocicado a humos, vindo da cortina fosforescente, que qual bambinela de limbos e líquenes entrelaçava os “pés raízes” dessa perversa “trepadeira humana”, petrificada, com olhos de “celulóide”, redondos como frutos exóticos, vomitando enxofre, vidrados e agitando-se numa estranha “macumba”, amarelecidos e inexoravelmente “escravizados” a um desconhecido “tempo” onde há muito ruíram os portais do ontem, do hoje e do amanhã!...


A Lenda da Alheira Lusitana

A propósito da censura "escolar" ao poema de Álvaro de Campos...

O gene jesuíta, na sua pior estirpe, continua a fazer parte do genoma da "raça lusitana", quando se censuram versos de Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) em livros de "estudo" para jovens de 17/18 anos, por causa de alguns comportamentos sexuais de conhecimento tão comum e corriqueiro à maioria dos jovens. Esquecem-se, esses senhores sensores, de "alma puritana" e "casta" que qualquer garoto, de muito menos idade, (estão fartos de ver pornografia gratuita na net, nas têvês, etc..) sabe muito mais de “sexualidade” que qualquer destes arautos do "parece mal"!!!
Esta gente mete nojo e continua a fazer estragos nos caminhos da liberdade onde a livre escolha, quando não é reprimida, é muito mais saudável, pela sua diversidade e conhecimento de riscos, de certeza, que a vida sexual miserável que muitos desses arautos da venda e da rolha, continuam a proclamar... e muitas vezes em casa onde são péssimos exemplos para os próprios filhos e companheiros…
Falem mais de amor e deixem o sexo em paz !!!
Pena é que essa gente, "iluminada" por uma falsa moralidade, continue a ocupar posições políticos e sociais onde causam mais estragos às gerações jovens (reproduzindo nelas, muitas vezes, através do medo, o seu estigma repressivo e persecutório!
Já o povo diz : "públicas virtudes, vícios privados"...é assim a "nossa" moral judaico cristã !

Por cá ainda não conseguimos sair da "era da alheira"!!!


O Personagem

Toda a gente o conhece! Simpático, cordial, bem parecido, não aparentando minimamente a idade que tem, por vezes irónico, mas lá no fundo o melhor e mais justo dos mortais!
Para desfrutar da sua presença afável, amena e imprescindível, todos os dias, para sentir ao vivo a sua companhia sempre desejada, muito pouco terá de fazer... por outro lado, o que há de maravilhoso nesse personagem é que está sempre crescendo, evoluindo, melhorando, avançando rumo ao infinito, trazendo, por vezes, no olhar, aquela nostalgia da eternidade que o caracteriza!
Como lhe fica bem aquela graça humilde, que ninguém diria...
Podia ser eterno!
Devia ser eterno! Não envelhecer, nem adoecer...
- Um pouco mais de alento... e fora Deus!
- Um pouco mais de sonho... e fora Infinito!
Crescer é, contudo, a sua principal virtude e ambição!
Depois, como não podia deixar de ser, ocupa há muito o centro do Universo?!
Há nele um estranho mistério que o atrai... qualquer coisa que vem de longe, muito longe... algo que é como um apelo!
E é tão seguro! Se assim não fosse porque diabo não haveria ele de vestir a roupagem de todos os grandes personagens?
Capaz de tudo, cientista, poeta, ladrão, deus e diabo, grande e pequeno, alto e baixo, ora morrendo ora ressuscitando, lutador e cobarde, nobre e vilão, povo e rei, rico e pobre, santo e pecador, leal e traidor, apaixonado e distante, novo e velho, louco e  ajuizado... parece incrível tanta diversidade num só ser, tanta amplitude num só abraço...tanto sonho num só alento,  e o mais espantoso é como ele está tão próximo de si, tão perto, tão tangível!
Quer conhecê-lo, finalmente?
Prometa-me que não cai para o lado, depois do conhecer pessoalmente,  e, sem mais delongas, mate já a sua ansiedade crónica, pegue num espelho bem grande, para abrangê-lo todo, depois  olhe-se profundamente dentro dos seus próprios olhos,  deixe correr um pouco a cascata do tempo ...e, se quiser, mais tarde,  logo me diz se não  encontrou este espantoso personagem?!


As Bolhas

Dizem os entendidos que a vida começou no mar... contudo, e se tomarmos em linha de conta a grande propensão "aerofágica" da esmagadora maioria  dos seres vivos – sem "ar" não há vida –  sinto-me fortemente inclinado a afirmar que a vida começou no AR!
O que equivale a dizer que a "vida" antes de meter água começou por meter AR.
Assim, muito antes das famosas trilobites e demais bichinhos do antanho, e muito antes de se precipitarem as chuvas diluvianas que deram origem aos oceanos, já a antiga atmosfera terrestre existia e era povoada por numerosas "espécies" flutuantes, que por motivos óbvios de fragilidade, (as bolhas não têm consistência obsessiva) os respectivos registos fósseis não chegaram ao nosso conhecimento.
Pairavam, então, esses seres esféricos, felizes, policromáticos e ululantes sobre a paisagem antrocolítica terrestre.
Movia-as ora o vento ora um pequeno orifício produzido, para o efeito, na sua superfície e no sentido contrário para onde se queriam deslocar. Esse orifício, a que podemos chamar "pipo", após cumprir a sua função, era imediatamente fechado e não se ficava a notar absolutamente nada. Contudo o que as "bolhas" gostavam efetivamente era de "navegar" ao sabor dos ventos. A "bolina" não era com elas!
Alimentavam-se, como é óbvio, dos gases atmosféricos de então e chegavam a durar milénios, pois como não havia nada que as rebentasse, a sua tensão superficial era praticamente constante, sem desgaste, nem agressões, quase eternas...
Segundo as nossas fontes, foi essencialmente o aparecimento dum composto atmosférico
tipo gás  metano com um forte cheiro a ácido sulfídrico, que as levou a abandonar a vida aérea e a procurarem refúgio nas águas  pouco profundas e quentes do oceano. O resto da história já você pensa que sabe, tal como eu!
A esses espécimes, cuja única sustentação plausível é ainda a atual configuração da cabeça humana, poder-se-iam muito bem ter chamado: BOLHAS! Esses são, pois, os nossos legítimos e "primogénitos" antepassados que a constarem na taxinomia Lamark-Darwiniana seriam os primeiros na escala de evolução das espécies.
As bolhas eram totalmente assexuadas, pelo que nunca se lhes poderia, com propriedade, atribuir a “origem da tragédia”!
Antes dessas "vesículas vivas", apenas existiram as borbulhantes emanações das erupções vulcânicas e de outros meteorismos de não menos importância, que passaram à história.
Ainda hoje, a cega paixão pelos balões, nas crianças, pela bola, nos adultos, pelos preservativos nos amantes, pelas bochechas na política, e pela bolsa, nos acionistas (entre outras), são a prova cabal do que acabei de dizer.
Reparem como tudo o que é perfeito e genuinamente "primitivo" se aproxima do divino formato das esferas, da bolha!
Pitágoras e os seus acólitos é que tinham razão e, quando Alcebiades, no "Banquete" de Platão, disserta sobre esse ser "perfeito de quatro braços e quatro pernas", próximo da esfera, que queria conquistar o Olimpo, está a bater em cheio naquilo que afirmamos… a chamada bolha olímpica!!!
Demorará, certamente, ainda muito tempo para que a "ciência oficial" venha a reconhecer este facto: Não será certamente nas gerações mais próximas, mas, quando o pião do tempo rodar para o segundo centénio da era do Aquário, é que esta verdade insofismável e insuflável, virá a lume, iluminadamente pela mão cristalina dos doutos "conscientistas". (cientistas conscientes).
Até lá, paciência! As nossas fontes são outras!
Contudo, se o meu amigo(a) guardar esta notícia como recorte, de modo que os seus trinetos, ou tetranetos, daqui a mais ou menos, cento e vinte anos a descubram, iria ouvi-los dizer, caso estivesse vivo:
Os velhos é que sabiam!...
(o que é certo é que esta tese já se confirma…)
“Bandarrices minhas”…


A Morte do Pai Natal
José Maria de Oliveira

A última vez que o vi foi no Largo de Camões, em Faro; creio que no início deste frio mês de Dezembro.
Era ele, sem tirar nem pôr, barba branca, bem semeada, mais ou menos no tamanho daquelas searas ondulantes que preparamos para o Presépio, também elas cultivadas na mesma altura e prontas para o grande sucesso da Noite de Natal.
Mas voltemos ao Pai Natal. Vestia um velho colete escarlate, e um surrado fato de vários tecidos, todo puído, com que se disfarça, lindamente, todos os anos, para não ser reconhecido, antes da Noite de Natal.
Não calçara ainda as suas longas botas de pele pretas e bem polidas, em seu lugar, como disfarce, usava umas velhas sapatilhas, sem cor, por onde se vislumbrava, entre as farripas das meias esburacadas, aquilo que adivinhávamos serem os dedos dos pés.
Outra curiosidade, da sua camuflagem: estava deitado no chão, no Largo de Camões, em Faro.
Não eram certamente ainda "Las cinco de la tarde", mas eram, aproximadamente, umas duas ... logo a seguir ao almoço, (daqueles que almoçam) ...
Aproximei-me, cauteloso, pois ao vê-lo com o rosto encostado ao chão pensei que se tivesse deitado assim, tentando perscrutar, com o ouvido no chão, já, lá ao longe, o característico barulho do seu magnífico trenó, de muitos cavalos...
Mas não parecia dormir...  pensei então, que talvez estivesse contando, mentalmente, o número de meninos que viria visitar este ano, em Faro, no nosso Algarve, ou talvez sonhando com os muitos beijos, abraços, e desejos de conversar, que muitos pediam aos pais e que ele não conseguia satisfazer – Apenas dava brinquedos, brinquedos, tralha, trapos, chocolates, mas nada daquilo que todas as crianças do mundo mais gostam de receber... no Natal (e todo o ano). As carícias e o respeito dos pais!!!
Mas não seria caso que ele estivesse dormindo, por ter chegado mesmo agora, cansado, muito cansado?
Aproximei-me, mal conseguia ouvir  a sua respiração e não apresentava evidentes sinais de alcoolismo, dir-se-ia que fora surpreendido por uma daquelas "doenças súbitas fatais" que costumam levar muitos "pais natais", deste mundo, para o Céu, pela via mais rápida, a fim de lhes evitar conflitos alfandegários, nas portagens do Purgatório, do Limbo, ou, sabe-se lá, se até para lhes evitar algum mau encontro com  Diabos à solta, dos mais danados!!!
Eu sou ainda daqueles que acreditam que estes "Pais Natais" que morrem na praça pública, vão directamente para o CÉU!
O "Pai Natal" pareceu-me mal! Instantaneamente liguei para a P.S.P. e pedi uma ambulância, com urgência.
Não lhe quis mexer, com medo do "acordar" da sua condição de Pai Natal caído no Largo de Camões (que ironia) e limitei-me a aguardar, um pouco afastado, atento ao que me envolvia, até que os socorros chegassem.
Entretanto, desfilaram pelo insólito "espectáculo", algumas dezenas de pessoas, tudo boa gente, homens e mulheres que olharam, remiraram, alguns até sorriam, e lá foram seguindo o seu percurso, sem que me tenha apercebido que qualquer daqueles transeuntes esboçasse o mais pequeno gesto, para segurar num "filha da puta dum telemóvel" e pedir socorro nem que fosse ao Inferno!...
Lembrei-me do Zeca (O Afonso) e do refrão dos que andam "na noite de breu (ou será de Natal?) à procura, e não há quem lhes queira valer"!
Sem me aperceber tinha caído um espesso nevoeiro. Senti os óculos completamente embaciados e quase que perdido na bruma que me envolvia, mal consegui conter na garganta um grito de Natal à Portuguesa...
A P.S. P. chegou, passado pouco tempo, bem como uma ambulância para "tomarem conta da ocorrência".
Naquele dia, tinha assistido, petrificado, sem convite, na primeira fila, do areópago do mundo, onde todos representamos a comédia da vida, onde todos à enésima MORTE DO PAI NATAL!
À minha memória vieram, então, imagens dos milhares de Pais Natais que pelo nosso País fora – católico, apostólico e romano – vamos despejando por esses "Presépios" para "Pais Natais no Desemprego, já sem saco" que dão pelo disfarçado nome de "lares para a terceira idade"!!!
Em que tipo de gente nos estamos transformando?
É cada vez mais imperioso e urgente alertar todas as crianças, monstruosamente ludibriadas e defraudadas, que o PAI NATAL está MORTO, e há testemunhas, e que foram os seus pais que o ajudaram a matar, em plena praça pública, como é apanágio dos grandes Heróis, numa hora de trânsito, algures também em Faro... e não eram certamente ainda "as cinco de la tarde"...
Mas nós ainda acreditamos em si, especialmente em si, estimado leitor, que conseguiu ler a nossa mensagem, e que ainda não "morreu por dentro" para ajudar, dentro das suas possibilidades, a dizer ao seu "vizinho" o que é esta coisa maravilhosa do Natal, donde vem, o que é, para o que serve...

Ainda vamos todos a tempo de passar a mensagem!!!