Myriam Jubilot de Carvalho

Por Ondas do Mar de Vigo

Myriam Jubilot de Carvalho

Reserva Natural do Estuário do Tejo

Vejo como põem a saque
O nosso belo, belíssimo Estuário –
riquíssimo de vidas que precisam de nós...

Vidas que a Natureza
Põem à nossa guarda
– teste à nossa honestidade

...Medidas arbitrárias
Baseadas no lucro imediato...
– Põem em causa
O sacrário que a Natureza
Pôs à nossa guarda

O que irá ficar para os nossos
Descendentes
– num futuro até imediato – para
os nossos netos...

Um mundo mudo, cinza,
Agonizante

Quem pode ser tão arrogante
Com vozes de veludo?


Fui ao jardim da Celeste...

Encontro refúgio, recolhimento, silêncio, entre a multidão, no pleno da esplanada borbulhante das confidências murmuradas, dos ruídos fumegantes dos carros, da avidez dos pombos por migalhas.
Passam as mães com os bebés pela mão, regressando das aulas. Como actores de novela, beijam-se fornicantemente alguns pares de jovens namorados. A carrinha vermelha dos Correios parte depois de recolhida toda a espécie de mensagens. Velhotas passeiam-se de braço dado e sentam-se nos bancos públicos sob as avantajadas copas verdes dos plátanos do Largo, chilreantes do recolher dos pardais. Quem aqui faz falta é o Grande Rei...  Quando acampou junto a Atenas, Ciro ficou fascinado com aquelas árvores que antes nunca tinha visto! Mandou juntar todas as joias de todas as concubinas, e com elas ornamentou as copas que falavam com o vento... Depois, sob elas mandou montar a sua real tenda e aí se recolheu! Ao fim de uma semana de inerte espera, os generais começaram a ficar impacientes... E foram instar o Grande Rei a considerar que não se encontravam em digressão de férias, mas que se tinham deslocado até ali, desde a distante Pérsia... para fazerem a guerra...
Uma ambulância aflita irrompe Avenida acima e passa vertiginosa, galgando os sinais luminosos... Os Deuses te acompanhem!...
Acendem-se as luzes das montras, que o quadrado de céu, visível daqui, parece uma flor que se fecha ao anoitecer.
Encostados às costas dos bancos públicos, velhotes trôpegos discutem as últimas reivindicações dos sindicatos – enquanto na mesa ao lado da minha, entre girafas de cerveja, os calores da Justiça e da Solidariedade são absorvidos pelo jornal A Bola.
À minha frente, um fulano meio grisalho e meio careca coça o cachaço enquanto aprecia o traseiro da moça que serve de mesa em mesa. Levanta-se, cavalheiro, um cidadão Afro para cumprimentar uma Amiga que passa, elegante, com o lulu pela trela. Uma fulana reboluda investe por entre o plástico branco das mesas, para vir dar o beijinho-da-praxe a um fulano de calças de ganga esburacadas nos joelhos, à minha esquerda.
Que hei-de beber que me mate a sede? O néctar de pêssego será demasiado doce, a cerveja cair-me-á na fraqueza, o café não me deixará dormir, e já está demasiado frio para me decidir por um gelado. Como está sujo o chão da esplanada. Quanta beata, quanta embalagem de açúcar vazia, quanto maço de cigarros amarfanhado pelas mãos... Passa o velho porteiro da empresa onde trabalho, aquele que pediu a reforma antecipadamente, esperando que sem os esforços que a profissão implica, a dor que lhe rói o fígado lhe dê um pouco de tréguas, e o deixe durar mais algum tempo... E que os Deuses o protejam!
Decido-me pelo néctar de pêssego. As lojas vão fechando. Os frequentadores da esplanada vão-se retirando. São horas de jantar. Engulo o néctar de pêssego de um trago, sem lhe sentir o doce viscoso que no entanto, noutras alturas, me tem deliciado.
Quem pudesse estar ao teu lado. No meio da balbúrdia, abro uma clareira de um silêncio que só eu oiço, para o povoar com a tua presença. Mas há dias em que me foges, e não consigo ultrapassar a distância. Então, nem o próprio trabalho me preenche e ao regressar a casa, meto-me na cama, no quarto obscurecido, até me doerem os rins.
Depois, volto a sair... Pode acontecer que me cruze com alguma Amiga, ou Colega, com quem trocar dois dedos de conversa. Penso em ti como se o pensamento pudesse trazer-te corporalmente para junto de mim, quero sentir o teu corpo e meto-me no carro, em direcção ao mar. Na praia, quase noite, já o frio ameaçará congelar-me a garganta...
Definitivamente, hoje não consigo de modo algum sentir-te ao meu lado. Nas minhas costas, há pessoas que tossem enquanto dissertam sobre os problemas das Forças-da-Ordem...
Que se lixem todos. Que se lixe todo este mundo, e os outros que se lixem também. Que eu hoje estou sozinha. E se consegui estabelecer a clareira que me garante o silêncio, não consegui, no entanto, preenchê-lo contigo...
As copas dos plátanos baloiçam-se na aragem deste fim de tarde... Onde quer que me encontre, o chilrear ensurdecedor dos pardais a amalhar, transporta-me ao jardim junto à Doca... Faro... Tenho uns sete, oito anos... Muitas mães, à tardinha, trazem as crianças para brincarem. Sentam-se nos bancos... Sob as copas frondosas dos plátanos do Jardim Manuel Bívar, habitadas à tardinha pelo chilrear alucinado, estonteante, ensurdecedor, dos pardais que amalham, não se cansam de conversar! Há uma menina mais crescida, um pouco mais corpulenta, muito mandona. Organiza as brincadeiras com autoridade! Joga-se ao manecas, fazem-se rodas para o trapinho queimado, salta-se à corda! A minha mãe bem pode sentenciar – Não é o jardim da Celeste, é “Eu fui ao jardim celeste”! Mas ninguém liga... E chega a vez do Mamã, dá licença? Queres banana, ou ananás? e acaba tudo a jogar aos 5 cantinhos, a jogar ao coito!
Bem precisava agora dos teus braços para me acoitar...

Myriam Jubilot de Carvalho
Almada, esplanada do Café Central


Só as MULHERES podem ser Mães!

De facto, o Dia das Mães só poderá ser "feliz" quando todas as Mães do mundo puderem criar os Filhos em Paz, na Igualdade de Direitos e na Justiça, nos devidos cuidados de Saúde, na frequência plena de uma Escolaridade satisfatória! De facto, no reconhecimento pleno dos seus Direitos de cidadãs em pé de igualdade com os seus companheiros!

Procurei na Net imagens adequadas ao Dia Das Mães. Enfim, todas as imagens que encontrei, representavam as mães... branquinhas, branquinhas de pele branca! Representativas de um mundo – uma parcela do mundo – onde os sistemas de vida já tiveram oportunidade e tempo para evoluir em ordem a um objectivo de Igualdade de género e Justiça Social.

Então, agora que o mundo europeu está comovidíssimo com as mães de pele branca que procuram refúgio contra as balas, deixo aqui uma imagem de uma mãe que não tinha pele branca. Em homenagem a todas as mães que morrem nas chacinas contra os Índios, que morrem de fome em algumas zonas do Globo. Em homenagem a todas as Mães que morreram no Mediterrâneo – para quem as portas não se abriram. Porque ao contrário do que vemos presentemente, houve discussões, acordos, percentagens, numerus clausus...


A Guitarra

A palavra GUITARRA vem do Grego KITHARA - κιθάρα.
Diz-se em geral que a GUITARRA é o resultado da milenar evolução da KITHARA, e esta por sua vez, era uma LIRA (λύρα) que tinha evoluído e crescido em dimensão e fabrico – era uma lira em ponto grande, e em madeira, tendo o número de cordas subido para 15 ou mesmo para 18.
A LIRA comportava 3, 5 ou 7 cordas, e a caixa de ressonância era uma carapaça de “tartaruga”. As cordas da lira eram fabricadas a partir de tendões.
Por vezes, torna-se difícil encontrar o equivalente para certos termos. Em inglês ou francês, leio que a caixa de ressonância da lira era uma carapaça de “tortue”.
“Tortue” significa genericamente, tartaruga, como se sabe. Pelo que tanto se refere às tartarugas marinhas, grandes como é sabido, como às tartarugas de água doce, muito mais pequenas...
Penso que a caixa de ressonância da lira da Antiguidade, que era um instrumento de pequena dimensão, seria feita de uma carapaça de algum animal semelhante às tartarugas... mas seria um animal pequeno; e a concavidade era tapada por pele de vaca bem estendida.

Na cítara (KITHARA), a caixa de ressonância era em madeira, e os braços, frequentemente, eram em marfim.
No entanto a GUITARRA vem de muito mais longe. Vem da CÍTARA dos Egípcios. Mas era de origem asiática. A cítara egípcia podia ter de 5 a 18 cordas.
Também os egípcios tinham uma espécie de cítara que passou à tradição ÁRABE, o TAMBOURAH.

A Poesia de carácter pessoal, de expressão e expansão dos sentimentos, é designada como POESIA LÍRICA exatamente porque era acompanhada pela Lira. Poesia e Música são certamente irmãs gémeas – ou antes, irmãs siamesas! Nasceram juntas, uma a acompanhar a outra.

Estes instrumentos estão documentados em pinturas, as mais variadas, ou são visíveis nas esculturas... Mas não pertencem aqui ou ali, a uma ou outra cultura... Eram comuns às diferentes culturas da Antiguidade, e apresentavam muitas variantes. A Música, tal como a Poesia ou as outras artes, não tinha fronteiras. Podia apresentar características próprias em diferentes regiões, mas não tinha fronteiras. Tal como hoje.
Gosto de olhar as Artes e vê-las em perspectiva, desde a sua origem imemorial. Os instrumentos musicais são um dos muitos testemunhos de que o ser humano é dotado de sensibilidade, desde sempre! E é esse legado de sensibilidade que nos cumpre preservar, e nos salva da barbárie – que, infelizmente, também faz parte da natureza humana, mas que temos que constantemente educar e re-educar...


As Pepitas-de-Ouro de Almada

O topónimo ALMADA deriva do Árabe al-ma’adana que significava “a mina”. Em tempos do domínio árabe-berbere, houve exploração de ouro na zona da Adiça, praia de extenso areal a sul da Fonte da Telha. Actualmente conhecido como Praia da NATO.
A mina esgotou-se. Mas Almada conserva as suas pepitas de ouro...

Cacilhas
6 da tarde, fim de Agosto – Cacilhas está em obras.
Parece que finalmente vai nascer uma zona de descanso e deleite junto ao Rio... Será?... Será desta?!
Fim de Verão. Turistas de dentro, e turistas de fora.
Gente que sai para Lisboa. Gente que mora na Margem Sul e agora regressa a casa. Gente que aqui desembarca para, simplesmente, ir jantar à Costa... – ou simplesmente, para aqui vir jantar junto ao Rio!
Abanquei numa esplanadazinha abrigada, à base da ladeira Carvalho Freirinha.
– “Carvalho Freirinha, um herói almadense da Batalha da Cova da Piedade”, travada em 1833, durante a Guerra Civil (1). Uma batalha aliás decisiva, que deu a derrota final às forças miguelistas.
...a Guerra Civil, no século XIX... Também se lhe chama “as Lutas Liberais” ...

...Há coisas para mim mais difíceis de compreender que as “contas” ... As “contas”, os “problemas” ... Assombraram-me a infância; garantiram-me o eterno desprezo da família... Se fosse hoje, alguém teria alvitrado algo como “A Menina é disléxica, mais, além de Dislexia também é sofre de “Discalculia” ... Mas ao que parece, nada disso tinha ainda sido identificado. E Dislexia mais Discalculia valeram-me a fama, mil vezes difundida e repetida, de burra, burrinha, estúpida...
...A Dislexia vem acompanhada de “compreensão lenta” ... Parece que os estímulos captados pelo cérebro, em vez de atingirem de imediato o alvo que os tornará inteligíveis, muito pelo contrário, percorrem longos percursos até atingirem o cerne da interpretação...
...Talvez devido às minhas super-extraordinárias capacidades de compreensão lenta, há coisas que eu nunca percebi... Nem certamente hei-de vir a perceber. A Guerra Civil, no século XIX, aqui, entre nós, na nossa casa... A Guerra Civil de Espanha, cerca de um século depois da nossa... A Revolução Francesa, a Revolução Russa... porquê? ...Por que razão será preciso tanto sofrimento, tanto estertor, para que se possa dar um passo em frente no caminho de uma vida social mais justa, mais igualitária, com uma distribuição de possibilidades mais equitativa para todo o mundo? E porque é que uma vez vitoriosa, a luta libertadora se converte em nova opressão?... Porque é que “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”?
...Tanta reflexão, apenas porque vim a Cacilhas neste fim de tarde de fim de Verão... Felizmente, algo se interpõe, de momento, entre as minhas reflexões e o mundo que me cerca – Um cartaz anunciando um concerto de André Rieu.

Buldózeres e escavadoras. Já estão em descanso – já hoje trabalharam muito. Autocarros que chegam, autocarros que saem.
Estou aqui nesta esplanada abrigada do vento. Aquilo que se pode designar como “café de bairro”.
Clientes atrás de mim, falam alto. Cantam. Cabo-verdianos cantam em crioulo, doces melodias dolentes. Que bem que se está aqui! Toda a gente se conhece.
No meio do bulício, gente que chega, que sai dos Cacilheiros, gente que parte – e aqui, neste canto de um paraíso não identificado, toda a minha gente se conhece. Em volta de umas b’jolas, tagarelam e cantam.
Chega mais um companheiro que já cantou “com um grupo senegalês em Sesimbra e Porto Côvo”! Agora, todos falam um franco-inglesu meio tuga, meio crioulo. Párias em busca de um mundo, de um sítio onde ganhar a vida... “É preciso dar no duro...”

– Sim, é preciso dar no duro.
É preciso ser bem acolhido!

Adoro Cacilhas, uma das muitas “pepitas de ouro” de Almada. Este ir e chegar, este vai e vem, este duro ter e não-ter e não se conformar, este correr mundo em busca de um lugar...
O azul do céu começa a esmorecer... A aragem da tarde começa a arrefecer... É fim de Agosto...
Cacilhas-pepita-de-ouro de toda a gente, de todo o mundo.
Um cão senta-se ao lado da minha mesa. Mas é conhecido de um dos clientes, e ambos regressam a casa, mochila ao ombro...

(1) Batalha da Cova da Piedade *
“Tudo deve mudar para que tudo fique como está” – A desiludida frase final do romance de Tomasi de Lampedusa, “O Leopardo”.


Serra da Arrábida

A Serra ergue-se na sua imponência além da estrada. Do outro lado da barreira natural, erguida à nossa esquerda, fica o Mar Oceano.
A estrada rústica, de terra batida, segue, sinuosa, a interiorizar-se cada vez mais no interior da Floresta. Dizem os entendidos que é “a última floresta mediterrânica”, conservando ainda exemplares da Era Terciária. Não sei identificá-los, profundamente o lamento, apesar de ser tão antiga que me sinto aparentada com esses sobreviventes dessas épocas ultrapassadas, enigmáticas, misteriosas...
A estrada segue. Enquanto descemos, é sempre em frente. Há nuvens, suaves, trazidas pela aragem. A hora luminosa do canto das aves já passou. E agora, sob este calor do meio da tarde, impôs-se, quente, este silêncio abafado e húmido.
Estacionamos o carro numa encruzilhada amena. Outros caminhos seriam possíveis, mas escolhemos este – e aqui, está-se bem.
Retiramos do porta-bagagens as cadeiras de campismo. Instalamo-nos à sombra aconchegante das árvores de nomes desconhecidos. Essa incógnita não nos perturba. Abençoada, acolhedora, a sua quietude muda, convida-nos a este silêncio comunicante!
Foi este imponente silêncio que inspirou monges e poetas a procurem esta Serra como cenário da sua meditação e inspiração. Sebastião da Gama, ou Frei Agostinho da Cruz, os mais conhecidos. Séculos os separam e, no entanto, viveram o mesmo fascínio, e a mesma bênção.
Esta aragem, mais leve que a respiração... Uma ou outra folha seca balançando-se ao vento como num berço...
E este silêncio...
Vêm sublimar um pensamento actualmente recorrente... Um dia, um dia que finalmente virá, um dia, quando o meu coração mergulhar no vale do Eterno Silêncio – estará Anúbis à minha espera? Será o meu coração mais leve que esta aragem, mais leve que esta folha seca balançando-se ao vento como num berço?
Que amuleto, então, me ajudará?
Terei, ao menos, sobre o coração, um pequeno escaravelho de lápis-lazúli para me proteger?
Será, ao menos, o meu coração mais leve que a pena de Maat?... Ou que esta folhinha morta que se desprendeu da árvore e vem balançando, suavemente, harmoniosamente, ociosamente, em direcção ao chão para se refundir no eterno húmus vital?...


Não sei de quem saiba pintar a Luz


Caminhar de forma sagrada,
É fazer da vida uma arte.
Viver cada momento como se fosse o último,
Dar cada passo como se fosse o primeiro.


Palavras atribuídas ao Chefe Alce Negro (*)
(1863 - 1966)


Actualmente, vejo com frequência, invocar “a Luz Branca de Deus”. Ora, é bom lembrar que há conceitos, na Cultura Ocidental, que têm sido corrompidos por séculos de preconceitos que fundem numa amálgama conceitos sociais, conceitos religiosos e conceitos culturais e étnicos... Regra geral, considera-se que a cor e a luz brancas simbolizam ideais de Bem e de Pureza. Subentendendo-se que opostamente, a cor preta simbolizará o Mal e a Perversão. Quem não se lembra que um castigo infligido às crianças, ainda nos princípios do século XX, era o encerramento no “quarto escuro”?

A Luz, em si, não tem cor. Quem consegue fixar o Sol? A luz solar é esbraseante, esfuziante, queima os olhos se tentarmos fixá-la. Não é “branca”. E não há alternativa – também não é amarela.

Enquanto falantes – enquanto seres humanos que precisamos de comunicar – servimo-nos de metáforas. Na tentativa de comunicar certos conceitos, no decurso do tempo histórico, algumas metáforas se tornaram passíveis de ser usadas com perversidade. Figura nesse caso o adjectivo que menciona a cor “branca” enquanto aplicável a uma definição de um qualitativo de Deus; lembremos mesmo que na linguagem pictórica, servimo-nos das tintas branca ou amarela para exprimir essa mesma abstracção...

Isto parece um problema de lana caprina, conversa pueril, ou inútil. Mas muito pelo contrário, é a imensa base de uma confusão secular que tem sido responsável pela marginalização, inferiorização e martírio de gerações de seres humanos.

As palavras que usamos estão carregadas de História, como sabemos. Uma História que está mais colada a nós do que a roupa com que nos vestimos. E no entanto, pensamos com mais atenção na escolha do vestuário, do que nas palavras com que comunicamos...

...Pois quando usamos palavras com as quais corremos o risco de condenar os nossos semelhantes ao sofrimento ou à morte, não estamos a comunicar, mas sim a assumir, unilateralmente, um direito ao qual ninguém tem direito algum. Refiro-me à “nossa cultura ocidental” porque é a única que conheço, porque vivida por dentro...

Não estou a discutir o conceito de “deus”, quem é, se existe, ou se não existe. O tema desta crónica não é religioso; apenas se situa no âmbito da Linguística e da História das Mentalidades, e incide apenas sobre a palavra em si:
A palavra “deus” deriva muito remotamente da palavra indo-europeia que significava “luz”. Todos sabemos que os povos primitivos adoravam o Sol – o “pai”, fonte de energia e de vida, tal como adoravam a Terra, a “máter”, a “mãe” donde nascem os alimentos, donde brota a própria água. A palavra foi evoluindo ao passar para as antigas línguas da Europa. Parece que a palavra “Zeus”, designação do poderoso deus da cultura da Grécia antiga, ainda seria aparentada com a palavra original.

O que interessa, nesta crónica, é apenas uma questão de vocabulário – alia-se a ideia da divindade à cor branca, e numa sequência de oposição lógica, a ideia do “mal” será associável à cor preta. Este conceito foi imposto aos povos não-europeus pela colonização – o “deus dos brancos” seria “branco”... logo, seria “bom”... e o mais que não fosse “branco”... “bom” não seria... Esta dicotomia tem impregnado inaceitáveis comportamentos que têm manchado a História da Humanidade.  

Os povos antigos tinham respeito pelo poder mágico das palavras, acreditando que elas têm o poder de veicular energias positivas ou negativas.

Não posso afirmar que as palavras tenham poderes mágicos. Mas posso afirmar que sendo o meio de comunicação mais comum a todos os seres humanos, à medida que os meios de comunicação são cada vez mais universais, elas deverão ser usadas com o maior conhecimento quanto ao seu valor semântico. A história das palavras dá-lhes um peso que se torna por vezes insustentável. Sempre que ao longo de séculos se afirmou que a “luz divina” é “branca”, contribuiu-se para condenar impunemente aos maiores sofrimentos, todos os seres humanos dotados de pele não-branca...

Hoje, em véspera de passagem de ano, véspera da entrada num Ano Novo, expresso o meu voto de que todos nós usemos as palavras com a devida reverência e respeito, cientes do poder que elas contêm – e que, para que esse poder seja sempre benéfico, o seu significado seja ponderado com o coração.

* Sobre o Chefe Alce Negro, breve biografia: [wikipedia]
* “La historia de San Alce Negro, un mito de la cultura hippy” [web]


Um Natal diferente

Natal nos trópicos! Um sonho para os europeus. Tropical New Year’s Eve. Banho de mar em pleno mês de Dezembro. Como seriam os portugueses sem o seu imaginário povoado dos mitos cor-de-rosa das praias de além-mar e areal sem fim? Oh, estas ondas de suave vai-e-vem das terras de Vera-Cruz.
Sento-me na praia. Alheia ao afogo com que naturais e turistas se gozam do sol e do prazer de mergulhar nas salsas águas dos mares do sul.
Natais da minha infância. Igualmente decorridos sob a doçura de um clima assim ameno. Não exactamente a mesma coisa, bem entendido, há diferenças. Os natais no Norte de Portugal serão autênticos natais de postal ilustrado, com frio e neve, e lareiras, luvas, cachecóis. Pantufas. Mas no Sul, é muito diferente, com o seu clima de excepção.
Antigamente, os portugueses não se metiam ao mar, em dezembro. Agora é fácil, fazem surf, body-board, têm os fatos isolantes. Mas na época que neste preciso instante está a acampar na minha mente, nada disso estava na moda, aliás, pergunto-me se alguma coisa desse tipo existiria. Apenas os nórdicos, com diferente sensibilidade ao frio, se metiam ao mar, no inverno.
Aqui, na Bahia de Todos os Santos, estou mesmo dentro de um natal de verão! Mas a imagem que agora me absorve é a Rua de St.º António.
A câmara municipal de Faro tinha brindado a cidade com uma inovação de peso. Tinha montado iluminações festivas na rua principal, e havia pequenas lâmpadas coloridas suspensas em arcos metálicos, montados sobre a rua! Nunca antes tinha acontecido nada assim! As pequenas luzes suspensas brilhavam furiosamente, acompanhadas de canções de natal, em inglês! Gravações indefinidamente recomeçadas ao longo da noite! As melodias amplificadas pelos largos altifalantes de brilho bronzeado, campânulas cor de chumbo, pendurados nas sacadas das casas, com seu reflexo de pequeninas luzes como minúsculas estrelas! Foi aí que fiz o meu primeiro contacto com as famosíssimas gingle bells e silent night. E havia quem soubesse contar a história do nascimento dessas canções. Gente que sabia tanto! Como a minha família era culta.
Temperatura primaveril. Noite de inverno, límpida, como só no Algarve! A cidade em peso veio para a rua passear. Foi uma consoada de modernização, de progresso, de entusiasmo! Quem nessa noite teria ido à missa-do-galo? Qual o quê? Famílias inteiras, dos avós aos netos, passeavam Rua de St.º António acima, Rua de St.º António abaixo, gingle bells e mais gingle bells, pela cálida noite adentro.
Não era com as canções, tão repetidas que até já cansava, nem com as luzinhas ridículas, penduradas sobre a rua em arquinhos de marcha de S. João, nem com o passeio rua abaixo/rua acima já tão monótono que dava a volta ao estômago, que me vibrava o coração. O meu coração vibrava porque ele estava ali. Ainda agora, aqui mesmo, à beira do Atlântico Sul, recordando essa noite mágica, sinto uma estranha e indizível comoção. Mas já não é por ele. Não; que a vida passou. É por mim, a jovem que eu fui.
Nessa época eu não teria mais de quinze anos; ele era um pouco mais velho. – Com seu jeito de homenzinho, todo assumido, a pera crescida, o sorriso auto-satisfeito. Aquele andar seguro.
...Tanta gente ao nosso lado. Porém, era ele, e só ele, quem eu via sobressair do grupo. Monopolizando a atenção das outras jovens que lhe puxavam pela conversa, as mãos nos bolsos das calças, o peito inchando e atirando a cabeça para trás conforme ria; mas sorrindo no olhar, olhar que sempre que podia me dirigia a mim, só a mim. Pelo menos, era o que eu imaginava... Ainda hoje, ele está ali a sorrir para mim, aquele sorriso que me ficou eterno...
 Dir-se-ia que toda a sua performance perante o grupo se destinava apenas a seduzir a deferência com que eu o contemplava. Ainda hoje estou para saber – teria ele tido consciência do encantamento com que eu o via? Ou seria apenas o efeito daquele céu tão límpido e cintilante na noite escura, daquela temperatura maviosa, juvenil, em pleno inverno?
Dentro de dias, aqui na Bahia, vai ser a passagem de ano. O povo virá à praia celebrar Yemanjá, a deusa dos mares e das profundezas das águas, mãe da fertilidade e da fecundidade, mãe maternal, sempre pronta a amamentar as crianças sob o seu domínio, mãe delicada. Mas de espada em punho para defender os seus filhos. Porque não fui eu afilhada de Yemanjá? Porque nunca lhe lancei flores ao mar? Fala-se tanto em deuses, deuses diversos... Por que nunca ao pé de mim se falou em Yemanjá? Talvez nunca me tivesse ficado este vazio na mácula do coração, esta sensação insatisfeita que me faz sentir sempre a falta premente de um algo indefinido que nunca se encontra.
O casal que me acompanha sai da água, pingando dos pés à cabeça – “Porque não vens nadar? Está boa!” – “Não, não, está fria. É muito fria para mim”.
Dentro de dias, vai ser a passagem de ano. O povo vai descer à praia e vai passar a noite sambando para ajudar o ano novo a romper na alvorada. E lançar ao mar pétalas e corolas de flores em honra de Yemanjá, a deusa que amamentou seus filhos até os seios lhe crescerem desmesurados. Yemanjá que evadindo-se da humilhação que lhe causou seu segundo marido, abalou sem olhar para trás, em direcção a ocidente. Também eu me tenho esforçado por me evadir, tanto da minha própria memória, como por vezes da própria realidade... E certamente me tenho orientado para ocidente, o lado do ocaso, da Sabedoria. O lado onde o sol se põe. Cada dia que passa, é mais um passo para ocidente.
Yemanjá transformou-se em rio. E com a ajuda de Xangô, seu filho, venceu Okêrê, seu marido, a montanha. Dirigindo-se sempre para ocidente, chegou ao mar, ao oceano. Tornou-se imortal.


Homenagem a Greta Thunberg

 

Lemos nas notícias:
“A cimeira do clima das Nações Unidas, de que deverão sair compromissos firmes para conseguir cumprir o Acordo de Paris e reduzir emissões globalmente, tem este domingo seu início formal em Glasgow, na Escócia. Reúne milhares de especialistas, ativistas e líderes políticos.” (1)

***

Apesar de toda a nossa legítima preocupação quanto aos problemas climatéricos que vivemos, sabemos que as oscilações climáticas têm os seus ciclos. Toda a vida as houve... Não esqueçamos que a Europa viveu a "Pequena Idade do Gelo" entre os séculos XIV e XIX e que este período de arrefecimento do Globo teve graves consequências. Os camponeses dos países como Inglaterra e Holanda adoptaram novas culturas, como é o caso da cultura da batata, e essa alteração dos hábitos tradicionais, quer de cultivo quer alimentares, foi determinante para a sobrevivência dos povos do norte europeu.
Entretanto, países como a França, viveram épocas de grandes fomes, uma vez que ao problema climático se juntavam as consequências das guerras em que a Europa nessas épocas se envolveu, pois as tropas que cruzavam os campos devastavam e pilhavam terrenos e culturas. Sabemos hoje que essa dependência da Agricultura em relação ao Clima foi mais uma das causas da Revolução Francesa...
No que toca às oscilações climatéricas, no dia 05 do passado mês de Outubro, a LUSA noticiava (2):
Ana Monteiro, professora catedrática e investigadora do Departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, afirma que "no caso climático, o discurso do combate é perigoso, porque nos dá a impressão de que a ciência e a técnica são capazes. Não são, não é possível".
A Professora Ana Monteiro acrescenta:
"Abomino a expressão 'combater' as alterações climáticas. Não vamos combater nada, temos de nos adaptar – é outra postura. Quando digo combater, estou a assumir uma posição de controlo, pelo menos vou lutar para ganhar. Quando eu me adapto, é como num casamento, ou numa amizade (...), vou tornar-me menos vulnerável àquilo que eu acho que me incomoda", afiança a cientista, que acrescenta:
"Adaptada não quer dizer que não tenho riscos. Quer dizer é que tenho conhecimento desses riscos e impermeabilizei o solo, escolhi modelos construtivos, levo um ritmo de vida e uso formas de me transportar que me tornam menos vulnerável, porque mexer no sistema climático, não há ninguém que mexa". E diz ainda, "NÃO APRENDEMOS NADA" com a pandemia.
*
Mas de facto, não temos só o problema das alterações naturais do ciclo da Natureza... sabemos com perfeito conhecimento, que foram e continuam a ser, as grandes indústrias, os grandes potentados económicos, que deram uma mãozinha à Natureza.
E escusamos de nos choramingar, pois todos nós, países ditos civilizados, temos usufruído daquilo que se convencionou considerar como “avanços tecnológicos”! O benefício que a Humanidade tirou destes avanços tecnológicos dos últimos séculos, ao início da Era Tecnológica, foi, porventura, inconsciente dos resultados funestos que daí adviriam...
Mas desde que se tomou consciência dos problemas de poluição atmosférica, poluição de terras, rios e mares; problemas de secas advindas, por exemplo, da grande desflorestação – que é que se tem feito?
É este detalhe que pode, e deve ser, repensado – se os grandes poluidores quiserem fazê-lo...

É aqui que entra o valor dos grandes activistas que têm actuado a nível individual, dando origem à movimentação de grupos de intervenção cívica que se têm formado por todo o Planeta.
Mas não chega... A par de um retrocesso no caminho destrutivo levado a cabo pelos grandes poderes económicos, terá que haver um decisivo compromisso individual! Bruce Chatwin, já em 1987, na sua obra “Songlines”, cita o provérbio indiano: Life is a bridge.
Cross over it, but build no house on it A vida é uma ponte. Atravessa-a, mas não construas nela nenhuma casa.” (3).
Jesus Cristo, segundo rezam as crónicas, também disse, no famoso e magistral Sermão da Montanha: “Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles.”
...A nossa “civilização” ultrapassou em muito esta sabedoria, e o resultado está à vista. Prestando novamente atenção a Bruce Chatwin, vemos esta lúcida antevisão das difíceis mudanças de hábitos que nos aguardam, e que todos sem excepção vamos ter de observar e respeitar, de bom gosto ou a contra-gosto – “O mundo, se algum futuro tem, há-de ser um futuro ascético.”
“Adaptação”, foi o que fizeram os camponeses antigos dos países do Norte europeu... Eram iletrados, mas souberam compreender as suas dificuldades, e como torneá-las! E é isso que todos nós, gente instruída e culta, teremos de nos prestar a conseguir. Quanto mais cedo, melhor!

(1) - SIC Notícias, 31.10.2021 às 9h54 - Cimeira do Clima COP26
(2) - Lusa.pt, 05.10.2021 às 09h07 - Alterações climáticas
(3) - O provérbio indiano citado por Bruce Chatwin em “Songlines” – Life is a bridge. Cross over it, but build no house on it – vem na página 219 da tradução portuguesa, “Canto Nómada”. A observação de que “O mundo, se algum futuro tem, há-de ser um futuro ascético”, vem na página 164.


As três estranhas

 

Vou a descer a Avenida da Liberdade, vou com o meu pai e o meu irmão. As árvores avolumam-se de um lado e outro, os prédios erguem-se altos, cor-de-rosa, sem brilho. Uma rapariga vem ter comigo. Está perdida. Saiu do hospício, não sabe quem é. Pede ajuda, mas não tem documentos com ela. Apenas um talão de uma compra qualquer, sem indicação de qual a loja ou supermercado, sem data, sem endereço, sem preço algum... Pergunto-lhe:
– Mas o teu pai? Tu não tens pai?!
Mas ela não conhece o pai. Não sabe da mãe. Não conhece ninguém, não fala, apenas abana com a cabeça e agarra-me as mãos, quer ajuda, implora por ajuda, que a leve a casa, pois não sabe quem é nem onde está.
Deixo-a acompanhar-me, enquanto pergunto a mim própria como resolver a complicada situação.
Uns passos mais à frente, uma menina, escanzelada, semi-nua. Está perdida. Pede ajuda. Não consegue falar, mas eu percebo muito bem que me pede que a leve a casa pois não sabe onde está, não sabe onde fica a casa, não sabe o nome, não conhece a cidade.
Pergunto-lhe:
– Tens frio? Tens fome?
Sim, tem frio, muito frio, está roxa de frio. E tem fome. Tem muita fome.
Pergunto-lhe:
– E o teu pai? Não tens pai?
Mas a garota não sabe quem é o pai, não sabe da mãe, não conhece ninguém, não fala, apenas abana com a cabeça e agarra-me as mãos, quer ajuda, implora por ajuda, que a leve a casa, pois não sabe quem é nem onde está.
Avanço uns passos, com as duas estranhas ao meu lado, agarradas aos meus braços. O meu pai e o meu irmão, deixei-os para trás, aquilo não lhes diz respeito.
Digo comigo: Tenho que ir à Polícia, entrego-as lá. Não posso resolver isto. No entanto, elas ouvem os meus pensamentos, e imploram ambas que não querem a Polícia, a Polícia não tem soluções, querem-me a mim!
E eu pergunto-me: trago-as para casa? e como é que as alimento? como é que elas me irão tratar a mim?!
Subimos umas escadinhas, à direita, encostadas à parede. Umas escadinhas de degraus de ladrilho entre os muretes caiados de branco que as amparam. Como as que na antiga casa da minha infância levavam à varanda donde se avistava o mar e a Ilha cuja praia fazia as minhas delícias e onde era livre, no verão.
E elas sempre, cada vez mais agarradas a mim, olhando-me ansiosamente... E eu já não sabia se eram elas que não sabiam quem eram, ou se era eu própria à procura de mim...


Sorrow, my brother

 

Para o meu irmão Vincent, dito van Gogh

A Arte é uma paixão. Um fogo.
Quanto mais queima, mais florestas encontra
para consumir.
Não sei ciclones. Nem dilúvios, nem tornados. Que apaguem um tal fogo.

A Arte não é um amor. A paixão da Arte
opõe-se a toda a paixão de amor.
A Arte é um risco. Um desafio. Uma Hybris.
Para os leigos, a Arte é a desmesura, a loucura.
Para o Artista, a Arte é a sobrevivência,
a eternidade.

Sorrow

Quem entende a força com que fizeste “Sorrow”?
Comprazem-se os leigos a medir o Artista com seus curtos palmos. Não sabem que o Artista não precisa de disfarces, nem de roupagens estranhas, nem de gestos de espalhafato. A dimensão da Arte passa despercebida ao exterior.
Será a Arte uma Hybris? Não, que o Artista não desafia os Deuses. O risco da Arte está em desafiar os Homens – o Artista desafia o homem, o cidadão pragmaticus-economicus-politicus.
Que a voz do Artista é um pouco a voz dos Deuses? Nem sempre... Mas pode ser um dos dons com que os Deuses o brindam... Entretanto, um dom que se paga caro. Muito caro. O seu preço é o bisturi da lucidez – sensibilidade, senso crítico, objectividade, racionalidade, subjectividade – e uma terrível humildade perante a única meta possível, a Perfeição.
A Arte é o assumir de um acto constante de coragem. É este o desafio ao pragmatismo:
Propõe-se ao homo pragmaticus-economicus-politicus um espelho de um cristal tão puro que ele possa ver-se lá completamente reflectido. E é esse o risco da Arte, o risco do Artista, pois o homem pragmaticus não quer espelhos. Assustam-no, as imagens nítidas. Então, inveja, odeia quem as saiba construir.
É o homo pragmaticus-economicus, ou politicus, quem faz guerra ao Artista. E o acusa de desmesura. E lhe fala pejorativamente de loucura.
É o homo pragmaticus quem tenta reduzir o Artista à própria dimensão comum e pragmática, aplicando-lhe a sua estreita bitola. Para isso, exige-lhe, impõe-lhe, que se torne comerciante.
O homem pragmaticus tem, no entanto, os seus requintes – dá nomes pomposos ao inominável. Diz então que o Artista é acolhido pelo Comércio da Arte. Porque o homem pragmaticus sabe, sabe-o bem demais – que o Artista que vence, ainda em vida, no Comércio da Arte, em muitos casos se auto-destrói, se corrompe: o espelho transmuta-se em cabotinismo.
O Artista não é só a palavra que se escolhe, o traço que se desenha, o som que se combina, a cor que se constrói, a forma que se ergue. O artista é isso, sim, mas muito mais. O Artista assume humildemente o deslumbramento pela grandeza do Ser – a grandeza DE ser. Por isso o homem pragmaticus lhe chama narciso – um outro insulto.
Porque a grandeza de ser – Humano – é um reflexo, ou um elo, na grandeza universal, e divina, do Uno.
Então, o Artista é um ser exigente. Não encontrando com quem dialogar, tem de conformar-se – ou confinar-se – ao seu monólogo, à sua solidão. O Artista é um eremita, um asceta.
Como elo da cadeia universal da Vida, o Artista não se exprime para se opor a ninguém. Exprime-se – porque sim. Porque nasceu para erguer um marco, um padrão, que fique, que permaneça sólido. Como um apelo, como um aviso. Como um deleite.  – Mas que fique, sólido, a unir os homens.
Na sua exigente solidão, o Artista é um ser solidário.
Por tudo isto, provavelmente, pelo muito mais que eu não alcance, fizeste – Sorrow, fizeste Os Semeadores, os Girassóis...
Porque trabalhavas “como o carvoeiro, todo sujo, de manhã até à noite”.

Porém, para destruir o Artista há ainda outros modos igualmente eficazes na sua força destruidora, talvez ainda mais destruidora que a assimilação pelo Comércio da Arte – e que são processos simples, e silenciosos.
Um deles, é forçar o Artista ao exílio, às várias mortes do emigrante – castra-lhe a voz.
Um outro, é deixá-lo morrer à fome, e assim ele se cale de uma vez por todas e para sempre e não deixe rasto da sua passagem pela miséria do mundo...
Se o mundo ficar mais pobre, quem se inquieta? O homem pragmaticus só entende de romances best-sellers...
Cabe aos ministérios da Cultura, caso existam, olhar pelos Artistas que não conseguiram integrar-se nos circuitos correntes da vida comum.

Myriam Jubilot de Carvalho, Agosto 2017

Imagem: Old Man in Sorrow (On the Threshold of Eternity) (oil on canvas, 32x25-1/2 inches), belongs to the Kröller-Müller Museum in Otterlo, Netherlands.


Na praia com Pasternak

 

Hoje aceito o convite e venho até à praia com Pasternak. Conversa para cá e para lá, as palavras são como as cerejas, e vou usufruindo deste testemunho, na primeira pessoa, sobre a época literária em que viveu a primeira parte da sua vida.

Neste momento, é impressionante o seu testemunho sobre a morte de Tolstoi, a sua interpretação da sua personalidade e do seu papel na História Humana. Boris Pasternak está sentado a conversar comigo. A sua infância, os seus pais, ambos artistas, a imensidade de verstas da planície rural da Rússia de há cerca de um século atrás. Delicio-me a ouvi-lo. Parece que eu própria estou lá com ele, comungando das mesmas emoções.

...O ruído das ondas... Esta eterna rebentação azul e branca, este som-de-fundo constante e redundante, este eterno retorno, este imenso matiz do azul do céu – a tornar-se mais pesado ao cair no horizonte sobre o azul do mar. Aguarela que desce do compacto longínquo até à transparência esverdeada da praia. Como teria sido a escrita destes dois monstros sagrados se tivessem sido embalados pelo mar, como eu, desde o nascimento? Como teriam escrito, se em vez de atravessarem a imensidade das verstas rurais, tivessem atravessado o mar azul, num veleiro já com motores a vapor, tendo apenas por limites o mesmo céu, como Conrad? Que palavras, que metáforas teriam escolhido, se em vez das infindáveis planícies nevadas tivessem inspirado este aroma de areia molhada, rochedos limosos, conquilhas, búzios, lingueirões?

É domingo. A população da Grande Lisboa inunda as praias. Como, que digo eu? Do Minho ao Algarve, a costa portuguesa é inundada pela população nacional e pelos turistas que vêm de todos os lados e recantos da Europa. É este fascínio pelo Sol, o Azul sem fim, a Liberdade.

Levantamos os olhos do papel, Pasternak e eu, e comentamos. Tolstoi teria apreciado esta paz. Esta paz que se desprende deste ir e vir das pessoas nesta marginal batida pelo vento dos princípios de Julho. Há quem passeie as crianças carregadas de brinquedos de praia, os eternos baldinhos e pazinhas, formas para moldar bolos de areia e torres de castelos. Há quem passeie os cães, eternos companheiros, levando-os cuidadosamente pela trela. E há os solitários. Os grupos. Os casais. Famílias inteiras, dos avós aos netos.

Os ciclistas. O carro lento sempre presente dos Bombeiros. Jovens. Velhos. Meia-idade. Polícias na ronda. Escoteiros, mochilas às costas, sacos, lancheiras recheadas para todo o dia. Chapéus, bonés, largos decotes, Tshirts aconchegadas, Tshirts soltas. Cores neutras, cores vivas, elegâncias, deselegâncias. A dinâmica das pranchas de desporto, a pachorrice dos guarda-sóis. Bandeira vermelha, bandeira verde. Amarela, como hoje, está vento...

Que no meio de tanta paz, não nos falte nunca o toque neurótico. Já são horas de almoço. O casal que se senta à nossa frente, com um bebé. Ainda não deve ter um ano. Vejo com os meus olhos bem treinados que o bebé já está cansado. Está impertinente, choramingas. São horas do seu almoço calmo, em casa, ou na praia debaixo de uma fresca sombra. Mas não hoje... Os pais sentam-no. A criança rejeita a chucha. Choraminga. A mãe diz-lhe com severidade: Estou muito zangada contigo; estás a portar-te mal. Dão-lhe um brinquedo de plástico vermelho. Ele joga-o ao chão. Metem-lhe outra vez a chucha: Deixas-nos em paz um bocado? O bebé chora. É o pai quem se condói. Levanta-se, toma a criança ao colo, e vai dar uns passinhos na marginal, para o distrair. Depois voltam. Já a mãe comeu a sande, já está mais serena. Deixa o menino sentar-se ao seu colo e brincar-lhe com o colar.

Lembro-me da experiência dos patinhos amarelos que apanham choques eléctricos ao nascer, e ficam sempre dedicados à sádica máquina amarela, como se esta fosse a mãe de carne e osso.

...Eu sei que as pessoas estão cansadas, vêm para a praia para descansar, amanhã é novamente dia de trabalho. Mas onde ficou a ternura?

A empregada da esplanada traz-me a bica. Loira, olhos verdes. Vê o livro aberto de borco sobre a mesa, reconhece a foto da capa:
– Pasternak? A sióra gosta de Pasternak?
É russa. Estudou psicologia, mas ainda não domina suficientemente o Português para se aventurar a exercer a profissão aqui.
– Gostava de falar mais có a sióra, mas ‘tou na hora de serviço...
– Com certeza, fica para depois!
A vasta Europa. Vasta, esta grande mancha no mapa-múndi, a casa de todos nós. Cabemos cá todos. Se soubermos.

Myriam Jubilot de Carvalho, Julho 2017


Romaria

 

Passaram os bombos. Encheram de pam-pam-ratapum a rua inteira e redondezas.
Nos alto-falantes espalhados pela cidade canta o nacional-cançonetismo. O céu azul fluorescente, fosforescente, brilhante, esfuziante, incandescente, veio ajudar à festa. E a banda dos Bombeiros sobe a Avenida, vira à direita e continua, e sobe depois à esquerda e continua, e continua ladeira acima. Vai a fanfarra, vão as cornetas, vão os trompetes e mais as flautas. Vão os trombones e os oboés. Não falta nada – que é Primavera. E o ratapum lá vai, lá sobe, é o compasso, lá vai a marcha. E a miudagem e os folgazões lá vão atrás. E os curiosos, de cada lado da rua, enchem os passeios e os seus ouvidos se preenchem de ratapum.
Dirigem-se ao coreto no meio do Jardim.
É aquele coreto que estava a morrer, naquele Jardim que estava a morrer. Já não servia nem para os velhotes que nos tempos idos ali se sentavam a conversar. Nas noites de lua, nas noites de breu, o velho Jardim de vistas para o Rio servia de albergue para os vadios. Ali dormiam e se injectavam e defecavam...
Mas veio a Câmara limpar o Jardim. Redimi-lo da decadência. Dar-lhe alma nova e nova decência. Fez restaurantes de esplanada panorâmica. São caros pra burro – são para os turistas, o boom da actualidade. E as bandas que já foram a expressão da alma da cidade passam a elemento decorativo, a mero chamariz como parte do investimento dos novos planos de fomento...
Fomentem à vontade e que fermente o vosso fomento. Mas sobrevivam as bandas e as fanfarras, e o ratapum que me atordoa e faz lembrar que enquanto viver a vida é boa.
Passam os bombos. Da minha janela os vejo passar na curva da rua, na curva do Rio, espantando os pombos. Lá vai com eles aos tombos o meu coração com um calafrio de lua em lua... Ó tio! Ó tio!

Ai como eu gosto
Destas lindas crianças
Que brincam livremente
Nos cais de Cacilhas e Trafaria

Ai como eu gosto
Da menina de tranças
 
Que olha e não se cansa
Que olha e não se cansa
Que olha e não se cansa…


As Mulheres e a Maternidade

Neste primeiro quartel do século XXI, a questão da Maternidade ainda continua a servir de argumento a favor da vinculação da Mulher aos limites da vida doméstica.
Argumenta-se que a função maternal deve ser exercida pela Mãe, e que a função maternal das Mulheres não é contabilizável.
Assim, argumenta-se que é deplorável que se pense em atribuir uma remuneração à Mulher se for apenas doméstica... Pois que se estará a mercantilizar a sagrada função da Maternidade.

1-
Obviamente que o Amor e o empenho na educação dos filhos não são coisas contabilizáveis.
Mas esse Amor e empenho são tanto da responsabilidade materna como paterna.
Obviamente que é comovente admirar o quadro idílico da mãe que vive exclusivamente para o marido e para os filhos.
Mas a realidade não é assim tão idílica: A mulher que não tem profissão remunerada fica na dependência do marido. Se o marido for boa pessoa, a vida decorrerá com normalidade...
...Mas. E se não for?
Argumentar-se-á que as desilusões que surgem após o casamento, tanto podem afectar o marido como a esposa...
...Mas. Ter dinheiro próprio, garante, em última análise, o sentimento de autonomia psicológica. Se a mulher não tiver a sua garantia de independência, ficará para sempre numa posição subalterna: terá que se rebaixar a qualquer manifestação de supremacia, despotismo, ou maus tratos. Igualmente mau – quando a Mulher se revolta e sai de casa, ou quando se queixa a pedir ajuda, muitas vozes se levantarão contra ela, que “não soube perdoar”, que “não soube compreender e aceitar o seu marido que vem esgotado do trabalho”, e outros mimos conhecidos...

2-
Sempre as classes mais favorecidas tiveram criadagem.
O facto de se entregar a educação dos filhos a terceiros goza de longínqua tradição na Europa. A própria palavra PEDAGOGO deriva do nome dado ao escravo que, na Grécia da Antiguidade, era o educador do rapazinho. Depreende-se daqui que só pessoas abastadas tinham o seu PEDAGOPGO para educar os seus jovens.
Na Roma da Antiguidade, por seu lado, era um luxo e um requinte ter um PEDAGOGO grego para educar o jovem patrício.
Não vale a pena percorrermos a história da aristocracia europeia para constatarmos que os rapazinhos de sangue real tinham os seus AIOS, frequentemente, fidalgos de elevada estirpe. Que por via dessa função educativa ainda mais ascendiam na escala social. O primeiro exemplo mais conhecido deste facto, na História de Portugal, será o de Egas Moniz, aio do nosso primeiro Rei.
No quadro do Iluminismo português, tivemos o Real Colégio dos Nobres, fundado em 1761. Onde só era admitida a frequência masculina. Foi extinto depois da reforma liberal, em 1837, tendo dado lugar à Escola Politécnica de Lisboa.
Ainda no século XIX, as Mulheres das classes favorecidas não iriam à Universidade... Aprendiam a ler em casa, para lerem romances. As meninas tinham as suas preceptoras, e aprendiam Francês, e tocavam piano. Aprendiam também a bordar, a fazer rendas artísticas, aprendiam a pintar... Mas os trabalhos femininos não eram dignos de serem considerados como Arte. Eram classificados como “Artes Menores”, “Artes Aplicadas”...
Quando, finalmente, em meados do século XX, se consentiu que as Mulheres tivessem emprego, não se lhes reconheceu a finalidade de se realizarem profissionalmente. Mesmo nas classes médias, não se assumiria que era consentido às Mulheres saírem de casa para irem para o mundo exterior às quatro paredes domésticas. O facto de disporem de dinheiro seu, punha em causa a autoridade dos seus homens e o seu sentido de posse. Assumia-se o trabalho feminino como um entretém, apenas “para que tivessem o seu peculiozinho”, para que “ganhassem para os seus alfinetes, para não ficarem pesadas aos maridos”...
Ainda numa primeira metade do século XX, em casas abastadas, também as mulheres não tomariam conta da educação dos filhos, pois além da cozinheira e da criada de fora (para as limpezas), haveria também a criada dos meninos... Para esta função de “tomar conta dos meninos” acontecia, até, tomarem-se os trabalhos de meninas ou adolescentes “pobres”, para entreterem as crianças “ricas”...
Actualmente, com os pais e mães empregados, recorre-se aos infantários, equipamento social que muito se disseminou a seguir à Revolução dos Cravos. Anteriormente, essa função dos infantários era desempenhada pelas AMAS, mulheres domésticas que se encarregavam de cuidar dos bebés de mães empregadas.

3-
A propósito da inferiorização das mulheres até muito recentemente, só exemplificarei com o facto de que em França, as Mulheres só tiveram direito de voto a seguir à Segunda Guerra Mundial.

4-
Actualmente, fala-se de que em caso de divórcio, à mulher que foi doméstica toda a sua vida, deverá ser atribuído um X (no fundo, um "dote") para que possa recomeçar uma nova vida.
É a esse propósito que se contra-argumenta com o conceito de “mercantilização” da função feminina...
Na realidade, perante os factos enunciados, nem sequer percebo o que isso quererá dizer... Pois quem pôs a sua vida ao serviço de outrem, quem dedicou o seu tempo a trabalhar para "os outros" - mesmo que estes "outros" sejam a sua família, tem obviamente direito a uma compensação! Pois o dinheiro não representa um "pagamento", sendo apenas um "símbolo".
No entanto, a componente afectiva e emocional que o trabalho exclusivamente doméstico, ou de cuidadora de crianças – e já agora, de idosos –, implica, com o requerido carinho e dedicação, não são elementos mensuráveis em dinheiro. Apenas o reconhecimento e a gratidão poderão de alguma forma compensá-lo.

5- Para concluir:
A posição da Mulher tem sido vista com arrogante perversidade ao longo da História.
A prepotência da Sociedade sobre a Mulher tem sido tão forte, que no início do século XXI da era de Cristo, ainda é preciso perder-se tempo a argumentar sobre o tema...
A situação da Mulher foi de dependência ao longo da História do patriarcado. Tanto nas classes aristocráticas como na burguesia poderosa, a mulher era mantida tanto quanto possível numa relativa ignorância, para mais facilmente ser dominável, manipulável, submissa. Além de que era peça negociável para arranjos de casamento que favorecessem os interesses económicos e de poder das famílias. Eram casamentos forçados, com o consolador argumento de que "o Amor vem depois, vem do hábito"...
E foi, também, com o fundamento idílico, da mulher como “fada do lar”, que se perpetuaram os argumentos que a mantiveram nessa situação de ignorância e dependência económica ao longo dos séculos.
Terminamos com o enunciado já clássico:

            Educação igual para todos
            Trabalho igual - Salário igual
            Igualdade de Direitos
            Claro e eficaz direito à Defesa, em caso de ser vítima de
            supremacia ou de agressão.

Dos desideratos acima mencionados, os dois primeiros já estão garantidos, pelo menos teoricamente.
Falta garantir os dois últimos, tanto na teoria como sobretudo na prática.

Myriam Jubilot de Carvalho
Dia da Mãe, 2 de Maio de 2021.


Fernando Reis Luís: um poeta algarvio

O Homem e o Mar

“O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar”
Fernando Pessoa
 

Nesta colectânea, Marés & Maresias, Fernando Reis Luís, poeta algarvio, confirma-se como mais um poeta do mar, em Língua Portuguesa. O mar – que é tema natural dos povos que o têm por paisagem, cenário, e horizonte, e povoa a poesia portuguesa desde os seus primórdios medievais. A abrir a colectânea, um poema que lhe anuncia o percurso temático, uma viagem ao eu interior. No poema seguinte, Cabo Ocidental, desenha-se o promontório de Sagres e São Vicente.

Em 1929, um outro poeta algarvio, Cândido Guerreiro, dedicava uma colectânea de sonetos ao mesmo cabo – “Promontório Sacro”.

Há, porém, uma profunda diferença entre Marés & Maresias e Promontório Sacro. Neste último, o mar insere-se no imaginário colonial e imperial português, ainda ao gosto sobrevivente do Romantismo conservador. O mar é uma exaltação da grandeza da alma lusa, na linha da épica camoniana. É, assim, um tema exterior ao Eu poético, e uma explanação de mestria versificativa. Em Marés & Maresias, pelo contrário, o mar é metáfora e interiorização do tema da viagem, da aventura, do confronto com os monstros (mostrengos) que assaltam o desafio que é viver.

Na poesia de Fernando Reis Luís há uma interiorização da paisagem e do horizonte, e o mar torna-se essência e motor da linguagem poética. Enquanto em Camões e Cândido Guerreiro o mar foi um motivo épico, em Fernando Reis Luís o mar torna-se um motivo lírico – lírico no sentido etimológico, de criação poética de expressão subjectiva, destinada a ser acompanhada pela lira.

O verso de Fernando Reis Luís flui livre, e desenrola-se num caleidoscópio de vocabulário escolhido, embora de modo algum pretensioso; é uma navegação metamorfoseada em palavras. O barco – o sujeito poético – navega entre o mar e o céu, exaltando não só o desejo de aventura, mas a própria aventura de viver. Faz uma releitura dos eternos temas da efemeridade da existência humana, e da recordação da juventude, mas de forma pessoal, sem cair em tons de nostalgia. Mesmo o tema da viagem, quase obsessivamente repetido, nada tem a ver com as costumadas referencias à “gesta marítima” , reportando-se sim à viagem interior que só pode ter como porto de chegada a Sabedoria, num confronto entre o Homem e a sua força interior, com a Vida, como o Velho e o Mar de Hemingway.

De facto, já é mais que tempo de libertarmos a nossa alma colectiva dos mitos do Passado, e criarmos caminhos novos.

Prefácio de “Marés & Maresias” 
Myriam Jubilot de Carvalho, 15 de Novembro de 2014


Uma lenda Grega que é um exemplo de Serenidade

“Omnia mea mecum porto”, a célebre frase de Bías, de Priene

BÍAS é um dos lendários “sábios da Grécia” – “sábios”, na acepção de “filósofos”. Bías, um filósofo, terá vivido no século VI aC. Seria natural de Priene, na Jónia – antigo nome de uma região da Anatólia (na Turquia actual).

* * *

A primeira vez que ouvi falar de Bías foi ao meu professor de Grego, no 6º ou 7º ano do antigo programa do Liceu.
Contava ele que Bías ia numa viagem no Mediterrâneo, quando surgiu uma tremenda tempestade que ameaçava afundar a bela trirreme.
Na confusão, o comandante mandou que os passageiros lançassem ao mar todas as cargas. E todos os tripulantes e viajantes se apressaram a lançar borda fora todos os seus haveres!
...Apenas Bías se conservava muito sentado no tombadilho, encostado a um dos mastros.
O comandante passou e admirou-se. Interpelou-o:
– Então, Bías, toda a gente se mexeu, menos tu?! Vá, despacha-te, vai buscar as tuas coisas! Deita tudo ao mar!
E Bías respondeu com toda a serenidade... – E aqui, o nosso Professor de Grego interpelava a turma: Que é que as Meninas acham que ele respondeu?! Hã?!...
Ninguém sabia responder.
E o Dr. Inocentes sorriu e rematou:
– “Omnia mea mecum porto.” Ele disse: “Omnia mea mecum porto”!... Que significa: “Tudo o que eu tenho, trago comigo.” – Quer dizer, ele não possuía nada. Nada de bens materiais! Toda a sua riqueza, todos os seus bens, eram a sua sabedoria!
Alguém perguntou:
– Sr. Doutor, se ele era Grego, porque é que essa frase é dita em Latim?
Ao que o Dr. Inocentes esclareceu:
– Muito bem perguntado! É que foi Cícero, o notável causídico Romano, do século I aC, quem nos deixou o relato deste episódio... 

* * *

Nunca esqueci esta história, e uma ou outra vez a contei aos meus alunos.
No entanto, encontrei na Net uma outra versão:
Bías ia a fugir da sua cidade juntamente com outros cidadãos, devido a uma invasão de inimigos...
Toda a gente fugia com tralhas e haveres às costas. Excepto ele...
Alguém lhe perguntou:
– Bías! Então, não trazes nada contigo?! Não tentas salvar alguma coisa?!
E a resposta teria sido a mesma:
– “Omnia mea mecum porto.” – Tudo o que tenho, trago comigo.


As Mulheres e o Silêncio

“Para cada homem, há sete mulheres e meia” – dito popular

1.
Diz-se, em geral, que as Mulheres “são a outra metade da Humanidade”.
À primeira vista, somos levados a pensar que talvez não seja bem assim... Porque é próprio do Mundo Animal, do qual o ser humano, quer queira quer não queira, é parte integrante, haver mais fêmeas do que machos.
A poligamia faz parte da realidade de grande parte da Natureza, embora haja, como é sabido, animais que acasalam de modo monogâmico para toda a vida. 

A sociedade monogâmica europeia vem da tradição romana. No entanto, nem por isso os Romanos demonstravam maior respeito pelas Mulheres, pois acontecia que jogassem as esposas aos dados, ou trocassem de consorte entre amigos, por tempo indeterminado.
A Igreja, herdeira da cultura latina, que a expandiu no mundo europeu na Alta Idade Média, impôs a monogamia como boa forma de organização social. 

No mundo visigótico não era assim. Os Visigodos eram polígamos. Pelo menos, nas classes altas. Era necessário garantir a transmissão da linhagem, e das heranças, nessa época em que a mortalidade infantil era elevada.
Muitos reis peninsulares, descendentes e herdeiros da cultura dos Visigodos, viveram em litígio com a Igreja católica. Como se sabe, os nossos reis faziam os seus casamentos de acordo com os interesses de alianças políticas, mas mantinham a tradição poligâmica. Frequentemente o amor nascia fora do casamento, uma vez que este tinha sido realizado por mera conveniência política. 

No Islamismo, o Profeta Maomé manteve a poligamia, como forma de garantir a subsistência e o estatuto das mulheres. Em caso de viuvez, o irmão do defunto deveria casar com a viúva, não por “abuso de poder”, mas sim para lhe garantir abrigo e dignidade.
Aliás, a tradição do “harém” era muito cultivada no mundo e cultura de Bizâncio. 

Obviamente, nessas épocas recuadas, a Mulher não tinha os mesmos direitos que o Homem, e quer no casamento polígamo, quer no casamento monógamo, a Mulher era propriedade do Homem a quem devia manter-se humildemente submissa e sempre eternamente grata. Até porque num mundo de severa divisão do trabalho, à Mulher de qualquer estrato da sociedade estava reservada a salvaguarda do gineceu. 

De qualquer modo, vemos que a instituição do casamento polígamo não era como vulgarmente se diz, uma instituição bárbara e lasciva, mas uma forma considerada viável de garantia de uma sociedade digna...
Que essa solução tenha sido vivida como situações de exploração e subalternização, isso é próprio da natureza humana, que sempre encontra um modo de subverter as boas intenções das instituições e de as tornar venais... 

Um dia, um jornalista ocidental perguntou à princesa indiana Gayatri Devi (1919-2009), educada em Inglaterra, e que tanto fez pela elevação do nível educacional das Mulheres indianas criando escolas para meninas, como é que uma “mulher educada no Ocidente” se permitira casar em regime de poligamia. E a sua resposta foi simples, directa e eloquente:
Vocês no Ocidente fazem o mesmo, mas às ocultas; não seja hipócrita!  

2.
Muito bem. Se os homens, de uma forma ou de outra – e sem juízos de valor – precisam de ter mais do que uma companheira, e se de facto, um bom número deles dá prática a essa necessidade, perguntar-se-á se as mulheres serão mais numerosas que os homens.   

Na realidade, as estatísticas mundiais dizem que o número humano de machos e de fêmeas é bastante equilibrado: aproximadamente 1,01 homem para 1 mulher. 

3.
A pergunta que eu me proponho e para a qual não encontro resposta que me satisfaça, é a seguinte:
Sendo o número de homens e de mulheres tão equilibrado, como se compreende que as Mulheres tenham sido tão subjugadas e silenciadas ao longo da História?! 

Só encontro uma resposta:
Pela força. Pela desigualdade das leis. Pela perversidade de as manter em estado de ignorância.  

É por isso que uma das principais medidas a que se lança mão quando se quer levantar o nível da consciência individual e social da mulher, é fomentar a Educação!
E atingimos aquele conhecido lema:  

Educação igual para todos
e
Trabalho igual / salário igual 

Os meus votos, hoje, dia 8 de Março de 2021, é que a Educação chegue a todas as Mulheres do Mundo, e que ela seja o instrumento, a alavanca que faça subir a sua consciência dos seus Direitos e da sua Dignidade!


Mês de Março
Dia Internacional da Mulher, Dia da Árvore, Dia Internacional da Poesia

Começo pela Árvore, e regresso ao Jardim do Éden,
onde se encontra para todo o sempre
a Árvore da Vida

Ninguém sabe onde fica, ou onde ficava....
...Ficou por lá, no Mundo do Sonho...

A infância...
Templo dourado e um céu azul
Locus amoenus – locus horribilis – um pouco de tudo...

Locus poeticus
De fontes e ribeiras,
salgueiros debruçados na correnteza
Cegonhas, e noras...
Patos reais, cisnes brancos 

Primaveras de lendas
Impossíveis, inverosímeis histórias
de Amor
A espuma das águas
que se eleva nas levadas 

Mulher, ou Árvore, bilros e rendas
Espuma – ou Lenda
Somos Poesia 

Myriam Jubilot de Carvalho
21 de Março de 2021


Dia da Árvore - Dia da Poesia
Uma justaposição bem pensada

Hoje, em vez de recordar algum poema que me tenha marcado, se é que isso fosse possível, pois são inúmeros os poemas que nos marcam ao longo da vida, prefiro recordar três grandes Poetas que marcaram a minha formação enquanto pessoa pensante.
Não tanto pela Poesia em si, mas pelo modo como a viveram.
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JORGE de SENA - o grande Mestre.
Os seus estudos sobre Camões
Eu lia e re-lia os seus prefácios às obras de outros poetas. Foi Jorge de Sena quem valorizou a Poesia de António Gedeão e a sua escrita aparentemente simples. Simples - mas não "simplista".
Preservo com veneração a sua obra "Poesia de 26 Séculos", uma antologia em três volumes:
1-" De Arquíloco a Calderon"
2- "De Bashô a Nietzsche"
3- "Poesia do século XX - De Thomas Hardy a C. V. Cattaneo"
Obra publicada pela Editorial Inova, em 1971.
Jorge de Sena foi opositor à Ditadura, tendo tido que se exilar. Recorreu primeiro ao Brasil, mas devido à implantação da Ditadura nesse país, optou em seguida pelos Estados Unidos, onde foi professor na universidade do Wisconsin, e depois, professor catedrático efectivo na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara.
(Jorge de Sena - 1919-1978).
*
DAVID MOURÃO_FERREIRA - o grande Artista.
De David Mourão-Ferreira guardo com igual veneração as suas duas obras sobre Poesia.
Diferentemente de Jorge de Sena, a obra 'teórica' de David Mourão-Ferreira incide apenas sobre a Poesia Europeia:
= "Vozes da Poesia Europeia" - 3 volumes, publicados pela COLÓQUIO LETRAS; Nºs 163, 164, 165. Em 2003.
Nesta colectânea, David Mourão-Ferreira oferece-nos uma antologia panorâmica da Poesia europeia, muitas vezes com transposições dos poemas originais, feitas por ele prórprio para Português.
= "Imagens da Poesia Europeia" - 2 volumes. Igualmente publicados pela COLÓQUIO LETRAS, Nºs 166/167, e 168/169. Aqui, o Poeta lega-nos uma colecção de estudos sobre Poetas maiores que enriqueceram a vivência e tradição poéticas da Europa.
Estas obras correspondem aos programas que o Poeta desenvolveu na RTP, na década de '50 do século passado. Programas a que eu assistia devotamente, numa época em que a televisão era ainda coisa rara em Portugal.
Em Faro, onde eu vivia, foi instalado um aparelho único,no teatro do antigo Lethes. Era um aparelho monumental, com um enorme ecrã panorâmico, e quem queria ver TV, tinha que pagar um ingresso de 10 tostões ou seja, 1 Escudo... E ali se passava o serão, na sala escurecida, assistindo à programação toda, do princípio até ao fim!
Os programas de David Mourão-Ferreira figuravam entre os meus favoritos.
David Mourão-Ferreira foi Secretário de Estado da Cultura entre 1976 e 1978.
Não tendo sido um poeta da Resistência, é no entanto de sua autoria o poema do fado de denúncia do status de então, o conhecido 'Fado Peniche'. Que obviamente veio a ser proibido pela Censura, tendo o compositor Alain Oulman sido expulso do País.
(David Mourão-Ferreira - 1927-1996)
*
ZECA AFONSO - o Visionário, o Idealista - a seu modo, um outro Mestre e igualmente um grande Poeta.
Enquanto os dois Poetas anteriores cumpriram um lugar educativo, embora restrito à Educação e à formação do gosto do público, aliás do público mais interessado em questões de Literatura, Zeca Afonso doou a sua sensibilidade à causa de um mundo melhor e mais justo.
Tive a sorte de ser sua aluna em Faro, tinha eu uns 14 anos.
É a ele que devo a minha sensibilização à realidade social e política. Não porque ele fizesse "doutrinação" nas suas aulas - de modo algum.
Mas pelo seu exemplo! Foi um modelo!
A sua generosidade e grandeza não se deixaram limitar pela repressão que a Ditadura exercia sobre a sociedade dessa época de triste memória. Ou sobre quem tão abertamente se lhe opunha.
Prisões e tortura abalaram-no de tal modo, que assisti a sessões em que Adriano Correia de Oliveira se colocava atrás dele, e junto ao seu ouvido lhe segredava os poemas que ele próprio fizera...
A presença de José Afonso nos "convívios", nos últimos anos da Ditadura, era galvanizante. Recordo uma sessão na Faculdade de Medicina. Quando o Zeca atacou "Os Vampiros" a sala arriscou-se a vir abaixo.
Estou convencida que sem a sua elevação moral e o seu denodo, e o seu exemplo, não teria havido 25 de Abril... Sabemos que devemos a Revolução dos Cravos à acção persistente e denodada do Partido Comunista, sem dúvida. Mas sem a acção de José Afonso... Nada teria sido como foi.
(José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos - 1929-1987)
(Adriano Correia de Oliveira - 1942-1982).

Outros grandes Poetas poderia hoje evocar. Sem dúvida.
...Mas estes são "os meus".


Lenda de Muqaddam Ibn Muafá, Al-Cabrí

À memória de minha avó Maria Carlota da Ascensão Jubilot 

       Madrugada. Suave, a brisa refrescava o alpendre a um canto do jardim. Grande, o grupo que desde o cair da tarde ali se ia juntando em volta da fogueira que os escravos não deixavam esmorecer. A Primavera já se instalara mas as madrugadas eram ainda muito frias, ainda se sentia a necessidade do conforto das mantas de lã de ovelha em entrelaçados brancos e castanhos, estendidas ao longo dos largos almofadões. E havia também muito com que aquecer o corpo, por dentro. Não faltavam os vinhos, os assados, os frutos, mas também os sumos, e para os mais enregelados, as infusões de ervas aromáticas ou as vigorosas chinitas, ainda sabendo a figo. Oh, tudo isso a par do estímulo de companhias esbeltas, delicadas, perfumadas, primorosamente vestidas, sedutoras... E mais os apelos da conversação! Dissertações sobre a situação agitada que se vivia no Emirato... Mas acima de tudo as controvérsias sobre o sentido da Vida, seus terríveis dissabores, sua efemeridade... Mas acima de tudo os seus prazeres! E o sentido do Amor.
       Muqaddam Ibn Muafá, o Cego de Cabra, ali perto de Córdova, fazia parte daquele grupo, pois os longos serões exigiam a presença dos poetas consagrados. Corria o ano de 880. Ibn Hafsún, o proscrito, regressava do Norte de África e era recebido com as honras devidas a um caudilho que lança o rasto da revolta Goda. Aquela noite iria ficar memorável. A presença de Omar Ibn Hafsún tinha feito reunir senhores e suas famílias, todos vindos das redondezas. Um serão que iria ter uma repercussão inesperada na Poesia das Hispânias.
        O velho Muqaddam tinha estado à altura das expectativas, apesar da comparência doutros poetas, cortesãos e ambulantes, e da concorrência que entre eles se estabelecia. Tinha dito poemas doutros poetas, tinha cantado, tinha dito poemas seus já antigos, tinha improvisado outros mais. Uma noite especial. Até as mulheres tinham ido espreitar às janelas de reixa, para ouvir os descantes. E, surpresa, o Senhor tinha-lhes acenado:
       – Que é que fazem aí? Desçam! Desçam, juntem-se à festa! Hoje a noite é nossa!
       ...E todos, sem excepção, homens e mulheres, entre os vapores perfumados da noite primaverilmente fresca, entoaram antigas canções, quase esquecidas...
       Uma noite gloriosa. Daquelas que só acontecem uma vez na vida.
       Chegou, porém, o momento em que o frio começou a apertar. O velho Muqaddam sentia os ossos enregelados. Pediu licença para se recolher.
       Muqaddam chegava agora ao seu aposento, um recanto abrigado que lhe reservavam na zona da criadagem. A sua amiga favorita, uma jovem escrava do serviço das cozinhas, acendia para ele um caldeirão de brasas e colocava-lho no meio do aposento. Como sempre, chegava meio tonto... A noitada, a escrava que habitualmente se ocupava dele no decurso do repasto, enternecida pelos seus olhos sem vida, o jovem copeiro que solicitamente lhe renovava o recheio da taça... Muqaddam chegava no seu andar pesado, lento, cauteloso. Naquela madrugada, porém, não eram só os vapores do álcool... Apoiado ao jovem copeiro, conseguiu sentar-se.
       – Senta-te aqui, ao meu lado – disse ao jovem. – Tenho aí onde podes escrever, pega numa pena, tenho as palavras a dançarem-me na mente...
       Distendeu as pernas, pesadas da gota e do álcool. À sua mente cambaleante, estimulada pelas sensações despertas pelas vivências da noite, ocorreu uma ideia, uma coisa esquisita, que não soube definir...
       Muqaddam fechou os olhos... A brisa fria continuava a entrar pelas frinchas do postigo, cantava-lhe qualquer coisa que ele não conseguia agarrar... Desapertou o cinturão bordado a lantejoulas, o fivelão de prata... Fechou os olhos para olhar interiormente a sensação indefinida...
       Era a avó. Era a avó quem cantava... Cantava uma canção de outras eras, uma canção que aprendera na infância quando acompanhava a mãe à fonte ou a ir lavar a roupa à ribeira... E cantava-a em adulta, durante as duras lidas da horta, ou quando se sentava ao tear... As antigas palavras dançavam na extremidade de um raio de sol que nascia, bruxuleavam na chama da candeia ainda acesa – mas ele não podia vê-las... Sentado aos pés do leito, tacteou, procurando o alaúde. Tentou dedilhar um poema, uma canção... Aquela canção... Tantas vezes a tinha ouvido, com a displicência dos jovens que dizem para consigo “Esse tempo já lá vai”... E nessa noite, as cantadeiras tinham entoado a mesma copla... Tentou dedilhá-la. Sorriu, satisfeito, quando lhe apanhou a toada... Continuou. A mesma copla... e tantas outras, semelhantes... Tinha sido uma noite diferente, aconteceu por acaso, sem se perceber como... Talvez que a presença de Omar Ibn Hafsún, o nobre descendente de Godos, os seus relatos das saudades da sua terra, dos seus amigos, da família... A descrição dos perigos que tinha corrido... Assunto poucas vezes abordado, houve quem se lembrasse de falar, mesmo que de forma velada e indirecta, das suas origens de antanho, referindo a necessidade óbvia e incontroversa da conversão, as suas vantagens, não só as materiais, certamente, mas sobremaneira, as espirituais também... No fundo, lá bem no fundo da alma, tinha acontecido que todos se tinham regozijado por ali estarem, todos juntos, falando do tempo antigo, contando histórias de família, histórias de falecidos vizinhos, comparando duas religiões, duas filosofias, dois modos de vida... Todos os convivas se tinham sentido irmanados num sentimento de unidade, os acepipes nessa noite tinham sabido melhor. E tocadores e cantadores, todos sem excepção, tinham colaborado de forma desusada. E a grande surpresa! A grande surpresa dessa noite, tinham sido as cantadeiras jovens quem tinha trazido à lembrança dos presentes, de forma espontânea, soltos, à vontade, numa noite de justas poéticas sem fim, tinham trazido de novo à vida os velhos cantares da poesia do povo... Afinal, a Poesia do povo peninsular não estava esquecida... Todos os comensais, liberta a saudade pela suavidade que o bom vinho desperta nos corações amorosos, tinham cantado as aquelas coplas em que as moças donzelas faziam as suas queixas das suas coitas de amor à mãe, ou confessavam ao ingrato namorado que sem ele não poderiam viver...
       – Que dizes? – perguntou ao jovem. – É isto, não é?
       – Sim, Mestre, acho que vai muito bem.
       – Então, canta comigo...

Mamma ayy habibi
sua al-gumella saqrella
e el qollo albo
e bokella hamrella

       – Ainda sabes o que isto quer dizer? – perguntou Muqaddam.
       – Sim, Mestre, a minha mãe ainda canta estas coisas. E é assim que ainda se costuma falar na minha casa... – Acompanhando-se ao alaúde, cantou em língua Árabe:

– Mãe, que amigo!
A cabeleira é ruivita
O colo branco
e vermelha, sua boquita
 

       – É o que isto quer dizer? Bem me parecia... – E insistiu – Continua, continua! Vocês deram-me uma noite de sonho! Eu nunca tinha ligado a estas cantigas, e agora estão a parecer-me tão belas! Parece que as oiço pela primeira vez!...
       O jovem prosseguia, incansável, sem sono, contagiado pelo entusiasmo do cego, cantando no seu dialecto original, o dialecto popular, a Língua dos Cristãos arabizados, meio latina, meio visigoda, meio árabe...  

Ké faré mamma
mio al-habib est ad yana

       E depois, transpondo para Árabe, a refrescar a memória do velho Mestre: 

– Que farei, mãe,
O meu amigo está à porta

       Novamente, no seu dialecto familiar: 

Sabes ya mio amor
ke kata-me el morire
imsí, ya imsi, ha bibi
no se, sin te ber, dormire.

Já sabes, meu amor,
que sem ti vou morrer...
Vem, oh, vem, meu amigo,
Como posso dormir, sem te ver?

       O sol saía agora completamente. Cantava a Primavera na brisa ainda fresca da manhã. O velho aedo disse ao ajudante:
       – Esta manhã. Estás por minha conta! Vamos fazer uma coisa, e vai ser mais complexa que um jogo de xeiques! Vais estar com toda a atenção, não quero enganos!
       – E o que será assim tão importante, Mestre?
       – Vais escolher aí uma copla dessas. Escolhe mesmo a que mais te agradar! Canta-a lá para eu ouvir...
       O rapazinho cantou:

Tanto amare tanto amare
habib tanto amare
enfermeron olios nidios
e dolen tan male.

       – Muito bem! É linda, mesmo linda! – O velho pensou um pouco... – Agora, vamos arranjar rimas, quero palavras do povo, ajuda-me a pensar!
       – Rimas, mestre?!
       – Sabes o que são rimas, não sabes?! Então, vá lá! Pensa em palavras, palavras simples, que rimem umas com as outras!
       – ...Palavras árabes?
       – Não percebes?! Coisa fácil: quero palavras árabes, do povo, palavras simples, e que façam rima entre si!
       – Mestre, como vou conseguir isso?
       – E para que queres tu a cabeça – para o cutelo?
       – Não! Claro que não! – O jovem respirou fundo a recuperar o fôlego. – Mestre, não me diga essas coisas, já sabe que eu não gosto.
       – Fizeste mal a alguém? Não fizeste, pois não?
       – Não, Mestre, não faço mal a ninguém, mas... Ibn Hafsún andou fugido...
       – Porque matou um homem e teve que se proteger da desforra da família do morto. Não sabias? Mas ele agora foi perdoado, deixa lá isso. Não faças tu mal a ninguém, é o que interessa. Bem, e deixemo-nos de coisas, vamos às palavras! Quero fazer um poema novo!
       – Então, e a copla cristã?
       – Oh! Essa vai ser a grande novidade neste poema – vamos usá-la como remate!

*

       Naquela noite terá nascido, de facto, um poema novo.
       ...Segundo a tradição, Muqaddam escolhia primeiro as palavras do Povo, palavras da língua Árabe, coloquiais, despretensiosas, para que comandassem as rimas do poema que ia fazer nascer; com elas, construía um pequeno poema estrófico – pequeno, mas complexo como um jogo de xeiques: em primeiro lugar um mote, com seus dois versos e a rima previamente escolhida; depois, uma quintilha onde nos seus primeiros três versos mudava a rima e nos dois seguintes, voltava à rima inicial, estribando-se nela para dar movimento e unidade à construção; seguindo-se depois mais umas novas estrofes, sempre nos mesmos moldes; e para finalizar, como ele próprio dizia, uma homenagem à avó e à mãe com quem tinha aprendido a cantar – uma bela estrofe da Lírica tradicional dos seus antepassados Cristãos, na sua Língua cristã, a rematar o poema em Árabe como uma finda, uma saída.
       Um estranho poema que condensava num só sentimento, numa só expressão, as suas duas Línguas, como um colar de pérolas de duas voltas; e forte e eterno, como o seu cinturão de lantejoulas. Por essas ambas razões, lhe chamou MOAXA’HA.

BIBLIOGRAFIA principal:
= Além das minhas recordações de Algarvia, as duas principais fontes que consultei para este conto:
James T. Monroe – “La Poesía HispanoÁrabe durante el Califado de Córdoba – Teoria y Prática” (na Net)
Jesús Greus – “Así vivieron em al-Andalus” – col. Biblioteca básica, História, Editora Anaya – Madrid, 2009.  

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Uma versão prévia deste conto foi publicada no blogue (Por Ondas do Mar de Vigo) em 6 de Agosto de 2012: http://myriamdecarvalho.com/blog/