Margarida Vale

Os novos medievais

Margarida Vale

A lepra

A lepra é uma doença infecciosa. O médico Gustav Hansen, em 1873, identificou o bacilo que a provoca, semelhante ao de Koch, o responsável pela tuberculose. Esta doença reveste-se de dois aspetos, sendo que um deles é a forma tuberculóide, com manchas que se infiltram nos nervos, de forma lenta e que lhe provoca uma atrofia das extremidades que acabam por ser amputadas de modo espontâneo. Este lento definhar pode durar até trinta anos. A outra forma é a lepromatosa, contagiosa, formando nódulos que se infiltram na pele, provocando o facies leonino, o osso do orifício nasal fica erodido e o palato esburacado. Acrescem ainda as febres, escamas e comichões que paralisam o corpo. Esta forma é mais rápida e em cerca de três a cinco anos leva à morte.

Nos tempos remotos, no auge das cruzadas, esta doença já era conhecida. A sua primeira referência é feita em França, no século II e a mesma remete para um santuário pagão, em Berry, cuja reputação milagrosa, curava a doença. A primeira leprosaria, se assim se pode chamar, tem a data de 460, construída ao lado da abadia de Saint-Claude. Os concílios debruçaram-se sobre o tema e a respetiva assistência, sendo que, cerca de 580, o bispo de Chalon-sur-Saône mandou construir um estabelecimento especializado, junto às portas da cidade.

Depois desta data ouve-se falar de novo da doença, no século VIII, aquando das invasões muçulmanas, que favoreceram a sua disseminação. Após esta data, a doença recua até ser falada, novamente, no século XII. Considerada como hereditária e incurável, já em pelo século XX, era tratada com sulfonas, nos Estados Unidos, em 1943. Mesmo depois da descoberta do bacilo, não se chegou a uma vacina.

A lepra é um dos flagelos da Idade Média pois pelo pânico que gera, o horror que espalha e a condição miserável dos doentes, leva a uma tomada de medidas preventivas urgentes de forma a evitar o contágio. No século XIII, no ocidente, era a doença dominante. O surto foi resultante das cruzadas pois foi a época de maior intercâmbio entre o Ocidente e a zona da Palestina, onde a lepra é endémica. É precisamente aí que é fundada, em 1189, a ordem hospitalária de S. Lázaro, que tem como mote o cuidado dos leprosos.

Leprosarias, gafarias ou lazaretos são nomes que identificam os locais onde os doentes são encerrados para fugir dos olhares assustados da população e terem um pouco de paz. Na ausência de conhecimento sobre a doença, o modo mais eficaz que foi encontrado, era o afastamento para esses locais específicos que foram fundados pelos príncipes. Esta seria a sua participação no combate à doença e o retomar da tranquilidade urbana. O leproso era vítima de denúncia, que podia ser de uma familiar ou alguém próximo. As autoridades eram alertadas e o suspeito comparecia perante um júri.

Inicialmente este era constituído por leprosos sendo que mais tarde tinha como membros, um médico, um preboste e um padre. Se fosse certo que padecia da doença, seguia-se um ritual que simbolizava a sua partida: o padre lançava, sobre a cabeça do leproso, um punhado de terra do cemitério e isso era como se tivesse morrido ali. Separado dos demais, fica sem possibilidade de ter mais vida. Não podia ter direito a porte de arma, de clamar justiça ou de casar com uma mulher saudável e muitos menos batizar os filhos.

Há toda uma parafrenália de identificação que o coloca em desvantagem. Tem que usar vestes especiais, com o aviso do seu estado, sapatos, luvas e ainda uma espécie de som especial, umas castanholas que indicavam que se aproximava. Ao ouvir esse barulho, os saudáveis afastavam-se e os doentes eram ainda mais mal tratados, chegando a ouvir insultos ou ainda estarem sujeitos a receberem pedras.Nas leprosarias os cuidados eram mínimos, apenas uns banhos e unguentos que de nada serviam. Em certos casos ainda se praticava a castração do homem.

Nestas circunstâncias, os leprosos tornam-se vagabundos pois ser internado significa que a vida acaba de vez. Como não podem entrar nas cidades, são errantes e tentam sobreviver conforme conseguem. O cenário pode parecer dantesco, com os doentes a caminharem em busca de alimento. Alguns camponeses, poucos, condoíam-se destes desgraçados e alimentavam estes corpos miseráveis. O ódio que gera a sua presença mostra bem como era o espírito da época que, curiosamente, nada mudou no século XXI.

Os reis dão grandes somas de dinheiro para as gafarias como forma de seguir as mais básicas indicações do evangelho que incita à ajuda ao próximo. Contudo a associação que é feita entre esta doença e o pecado torna tudo mais complexo. Em França, em 1320/1321, corria o boato de que os leprosos, enjaulados por judeus e muçulanos, envenenavam as fontes para matar os cristãos saudáveis. É assim que muitos leprosos morrem queimados nas fogueiras e não da doença.Tudo isto se perpetuou até aos finais do século XIV mas outros desafios apareceram para continuar o medo.

Hoje em dia a doença ainda existe e persiste. Cerca de 10 milhões de pessoas ainda são afetadas pela mesma, mudando apenas a situação geográfica. Na Europa são poucos os casos, pois a mesma chega através de um sistema de importação. Em África, sobretudo na dita África Negra, a contaminação é muito elevada e a sua contagem torna-se impossível. Na Ásia, a maior incidência é na Índia, com cerca de dois milhões de doentes, tendo-se, então, propagado à Oceânia através da imigração chinesa e japonesa. No que concerne a América, a América Latina, palco de grandes grupos de escravos, ainda é uma zona com grande incidência. O Brasil terá cerca de 160000 leprosos.

Apesar de se saber que é um bacilo o responsável pela doença, o mito da praga ainda se propaga. Como tratamento para a mesma, o primeiro passo continua a ser o isolamento, a profilaxia que evita o terror geral. Sabe-se que o microorganismo responsável é o mycobacterium leprae, que se vulgarizou pelo nome de bacilo de Hansen. O germe da lepra penetra no organismo através das mucosas, da pele e ainda das vias respiratórias, disseminando-se por todo o corpo. O diagnóstico é clínico e deve ser confirmado através de uma biópsia cutânea. O tratamento de eleição é a DDS, diaminodifenilsulfona, isolada e em associação com a rifampicina. Este tratamento pode durar até dez anos.

Em Portugal só se conheceu a primeira evidência paleopatológica em 2003, resultante de uma escavação próxima da Ermida de Santo André, em Beja. Foram encontrados corpos de indivíduos que teriam sofrido da doença, o que se verificou através das lesões. Outra descoberta foi feita em Lagos, com o mesmo tipo de lesão. Sabe-se que existiram cerca de 70 leprosarias, ou gafarias, conforme a nomenclatura, desde o século XI, que tinham como mote o internamento destes doentes, sendo que não se conhecia mais nenhuma forma de tratar a doença.

A gafaria mais conhecida foi o Hospital Rovisco Pais, no século XX. O professor Bissaya Barreto criou a Leprosaria Nacional Rovisco Pais, uma propriedade enorme, de teor agrícola, a Quinta da Fonte Quente, na Tocha. Aí os doentes, com uma lotação para mil, ficavam isolados das cidades e assim sendo evitavam os surtos de afastamento e de rejeição. O internamento era compulsivo e os seus direitos deixavam de existir. Qualquer tentativa de fuga era punível e o trabalho funcionava como processo terapêutico e de formação profissional. Esta era uma medida já a pensar na reinserção social. O ponto fundamental era a alfabetização dos que podiam sobreviver.

Independentemente da doença ter ou não cura, o cinema eternizou-a como algo de muito negativo e até mesmo assustador. Os leprosos eram os proscritos, os bandidos e por isso o castigo era aquela doença que o fazia morrer aos poucos, por não terem cumprido certas regras impostas pela sociedade. O imaginário popular tende a eternizar este mito. A palavra leproso era dita em tom receoso, como se fosse uma forma de nunca chegar perto do que se desconhecia, mas que aterrorizava todos.

O curioso é que em pleno século XXI os medos ancestrais regressaram todos levando a que as pessoas se afastem umas das outras e que se esqueçam do poder do toque e da sensibilidade de cada um. Há um saltar constante de egoísmos diários, de não querer saber e de denúncias como se nada se soubesse sobre medicina. Esta ciência continua em evolução, como é natural, mas a humanidade, aquilo que dá destaque às pessoas, parece estar em modo de esgotado ou até mesmo de desconhecido.

Agora não existem os sons matraqueantes das castanholas de aviso, mas sim os designs digitais que continuam a fazer a diferenciação entre as pessoas. Novos tempos e novos métodos de separar, de criar divisões, de afastar e manter os que não se deixam moldar, longe dos que tudo permitem. Em nome da saúde de todos, matam-se os sãos e os fracos e incapazes, ganham primazia e são o novo exército que se chega à frente e faz ouvir a sua voz. Mesmo que nem todos concordem, permitem que lhes seja roubada a liberdade de decidir.


Inês de Castro, o amor eterno

O amor é um sentimento grande e profundo que desnorteia quem o sente e torna refém quem o entoa. Falta de controle, ânsia, comunhão, beijos, abraços, corpos que se dão, borboletas que povoam a imaginação e linhas que se cruzam e entendem. O amor tem tanto de belo como de tirano.

A antiga província da Lusitânia, ocupada pelos Suevos e pelos Alanos e posteriormente pelos Visigodos, que foram banidos pela ocupação muçulmana, em 711, é reconquistada pelos reis cristãos em duas fases distintas. Cerca de 900, Afonso III das Astúrias toma-lhes dianteira e, em 1064, Fernando I de Castela, segue-lhe a tarefa.

No século XII, com Afonso Henriques, em 1143, o Condado de Portugal, o espaço da região do Porto, torna- se independente, com a subida deste rei ao trono, uma luta que só ficará esclarecida em 1179. O sul necessita de ser reconquistado e a capital situa-se em Coimbra. Os descendentes terminam a tarefa e Afonso III, será o rei de Portugal e dos Algarves.

Corria o ano de 1340 e Inês é escolhida como dama de honor de Constança, herdeira de uma importante família espanhola. Deixa a família e segue com a sua senhora para Portugal. Esta desposará Pedro, herdeiro do trono. Inês possui pergaminhos apesar de ser uma bastarda. A sua beleza estonteante faz perder a cabeça ao príncipe e tornam-se amantes, apesar das tentativas de Constança para o evitar. O rei, sabedor da situação, expulsa-a da corte.

A vida prega partidas cruéis. Em 1345, com a morte de Constança, Pedro fica livre para fazer regressar a sua amante à corte. A oposição é grande mas o amor é maior e muito poderoso. Da união nascem três filhos que fazem as delícias do avô Afonso IV. O tempo de calma é interrompido pela voz estrondosa dos obstáculos políticos. Os irmãos de Inês tentam incitar a divisões políticas. Pedro seria pretendente aos tronos de Aragão e de Castela, como testa de ferro dos cunhados. Afonso, que tentava evitar conflitos a todo o custo, é forçado a intervir.

Os conselheiros entendem que Inês é a génese da contenda, mesmo que nada tenha a ver com o assunto. Outro receio assola o rei, o medo de que o filho de Pedro, Fernando, seja morto e que um dos filhos do novo casal tome lugar no acesso ao trono. Só há uma forma de resolver tudo e será com a morte de Inês. Aproveitando a ausência do filho, em combate como se esperava de um jovem príncipe, dá ordem para que seja cumprida a sua sentença.

A 7 de Janeiro de 1355, Inês é entregue ao algoz que cumpre a ordem recebida. O seu corpo é enterrado no Convento de Santa Clara, onde estava instalada com os filhos. É assim, sem qualquer tipo de romantismo, sem dó nem piedade, que se acabava com os que pudessem fazer frente ao reino, mesmo que houvesse laços de sangue a ligar.

Pedro assim que toma conhecimento do desaparecimento de sua amada, cego de dor lança armas contra o seu pai. Felizmente que termina muito rápido e por acordo. Contudo a ira fica acumulada e os conselheiros responsáveis pelo trágico destino refugiam-se em Castela com receio de uma vingança sangrenta. Aos 37 anos e com a sua subida ao trono, a justiça começa a ser aplicada.

Dois deles são entregues pelo rei de Castela, perante grande pressão de Pedro, que são torturados e queimados. O terceiro conseguiu fugir. A cabeça quente e o ódio são maus conselheiros mas a paz é sempre serena. Mais tarde os descendentes dos carrascos serão agraciados com bens legados pelo próprio rei. Uma forma de equilibrar a justiça.

De seguida cuida da imagem da sua amada, fazendo com que o povo saiba qual era a sua força e intensidade de sentir. Reabilita-a fazendo com que os seus restos mortais sejam colocados na abadia de Alcobaça. Com pompa e circunstância, à luz de archotes e tochas, nobres, religiosos e o muito povo, assistem à cerimónia que termina com a inumação de Inês, no esplêndido túmulo que Pedro mandara construir para o propósito.

O dia 7 de Janeiro fica marcado como o que, com um machado, cortou o pescoço a Inês de Castro, a bela mulher por quem D. Pedro se tinha apaixonado. O seu crime foi ter amado alguém que a amou com a mesma pureza e intensidade e esse amor, que gerou filhos que tiveram papéis importantes, posteriormente, criou uma lenda que se perpetuou. Inês é a heroína que a todos toca.

Luís de Camões conta o seu fado com um episódio dramaticamente intenso e belo na epopeia Os Lusíadas. Este amor, grávido de sentimentos e de emoções, gerou uma onda literária que entusiasmou muitos. A sua fama corre fronteiras e é imortalizada em pinturas, música, literatura, em tudo o que for necessário. Algo de tão enternecedor, apesar de ter sido trágico, comoveu a Europa.

Inventam-se novas vidas, situações impossíveis mas Inês não pode ser uma mulher vulgar. A sua súplica, ao rei, enternece-o e arrepende-se da ordem dada mas o certo é que a heroína se transforma em mártir. A sua morte foi o palco para a imaginação, para o que se desejava, para o impossível de acontecer. Um romance que não calou um rei que a quis sempre rainha.

As lendas são formas de passar as ideias e de as tornar mais suaves e vistosas. Inês foi coroada rainha já cadáver, uma noiva que exalava o horror e a morte mas que, por um hábil golpe do destino, a deixou sempre jovem e perfeitamente bela. Filha do mordomo mor do rei D. Afonso XI de Castela, havia esperança para o seu futuro, tendo sido aia de uma rainha.

A realidade conta-nos algo de diferente, que D. Afonso IV mandou exilar Inês de Castro no castelo de Albuquerque de modo a afastá-la de Pedro, o que não surtiu qualquer tipo de efeito, mesmo que esse amor fosse epistolar. Depois da morte de D. Constança, o viúvo, manda regressar a sua amada.

Perante as aparências, D. Afonso tenta casar D. Pedro com uma conhecida e renomada nobre, mas tal sugestão foi logo rejeitada. O amor que os unia continuou e deu frutos, Afonso, que morreu pouco depois de nascer, João, Dinis e Beatriz, que foram o pomo da discórdia entre pai, filho e o reino.

Instalados no Paço de Santa Clara, casa mandada construir pela sua avó, a Rainha Santa Isabel, a vida continuava em plena felicidade. O casamento que os uniu, secreto, foi por D. Pedro confirmado, através da Declaração de Cantanhede, o que provocou, de imediato, um incidente político. Os filhos eram legítimos e teriam tanto direito ao trono como o seu irmão, D. Fernando.

A vida é madrasta e cruel mas oferece lições de sabedoria. Os filhos de Inês e Pedro, aqueles que pareciam o perigo para o reino, foram pessoas de grande relevo. D. Beatriz foi condessa de Albuquerque, D. João, duque de Valência de Campos e D. Dinis, senhor de Cifuentes. E se tal não bastasse, D. João I era filho de D. Pedo, um bastardo que vai dar origem a uma nova dinastia.

Mas há sempre uma justificação para certas atitudes. D. Afonso IV tinha raiva a Inês não por ser quem era, que a considerava uma excelente mãe, mas por ter sido criada por Afonso Sanches, filho bastardo de seu pai, D. Dinis, ou seja, seu irmão e defendido por sua mãe. O sangue real corria em ambos os corpos mas o receio de ser ultrapassado era maior.

Os nomes de Pedro Coelho e Álvaro Gonçalves podem ser desconhecidos para muitos, mas o sangue de Inês está nas suas mãos e D. Pedro, não se coibiu de se vingar. Já Diogo Lopes Pacheco conseguiu fugir para França, o que lhe permitiu continuar vivo e fugir da cega vingança do rei, mesmo que tenha sido perdoado na literatura posterior.

A arca tumular de Inês de Castro, estrategicamente colocada no Mosteiro de Alcobaça, de frente para a de Pedro, é uma peça exemplar pela rara beleza que mostra. Lamentavelmente desconhecem-se os nomes dos mestres que deram o seu melhor nesta obra mas o certo é que encanta quem a vislumbra.

Durante as invasões francesas, Massena, um dos generais de Napoleão, deu ordens para retirar tudo o que fosse possível e levar para França. O túmulo de Inês permanece adormecido mas danificado. O nariz, que está partido, não sofreu qualquer tipo de acidente mas foi danificado propositadamente. Apesar de tudo não lhe retira a beleza e aumenta a lenda.

Inês, mulher bela e apaixonada, morta jovem, mártir do amor é lenda que se vai fecundando na literatura e no imaginário popular. Coroada rainha depois de morta, continua a ser amada por gerações que sentem o sangue quente e leve que o amor pode proporcionar. Não foram as borboletas que a mataram mas sim as mãos humanas cheias de ódio, de raiva e de ciúme que jamais poderão ser esquecidas.


Santiago de Compostela

Em 1078, Afonso VI, rei de Leão e Castela, decidiu reconstruir a basílica consagrada ao apóstolo Tiago Maior, tendo recebido todo o apoio do bispo de Compostela. Tudo se prende a uma tradição remota, de 951, quando Gotescalc, bispo de Puy, efetua a primeira peregrinação a Santiago de Compostela, um hábito que não existia e que se tornou vulgar. Somente no final do século XI, quando a insegurança abandona o norte da Europa, com a acalmia das várias investidas mouras, este caminho religioso conhece o seu apogeu.

Segundo uma tradição, do século VIII, depois da morte de Tiago, decapitado em Jerusalém, os discípulos teriam depositado o seu corpo numa barca, de forma a manter o resto da sua integridade. Os anjos encaminharam a mesma até Espanha, reino já evangelizado por ele e que o estimava. Outra lenda fala de um eremita, no século IX que, surpreendido pela luz de uma estrela, seguia-a até chegar ao local exato da sua sepultura, que estava enterrado na Galiza, em Padron.

O bispo autenticou os despojos e mandou construir uma igreja nesse local. Rapidamente se tornou o patrono da luta contra os infiéis, os mouros, que dominavam uma grande parte do território. Num ápice foi-lhe atribuído o epíteto de Matamore, matador de mouros, É curioso verificar que um homem pacífico e de cariz peregrino, se transforme em guerreiro. Uma coabitação precisa e necessária. A fé tem contornos que o comum dos mortais nem sempre consegue alcançar.

Os trabalhos são entregues a dois mestres de obra que se supõe serem de origem francesa e com experiência neste tipo de edifícios. Tem 90 metros de comprimento e é adotada a cruz latina como planta, o que inclui três naves e um vasto transepto com 67 metros de comprimento. Na parte traseira situa-se o altar mor e abriga o túmulo do santo que pode e deve ser visitado. Em redor, várias capelas convidam à oração e o silêncio que se sente é de emoção. Com o passar do tempo, a decoração original foi sendo alterada.

Em meados do século XIII, Mestre Mateo, procede uma remodelação no portal principal e esculpe representações com grande significado teológico. Aí se encontra representado o santo, Tiago com vestes de peregrino, sentado e acolhendo os que o pretendem visitar. Todos este belo trabalho acabou por ser em vão pois no século XVIII o estilo barroco deu entrada nesta igreja e nasce assim o Pórtico da Glória, uma obra emblemática e que atrai ainda mais peregrinos, sejam eles religiosos ou não.

Este Pórtico, inicialmente pensado pelo Mestre Mateo, tinha como missão nivelar as naves do templo com o terreno circundante e por isso foi construída uma nova cripta. As figuras esculpidas tinham uma missão pedagógica e calmante pois a forma como eram detalhadas, levava os crentes a evitar o contacto direto. Foram, posteriormente retiradas e podem ser vistas no museu da catedral. O policromado esbateu-se e restam poucos vestígios das suas cores.

Os peregrinos que pretendem entrar em Santiago têm um longo caminho a percorrer. Trajados com uma túnica curta, com uma romeira e um chapéu de abas largas enfeitado com uma cocha de vieira, o símbolo de Tiago, tinham ainda uma saca de mendigo e um bordão. Era os auxiliar para a caminhada e a saca seria para recolha dos alimentos que conseguissem. Antes da partida eram abençoados pelo bispo e seguiam em grupo. Nos tempos idos as estradas, poeirentas e estreitas, pouco tinham de segurança e por isso os grupos ofereciam uma forma de apoio e de sobrevivência.

As pernoitas eram feitas nos mosteiros ou nos hospícios, os que incluíam esse serviço pois os albergues eram zonas onde a marginalidade acontecia com facilidade e assim sendo os roubos eram frequentes. A comida era mendigada mas como os cristãos sabiam que deviam ajudar os seus, por pouco que tivessem, não faltava para acalmar o estômago que pedia atenção. O caminho era longo mas o mote era ainda maior. Quando chegavam ao Monte da Alegria, sobranceiro a Compostela, as dúvidas que podiam existir, dissipavam-se e sentiam que a recompensa pelo esforço era grande.

Antes de entrar na Catedral o peregrino tinha um ritual a cumprir. Era a purificação através da lavagem e onde as dores que pudessem sentir ficavam esquecidas. Passavam a noite na catedral e entoavam cânticos como forma de agradecimento. No dia seguinte era o tempo das oferendas e da missa. Só depois é que se dirigiam ao altar mor e rezavam junto do túmulo do santo. Havia lugar ao beijo e às procissões, ao confessar e à comunhão. O ponto alto estava atingido. A partir do século XIV surge a compostela, um certificado que comprova a peregrinação e que deve ser marcado em todos os pontos.

As motivações de cada um eram diferentes e criavam expetativas fortes e singulares. A viagem é feita de livre vontade para pagar uma promessa, para procurar a cura ou apenas por agradecimento. No caso oposto, onde a dita era uma obrigação, seria uma penitência para a remissão dos pecados. Também havia quem fizesse a peregrinação em nome de outros para que Tiago tivesse a graça de auxiliar os que não a podiam fazer. A finalidade era sempre a mesma, o que variava era a forma de a obter.

Para um cristão estar junto da tumba de um santo era a porta aberta para a solução da questão que lhe colocava. Era a cura da doença, o desenlace do problema ou ainda os mais variados milagres que o patrono conseguia fazer. Aos doentes era dada a saúde, aos cegos a vista, aos mudos desata-se a língua, os surdos passam a ouvir, os coxos andam naturalmente, os possessos são libertados do mal, o pecado é perdoado e ao céu abre as suas portas para receber os crentes.

O Caminho de Santiago tem sete rotas históricas: o francês, o do Norte, a Via de la Plata, a Rota Marítima, o inglês, o Primitivo e o Português. Qualquer um deles tem como missão chegar a Santiago de Compostela e orar ao santo. Ou apenas conversar com ele e admirar as maravilhas da catedral. Dos tempos antigos até à modernidade tanto aconteceu e por isso os motes sofreram alterações. A época medieval deixou marcas profundas mas os que chegam agora sabem como se adaptar.

Percorrer os caminhos que os antepassados calcorrearam, com dor e lamento é um valor acrescido e poderoso. As estradas são as mesmas, mas os tempos são outros. Agora é tudo mais fácil mas o mote pode ser igual. O peregrino quer sempre algo de volta, o seu eu que foi sendo moldado ao longo da viagem. Hoje pode ser feito através de outros meios e até o carro, a bicicleta ou mesmo o cavalo, são auxiliares para o mesmo fim. Se antes o peregrino ia só, encontrando outros que palmilhavam as mesmas rotas, agora é muito possível cruzar-se com famílias que iniciam os seus elementos mais novos nesta tão salutar prática. Há a cultura e há a religião.

Quando o peregrino chega à Cruz de Ferro, sente que os outros todos, os milhares que lá estiveram, o abraça pois é um local emblemático. A partir de agora o caminho é sempre a descer e o destino está mais próximo. É neste local muito aprazível que se deposita o que se leva de propósito: um santo, um lenço, um pedaço de cabelo, um escrito, uma pedra, o que se quiser. Eu deixei a pedra que foi escolhida, de propósito, para esse fim. Estará em confraternização com todos os votos de cada um.

Não perca uma visita por Santiago de Compostela com detalhes acrescidos. Agora é zona de gentes bem jovens, que estudam na Universidade e, por isso, os bares estão sempre cheios de alegria e boa disposição. A noite também faz parte do final da peregrinação e pode ser celebrada em grande. Visite o Casco Histórico e oiça as vozes dos que por ali andaram e deixaram os seus lamentos e desejos. Passeie nos vários parques que estão equipados para receber os visitantes. Oiça os pássaros e sente-se no chão. Sinta tudo. Viva o momento.

Assista à Missa do Peregrino e delicie-se com o Botafumeiro, o incensário que seis homens empurram, de um lado para o outro da nave, perfumando o ambiente e soltando as mil e umas bênçãos que todos desejam. O som que se ouve é inesquecível e dá vontade de voltar, de sentir, com outros a mesma sensação de pertença e de união. Qualquer lugar é perfeito para se sentar e ficar. Fique. Ajoelhe-se perante o santo e coloque os dedos nos locais certos. Dizem que ajuda os estudantes e os necessitados mas a verdade é que tudo justifica o seu caminho.

Visite o Museo do Pobo Galego. Instalado num edifício emblemático, o antigo convento de San Domingos de Bonaval, reconhecido como "centro sintetizador dos museus e coleções antropológicas da Galiza". É um concentrado das tradições e da memória coletiva dos galegos, ao longo dos anos. Uma viagem comum a muitos povos e uma forma de se sentir ainda mais integrado na cultura popular. Além da coleção permanente ainda pode usufruir das exposições temporárias.

Este ano é o Xacobeo, ou Jacobeo. É o nome que se dá ao ano santo, quando o dia 25 de Julho, data de nascimento do santo, S Tiago, calha a um domingo. Isto significa que existem mais festas e mais comemorações especiais numa terra já de si sempre em festa. Como no ano passado, a pandemia não permitiu celebrações assim sendo, o ano santo prolonga-se até 2022 e terá muito para oferecer. Aproveite para conhecer os recantos desta cidade e entre em tudo o que seja possível. Há cafés com decorações únicas e ruas que sabem abraçar.

O peregrino tem os seus símbolos, que o identificam em cada sítio por onde passa. Um deles é a vieira, uma concha que tem o tamanho certo para recolher a água e servir de bitola para os alimentos. Um pouco de arroz ou qualquer outro abafo do corpo, se couber naquele espaço, é suficiente para o corpo. Os sulcos são uma metáfora pois convergem para o mesmo ponto, que é a catedral com o santo, a rota que todos une. O bordão ajuda na caminhada e se tiver um gancho serve de auxiliar de transporte, um outro braço que ajuda a carregar. A compostela é o passaporte, ou seja, onde é registado o percurso que cada um fez pois recebe um carimbo por cada local percorrido. O mais importante de todos é o que é colocado em Santiago de Compostela.

É natural que em cada recanto seja presenteado com grupos de músicos ou de novos saltimbancos que alegram todos com a sua arte. A cidade fervilha e não dorme. Há vida em todos os locais e as comidas são outro atrativo. Fique ciente que está na Galiza e come-se bem em todos os cafés, bares, restaurantes e similares. Aventure-se e deixe-se levar por tantos anos de história e de lendas. Compre recuerdos, vagueie pelas ruelas e sente-se nos degraus que, outrora, foram companheiros de quem sabia que a chegada a Santiago iria mudar a sua vida para sempre. Esses, mesmo não sendo vistos, continuam vivos.


A Peste Negra

A peste é propagada por um bacilo transmitido pela pulga quando passa do rato para o homem. Foi a maior catástrofe demográfica da Idade Média, que se abateu sobre a Europa em meados do século XIV, tendo levado ao pânico e a massacres, bem como à mortalidade tão elevada que ceifou um terço da população. Este século foi apelidado de nefro pelas mazelas que deixou.

O clima estava mais frio, as epidemias eram mais numerosas e a fome andou sempre de mãos dadas com as gentes. Além disso as guerras não tiveram tréguas sendo que a Guerra dos Cem anos tem o seu início nesta época, Bizâncio tem que lutar contra a pressão turca e os cavaleiros teutónicos invadem, por sucessivas vezes, a Prússia. Uma paleta de situações que em nada favorece os habitantes dos vários reinos europeus.

A ideia que se tem é que a peste terá tido a sua origem na Ásia, através dos navios que vinham da Crimeia e que aportaram em todos os portos europeus. Difunde-se com os viajantes, a partir das costas italianas e espanholas. Atravessa os Pirinéus e entra no sul da França, em Avinhão e Toulouse, em 1348. Atravessa a Mancha, com as mercadorias dos navios e Inglaterra e a Irlanda são infestadas. A Escandinávia não foi poupada e daí vai até à Rússia e à Hungria.

O que se notava, nos contaminados, eram gânglios nas virilhas, no pescoço e nas axilas que iam mudando. Primeiro ficavam duros e depois mudavam de cor, ficando pretos o que deu o nome à doença. Seguia-se a febre e vinham as hemorragias, levando à fraqueza. A parte final seria o delírio e a morte era certa. Em dois ou três dias, a ceifeira era eficaz. Este foi um fenómeno essencialmente urbano devido à proximidade das gentes. O campo, com o seu isolamento, funcionou como uma espécie de proteção, fazendo com que os que viviam nesses locais ficassem afastados da doença.

Claro que as classes sociais sentiam a doença de forma diferente. Os pobres eram os mais afetados devido à sua exposição. Sem comida nem poiso certo e muito menor roupa a proteger o corpo, era a porta de entrada para o mal. Há que referir que a higiene era muito duvidosa e deficiente. Sem posses de fugir do antro de propagação, a morte era certa. É assim que se sabe como foi escrito o Decameron. Boccaccio refugia-se nas suas villas, nas colinas de Florença e a inspiração surge com o auxílio de um grupo de jovens.

Sem saber a causa da doença, atribui-se ao ar e aos alimentos a sua origem. Ou até mesmo à água. As suspeitas ganham dianteira e o medo instala-se- Suspeita-se de todos, até mesmo dos mais próximos. A morte ganha contornos estranhos e irregulares. O pouco conhecimento que havia sobre a medicina leva a conjeturas estranhas e incongruentes: os quartos devem ser quentes e secos, deve comer-se apenas carnes brancas e evitar as bebidas.

Igualmente se aconselhava a evitar os amores, as carícias, qualquer tipo de toque e até mesmo as conversas que podem propagar a doença. Nenhuma destas medidas tiveram alguma eficácia, revelando-se todas impotentes. É compreensível que se buscassem ajudas externas, tais como a magia ou a astronomia. O mais comum era entregarem a sua vida nas mãos de santos protetores. É neste contexto que Sebastião, cujo corpo estava trespassado por flechas e cujo sangue jorra, se torna o patrono da esperança.

Os médicos usavam uma máscara com um bico e na ponte do mesmo colocavam ervas aromáticas para evitar o cheiro pestilento dos mortos e dos doentes. Assim ainda se mantinha o afastamento e o toque era quase impossível. Contudo nada resultava e a doença continuava a matar.

Procuram-se bodes expiatórios e os pavor dos pecados e castigos assolam a mente de muitos. Alguns açoitam-se e outros cometem outras atrocidades contra a sua pessoa na ânsia de encontrar uma cura. Tudo está envenenado, segundo eles e a culpa é dos judeus, os que mataram Jesus Cristo e querem, agora, a morte de todos os cristãos. Fazem-se execuções e queimam-se pessoas. Algumas cidades impõem prazos para a saída dessas indesejadas pessoas.

Com eles vão também os prestamistas, os usurários, os ricos e todos aqueles que os pobres, na cegueira do medo e do pânico instalado, acusam de serem os responsáveis pela peste. Com estes atos, as aversões sociais e os ódios raciais ficam ao rubro.

Tudo o que se refere aconteceu no século XIV, um tempo em que as trevas cobriam o mundo e toldavam as mentes. As pessoas viviam em profunda miséria e ignorância e os avanços científicos eram rudimentares ou nulos. O medo ganhava terreno fértil devido à inexistência de conhecimento e os comportamentos sociais eram a prova de que a ideia de o castigo existia.

A vida, mesmo que fosse assustadora e repleta de imagens de sofrimento real, continuou como se a tal doença, o castigo que entendiam ser maior, não desse quebra. Nada parou e a vida, dura e incerta, seguiu o seu rumo natural. A morte rondava os dias que se cobriam de tonalidade escura e pestilenta. A cidade e o campo pulsavam com os que sobreviviam à tormenta.

Hoje estamos no século XXI. Um tempo que cresceu com sinal contrário e onde as trevas encontram pouso seguro. Os avanços tecnológicos permitiram uma maior qualidade de vida da população mas, por oposição, retiraram o instinto natural de sobrevivência.Não sabem como se defender quando são alvo de ameaças e, sem se darem conta, regressam a um passado que deveria estar muito bem encerrado.

Em tempo de conhecimento o mundo decide parar, refugiar-se debaixo das camas como se houvesse um botão imaginário para retroceder no tempo, nas mentalidades funcionou em pleno, evitando encarar o que estava a acontecer. A vida continua mas as pessoas agora são mais fracas e desconfiadas. Vão perdendo a sua humanidade e tudo é motivo para atiçar os ódios que estavam recalcados.

Vivemos no século da ciência, das alterações da sociedade, da mudança de sexo e afinal nada sabemos. O medo, que aumentado exponencialmente resulta em pânico, continua a ser rei e senhor. Os maus hábitos não se perdem só que o horror à morte ganha dianteira, alguns sentem-se perdidos e outros seguem para uma nova guerra onde se cria um exército de soldados coxos que se limitam a reproduzir o que ouvem. Seja ou não verdade.

Tristes os que nunca perceberam que a morte é natural. Sempre se morreu e esse é o fim da linha da vida. Essa não termina nunca pois o seu ciclo é contínuo e perpétuo. Não há lugar para todos e a velhice é a recompensa para quem consegue viver muitos anos. Morrer é fechar os olhos de vez e seguir para uma paz ansiada. Felizes os que o conseguem.

Viver continua a ser uma aventura constante que apresenta inúmeros riscos. O simples facto de respirar é um perigo pois o planeta está a ser envenenado por todos, pela poluição que o Homem provoca e pela falta de cuidado que é da responsabilidade de todos. As doenças são barreiras naturais e algumas são fruto da civilização.

Os amuletos que se usavam na Idade Média, aqueles que davam alguma esperança para que a vida fosse maior e a morte se afastasse, estão agora de volta com novas formas. Volta-se a acreditar em fetiches, em bugigangas e outros que tais para que tudo se apague e seja perfeito. A realidade é outra mas a mentalidade é a mesma, pequenina e curta como se a ciência fosse uma vaca sagrada e não tivesse avanços e recuos.

O mundo que se conhecia está tapado com outras trevas que são difíceis de levantar. Os pobres, em frente unida, sentem-se escorraçados e humilhados e os ricos continuam a ser o mesmo, ricos e a olhar com desdém para os que não são da mesma laia. A divisão está maior e tende a continuar. Já há quem medigue a saúde e o comer, os restos, os despojos que os outros, os que têm a tal ciência do seu lado, ainda podem ou querem dispensar.


Feliz Aniversário

Passa um ano sobre a data em que o nosso país parou. As escolas encerraram, as pessoas foram enviadas para casa, o trabalho passou a ser feito de forma diferente e aquilo que se pensava, na santa ingenuidade de alguns, ser uns dias, passou a 365 deles, um ano redondo que veio alterar tudo. E continua.

Os alunos, como se esperava, passaram todos de ano e alguns com notas maravilhosas e milagrosas, os exames nacionais, esse tão extraordinário êxito, vai ser repetido este ano letivo, o saber deixou de fazer sentido e dá-se a primazia ao que não importa. Os alunos que estudam ficam equiparados aos preguiçosos, uma maravilha como se entende. O mesmo se aplica do outro lado, com o outro grupo, o dos professores: uns esforçam-se e outros nem por isso.

Muitas pessoas perderam os seus postos de trabalho e a miséria bate à porta de muitos, só que ainda é envergonhada. Proíbem-se as pessoas de trabalhar, as que ainda podem, esquecem-se os mais novos que precisam de crescer e brincar, os adolescentes passam a ser bonecos neste xadrez e as consultas nos hospitais deram uma volta tão grande que desapareceram ou então são feitas através de um aparelho, o telefone.

Nunca mais se morreu de velhice, de gripes, de pneumonias nem de outras doenças fatais, pois uma nova doença tomou a dianteira e usurpou os lugares cimeiros. Espalhou-se o medo e o pânico e as trevas desceram sobre a terra fazendo acordar os fantasmas tão adormecidos da denúncia e da delação. A nova Idade Média, com os seus novos medievais, chegou para ficar.

Colocam-se máscaras nas pessoas para não se lerem as expressões, encerram-se as pessoas em casa, tratam-nas como se fossem uns atrasados que precisam da mão para atravessar a rua e começam a fazer-se as divisões: uns de cara tapada e os outros com ela à vista para que provem que nada têm a esconder.

Acenam-se com as cenouras de apoios sociais que não existem ou que tardam em chegar ou são ridiculamente humilhantes mas, quando não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. A melhor arma é a ignorância e quando menos o povo souber mais fácil é de ser manobrado. Mesmo que se tente explicar, a falta de bom senso fala com voz grossa e convence quem não sabe.

Criou-se o mito de “Vamos ficar todos bem” mas a verdade é que estamos bem mal, com gentes que mostram o seu pior, que afinal não sabem amar mas sim odiar e o egoísmo e a raiva, são os motes que arrastam milhares mas sua onda. Cortam-se os laços sociais e soltam-se as incertezas e desconfianças, matéria prima para as tormentas que se enfrentam em grande escala.

Sobreviver passa a ser a palavra de ordem e não importa o custo. Por mais elevado que seja o preço, não se olham a meios para atingir os fins. Engana-se, empurra-se, rouba-se e afinal está tudo bem, que o povo é sereno e afinal é tudo fumaça. Enquanto houver dinheiro para pagar a quem não tem preocupações, a vida irá fluir. Os outros, enfim... os outros que façam pela vida que os bem instalados não querem saber.

Chega a guerra das vacinas, dos laboratórios a faturarem que nem uns doidos, com preços que ninguém sabe e com informações que não batem certo. As vacinas precisam de tempo para serem testadas, para obter os resultados certos sem margem de erro e onde a eficácia seja a palavra que reine. A luta entre os ditos é aguerrida e o que se sabe não é do agrado geral. As notícias não batem certo e suspendem-se as tais vacinas, mas afinal não era nada e continua tudo na mesma. 

Criam-se grupos para receber as tão desejadas vacinas, as poções milagrosas que vão ser o talismã que irá acompanhar quem as quiser ou puder receber. Criam-nos novas e inúteis divisões. Uns são mais importantes do que os outros e ainda existe um outro grupo, o dos que estão sempre primeiro do que os primeiros, assim uma espécie de escolhidos que terá a bênção perfeita. Esses têm o futuro assegurado. É a glória que é atingida. 

Os mais velhos continuam assustados, com medo até de respirar e a palavra morte, aquela que esconderam de tantos durante anos, passa a ser a mais dita e divulgada, tal como a doença que quer ser mediática e trazer à ribalta os que são infetados com o tal vírus. Os testes são feitos às três pancadas e nada está dentro dos parâmetros a não ser a má vontade e a falta de educação. Essa conjugação está perfeita e funciona autonomamente. 

Outros estão tão encolhidos que não sabem como será o dia de hoje e muito menos o de amanhã. A luta é diária. Perderam o que tinham e ainda podem ter a esperança de que um dia recuperem o que foi seu. Contudo há os que sabem que nada voltará a ser como era e que a escuridão ainda vai persistir durante muito tempo. Esses estão bem conscientes da realidade mas outros há que continuam a tapar o sol com a peneira.

Esquecem-se de que tudo pode mudar e quando houver lutas por batatas e pão, o povo sabe mostrar que não tem qualquer tipo de educação educação, que não quer saber, que é capaz de qualquer coisa para se manter. Ficar à tona com elegância deixa de ser possível e a guerra, que já começou, há muito, em modo de suavidade, passa a violência da grossa e com consequências bem graves. 

Os constantes Estados de Emergência são assassinatos de muitos. Os pequenos negócios não têm capacidade para sobreviver a este abre e fecha e a tantas e tão díspares restrições. As pessoas querem trabalhar, serem cidadãos úteis à sociedade e não querem ser tratados como se fossem pedintes ou crianças que precisam de quem lhes dê a mão. A economia tem que funcionar e não se pode matar um país em nome de sabe-se lá o quê. Há que saber enfrentar as dificuldades. 

O futuro é hoje e agora. Quem é que ainda não percebeu? Se não se tomarem as devidas medidas e providências, a escuridão irá manter-se e tudo o que se conhecia antes, passará a histórico e entra no mundo estranho das quimeras e das utopias. Uns percebem e outros insistem, uns querem e outros não e a vida escoa-se como se fosse água que não mata a sede mas sim a humanidade.

Felizmente que a Primavera chega com os seus sons e tons, com as tonalidades de pastel que a todos encanta. Ver é delicioso, sentir é maravilhoso e viver é único!


Os Reinos Merovíngios

Nos finais do século V, o rei Clóvis conquista a Gália através das armas. Os romanos não aceitam esta derrota com facilidade por isso o período que se segue será de lutas pelo poder supremo. A boa e a má vontade dos nobres será testada até ao extremo através da violência e da desordem. Esta é a imagem que vai sendo passada na memória coletiva desta época, um período muito obscuro e sanguinário.

No decurso dos séculos V e VI, os Bárbaros fixaram-se nas regiões da Europa e aí criaram estados. Dir-se-ia que continuariam a chacina a eito mas algo se modificou nestas gentes que acabaram por dar origem a reinos que deixaram marcas poderosas mas com sinal oposto ao do seu início. Se antes a ideia era devastar, agora era conquistar e assim amealhar.

Oriundos da região do Elba, ao Anglos e os Saxões, tomaram posse do território que, mais tarde, ganhará o nome de Inglaterra. Fundaram sete pequenos estados que ficaram conhecidos com o nome de Heptarquia. Nortúmbria, Mércia, Ânglia Oriental, Essex, Sussex e Wessex. Reinos pagãos que depois se cristianizaram.

Os Ostrogodos tomaram Itália em 489-93 fundando um reino que vai passando de mãos. Meio século depois o imperador bizantino reconquista-o e, na sua última vaga de trocas, é substituído pelos últimos invasores germanos, os Lombardos já em 568. Um território que andou em bolandas e que se reinventou.

Os Visigodos, os mais temíveis e terríveis destruidores de Roma em 410, arrebanham caminho e seguem até à Gália, ficando instalados dos dois lados dos Pirinéus, quer na Aquitânia, quer em Espanha. Toulose vem a ser a capital do reino que estende os seus domínios até ao Loire.

Os Burgúndios instalam-se no sudoeste da Gália e no final do século V dominavam toda a zona da bacia do Ródano, marcando a sua forma de estar e de manter alianças com quem lhes poderiam trazer os maiores benefícios políticos, incluindo os casamentos.

Os Francos ficam no norte da Gália, dividindo-se em tribos com reis individuais. É uma destas tribos que tem como soberano Childerico, pai de Clóvis, sendo que consegue a unidade destes povos deixando aos seus sucessores um trabalho menos penoso.

Clóvis assistirá a inúmeros confrontos contra todos os mencionados povos. A guerrilha alastra até Espanha, contra a resistência basca, provando que estava apto a qualquer confronto. As guerrilhas dinásticas são um palco interessante para a conquista do poder, mostrando o alastrar da violência como se fosse um fósforo lançado em palha seca.

O assassinato político, o que leva à eliminação do inimigo, é uma técnica bem explorada nestes tempos apesar de não ser seu apanágio. A pesada herança romana assim o obriga. Sem corpo não existem provas e o dito fica por não dito. Ideia que terá seguimento ao longo dos tempos.

Clóvis será o primeiro a conduzir a unificação do seu povo e, como se pode calcular, passa ordens para que Sigesberto, o Coxo, rei de Colónia, deixe de existir. Fica o caminho liberto para que Ragnacário, rei de Cambrai e Riquier, o seu irmão, sejam também eliminados. Desta vez foi Clóvis que tratou do assunto com um machado.

O sangue não se perdeu e durante anos a chacina foi contínua chegando a ter requintes de malvadez de que se destaca o episódio da morte de Brunilde, uma mulher de 80 anos. Foi presa pelos cabelos à cauda de um cavalo selvagem. Um espetáculo de teor pedagógico com os resultados desejados. Claro que estamos a falar de contendas dentro da mesma família.

A escalada de terror e horror inclui ainda os grandes nobres e os prelados de que se destaca o martírio do bispo de Autun, Léger. Este, por se opor a uma certa nomeação, foram-lhe cortados os lábios e a língua, os olhos vazados e de seguida, como toque final, é degolado. Como se tudo não fosse suficiente, ainda foi ainda lançado a um poço.

É neste contexto que surge a lei sálica, uma forma de travar esta onda desenfreada que invadia povos e se propagava a olhos vistos. As penas criminais tentam tornar a pena de talião " olho por olho, dente por dente ", de forma a quebrar o ritmo das vinganças. Assim sendo, a forma de reparação dos males feitos pode ser amenizada com pagamento de coimas. Criam-se, assim, listas compensatórias para fechar o ciclo. Caso não haja possibilidade de pagar, o direito de represália assiste-lhes.

Tempos medievais que soam a muito familiares. Hoje a violência é exercida de modo mais suave, com nomes elegantes mas que continua a castrar de forma dolorosa. São as multas, os castigos, as detenções, o enxovalho público, o ansiado gozo popular. E o povo é sempre aquele que mais sabe apontar o dedo e virar o prego quando é preciso.

As trevas tendem a descer e a cobrir os céus de hoje. Se não é pelo lugar de chefia é pelo mediatismo e, estes novos dirigentes, precisam de ter um exército grande e bem domesticado. O pão que lhes lançam, cheio de ranço, é tido como especial. Os escolhidos, os que o pensam ser, estão atentos a todos os movimentos para ver se alguém levantou a cabeça e se as normas, aquelas que mudam a toda a hora, estão a ser cumpridas.

Hoje não são os reinos que se degladiam mas existem somente uma espécie de guerra civil. De um lado temos os mascarados e do outros os de cara lavada. Uns aparentam ser as formigas que se encaminham para o carreiro e os outros desviam-se para encontrar novas rotas. Ainda não são muitos, o que provoca o efeito necessário, o de revolução.

Se Jesus Cristo não tivesse dito que vinha salvar os pecadores, todos os que viviam naquela época continuavam a ser politeístas. Ele, um, o homem, apenas uma pessoa, conseguiu virar o mundo e transformá-lo de tal ordem que se tornou persona non grata. Se houve muitos que o seguiram, aquando da sua detenção, esses mesmos, viraram-lhe as costas e até o insultaram.

Galileu, aos olhos de agora, seria considerado um negacionista. Foi forçado a retirar o que tinha afirmado mas a ciência e o tempo vieram a dar-lhe toda a razão. Ele sabia mas o mundo da ignorância onde a população vivia, era bem mais confortável e seguro do que aquele que ele apresentava. Era um risco grande pensar.

A Resistência teve um papel preponderante. Sem a ajuda preciosa dos que se chegaram à frente, arriscando a sua vida para que se soubesse, por artes e manhas nem sempre fáceis, o que estava previsto acontecer do lado do inimigo, a guerra talvez tivesse um outro desfecho. A coragem e a audácia permitiu que o rumo desejado fosse atingido.

Salgueiro Maia não vacilou nem um momento. O que estava combinado, mesmo com desvios e percalços, foi levado até ao fim. Era uma ilegalidade, uma violência maior para um militar, um capitão que se revoltava. A ideia inicial podia não ser aquela em que se transformou mas a sua coragem e a garra, permitiram-lhe o avanço.

Que se passa, então? Onde está a fibra dos destemidos e ousados que deram novas terras ao mundo e que não se incomodaram de enfrentar as vagas em barcos que mais pareciam casca de noz? Os deuses estiveram do seu lado e encaminharam-nos até à vitória final, a chegarem a bom porto. Heróis que se glorificam e que se eternizam.

Onde reside a herança que nos foi legada? Que é feito daquela ancestral e poderosa audácia que favoreceu os bravos e os valentes? Estaremos destinados a entrar em declínio ou há esperança de que o Quinto Império ainda possa ser uma realidade? A liberdade sempre gostou de passar por aqui e há que a continuar a acolher e cuidar, como se fosse sempre jovem e atraente.


Os primeiros monges do Ocidente

Bento, um nobre italiano que vivia como se fosse um eremita na zona de Roma, funda a Abadia de Monte Cassino, no ano de 529. Como tal necessitava de normas que fossem aplicadas aos seus seguidores e, em 530, redige a regra fundamental da ordem beneditina: a Regra de S. Bento.

Na verdade Bento já tinha uma vida de solidão e meditação que o levara a olhar para os céus de modo especial. Apesar da inexistência de qualquer vida monástica, ele vivia em recolhimento e foi assim que a sua mente se moldou para um coletivo que iria mudar a vida de muitos e mudar a forma de estar religiosa.

Assim, nasce um estaleiro, o mais antigo de todos os mosteiros da Europa. Enquanto as obras decorriam a sua mente acelerava e queria chegar a um documento que pudesse ser a norma de todos os que seguissem a mesma ordem. Foi assim que nasceu um extenso e bem elaborado regulamento que estipulava as normas de convívio e de trabalho para todos os monges.

Um monge não se dedica apenas à oração e ao trabalho, precisa de estar sempre bem ocupado e com a certeza de que o que está a fazer é correto. A ociosidade é inimiga da alma e assim os ditos monges devem dedicar-se aos trabalhos manuais e à leitura das escrituras divinas. Só assim será a sua função certa.

O mosteiro estava dividido em várias partes e a vida acontecia nesse mesmo local sem necessidade de ajudas externas. Seriam auto suficientes e produtores. Além das celas onde pernoitavam, a biblioteca seria um lugar de primordial importância. Apesar de nem todos os monges saberem ler e escrever, os livros foram um tesouro que nos chegou até hoje.

Os monges copistas, escolhidos de forma especial, tinham a tarefa de copiar os livros que já existiam e outros completavam a obra com os desenhos e as iluminuras. Verdadeiras obras de arte que eram repartidas entre muitos trabalhadores aplicados. Um livro era um verdadeiro tesouro que demorava muito tempo a ser elaborado.

Outros dedicavam-se às oficinas, construindo o que fosse preciso, criando ferramentas que seriam usadas igualmente na agricultura pois o mosteiro possuía uma farta horta que alimentava toda a congregação e ainda permitia excedentes.

O moinho era essencial para que os grãos ficassem reduzidos a farinha e das mãos dos irmãos, palavra encontrada para se identificarem os que acreditavam no mesmo, saíam os alimentos que mantinham o corpo são e a mente desperta para a realidade.

O jardim permitia passeios que levavam à meditação e à prática do exercício físico. Eram monges mas, ao mesmo tempo, homens que sentiam no corpo os abusos alimentares e o pecado da gula. O lazer também era aproveitado para benefício da coletividade.

"Da quarta até à sexta hora devem ocupar-se da leitura. A partir da sexta hora depois de se levantarem da mesa, devem repousar no leito em perfeito silêncio, ou se quiserem ler não devem incomodar nenhum dos outros... Se a necessidade ou a pobreza assim o exigirem, devem ocupar-se das colheitas..."

Os monges beneditinos desempenharam um papel decisivo na história da civilização ocidental. Encerrados no
scriptorium, conseguiram a proeza de salvar do desaparecimento muitas obras de literatura da antiguidade. Só assim foi possível chegar até hoje esses pensamentos e ensinamentos antigos.

Situadas fora das cidades, as casas beneditinas tiveram uma função primordial na difusão da organização e da cultura bem como terem prestado os ensinamentos básicos para que a ordem social viesse, mais tarde, a ser o motor da revolução. Para estes homens, todos os outros eram merecedores do perdão e da salvação.

A regra coloca um abade à cabeça de cada mosteiro, que é eleito pela comunidade. Este deve amar os seus monges como se fossem seus filhos e tudo fazer para ser amado pelos mesmos. Contudo o caráter humano que este homem dá à dita regra, fará dele uma fonte de piedade e de misericórdia.

Bento pode ser considerado o pai da Europa, o fundador do ideal europeu, o que unifica e revitaliza os tempos e os homens. A sua inovação é o sustentáculo da igreja medieval primitiva e rompe com a forma intransigente que existia buscando o equilíbrio há muito buscado.

O ensino nas abadias beneditinas, nos períodos mais complexos e agitados onde a guerra ganhava terreno, era o único sistema de formação de homens cultos que se preparavam para as novas formas de governo e para os tempos de grandes mudanças. O certo é que em pleno século XXI, ainda está viva em muitos mosteiros espalhados pelo mundo.

Foi o inovador, o homem que sentiu o apelo e a necessidade de mudar o rumo das vidas que andam perdidas, alinhar as almas que esvoaçavam desorientadas e lhes encontrar um propósito. As vidas tinham um valor alto e deviam ter uma missão específica. Bento abriu portas e caminhos que ainda hoje são percorridos.

Nos nossos tempos a vida é bem diferente. Apesar de existirem regras, que não a deste visionário, os seres que habitam por estas localidades são todos diferentes e com ideias próprias onde as interpretações são múltiplas. Contudo há sempre quem as quebre ou seja contra as mesmas. Faz parte duma sociedade que evolui.

Os tempos em que vivemos são estranhos e confusos. As novas trevas tomaram conta da vida quotidiana e os cegos que conseguem ver, deixam-se levar como se estivessem acorrentados a uma grade invisível onde os pregos servem de suporte. Picam-se como se fosse coisa boa, sangram sem que a cor se veja e aceitam tudo o que lhes dizem.

Servidão humana. Aceita-se que se quebrem todas as lutas, que se rasguem as conquistas de anos e anos de progresso que afinal não surtiram o efeito que os nossos tão honrados antepassados, aqueles que deram o corpo às balas, pretendiam. Para onde foi a liberdade que tanto custou a conquistar?

Agora a religião é outra, passa a ser a sobrevivência, a do salve-se quem puder e nada mais interessa. Os valores esgotaram-se, escorregaram por entre os dedos e tornaram-se apenas ideias dum passado que não interessa recordar. O ser humano, aos poucos, vai-se desumanizando e perdendo o saber ser pessoa. Vai ficando uma réstia de algo que foi grandioso.

Não aceitar opiniões diferentes, atacar que nem um leão quem o contestar e a educação, a das regras sociais e de etiqueta, caiu por terra e foi espezinhada por todos. Saltam as ameaças, o palavrão, a ausência de carácter e a baixeza que enfeita os convencidos. Ai de quem tente provar o seu ponto de vista que a falta de tolerância, a cegueira mental é tão forte que tolda as mentes fracas que se deixam levar em rebanhos de tudo e de coisa nenhuma.

A liberdade de viver está condicionada e os que mais dedos apontam são aqueles que, em tempos que já não se recordam, queriam que as amarras fossem quebradas, que o proibir fosse proibido e que a vida era um bem maior. Os tempos são de mudanças mas querer ficar amarrado por querer apenas deve ser se for por amor.

A regra que nos regula hoje está bem distinta da de S. Bento. A auto suficiência perdeu-se, a meditação é de outro teor, a leitura passou a ter conotação negativa, as hortas são dos rurais e o ensinar, passar a mensagem para as gerações vindouras, é um cabo dos trabalhos, ou das tormentas, que as tempestades continuam a assolar
.


Os invisíveis

Cristo disse que haveria sempre pobres. O apóstolo Paulo explicou o que era a caridade e o auxílio ao próximo. Nos dias de hoje fala-se de solidariedade, de consciência cívica, de voluntariado. Uma dupla corrente atravessa a Idade Média, uns continuaram a sê-lo, na sua expressão mais viva e outros, animados pelo fermento evangélico e estimulados pelo movimento franciscano, tentaram conciliar a abjeção da miséria vivida com a virtude da pobreza e aliaram-se nas obras de misericórdia.

Perceber a diferença entre pobres e marginais, uma vez que poderiam ter proveniências diferentes e as suas conotações, será muito difícil de definir e de limitar, encontrando-se claros cruzamentos ao longo do seu percurso de vida. O espaço ocupado poderia variar, pois as flutuações eram endémicas e sem qualquer tipo de controle. Em tempos de tanto desconhecimento a luta pela sobrevivência era o mote principal.

Os pobres

São aqueles que, de uma maneira permanente ou temporária, se encontram numa situação de fraqueza, de dependência, de humilhação, caracterizada pela privação dos meios variáveis, segundo as épocas e as sociedades: dinheiro, relações, influências, poder, ciência, qualificação técnica, honra, capacidade intelectual, liberdade e dignidade.

Encontramo-los nos campos e nas cidades, onde o crescimento urbano e a riqueza material tornaram a pobreza um problema estrutural. Eram os camponeses, assalariados rurais e urbanos, os sem emprego, os incapacitados, os órfãos, as viúvas, os velhos e os pedintes. Existiam vários graus de pobreza involuntária: limiar fiscal, que isentava o pagamento de impostos ao rei; limiar económico, condição do indivíduo que caiu em desgraça; limiar biológico, idade e saúde física e mental para servir a comunidade; limiar social, o fraco e o desprotegido e limiar de sociabilidade, os marginais fora da ordem social.

A pobreza caracterizava-se pela ausência de uma ou mais qualidades essenciais para que o indivíduo conseguisse vingar na sociedade e se pudesse auto-afirmar. Eram identificados como os velhos e mancos e cegos e doentes bem como os mesquinhos, minguados, esbulhados, forçados e vilões. No entanto as comunidades também caíam em pobreza e arrastavam consigo as gentes honradas. Era uma situação diferente dos pobres de nascimento e podia ser temporária. Era a pobreza envergonhada pois eram gentes que não podiam esmolar. Para estes foram criadas as casas de mercê, onde eram acolhidos e resguardados dos olhares indiscretos. Eram-lhes fornecidos alimentos e conforto. Chamavam-se mercearias.

À ausência do ter juntava-se a consciência do não ser. O pobre começa a exigir uma maior justiça social e o reconhecimento da dignidade humana. Tal ficou a dever-se à sua mobilidade, ao ideário da pobreza evangélica e às Ordens menores de Francisco de Assis e Domingos de Gusmão. A mobilidade era um grito de revolta individual dos mais fracos contra os poderosos. Os eremitas e os emparedados eram chamados os pobres de vida era uma pobreza assumida e integradas nas ordens religiosas. Outros, os irmãos conversos, viviam no exterior dos mosteiros, despojando-se do mundo.

O pobre passa a ser conhecido por Pobre de Cristo. Uma das funções da igreja era dar conforto aos miseráveis da sociedade. A prática da caritas era uma manifestação de amor ao próximo para todo o cristão e era apregoada nos sermões, como medida pedagógica de salvação da alma. O pobre era o intermediário para as portas do céu e a eles estava destinado o fim melhor, a recompensa. As carências económicas eram muitas das vezes, com a debilidade física, a idade, a viuvez ou a orfandade, a razão da queda em pobreza de homens, mulheres e crianças.

Esta situação preocupou os soberanos que tomaram medidas para colmatar e evitar que se repetissem. Além das mercearias já citadas, foi fundado um hospital para homens e mulheres honrados que caíam em pobreza, os pobres envergonhados, impedidos de ter a sua vida anterior, contemplado na 1ª Lei da Sesmarias.

Os marginais

Era um grupo que não possuía nem independência económica nem direito de cidadania. Podiam ser assalariados de diversos tipos mas um grupo maior é de elementos pouco estabilizados, inclinados para as migrações, sem relação profissional ou produtiva durável. Tem uma fronteira flutuante onde a rejeição e a aceitação andam de um lado para o outro. Não têm função permanente, nem vida social estável. Temos que cortar deste grupo os criminosos vulgares, os ladrões, os homicidas e os traidores e incluir a falsa mendicidade, a prostituição, os saltimbancos, os jograis e outros grupos do mesmo teor, que são muitos.

Os falsos mendigos eram aqueles que não tinham ofício, bens ou senhor, sendo apelidados de maus homens e sujeitos à expulsão. A errância provocada pela oferta e pela procura acompanhava a mendicidade temporária bem como a mendicidade crónica dos falsos pedintes. Estes eram um perigo para a sociedade trabalhadora que não os via com bons olhos, formando grupos de vagabundagem. São criadas leis que proíbem a mendicidade quando existe capacidade de trabalho.

A única indigência oficial era a invalidez do indivíduo atestada pelas autoridades municipais. Os falsos mendigos eram inúteis à sociedade e não estavam contemplados na assistência caritativa tendo- se tornado num flagelo.

A prostituição

O mundo da prostituição era quase exclusivamente feminino. A mulher surge associada a uma família, do pai ou do senhor, em solteira e do marido, se casada ou viúva. A mulher estava muito condicionada e as opções que tinha para fugir a este jogo eram sempre mal vistas na sociedade. A violação devia ser vulgar, por parte do senhor da terra, do clérigo, das autoridades, de todo o tipo de homens. E era praticada com todo o tipo de mulheres.

Os reis publicaram leis que castigavam o violador mas a sua execução tornava-se difícil. Caía a infâmia sobre a família ou sobre a mulher , tornando-se uma presa fácil da marginalidade, o que fazia com que não houvesse denúncias. As jovens que rompiam com as estruturas familiares frequentemente caíam na prostituição.

Os nomes porque eram conhecidas eram vários: mancebas, soldadeiras, mulheres da segre, barregãs e putas. Habitavam na rua, na rua da putaria, ou mancebia e usavam um vestuário que as distinguia das mulheres honestas. Era-lhes proibido o uso do ouro, prata e adornos no vestuário, nos véus e nas camisas. Trabalhavam também nas estalagens, nas tabernas e nos caminhos ou arraiais militares. Por vezes acompanhavam grupos de jograis e saltimbancos. Podiam ser açoitadas publicamente, nos pelourinhos, juntamente com o cliente, desde que não fosse nobre.

A boémia

O mundo da boémia era pertença de todos. O jogo era a causa do empobrecimento individual e das perturbações de ordem pública. O vício era tão forte e estava tão enraizado que vários monarcas se pronunciaram sobre esta calamidade, soltando leis e medidas que podiam ir até à hipoteca de bens e animais. Os taberneiros, os rufiões e os jograis eram vistos com maus olhos porque incitavam a hábitos pouco saudáveis.

Os escravos

Tinham proveniência islâmica devido ao resultado das guerras entre cristãos e muçulmanos. O prisioneiro nobre e culto era tratado com alguma consideração pelo novo senhor, vivendo com ele no paço. Os mais humildes desempenhavam tarefas domésticas ou ligadas à agricultura e ao artesanato. O estatuto jurídico era de um objecto que o senhor podia vender, trocar, castigar ou até matar.

A alforria era o desejo destes homens que pretendiam voltar às suas origens e famílias. Podia ser comprada ou concedida pelo dono. Outras vezes bastava abjurar a sua religião e o caminho para a liberdade estava aberto. Os escravos oriundos da África Negra remontam à época do Infante D. Henrique, no Rio de Ouro. O papa deu o seu aval para a captura e escravidão, tendo como objectivo o lucro imediato, pois trabalhavam em tudo o que fosse necessário. D Afonso V sugeriu que fossem utilizados no povoamento das regiões desertificadas do reino.

Apesar de terem passado séculos, o mundo se ter alterado, as descobertas terem sido muitas, a ciência ter vencido e as pessoas serem educadas, a mentalidade pouco ou nada mudou. Continuamos a colocar barreiras entre as pessoas, catalogamos tudo e todos, as mulheres ainda não têm o papel de igualdade que merecem e a cor da pele ainda é um estigma. O mundo do jogo não se alterou, os vícios são mais modernos mas continuam e a prostituição adquiriu outras formas mas visa sempre a satisfação do cliente.

A ciência passou a ser uma espécie de magia que ainda assusta mas que, ao mesmo tempo, acalma. Os espíritos voltaram a estar à solta e os amuletos são as novas formas de prevenção. Máscaras ou líquidos com cheiros fortes são agora as águas bentas e as réstias de alhos que afastam os novos vampiros. Escolhidos e miseráveis persistem e pratica-se uma nova modalidade que tem a chancela do século XXI: a coitadice. Os mais fracos e menos dotados são enaltecidos e promovidos. Exibem-se as chagas, toca-se ao coração dos que, por penitência e salvação dos seus pecados, dão a esmola, com um certo nojo mas depois vão exibi-la, com uma modéstia reles e cínica, nas redes sociais.


Os filhos e os enteados

A sociedade medieval estava bem fragmentada. O senhorios eram governados por cada senhor e as leis e as regras, se assim se podem chamar, eram da responsabilidade de cada um. O tecido social era pouco uniforme sendo que os servos da gleba seriam os mais fáceis de moldar. Sem qualquer perspetiva de futuro, a terra dava-lhes o sustento e criava-lhes os laços que jamais conseguiriam cortar. A escravidão tinha outro nome mas estava em pleno. Uns pedaços de alguns restos e estava a família alimentada.

Contudo novos ventos e novas marés chegaram a uma Europa que cheirava a mofo. O Renascimento veio oferecer uma visão mais alargada da vida e o teocentrismo, a ideia de que Deus era o centro de mundo, altera-se para dar lugar à luz que ensina o novo caminho, o antropocentrismo, o homem passa a ser a medida de todas as coisas. Não quer isto queira dizer que a noção de Deus e da religião tivesse sido abandonada mas a frescura das novas ideias aliciavam os mais afoitos.

Assim, uma nova sociedade apresenta um caminho mais aprazível onde a luminosidade e a abertura da mente terão a primazia. Itália, não como a conhecemos agora, será a pioneira do movimento que mudará as formas de se posicionar. Os povos desta zona, vivendo com uma confortável e basta largueza de bens materiais, serão os arrojados da beleza e cultura que ainda hoje pode ser apreciada.

Pegando nos clássicos, os Gregos e os Latinos, dão-lhes uma nova roupagem usando os novos instrumentos de que dispõem. As ciências são agora de interesse coletivo, sobretudo a matemática e a geometria. Assim sendo o chamado número de ouro entra em funcionamento e as proporções, aquilo que havia sido esquecido, passam a ser naturais, leves e realistas. O Homem, ainda adolescente, tarda a dar os primeiros passos para um jovem adulto.

A máquina do estado inicia-se agora, criando um monstro que conhecemos muito bem. Aos poucos os cargos foram sendo criados de forma a servir um grupo de gentes que se individualiza e ganha caráter próprio. É o nascimento da burocracia, não como a sabemos hoje mas ainda pequena, envergonhada e cheia de boa vontade. Uma criança que vai crescer cheia de manias e de birras, até aos dias de hoje e que não se cala.

Na Administração Municipal, a Câmara, detinha o governo através da vereação. Para isso necessitava de oficiais subalternos como o escrivão da câmara, o da almotaçaria, o meirinho, alcaides pequenos, quadrilheiros, porteiro e caminheiro. Aqui está um esboço das necessidades. Na Fazenda estavam os juízes das sisas, coadjuvados pelos escrivães, varejadores, alcaides, meirinhos porteiros e seladores. Outros cargos importantes eram o tesoureiro e os recebedores e contadores. Umas finanças em embrião que se enrolavam de tal forma que conseguiam cobrir todo o território.

Mas ainda restava a parte da Politia, onde os almotacés tinham uma palavra a dizer, bem como os juízes dos órfãos que se faziam acompanhar dos seus respetivos escrivães, avaliadores e partidores. Havia ainda o procurador do concelhos que representava e zelava por um determinado concelho. Como se compreende a máquina crescia a olhos vistos e apenas se fala duma parte da administração.

Na parte da Justiça tinham lugar os juízes ordinários e os juízes de fora que tinham a função de desempate em contendas que se arrastavam. Sendo externos ao concelho seria mais fácil a tomada de decisão. Neste caso há a acrescer os oficiais de justiça mais os escrivães das notas e tabeliães, escrivães do judicial, inquiridores e contadores. Uma perfeita especialização, como se depreende. Resta a Milícia com o seus oficiais militares e ordenanças que ainda incluia os alcaides mores dos castelos, capitães das ordenanças, alferes das ordenanças e sargentos mores.

Os tempos agora são outros. O rei é apenas uma ideia que foi ficando e a república tomou-lhe o lugar. O aparelho ficou pesado e forte e dividiu-se em duas posições bem desiguais: o setor público e o setor privado. Ainda são muitos os que alimentam o sistema e com tendência a aumentar. A terciarização da sociedade permite que assim o seja e apresenta inúmeras vantagens que podem tornar-se o seu oposto.

Os que estão no Estado acabam por ter a protecção de um pai quase invisível mas que os acolhe. Cuida-os, acarinha-os ainda lhes oferece doces de tempos em tempos. Mas não chega, que os meninos choram, barafustam e fazem birras, clamando que ficaram esquecidos. E o pai, conscencioso e atento, continua a ter alguns rebuçados na manga para os calar.

Os outros, os que são de outra mãe, calam-se e não comem. Continuam a olhar para ver se lhes sobra alguma pequena migalha mas raramente a conseguem. São como as meninas feias de família vulgares que não conseguem casamento nem dote decente. As gatas borralheiras a quem não é permitido ter um dia de descanso e que todos os dias se deparam com pilhas de loiça para lavar.

Ora, se todos fazem parte do mesmo não se entendem estas diferenças. Qual o motivo de tanta discriminação? Não vai tudo para o mesmo saco? Claro que vai mas separa-se de modo bem diferente. São estas, as últimas que servem de carne para canhão, que alimentam o batalhão dos que veneram o rei que um dia foi deposto. Mas não. Eles são os escolhidos e os outros, os que se vergam.

Façamos um pequeno exercício para melhor entender. Imaginemos que os enteados, os que lavam as escadas e as ditas tarefas menores, deixavam de o fazer. Um dia acordavam todos mal dispostos e zangados e recusavam-se a trabalhar. Não serviam os senhores, não ouviam as suas solicitações, não produziam nada. Do outro lado, os patrões, aguardavam ansiosos pela refeição inicial e pelas seguintes. Tardava a chegar. Não vinha. Desapareceu. E agora?

Podem, os outros, os eleitos, argumentar que eles também são peças da máquina e que a sabem olear. E depois? São mais as vezes que não estão do que as que estão. São tantas as más vontades que demonstram e os impedimentos encontrados que só demonstram uma enorme falta de empatia. São tantos os que olham para as horas para se irem embora em vez de as dividir para as rentabilizar e trabalhar.

Por mais que se avance, que se saiba evoluir num caminho plano, há quem crie sempre os obstáculos e as barreiras para justificar a sua presença e lugar. Contudo estão bem firmes, de costas quentes e seguros, apoiados num pai que os beija e acolhe como se ainda fossem meninos. Um pai que cegou e não sabe atribuir as tarefas aos que as sabem desempenhar mas oferece-as para os calar.

Os enteados existem em números grandes, em batalhões de força, em grupos que sabem como é importante fazer. Sem estes nada acontecia, tudo mirrava e desaparecia. O que deixam para todos, os impostos, são bem mais elevados do que se pensa, mas no dia em que não puderem continuar a contribuir, são os mais lesados, os que menos levam para o conforto do lar, se ainda continuarem a ter um lugar que chamem de seu.

Filhos e enteados, duas formas bem distintas de tratar os que são da mesma casa, do mesmo país e que deveriam ser abraçados do mesmo modo. Os que continuam do lado do rei estão sempre com a graça do seu senhor mas os outros, os que se afoitam e querem que se faça mais e ainda mais, são olhados como desertores e serão penalizados.

Caminhamos para os jardins do mal onde os que ainda sabem ver, avistam uma luz estranha que os conduz até ao caminho real.

01-12-2020


A Ciência e a Magia

A Idade Média, tempo compreendido entre o século V e o século XV, ficou conhecida pela Idade das Trevas. Nada mais errado. Durante tantos anos as transformações sofridas pela sociedade foram inúmeras e de tal forma importantes que moldaram a sociedade que hoje conhecemos. Contudo a falta de conhecimento e o ódio irracional pela História, faz com que as pessoas se convertam em profetas da ignorância.

O século XIV foi fustigado pela desgraça e ainda hoje é um marco impossível de esquecer. A fome, as guerras e a doença tornaram-se uma constante nos povos que tiveram que enfrentar estes tão negativos acontecimentos. Guerra é palavra que soa a constante e fome tornou-se atual. Da qualidade adquirida, passa-se ao seu oposto e num dia tudo desaparece. Quanto à doença, o caso torna-se bem mais interessante.

A chamada Peste Negra, o horror que levava todos pela frente e que, passados três dias do contágio, levava à morte, assolou a Europa levando a uma drástica redução da sua população. Acarretando custos elevados, o homem medieval soube contornar as misérias e recomeçar de cabeça erguida. Sem grandes ou nenhuns conhecimentos de ciência e medicina, tinha como aliado o improviso e com ele fazia o que entendia ser mais certo para o combate ao flagelo.

As máscaras, em feitio de bico de pato, bem conhecidas nos manuais e no imaginário popular, eram uma forma de defesa contra os males que não tinham ainda nome e que eram totalmente desconhecidos. Com ervas aromáticas, para conseguirem aguentar o cheiro pestilento que o ambiente libertava, ainda tinham uma outra função, que era purificar e defender o organismo. Hoje olha-se para esse tempo e é inevitável sorrir da ingenuidade de pensamento.

Mais tarde, na época dos descobrimentos, o medo voltou com formas distintas. Não que as doenças tenham desaparecido mas outros receios se ofereceram para que a humanidade voltasse a ser testada. Agora foi a vez dos monstros, dos seres de várias cabeças e disformes, os que comiam os seres humanos ou os colocam em torturas inimagináveis e horripilantes. O medo ganhou o nome de monstro mas o sentimento era o mesmo.

Isso não impediu que os fiéis descendentes dos clássicos, esses bravos homens que tanto fizeram pela humanidade mas que caíram em completo e total esquecimento, continuassem com os seus intentos e chegassem onde pretendiam. A conquista do caminho marítimo para a Índia foi um marco que a todos beneficiou e serviu como prova para testar as capacidades escondidas dos destemidos.

Chegados ao século XXI, com anos e mais anos de qualidade, de evolução da medicina, de conhecimento vários e de vidas tão díspares como interessantes, voltamos a bater num muro de ignorância e de medos. Os vírus são estruturas simples e não são organismos pois não possuem organelos nem ribossomas, ou seja, não possuem potencial bioquímico para sobreviver. Como é que algo minúsculo pode assustar tanto?

A ignorância, e não o véu de ignorância como um certo filósofo defendia, ainda cobre grande parte da população. As pessoas, simplesmente, não querem aprender. Recusam-se a abrir os olhos e a mente e viver em mundos paralelos onde as fantasias persistem torna-se mais simples. Afinal que temem? O acordar para a realidade? A verdade? O saberem que estão cada vez mais fracos e não conseguem superar uma dificuldade?

Que tipo de geração estamos a criar? A dos coitadinhos que se assustam logo com palavras e que nem sabem o que é sentir? Sentimentos? Emoções? Dói e a dor evita-se, o importante é o prazer e a felicidade mesmo que não saibam o que verdadeiramente significa. Vivem em completo pânico e criaram uma ansiedade que tende a permanecer e se espalhar. Por mais que se faça para desmistificar a situação, os receios iniciais ficam ativos.

Levam todos pela mão como se fossem crianças inaptas ou com problemas cognitivos graves. Proíbe-se tudo e acaba-se com os direitos fundamentais sem que exista revolta nem sentimento de indignação. Aceita-se como se fosse normal espoliar o que tanto custou a conquistar. O rebanho está domado e o cão pode dormir tranquilo. Só falta o bibe que a chucha, a que é colocado na boca para não falar, está perfeita e pode ter variados nomes.

Que é feito dos destemidos guerreiros que nos legaram a herança? Onde é que ainda habitam os que sabiam dar o corpo e a alma ao desconhecido? O mundo nunca foi seguro nem nunca o será. O mundo é dos audazes, dos que se aventuram e que vão à conquista do desconhecido. Que se passa com as pessoas de agora que vivem em redomas? Não se podem colocar barreiras nem almofadas para se caminhar com segurança e de cabeça erguida. É preciso que haja coragem e esse é inerente a cada um.

Se os novos aventureiros não derem a cara e colocarem mãos à obra para o que se possa avizinhar, estaremos muito mal e no fim da civilização. É preciso ter garra e firmeza para se ultrapassar os portais e entrar nas dimensões certas e corretas. Vamos todos enrolar o corpo e regressar à posição fetal? Para quando o crescer e ser adulto? Que exemplo se passa aos mais novos?

As máscaras sempre foram simbólicas. Umas por conterem a génese da cura e da saúde, outras por taparem o rosto de uns quantos e lhes permitirem certas liberdades que não ousariam de cara destapada e estas, as modernas, onde os estampados, os bonecos e tanto mais marcam presença, servem para retirar a humanidade que ainda restava em cada um. Roubam as emoções, as marcas de personalidade e a individualidade que é a marca pessoal.

Descaraterizando as pessoas, não lhe vendo as expressões e muito menos os sentimentos aliados a elas, há apenas a desconfiança e o medo e esse, como tão bem se sabe, faz maravilhas sem trabalho algum. Semeia a discórdia entre todos, espalha o pânico e gere conflitos que tendem a nunca terminar. Logo a seguir ao medo surge a ignorância e séculos de avanços redundam logo em trevas que se instalam e que permitem, sem qualquer tipo de entrave, que a vontade e os direitos fundamentais desapareçam.

07-11-2020

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