Fernando Vieira

à Deriva

Fernando Vieira

Tânger, Portimão, Lisboa e Madrid

Num momento em que se volta a ouvir a sirene de alarme face ao recrudescimento galopante da estirpe Delta da Covid-19, e quando as expetativas da economia algarvia, direta e indiretamente ligada ao turismo, baixam consideravelmente pelo fecho de portas dos seus principais mercados fornecedores, eis que há quem vislumbre uma luz ao fundo do túnel na forma da ligação marítima (diária!...) entre Tânger e Portimão. 

Grandes entusiastas da medida, os marroquinos não se têm poupado a esforços nas últimas semanas para desbloquear o aparente impasse que o Governo português está a protagonizar, ao que tudo indica para não melindrar os interesses dos nossos vizinhos espanhóis caso a rota em causa saia do papel. 

Se assim for – e tudo indica que é – fica a questão: caso os protagonistas mudassem de posição, ou seja, os espanhóis a prejudicar negócios portugueses, vocês acham que Madrid não assobiaria cinicamente para o lado? Exemplos abundam sobre o ponto de vista de ‘nuestros hermanos’ relativamente ao nosso jardinzinho à beira-mar plantado… 

Seja como for, fontes geralmente bem informadas garantem-me que Rabat tem pressa para garantir a rota Tânger-Portimão, como forma de não depender em exclusivo dos caprichos espanhóis, mas está a perder a paciência pelo extremo cuidado com que Lisboa administra o processo. 

Em cima da mesa está a realização de duas viagens diárias entre o Norte de África e o Algarve, movimentando cerca de quatro mil pessoas por dia, sobretudo a comunidade emigrante magrebina. 

No cerne da questão residem profundas divergências político-económico-religiosas entre Marrocos e Espanha, que geraram uma crise diplomática tendo Ceuta como pano de fundo. Mas isso a nós, portugueses, pouco ou nada importará, pois se o que Rabat quer são alternativas, então que as proporcionemos, com os benefícios que daí advirão. E não me parecem poucos… 

Temos em perspetiva todo um novo mercado, até turístico, uma vez que as famílias marroquinas de classe média alta, com um apreciável poder de compra, passariam a frequentar a excelente oferta algarvia, que desconhecem totalmente, apesar de comungarmos de muitos laços culturais, inspiradores da paisagem urbana e dos hábitos gastronómicos algarvios, que certamente lhes serão familiares. 

Portanto, e salvo opinião contrária, esta é uma oportunidade de ouro, que poderá – e deverá – anteceder outras, caso sejamos legitimamente ambiciosos e tenhamos em perspetiva que o Porto de Cruzeiros de Portimão se assume como uma privilegiada porta de saída e entrada para o Mediterrâneo, tanto mais que a rede atualmente a ser tecida por Rabat inclui o porto francês de Marselha e o italiano de Génova, entre outros ancoradouros de renome.  

Conseguem imaginar Portimão e o Algarve envolvidos nesta teia marítima? A verificar-se, e até ver, isto soa-me a música tocada por anjo em harpa.


Ingleses, para que vos quero?

Sob o pretexto da final da Champions League entre Chelsea e Manchester City, que o Governo português achou por bem acolher, os ingleses começaram a retornar – de forma algo abrupta e descoordenada – a terras onde se canta o fado e se come sardinhas à mão. 

E desde logo fizeram sentir o seu peso, tanto ao nível económico como nas atitudes de arrogância e desdém pelo alheio, dois fatores profundamente interligados, seja por defeito ou feitio dos súbditos de sua majestade. 

Cá pelos algarves, e desde as últimas semanas de maio, é ver chegar vagas de ‘tourists’, muitos deles cumpridores das regras de sanidade pública em vigor devido à atual pandemia, embora se rejeitem demasiadas infrações ao nível do incumprimento das mais elementares regras de higiene e distanciamento social, porque há gente que acredita estar numa terra sem rei nem roque. 

As portas foram-lhes escancaradas e as libras tudo pagam, julgam eles, mal-habituados a estratégias de acolhimento e campanhas promocionais subservientes, seja em Portugal, seja na Grécia, Espanha, Itália, Turquia ou noutros países de pendor turístico considerados mais limítrofes. 

Note-se que não meto no mesmo saco os outros britânicos (galeses, irlandeses e escoceses), pois o seu comportamento padrão nada tem a ver com os truculentos dominadores da Velha Albion. 

Entretanto, temos esfregando as mãos de contentamento as agências de viagens, as companhias aéreas, as rent-a-car, a restauração e – sobretudo – a indústria hoteleira, que registou aumentos de reservas na ordem dos 600 por cento no decurso das últimas semanas. Mas contenha-se este entusiasmo, pois tamanha percentagem é aferida em comparação com o movimento anterior… que era pouco mais que nenhum. 

Na verdade, bastará uma ligeira centelha, como por exemplo um qualquer problema originado pelos excessos dos turistas ingleses ou o simples agravamento dos números relativos aos casos de Covid-19, e tudo se esfumaça. 

Espero sinceramente que tenhamos um Verão em cheio e que a região algarvia volte a receber ondas de turistas vindos dos habituais países clientes, com tudo a correr pelo melhor, de maneira a que a economia local absorva a plenos pulmões esta lufada de ar fresco para os seus cofres, a bem da saúde financeira das empresas (não só turísticas) e da estabilidade dos postos de trabalho que geram. 

Mas… há que disciplinar os indisciplinados, preferencialmente através de ações e campanhas pedagógicas, para que uns quantos tresloucados (na maior parte dos casos inebriados pelo excesso do consumo de álcool) não prejudiquem as merecidas férias de todos aqueles que por cá procuram, prazerosos, a nossa hospitalidade de primeira, desfrutando a natureza de sonho, a gastronomia deliciosa e as condições turísticas “do very best”. 

Competirá às autoridades, nacionais e regionais, prevenir antes de remediar.


Impacto desproporcional

Acreditem que eu bem queria abordar um tema menos constrangedor, supérfluo até, a ver se dispersava as nuvens negras que pairam sobre nós. Mas não dá. 

Portanto, é com assumida resignação que volto ao tema recorrente dos malefícios que a atual pandemia trouxe à região algarvia, não apenas em termos pessoais, mas sobretudo no âmbito económico, e dos quais tardaremos a recuperar. 

Embora não tenha sido novidade para ninguém, certo é que um recente estudo do Observatório das Desigualdades concluiu que o Algarve é a região do país onde a pandemia está a ter um “impacto absolutamente desproporcional” e apresenta o maior aumento homólogo do desemprego. 

De referir que o Observatório é uma estrutura independente, constituída no quadro do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa. O estudo, intitulado “Desemprego em 2020 - Impactos da Pandemia, Mapeamentos e Reflexões”, verificou “a inversão da trajetória de descida sustentada do desemprego, que vinha acontecendo desde 2012”, baixando regularmente de 710.652 pessoas oito anos antes, para 297.931 em janeiro de 2020. Contudo, “um repentino recrudescimento, mais notório a partir de abril do ano passado e que coincide com as primeiras medidas de confinamento, inverteu esta tendência”, colocando o total de desempregados registados em 375.150 no mês de dezembro. 

Os designados “desempregados imediatos”, que não beneficiaram do `layoff` simplificado, entre outras medidas indiretas de apoio ao emprego, foram sobretudo “trabalhadores mais precários, informais, trabalhadores independentes, falsos recibos verdes, em suma, gente vulnerável com vínculos contratuais frágeis ou simplesmente inexistentes, aos quais se juntaram os que estavam em período experimental e não continuaram”. Ou seja, o que mais há por terras algarvias. 

Particularizando a análise, com foco na atividade económica concreta, os investigadores verificaram que os desempregados são provenientes sobretudo do alojamento, restauração e similares. E é aqui que mais nos toca. 

Segundo o relatório em causa, que analisou o mercado de trabalho em Portugal continental durante o ano de 2020, com base em dados do Instituto do Emprego e da Formação Profissional, “o setor do turismo continua a ser largamente penalizado pela pandemia”, tendo os investigadores feito questão de salientar que no caso do Algarve “o fenómeno é ainda mais expressivo”. 

Avançam mesmo que na região “a pandemia está a ter um impacto absolutamente desproporcional, explicado em grande medida pelo facto de ser muito dependente da atividade turística”, salientando que os dados do desemprego registado são “inéditos”.  

Se dúvidas houvesse, aí estão as evidências plasmadas em números, …que demorarão bastante a ‘normalizar’. Acontecerá isso algum dia?  


Delação não premiada

Causaram indisfarçável mal-estar no setor turístico-hoteleiro as polémicas declarações de Elidérico Viegas, histórico presidente da AHETA - Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, segundo o qual as distinções internacionais que vêm premiando o país e a região algarvia nos últimos anos, enquanto destinos de eleição, teriam uma importância nula e subvertida, uma vez que vêm sendo negociadas com as entidades que as atribuem, a troco de avultadas quantias. 

E a polémica foi de tal monta que o próprio Elidérico optou por se demitir do cargo, que assumia ininterruptamente há mais de 25 anos, preferindo assim cortar pela raiz o coro de contestações vindas dos seus colegas de direção e de diversos quadrantes da atividade turística, a montante e a jusante. 

Porque vos trago este assunto, nada abonatório para a boa imagem do turismo nacional, especialmente o algarvio, despoletado precisamente quando o setor sofre os devastadores efeitos de um ano de quase total regressão, devido aos efeitos colaterais desta terrível pandemia? 

Precisamente porque Elidérico também criticou o plano de vacinação nacional contra a Covid-19, que considera aquém do desejado, o que prejudicará, no seu entender, uma imagem turística já de si bastante afetada por este longo e atípico período, cuja recuperação se afigura lenta e dolorosa. 

Em boa verdade, não sei se é verdadeira a denúncia relativa aos prémios alegadamente comprados, nem tão pouco se a planificação das vacinas estará assim tão atrasada e, caso esteja, se se trata de mera incapacidade organizativa das entidades competentes, sobre a qual em nada interferirá o contexto internacional relacionado com o rocambolesco processo de produção, homologação, aquisição, distribuição e confiança das benditas vacinas ao dispor. 

Caso se confirmem as duas críticas, ambas deverão merecer o mais cuidadoso e célere reparo que justificam, doa a quem doer.  

O que me faz espécie é entender se, no caso específico das placas e estatuetas – supostamente – a saldo, seria este o momento mais oportuno para levantar a lebre, ainda por cima sem a apresentação de quaisquer comprovativos? É esta a celeuma que o turismo mais precisa nesta altura do campeonato? Não haveria outras prioridades de fundo a debater, em prol do bem-estar do setor e de quantos nele trabalham e dele vivem? Alguém ficou a ganhar com tamanha revelação (ainda) não sustentada? Elidérico Viegas, ele mesmo, atirou ao lixo um desempenho de décadas, só porque sim? 

Em suma: isto foi para quê?


Preparando a imunidade de rebanho

Todos nós esperamos que este segundo confinamento geral seja o último e que a maldita Covid-19 esteja, pelo menos, devidamente controlada à custa de dezenas de vacinas e milhões de injeções.

Um ano de frustrantes padecimentos e duras limitações depois, é o mínimo que merecemos, após termos abdicado de tantas coisas boas que a vida nos poderia ter proporcionado.

Vamos, pois, desejar ardentemente que tudo não tenha passado de um longo pesadelo, malgrado os resultados nefastos que provocou. Mas… será que teremos condições de retomar o nosso quotidiano, sem duradouros resquícios deste mau momento?

Para além das sequelas com que os infetados terão de conviver, que efeitos esta pandemia deixará no dia a dia dos confinados e quarentenados? Que terapias deveremos adotar para tentarmos regressar à normalidade, reabilitando-nos dos tiques provocados por esta espécie de coma social, seja em termos físicos, seja nos meandros da mente?

Falo, naturalmente, de gestos banais e corriqueiros – entretanto demonizados – como apertar a mão de amigos e conhecidos sem exageros e com a devida intensidade, o mesmo sucedendo com os beijinhos da praxe, para não falar no ato de acender luzes e tocar campainhas à cotovelada ou de empurrar portas à joelhada.

Fundamental será, ainda, desmamarmos o inconsciente vício de lavar e relavar as mãos com álcool gel por tudo e por nada, sem esquecer que, na sequência do regresso físico aos nossos postos de emprego, essa coisa de ficar um bocadinho mais no remanso da cama, à conta do teletrabalho, vai ter os dias contados.

Outro aspeto que considero essencial relaciona-se com o instintivo tique que nos faz desviar das pessoas nos passeios, enquanto suspendemos a respiração, já de si tão inibida devido ao uso de máscara. Dupla, nalguns casos.

Por tudo isto e muito mais, que agora não me ocorre, sugiro-vos um intenso treino em casa visando recuperar as anteriores rotinas, antes que seja alcançada a imunidade de rebanho e decretado o desconfinamento integral.


Fragilidades democráticas

No meio do dilúvio de notícias de e sobre a Covid-19 com que temos sido inundados nos últimos tempos, pouca atenção sobra para outros assuntos – digamos – menos prioritários.

É natural, portanto, que tenha passado relativamente ao lado da opinião pública e dos comentadores de serviço (aqueles que sabem de tudo um pouco…) o facto de Portugal ter descido de categoria no Índice de Democracia elaborado anualmente pela revista “The Economist” e agora divulgado, deixando de ser um “país totalmente democrático” para regressar ao grupo dos regimes democráticos “com falhas”, um recuo que terá sido impulsionado pelas medidas restritivas impostas, justamente, pela atual pandemia. 

Segundo os autores do relatório em causa, alusivo a 2020 e cujo título se poderá traduzir para “Na saúde e na doença?”, Portugal e França surgem no mesmo patamar, com o mesmíssimo avanço e recuo: ambos os países tinham na edição anterior avançado para “país totalmente democrático” e perderam agora esta categoria, sendo os únicos na Europa Ocidental a registar tal regressão. 

Nos dois casos, as restrições impostas como forma de conter a propagação da Covid-19, nomeadamente os confinamentos gerais, o distanciamento social e várias outras medidas, explicam grande parte da queda de categoria. 

Entre diversos motivos que concorrem para essa quebra, figuram as categorias do processo eleitoral e pluralismo e das liberdades civis, ao passo que se mantêm inalterados os quesitos do funcionamento do governo, da participação política e da cultura política. 

Aqui chegado, permitam-me partilhar algumas perguntas retóricas sobre os resultados obtidos na região algarvia por um certo candidato às Presidenciais de janeiro último, declarado patrono de uma visão política pouco ou nada democrática. 

Como se poderão interpretar os 16,60 por cento dos votos expressos nas urnas de barlavento a sotavento a favor desse simpatizante de ideias fascizantes (mais de 26 mil dos 155 mil votantes na região, isto é, quase 58 por cento dos eleitores efetivos)? 

Será que os votantes, naturais e residentes, se revêm assim tanto nos conceitos populistas e antissistema propagandeados pelo candidato em causa, atirando às urtigas os direitos e liberdades fundamentais plasmados na Constituição da República Portuguesa de 1976?

Será que este resultado não deve preocupar os democratas, pois apenas se terá tratado de uma pontual manifestação de descontentamento face ao status quo? 

Ou será que as falhas democráticas apontadas no estudo que citei vão ser exploradas com cada vez maior sucesso nos próximos tempos, ao ponto de colocar em sério risco os chamados valores de Abril? 

O que vai acontecer nas Autárquicas deste ano e, sobretudo, nas próximas Legislativas? 

Que fenómeno político-social é este a que estamos a assistir e até onde irá? 


Vacinação inspiradora

São vários os dilemas e inúmeros os desafios que 2021 traz, qual deles o mais determinante para – pelo menos – nos mantermos à tona, (sobre)vivendo o melhor possível. 

Um deles, seguramente, tem relação direta com o flagelo pandémico que virou a nossa vida do avesso no ano findo: deveremos, ou não, tomar a vacina preventiva contra a Covid-19, qualquer uma que seja? 

Durante os primeiros meses de convívio com esta terrível realidade e seus dramáticos resultados, todo o mundo ansiava pela criação de um antídoto, de alguma panaceia, capaz de travar tão nefastos efeitos. 

Num caso nunca visto de união de esforços, públicos e privados, eis que começam a surgir vacinas e mais vacinas, testadas com resultados promissores, e o mundo respira de alívio. Afinal, há uma cura e essa cura fica disponível em tempo ‘record’. 

Contudo, assim como os indicadores de esperança dispararam nos últimos meses de 2020, também dispararam as dúvidas e incertezas quanto à real eficácia das propostas apresentadas por alguns dos mais conceituados laboratórios. 

Num ápice, o tema fraturante de conversa deixou de ser a eventualidade de uma solução para tão grave problema, mas se essa solução dá reais garantias de fiabilidade e segurança. 

Um dos principais argumentos utilizados pelos céticos tem a ver com a rapidez como todo o processo decorreu, após a descoberta do novo coronavírus. 

Antes, em circunstâncias normais, passavam-se vários anos até que as vacinas contra diversas doenças se revelassem efetivas e eficazes. Por isso, quando os cientistas começaram a trabalhar numa vacina para o SARS-CoV-2, ninguém arriscou datas, pois toda a gente tinha noção da morosidade do processo. 

Certo é que, menos de um ano depois, já foram vacinados milhares em todo o mundo e essa onda parece irreversível, por muitas novas estirpes que possam surgir. 

Portanto, e se alguma coisa de positivo se pode extrair deste fenómeno epidemiológico, independentemente do modo como o mesmo será ultrapassado, mais cedo ou mais tarde, é o ‘lobby’ positivo que criou, à escala global. 

De facto, e sem pretender influenciar o vosso soberano poder de decisão na “toma da pica”, porque não é isso que está aqui em causa, cumpre-me salientar um aspeto que considero exemplar: nunca, em nenhuma circunstância da História, houve uma união a este nível por parte dos seres-humanos na busca de uma solução comum, que a todos beneficie. 

Ora, numa terra que se caracteriza pela forma desgarrada como sempre lidou com os seus problemas (e estou falando do Algarve…) não representará todo este processo um paradigma inspirador, à escala regional, para todas as áreas da nossa sociedade, tão carenciada de sinergias? 


Comer para (sobre)viver

Até onde a minha memória gustativa vai, lá para os três ou quatro anos de idade, venho-me alimentando (deliciado) com os ricos sabores da culinária algarvia, tão salutarmente influenciada pela dieta mediterrânica. 

Sendo daqueles que come para viver e não que vive para comer, nem por isso deixo de apreciar uns carapaus alimados, umas sardinhas assadas, umas papas de berbigão, uma salada de choco em sua tinta, uma caldeirada com o peixe da ocasião, uns búzios com feijão, uns guisados de grão e tantas e tantas especialidades típicas, que conjugam o que de melhor a terra e o mar nos proporcionam. Tudo bem acompanhado, claro está, com as pingas sulistas, de tinto e branco, trabalhadas pelo generoso sol, rematando cada refeição com uma bolinha de figo e amêndoa ou um doce fino, a que o cálice de medronho dá um toque especial. 

Ao longo destes anos – bem mais de meio século – fui experimentando casas tradicionais, das quais me tenho feito cliente habitual, pois preservam os sabores e saberes algarvios, passados de geração em geração. 

Por norma, são espaços rústicos, onde impera o asseio e as regras de acondicionamento e higienização alimentar impostas pelas autoridades do ramo, apanágio desses recantos de bem comer. 

De repente, com a intromissão descarada desta malfadada pandemia no nosso quotidiano, fiquei privado de os frequentar quando e como quero. 

E quem fala nestes paraísos dos petiscos, fala em alguns milhares de restaurantes e afins que, de barlavento a sotavento, lá vão sobrevivendo por entre restrições, limitações e castrações que lhes tolhem a faturação e indiciam o encerramento de portas, mais dia menos dia. Como já sucedeu demasiadas vezes. 

Nesta região tão dependente do turismo, é toda uma atividade empresarial a desmoronar, arrastando consigo largos milhares de postos de trabalho, dos quais dependem incontáveis agregados familiares. 

Perante esta crise sem fim à vista, e face a um futuro próximo que se afigura cada vez mais angustiante, empresários houve que chegaram a fazer greve de fome, exigindo objetivas medidas de apoio por parte do Estado. 

Mas... e nós, clientes (mais ou menos) assíduos? Mas… e nós, algarvios (mais ou menos) preocupados com este cenário, um de tantos outros que atingem de chofre a mono indústria turística que, para o bem e para o mal, é locomotiva económica do Algarve?  

O que fazer, para além de cumprirmos regras tão patéticas como passar o umbral da porta de máscara na cara, retirando-a logo a seguir, de nos sentarmos mesa sim, mesa não, de frequentarmos os restaurantes e similares das tantas às tantas, em determinados dias da semana, como se o coronavírus, nesses momentos, metesse folga? 

Porque estas questões me assaltam e incomodam, ao ponto de sentir necessidade de as partilhar convosco, pergunto: como poderemos contribuir para que a restauração continue a operar, mantendo a qualidade do serviço e o mapa de pessoal? 

Aceitam-se sugestões.

2-12-2020


Travagem a fundo

Aquilo que se passou recentemente no Autódromo Internacional do Algarve, durante o GP de Portugal em Fórmula 1, não se pode repetir, garantiu António Costa, alto e bom som, em frente a dezenas de microfones e câmaras de registo de imagem. 

“Aquilo”, esclareça-se, terão sido as atitudes irrefletidas de alguns milhares de espetadores, que não se revelaram minimamente preocupados com o vertiginoso recrudescimento de casos de covid-19 que assola a Europa e do qual Portugal não escapa. 

Atitudes irrefletidas essas não controladas ‒ e muito menos corrigidas ‒ pelas autoridades ditas competentes, cujo dever e missão seria impedir atos de displicência e leviandade. 

Mas quem ouviu o nosso Primeiro ficou com a sensação que o raspanete público se dirigiu especificamente aos responsáveis da Parkalgarve,… que não se pouparam a esforços para trazer de volta até nós a mais mediática competição do desporto automóvel, concentrando os holofotes do mundo (por alguns dias) no Sítio do Escampadinho, freguesia da Mexilhoeira Grande, concelho de Portimão, distrito de Faro. 

É um facto que, em circunstâncias ‘normais’, nem tão cedo teríamos o regresso da Fórmula 1 a este jardim plantado no extremo ocidental da Europa. Mas, convenhamos, não foi nada fácil convencer os decisores da FIA a considerarem a vinda do circo aos antípodas do Velho Continente. 

E, se existem sérios reparos a fazer no que toca aos aspetos organizacionais, muito por força desta malfadada pandemia, certo é que a nível desportivo a espetacular pista do Autódromo Internacional do Algarve passou com distinção. Quem o diz são os pilotos e os responsáveis pelas escuderias em prova. 

Contudo, e não obstante, a reprimenda que serve como ponto de partida a esta minha despretensiosa crónica terá funcionado assim como um insensato tiro nos pés, ou uma imprudente travagem a fundo, que em nada abonará para um eventual regresso da Fórmula 1 a Portugal, pelo menos nos próximos tempos. É que a repercussão da coisa foi grande lá por fora…! 

Creio que há outras formas mais eficazes e menos espalhafatosas de apurar responsabilidades e afinar a máquina ‒ sem a hipotecar ‒, caso a perspetiva seja mesmo tirar partido de uma das mais bem-dotadas infraestruturas desportivas do país.  

Quanto mais não seja, a bem da economia nacional, regional e local, principal argumento invocado pelos nossos governantes para darem luz verde à prova e investirem balúrdios no projeto.

2-11-2020


Areias, para que vos quero?

Na minha atividade jornalística, pelo menos desde meados da década de 1980 que tenho escrito sobre a importância estratégica do desassoreamento do Rio Arade, que desce da zona de Silves até Portimão. 

Via fluvial de grande importância ao longo de séculos, foi perdendo significado à medida que o irreversível assoreamento, fruto de condições naturais e por força da influência humana, tomou conta do cada vez menor caudal das suas águas. 

Em particular, as obras de dragagem da foz do Arade são uma promessa governamental com mais de 20 anos, entre avanços e recuos… no papel. Com efeito, estudos é coisa que não falta, faltando – sim – ao erário público os milhares e milhares de euros já gastos com os ditos cujos.  

O tempo passa e o assoreamento progressivo do rio leva a que seja cada vez mais difícil navegar até Silves durante a maré alta. Vem-se perdendo, assim, o potencial turístico e ambiental deste percurso fluvial de inegável beleza. 

Mas não é propriamente o desassoreamento do Arade que abordo neste texto, antes a suspensão do projeto relativo à ampliação da barra de manobras para os navios de cruzeiros que demandam o Porto de Portimão, privilegiada escala atlântica de e para o Mediterrâneo. 

Intervenção da responsabilidade da Administração dos Portos de Sines e do Algarve (APS), o plano contempla, entre outras medidas, a remoção total de cerca de 4 630 000 metros cúbicos de materiais arenosos e outros materiais detríticos, o que permitirá a amarração de dois navios em simultâneo, fruto de um melhor aproveitamento do espaço disponível. Para tanto, serão necessárias dragagens do canal de acesso e da bacia de rotação, pensando em navios com até 334 metros, num investimento global de 17,5 milhões de euros.  

… Estava tudo prestes a avançar, eis que vozes contestatárias se opuseram ao depósito de parte das referidas areias em zonas afetas à freguesia de Ferragudo, no concelho fronteiriço de Lagoa, sob o argumento que, uma vez que o grande beneficiado vai ser o município de Portimão, a Portimão competirá receber esses milhares de metros cúbicos de areal. 

Num exemplo raro no nosso país, as entidades ditas responsáveis atenderam – aparentemente – a essa reclamação, tendo a CAIA - Comissão de Avaliação de Impacto Ambiental (criada para o efeito) emitido um parecer desfavorável à coisa, dirigido à Agência Portuguesa de Ambiente. O relatório da CAIA alega a existência de diversas “lacunas” e “situações pouco definidas e sem qualquer avaliação concreta ou sustentada” no Estudo de Impacte Ambiental promovido pela APS, nomeadamente em termos dos efeitos que a deposição de areias poderá ter nos locais previstos. 

No momento em que redijo estas linhas, decorre o período para eventuais alegações da APS e só depois a APA divulgará a Declaração de Impacte Ambiental correspondente a este caso que, na minha modesta opinião, se tornou num braço de ferro entre os interesses económico-turísticos e a defesa do ecossistema local, notando eu, em ambas as frentes, motivações pouco confessáveis.

Mas isso é outra conversa.

4-10-2020


Futuro devoluto

Qualquer um de nós pode confirmar, se é que ainda não teve noção do fenómeno, o elevado número de habitações devolutas existentes nos principais centros urbanos do Algarve, na esmagadora maioria em mau estado de conservação.

Qualquer um de nós também pode aferir, se é que nunca passou pela traumática experiência, como a demanda por uma casa para arrendar constitui uma exasperante busca de agulha em palheiro, principalmente por jovens casais no início da vida a dois.

Talvez devido à atual conjuntura, está a verificar-se um pouco por toda a região um curioso fenómeno; o regresso de jovens que aqui pretendem constituir família e alicerçar futuro junto dos seus, depois de terem feito formação académica e/ou tentado emprego nos principais centros urbanos do país.

Assim de repente, e nos últimos dias, soube de 4 ou 5 casos… e das imensas dificuldades que estão a ter para conseguirem um lar dentro das suas possibilidades financeiras, evitando logo à partida um compromisso bancário para toda a vida, que lhes impõe implacavelmente uma disponibilidade monetária, na ordem dos 5 por cento do custo final (mais alcavalas), que muitos não têm.

Porém, face ao paupérrimo cenário dos alugueres disponíveis, só lhes resta “meterem-se com os bancos” a contragosto, pois a alternativa impõe-lhes condições verdadeiramente obscenas.

Na verdade, havendo tantos imóveis fechados a sete trancas e tão escassa oferta, a procura é confrontada com um ror de ilicitudes e imoralidades que se confundem entre si, desde rendas surreais face à qualidade medíocre dos habitáculos, até à exigência de várias cauções, tudo sem contratos e, como tal, sem recibos ou controle legal.

Para piorar ainda mais, grande parte das casas apenas está disponível entre outubro e maio, porque os proprietários não abdicam de faturar à tripa-forra durante os meses da chamada “época alta”.

Sem entrar em mais detalhes, pois o espaço escasseia, considero uma lástima a não existência efetiva – repito, efetiva – de um programa, ou plano, ou projeto, que estimule estes jovens algarvios a regressarem às origens e, como tal, a contribuírem para o bem-estar de todos nós com o seu potencial.

Como se compreende, o problema não passará só pela habitação, mas dela depende muito, já que é extremamente desolador querer voltar para junto dos seus e esbarrar com este panorama.

Para reflexão por quem de direito.

1-09-2020


Vem aí o circo da Fórmula 1

O país rejubilou com a notícia do regresso da Fórmula 1, após 24 anos de interregno, para uma corrida a disputar-se na magnifica pista do Autódromo Internacional do Algarve em 25 de outubro próximo. 

Se não houver percalços até lá, o poderoso mundo automóvel vai estar de olhos postos no Sítio do Escampadinho, freguesia da Mexilhoeira Grande, a poucos quilómetros da cidade turística de Portimão… e com público nas bancadas. 

Muitos já consideram aquela como uma das maiores datas históricas do desporto motorizado português, para o que terá concorrido a vontade e os esforços de diversas entidades locais, regionais e nacionais, podendo este projeto, que começou a ganhar corpo há poucos meses, servir de paradigma para outros cometimentos lusos de amplitude internacional. 

Contudo, creio que não se deveria embandeirar tanto em arco com esta vitória relativa, pois convém ter presente que a mesma jamais ocorreria – pelo menos nos próximos tempos – caso não atravessássemos uma pandemia que tudo tem pervertido à sua volta. 

É que os inegáveis dividendos que o retorno da Fórmula 1 ao nosso país poderão trazer, na ordem dos 300 milhões de euros segundo estimativas reservadas, estão ameaçadas pela guilhotina de um novo surto de Covid-19, que alguns especialistas da área da saúde receiam possa ocorrer com o advento do outono e, portanto, da época das viroses gripais e afins. 

Mais apreensivo fico sabendo que este novo Coronavírus, que tantas mortes causou e transtornos sociais provocou, é de uma imprevisibilidade exasperante, reinventando-se como poucos, para mal dos nossos pecados. 

Portanto, reconhecendo que o anúncio da realização no Algarve da prova maior do desporto motorizado deixa-nos a todos de peito inchado e faz muito bem à nossa auto estima, devo chamar a atenção para uma eventual reviravolta, caso os indicadores de controle da pandemia na região (e em Portugal) se revelem até lá inseguros e, como tal, insustentáveis. 

As autoridades regionais têm sabido dar uma eficaz resposta a este problema sanitário, graças ao empenho e competência dos profissionais de saúde e demais envolvidos, proporcionando as garantias de segurança que nos permitirão receber esta espécie de medalha de ouro do desporto mundial. 

A promoção global da prova e, por tabela, do destino turístico algarvio, é algo não quantificável, já que permitirá atingir os quatro cantos do planeta automóvel e mostrar todas as nossas qualidades, da hotelaria de excelência à saborosa gastronomia, das praias magníficas e do deslumbrante interior, ao património histórico-cultural e às marinas que salpicam a costa.  

Por isso, os responsáveis pela empreitada querem que esta não seja uma mera prova de substituição e se consolide no circo da Fórmula 1, constituindo um importante balão para as empresas da região, ao gerar uma forte dinâmica económico-financeira. 

Mas atenção: todos nós deveremos contribuir para que os índices de segurança sanitária sejam o mais elevados possível, quer para que o sonho de trazer a Fórmula 1 para o Algarve se concretize a 25 de outubro e se repita nos anos vindouros, quer – já agora – para o nosso próprio bem-estar.

5-08-2020


Amigos da onça

Se dúvidas houvesse que o turismo algarvio – e, como tal, a região no seu todo – está a atravessar um nefasto período, de reflexos bastante reservados e de longa duração, a decisão do Governo inglês de excluir Portugal dos "corredores de viagem internacionais" constituiu violenta machadada.

A resolução de Londres de nos banir da lista de destinos turísticos que permitem aos britânicos passarem férias sem cumprir quarentena no regresso, terá consequências muito graves no futuro próximo desta região, uma vez que só esse mercado representa cerca de 60 por cento dos turistas que nos visitam.

Não consigo vislumbrar uma razão clara e objetiva para esta decisão, tanto mais que Espanha, França ou Itália, por exemplo, fazem parte dessa ‘lista dourada’, apesar de serem os países mais afetados no continente europeu, quer em número de casos de covid-19 quer em número de mortes, logo atrás – recorde-se – da Inglaterra.

É que no Algarve temos menos de 650 casos acumulados para cerca de 500 mil residentes, o que representa, em termos de confirmações de coronavírus, uma percentagem pouco superior a 0,1 por cento de pessoas que foram ou estão infetadas com a covid-19.

Portanto, é com um sentimento de incompreensão e de injustiça que vejo países com indicadores muito inferiores a Portugal, como é o caso do número de testes por milhão de habitantes, serem considerados destinos seguros, sem obrigatoriedade de quarentena. Para mim, e em circunstâncias puras e normais, não faz o menor sentido.

Sei, entretanto, que esta decisão não influenciará os muitos turistas oriundos das terras de sua majestade que conhecem as qualidades inerentes ao Algarve e que sabem que nesta região a covid-19 está perfeitamente controlada.

Também sei que os milhares de residentes ingleses a viverem na região estão a passar a mensagem aos seus conterrâneos, desmistificando uma imagem preconceituosa, que Boris Johnson e seus pares acabaram por transmitir com a sua despropositada deliberação.

Os problemas que atravessamos são muito difíceis, pelo que é essencial que a União Europeia pós-Brexit trabalhe em conjunto, definindo estratégias comuns nos níveis nacional, regional e local, para a reabertura de fronteiras, restabelecendo um dos pilares da construção europeia: a livre circulação de pessoas e mercadorias, desde que tomadas as medidas de cumprimento das regras de circulação, de convivência e de distância segura entre as pessoas.

Como está a suceder no Algarve. cuja indústria turística representa 4,6 por cento do PIB português, estando 87 por cento do emprego gerado na região relacionado diretamente com este setor.

… Ah, e esqueçam lá isso da “mais antiga aliança do mundo ainda em vigor”.

8-07-2020


Invasão estival?

Num dos primeiros atos públicos que assisti após o período de confinamento social, causou uma indisfarçada onda de surpresa nos presentes a revelação, feita por uma figura proeminente do poder local algarvio, que os empresários turísticos e concessionários de praia do seu concelho esfregam as mãos de contentes, perspetivando um Verão em cheio.
Não obstante, e apesar de tudo.
Ao que parece, essas perspetivas auspiciosas e otimistas – exageradas…? – teriam sido partilhadas durante uma reunião de trabalho em que, precisamente, os agentes turísticos foram sensibilizados para as rigorosas medidas higiénicas que a atual conjuntura, ainda pandémica, recomenda.
Pessoalmente, não tenho dados, nem para surfar nessa boa onda, nem para ficar no areal, apreensivo, se bem que me incline mais para esta última postura.
Mas uma coisa é certa: o Algarve no seu todo, das entidades públicas aos privados, dos organismos de saúde e proteção civil ao cidadão comum, teve uma atitude exemplar desde a primeira hora desta crise epidemiológica… que ainda está longe de sanada.
E não esqueçamos que foi aqui que o coronavírus deu os primeiros sinais de também não poupar o nosso país.
Seja como for, e passados três longos meses, o Algarve figura, de pleno direito, no mapa europeu das regiões turísticas mais seguras, o que explicará a forte procura por quem quer fazer férias na região. Isso resulta, não duvido, da capacidade de resposta de todos nós, algarvios, a esta crise que ninguém esperava, nem nos piores pesadelos.
Tenhamos sempre presente que há duas áreas fundamentais para a atração de turistas: a segurança e a saúde, pois enquanto dependermos exclusivamente da monocultura do turismo, estas terão de ser as nossas prioridades.
É que quando o setor espirrar e apanhar uma gripe, essa virose minará a economia regional e afetar-nos-á sem dó nem piedade.

2-06-2020


Todos por um

Com o regresso da nossa vida à normalidade possível, muitos já perceberam que as coisas não vão ser como eram, por variados motivos que não vale a pena referir, de tão escalpelizados vêm sendo pelos especialistas de ocasião.

Em particular no que toca à monocultura do turismo, os responsáveis do setor e o tecido empresarial terão que se adaptar profundamente, repensando estratégias para minimizar prejuízos e, à luz da nova realidade, rentabilizar o potencial regional que – no fim de contas – não se perdeu nem um pouco e continua por aí.

Quero, contudo, abordar outra vertente, porventura menos focada, mas que para mim representa, talvez, um dos mais enriquecedores legados desta crise social que – ainda – estamos a viver.

O meu realce vai, então, para a forma ágil e acertada como as entidades regionais, nomeadamente o poder autárquico e as estruturas de saúde, proteção civil e segurança pública, enfrentaram a questão em tão curto espaço de tempo, antecipando as melhores respostas para os piores cenários.

Não tenhamos dúvidas que as medidas tomadas nos primeiros dias foram determinantes para o evoluir favorável do problema.

Em complemento, quero também enaltecer o comportamento dos algarvios, que perceberam o que estava em causa e assumiram os sacrifícios pedidos, em prol do bem comum. Cidadãos, empresários, movimento associativo, toda a gente demonstrou um imprescindível sentido de responsabilidade, enquanto o voluntariado assumiu um papel relevante, em diversas áreas consideradas fulcrais.

Todo esse comportamento contribuiu para que o malfadado vírus não se propagasse descontroladamente na comunidade.

Sobre a mudança de comportamentos que, fatalmente, se verificará, é natural que assistamos nos próximos tempos a um esfriamento nos relacionamentos e a um distanciamento interpares.

Mas creio que essa postura mudará gradualmente e, quando tudo isto não passar de ténues memórias, voltará ao de cima a nossa costela latina, pois a entreajuda, que nos une muito para além de todas e quaisquer diferenças, essa, estará sempre presente.

Faz parte do nosso ADN.

6-05-2020


Não fazer nada é uma ciência

Desconheço como estão passando o vosso tempo de auto quarentena.
Pois eu cá devo confessar que já não sei o que mais fazer, após duas semanas enclausurado em casa. Ou serão três...?
A sensação marcante por estes dias é que estou a ficar cada vez mais pírulas e, por isso, imploro-vos dicas, para além da minha rotina, que - grosso modo - gira em torno do seguinte teletrabalho:
13h00 – 02h00: Acompanhar na tv os noticiários que dão conta de como o mundo anda às voltas com a pandemia da Covid-19;
02h00 – 04h45: Maratona de programas americanos idiotas sobre adolescentes grávidas e jovens que são surpreendidos pelos pais em farras e festarolas tresloucadas;
04h45 – 07h00: Emissões culinárias de todo o mundo, para captar sugestões para os petiscos do dia;
07h00 – 13h00: Descansar os olhos e o cérebro de tantas baboseiras.

Ocasionalmente, circulo pela casa atrás de uma mosca ou um mosquito que teve a infeliz (e derradeira) ideia de entrar pela janela. Modéstia à parte, estou-me a tornar um caçador implacável, fruto da experiência que vou adquirindo.

A nível cultural, e assim de memória, já esgotei o repertório de músicas do Zeca Afonso, dos Xutos & Pontapés, do Marco Paulo, da Maria Leal e do Salvador Sobral (entre tantos outros), ao mesmo tempo que li de trás para a frente a Encyclopædia Britannica e todas as obras do Fernando Pessoa e seus heterónimos.
Também conto com alguma regularidade as folhas dos rolos de papel higiénico que consegui arrecadar antes do Grande Açambarcamento, se bem que esta atividade dure menos tempo a cada dia que passa, devido à redução das unidades, pois das 435 iniciais sobram 396 no momento em que vos escrevo.
Na vertente gastronómica, estou-me a tornar um requintado ‘chef’ no que toca à confeção de entaladinhos de todo o género e até já sei estrelar ovos e fazer gelo.
Em compensação, e para adiar o máximo possível a obesidade galopante que me vem incomodando há algum tempo, pratico – religiosamente - 5 minutos diários de exercícios de meditação na balança da Wii, o que também me ajuda a manter alguma sanidade mental e dá trabalho aos neurónios sobreviventes… embora reconheça que os efeitos comecem a ser algo duvidosos.
E digo isto porquê? Porque vou gradualmente manifestando certas atitudes excêntricas – batizei todos os sofás da sala com apelidos condizentes ao conforto que me proporcionam: ‘nuvenzinha’; ‘duro como a porra’; ‘pés de fora’.
Outra atitude bizarra para preencher o dia é telefonar para toda a gente que consta na lista do meu telemóvel, a ver se alguém atende e troca umas ideias comigo. Curiosamente, já restabeleci contacto com uns 4 ou 5 familiares e conhecidos, dos quais não tinha notícias há anos e anos.
Enfim, não fazer nada de jeito é uma ciência e dá MUUUUITO trabalho.
Bastante mais poderia escrever, mas creio que já entenderam o meu dilema.
Na verdade, o tédio vai-me esgotando as ideias e por isso recorro a todos vós, a ver se contribuem com dicas que refresquem o meu monótono quotidiano, até que vida regresse à – suposta – normalidade...
Venham de lá essas propostas!

2-04-2020


Coincidências pandémicas

Seria inevitável abordar esta escalada pandémica à escala global, conhecida por coronavírus ou covid-19. Quer queiramos quer não, vai-nos afetar a todos e a única dúvida que resta é saber até que ponto.
Conheço pessoas que, no preciso momento em que escrevo estas apressadas linhas, estão esvaziando avidamente as prateleiras dos supermercados, prevenindo a eventual carestia de produtos básicos, sobretudo alimentares.
Há mesmo aqueles que preparam planos de contingência para toda a família, reforçando o armário farmacêutico lá de casa com toda a sorte de medicamentos antigripais e afins.
Outros fazem contas de sumir, procurando antecipar os cenários mais negros para os seus negócios e/ou poupanças, face às expetativas de uma recessão económica com grande amplitude.
E também sei dos que cancelaram ou adiaram ‘sine die’ as suas viagens de férias, salvaguardando-se de hipotéticas contaminações fora de portas.
E é aqui que pretendo chegar nesta despretensiosa crónica.
O Algarve, esta nossa região tão dependente da monocultura do turismo e na qual o setor da saúde tem sofrido um inqualificável desinvestimento por parte do Poder Central, vai sentir a todos os níveis, de barlavento a sotavento, os efeitos deste devastador fenómeno, cujas ondas de choque se propagarão – fatalmente – por tempo indeterminado.
Na melhor das hipóteses, a temporada turística de 2020 ficará seriamente comprometida, pois o cancelamento de reservas começa a ser comum, sobretudo à medida que as unidades hoteleiras que fecharam na chamada ‘época baixa’ começam a reabrir portas.
E escrevo isto ciente de vários casos em que a retoma de atividade está sendo sinónimo da anulação de serviços previamente contratualizados.
Receio que estes dados se avolumem nas próximas semanas e que a época pascal, habitualmente encarada como o ponto de partida para a temporada turística, já reflita uma acentuada quebra de clientes… e receitas.

Ironia da História, ou talvez não, há exatamente cem anos o mundo estava a braços com a mãe de todas as pandemias, causada pelo vírus influenza e popularmente conhecida entre nós como Gripe Espanhola ou Pneumónica. O vírus mais mortal de que há memória ceifou mais de 50 milhões de vidas, numa época em que o conceito de viajar ainda era insípido.
Salvo as devidas proporções, há coincidências levadas da breca.

28-02-2020


Descentralizar ou lavar as mãos?

Teve lugar há dias uma reunião entre membros do Governo e os autarcas algarvios, para falarem sobre o processo da descentralização que se avizinha e que – tudo o indica – agora é que vai ser.

Trocaram-se ideias, fizeram-se balanços, traçaram-se cenários e colocaram-se na mesa as necessidades que os nossos representantes concelhios entendem deverão ser acauteladas para que a coisa avance mesmo e não faça mossas aos erários municipais, muitos deles parcos e que mal dão para pagar as despesas correntes.

A ideia que encorpa a medida até parece ser porreira e tal, isto é, o poder local passará a ter ferramentas para acudir no imediato, sem pedir licença prévia à capital, a questões prementes em áreas tão importantes para a nossa qualidade de vida como são a saúde ou a educação, as vias de comunicação ou o património devoluto.

A dúvida que me assalta é se este trabalho colaborativo e de proximidade entre o Estado Central e o Poder Local, agora iniciado, será um justo esgrimir de posições e um sensato leque de consensos, ou se não passará da mera passagem de batatas quentes de uns para os outros, numa cínica lavagem de mãos à moda de Pilatos.

São inquestionáveis os desafios colocados pelo processo descentralizador, tendo em vista a transferência de competências. Por isso mesmo, no final do encontro de trabalho os edis algarvios expressaram compreensíveis dúvidas, receando que o processo não venha a sobrecarregar os orçamentos de cada município, até porque existem diferentes possibilidades financeiras, diferentes dificuldades e diferentes velocidades na implantação do mesmo.

É que há muitas portarias para rever e corrigir e inúmeras medidas a tomar, no sentido de se agilizar essa bendita descentralização, criando as condições financeiras, operacionais, de recursos humanos e materiais que permitam - já no próximo ano - a assunção plena pelos Municípios de todas as novas competências que o Estado lhes pretende impingir.

31-01-2020


Míngua de Água

Depois das espalhafatosamente consumistas boas vindas ao Ano Novo, nas quais explodiram no ar milhões de euros em foguetórios e afins, eis que tudo volta à rotina de todos os dias, que neste bissexto 2020 serão 366. A vida regressa à “normalidade” para mais um período temporal de 12 meses, o qual só se deveria iniciar em março, caso o ser humano respeitasse o ciclo da Natureza, como era suposto.
Contudo – bem o sabemos – Homem e Ambiente andam de candeias às avessas, muito por culpa do primeiro, que usa e abusa do segundo a seu bel-prazer. Receio que até às últimas consequências.
Vem isto a propósito das perspetivas para a região algarvia ao longo do ano agora iniciado, que deverá agravar o estado de seca severa, caso as desoladoras previsões climatéricas para os próximos meses se confirmem.
Escassas reservas de água nas barragens, capacidade limitada de retenção de humidade em solos bastante fustigados pelos incêndios dos últimos anos, inexorável processo de desertificação, aquecimento global das temperaturas… Enfim, o cenário não se me afigura nada promissor, muito pelo contrário.
Entretanto, janeiro mal começou, o que me leva a acreditar que os ditos responsáveis pelas entidades ditas competentes estejam desde já a estudar planos de contingência, a salvaguardar eventuais constrangimentos, a garantir a qualidade de vida possível para residentes e visitantes.
...Sou um incorrigível otimista, eu…!

02-01-2020


Malfadada macrocefalia

Parece que a partir do próximo ano o Algarve – através do Porto de Cruzeiros de Portimão – deixará de se ligar por ferry ao Funchal, muito por força da malfadada macrocefalia, que tanto continuar a prejudicar este país no seu todo.

E se pensam que a carreira marítima entre a região e a pérola do Atlântico é coisa de somenos importância, atentem neste dado: nas viagens realizadas em 2018 foram contabilizados 10.424 passageiros e 2.300 veículos automóveis transportados.

Infelizmente, este raro exemplo de descentralização tem os dias contados, pois tudo indica que a partir de 2020 o armador espanhol Naviera Armas vai iniciar as suas operações a partir de Lisboa.

De resto, o porto da capital desta república irremediavelmente centralizadora já está a criar condições para açambarcar a carreira, que passa pelas Ilhas Canárias.

O Governo avaliou a sustentabilidade financeira da ligação, nomeadamente ao nível dos subsídios que a suportam, dando ouvidos às vozes insulares que têm manifestado preferência pela opção lisboeta, em detrimento de uma cidade algarvia – Portimão – cujos interesses, na verdade, sempre foram bastante desacompanhados neste processo.

Para piorar o cenário, deixaram-se cair os prazos para a intervenção na melhoria das condições de acessibilidade e infraestruturas marítimas do porto de cruzeiros portimonense, cujas obras deveriam arrancar este ano.

O que temos, então, perante nós? Nada mais que outro exemplo de investimento público anunciado para a região e que tarda em ser concretizado, não obstante o enorme potencial económico deste porto de cruzeiros, ancoradouro privilegiado de e para o Mediterrâneo.

O adiamento das obras e a perspetiva do desvio da rota Funchal-Continente para Lisboa, são tudo indicadores negativos, que não abonam a favor da sustentabilidade económica e social da região.

Pergunto eu: alguém por cá anda genuinamente preocupado com estes cenários? As sinergias locais unem forças e sintonizam baterias? Estão a ser dados passos para inverter a situação e fazer valer os argumentos de Portimão e do Algarve?

Tudo perguntas de retórica, pois o poder influenciador é praticamente nulo e lobby regional é coisa que o Algarve continua a não ter… e provavelmente nunca terá. Nesta ou em qualquer outra situação.

30-11-2019


Falência com estrondo
Fernando Vieira

A estrondosa falência do operador turístico britânico Thomas Cook, que há algumas semanas deixou meio mundo em estado de choque e a outra metade a fazer contas de sumir, nomeadamente algumas empresas do setor na região algarvia, fez-me recordar como esta indústria – de uma enorme importância para as economias regional e nacional – é tão instável e precária.

A bancarrota de uma entidade com 178 anos de atividade implica dívidas de valor muito elevado a algumas dezenas de credores, o que representa um impacto assinalável – principalmente – nas empresas de pequena e média dimensão.

Não quero dissecar o infeliz encerramento de portas de um autêntico monstro como era a Thomas Cook, detentora de mais de cem aviões e 200 hotéis. Escuso-me dissertar sobre o que aconteceu e o que era para ter acontecido, se houve ou não houve boa gestão de ativos e passivos.

O que me traz aqui é outra vertente da questão, que considero bem mais preocupante, pois muito provavelmente afetará a vida dos milhares e milhares que trabalham no e para o setor turístico.

Já não bastava o fenómeno da sazonalidade, que deixa a região de portas semifechadas de outubro a março, surge agora este gravíssimo rombo na contabilidade de algumas das maiores empresas do ramo, o que certamente terá repercussões na sua balança de pagamentos, nos seus projetos de negócio e, portanto, na sua capacidade empregadora.

Há anos e anos que leio e ouço ajuizados pensadores, teóricos da economia, sociólogos bem documentados e demais estudiosos alertando para este problema, pois hoje em dia a nossa bela região está a ser toda espremida, turisticamente falando, e nenhuma outra atividade industrial ou produto financeiro se afigura como alternativo. Acresce ainda o facto de o Algarve não ter qualquer peso político, apesar deste ser o primeiro destino turístico do país, representar 40 por das dormidas registadas em Portugal, e ter um contributo económico fortíssimo para os cofres do país.

Creio que a única forma de se combater a famigerada sazonalidade é atrair a fatia de mercado mais disponível para fazer férias “fora de horas”, que prefere pausas longas e que tem mais rendimento disponível para gastar: os chamados ‘seniores’.

Que quem de direito se debruce sobre esta dica, pois não paga mais por isso.  


Invasão brasuca
Fernando Vieira

É provável que tenham reparado no vosso dia-a-dia o aumento do Português com sotaque brasileiro, sobretudo nas filas dos supermercados.

Na verdade, há um forte surto de brasileiros, que na sua esmagadora maioria aqui procuram melhor qualidade de vida, nomeadamente em termos de segurança, saúde e educação.

Este fenómeno não é novo, pois há cerca de 20 anos o Algarve recebeu milhares de brasileiros, que por cá foram ficando até à eclosão da crise económica e social de 2008.

Mas esta onda de migrantes é claramente diferenciada da primeira, a qual estava nitidamente impreparada, e é estimulada por políticas governamentais, cuja lógica se prende com o envelhecimento da população portuguesa e a necessidade de sangue novo na sociedade local.

Os brasileiros de hoje estão, em grande medida, melhor preparados. Fizeram um planeamento tão aprofundado quanto possível, organizaram um pé-de-meia razoável para enfrentar os primeiros meses de procura de residência e trabalho e têm uma noção mais aproximada do que os espera.

No entanto, e por aquilo que vou percebendo em conversas com esses emigrantes, desconhecem praticamente a nossa cultura e julgam encontrar cá, apenas e só, um Brasil melhorado.

É que o brasileiro continua a ter dos portugueses uma imagem tacanha, resultado de décadas de anedotas de gosto duvidoso e totalmente descontextualizadas da realidade. Muitos acreditam que as portuguesas têm buços descomunais e que os portugueses são todos padeiros carrancudos. No imaginário do Brasil, o português diz a cada instante “Ora pois!”, por tudo e por nada.

Além disso, têm uma inesperada dificuldade em entender o genuíno português,… que eles alteraram, talvez com demasiada criatividade, no último século.

São anos e anos de costas ostensivamente voltadas para o país colonizador, desprezado em favor das grandes nações do momento, seja os Estados Unidos, seja a Inglaterra, a França ou até mesmo a Espanha.

Cá chegados, é a surpresa total, o deslumbramento indisfarçado: afinal o decrépito Portugal é um país moderno e muito organizado, os transportes públicos funcionam, as escolas estão bem apetrechadas, o Serviço Nacional de Saúde é um mimo, o país é lindo e, pasme-se, os portugueses são extremamente bem-educados e atenciosos. A segurança pública é das melhores do mundo, podendo o brasileiro andar à vontade com o seu celular a qualquer hora do dia ou da noite e fazer transações monetárias nas caixas multibanco a céu aberto, sem nenhum risco de assalto.

Mas, qual será o futuro imediato desta onda brasuca que nos escolheu para refazer as suas vidas, logo numa altura do ano em que a principal indústria empregadora, o turismo, tem uma elevada percentagem de empreendimentos fechados?

Haverá alojamentos, a preços justos, para tanta gente? E empregos?
Como serão os próximos meses desta gente, em muitos casos famílias com crianças de tenra idade?


Maré de E.coli
Fernando Vieira

Há dias, foi destaque noticioso de nível nacional a interdição de banhos na Praia do Alemão, ou mais corretamente na Praia do Barranco das Canas, no concelho de Portimão, devido à elevada presença da bactéria E.coli na água do mar.

A bactéria deu positivo na análise de uma amostra recolhida pela Agência Portuguesa do Ambiente, o que levou ao hastear da bandeira vermelha durante dois dias, salvaguardando-se assim o risco de os banhistas serem afetados por sintomas deveras constrangedores, como ataques incontroláveis de cólicas abdominais, enjoos e diarreias, muitas diarreias.

Dizem as más línguas que o problema se ficou a dever a uma descarga de dejetos sanitários no oceano, por obra e graça do proprietário de uma embarcação turística, vulgo iate, ancorada à vista da praia.

Em escassas semanas, este foi o segundo caso de presença da bactéria E.coli na costa algarvia, depois de uma situação idêntica verificada na Praia de Faro, e em ambos os casos a situação justificou grande alarido na comunicação social, que não perde uma oportunidade para falar do Algarve, geralmente pelos piores motivos, ignorando tantas e tantas vezes as coisas boas que acontecem nesta região.

Sei que há valores máximos permitidos por lei relativos à bactéria 'Escherichia coli', vulgarmente conhecida por E.coli.

Também sei que a legislação impõe uma contraordenação e coima entre os 55 e os 250 euros aos banhistas que desrespeitarem a sinalização e se fizerem ao mar, para além de arcarem com os sintomas inerentes à ingestão massiva de coliformes fecais.

Desconheço é o tipo de castigo aplicável ao eventual prevaricador que se terá estado positivamente a borrifar para as consequências do seu irrefletido acto, ficando o mesmo por identificar e punir, para efeitos pedagógicos e moralização do setor.

Ignoro igualmente se são sancionados os turistas da classe javardo que conspurcam as praias com todo o tipo de dejetos, desvalorizando assim os nossos areais, do mais fino e puro que possa existir no planeta Terra, mas que nesta altura do ano se transformam em campos minados por beatas, garrafas, latas, sacos e demais materiais não biodegradáveis, onde abunda o terrível microplástico.

Certo é que, mais uma vez, a região andou nas bocas do mundo e não pelos melhores motivos, mas simplesmente porque algum turista dos altos mares se terá marimbado para as mais elementares normas de respeito pela saúde pública e, como tal, cá vai disto ó Evaristo.

Esse mediatismo sensacionalista que tanto prejudica a imagem da região, sempre em busca de uma boa-má notícia, podia ter sido originado por mais de duas alforrecas a dar à costa simultaneamente e no mesmo local ou por uma natural invasão de algas à beira-mar, tratadas da forma mais alarmista possível…. Afinal, desta vez tudo não passou de uma questão de… biomassa borda fora.

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