Musique-se

Paulo Cunha

A importância dos pais no gosto musical dos filhos

A cada início de ano letivo, solicito aos meus alunos do segundo ciclo de escolaridade que me preencham uma ficha com informações relativas ao contacto com a música por parte do seu agregado familiar. São informações que me ajudarão a contextualizar, programar e envolver as famílias no percurso musical dos alunos, na escola e fora dela.

Invariavelmente, os gostos musicais dos petizes refletem as tendências musicais veiculadas pelos vários canais de divulgação musical colocados ao seu dispor. Mas nem sempre assim é. Por vezes sou surpreendido por gostos peculiares e diferenciados por parte dalguns alunos. São preferências por géneros e grupos musicais que refletem a influência da audição ativa, conjunta e participada por parte do agregado familiar. Para aferir tal constatação basta confrontar as respostas dadas nas fichas individuais de recolha de dados musicais.

É interessante verificar que, a par com os vários canais de divulgação digital, a influência familiar continua a ser um dos fatores preponderantes na formação do gosto musical dos jovens. Desengane-se quem espera que sejam apenas os professores de Educação Musical, em duas únicas horas semanais e apenas a partir dos dez anos, que moldarão e/ou apurarão o sentido estético e qualitativo dos futuros produtores e consumidores de música.

Estando as tendências musicais mais populares condicionadas e manietadas pelas editoras multinacionais, é caso para dizer: “Diz-me o que ouves, que eu direi como cantarei!”. Aliás, é assim que todos os anos procedo, tentando inteirar-me e conhecer quais são os cantores e grupos que os jovens ouvem e partilham - até à exaustão - entre si. Da mesma forma que lhes transmito conhecimentos baseados e assentes na música de ontem, tenho que me manter atualizado para poder perceber e falar de música, usando os códigos e termos de hoje.

Não é, pois, de estranhar que muitos músicos, à medida que envelhecem, tentem, tal como fazem consigo, remoçar a sua música para assim continuar a agradar às novas gerações. Mas será essa a melhor estratégia de carreira? Penso que não. Da mesma forma que os músicos envelhecem, envelhecem com eles os seus apreciadores e fãs. O segredo é tornar a música intemporal, dando-a a conhecer, entender e apreciar aos filhos de uma geração que cresceu com determinados músicos que marcaram um período temporal da sua vida.

Sou defensor que o nosso tempo é o tempo em que vivemos, daí achar que a música tem o tempo da altura em que é devidamente ouvida, entendida e apreciada. Por isso, apelo constantemente, de várias formas, para que os pais interajam musicalmente com os seus filhos. Apesar de nem sempre ser bem entendido, continuo a marcar trabalhos de casa onde o agregado familiar é chamado a participar ativamente, cantando ou interpretando com os meus jovens alunos.

Nem imaginam a quantidade de alunos que me dizem ter esperado cerca de dez anos para conhecer os dotes musicais dos pais, conjuntamente com os seus gostos musicais. É também essa umas das tarefas dos professores de Educação Musical: aproximar as famílias através da música. Porque o ato de gostar também se aprende. Como? Educando!


Música autárquica

Não tendo tido, ainda, o privilégio e a felicidade de pisar as tábuas de um palco, e assim desfrutar da participação do público, aqui confesso que me tem dado um grande prazer constatar que alguns amigos músicos já regressaram, paulatinamente, à função que lhes garante o seu ganha-pão e muita da alegria de viver.

Viajando por Portugal, verifiquei que muitas autarquias, apesar de não ser a sua função, começaram a sair progressivamente das restrições e contingências a que as atividades musicais foram obrigadas, programando-as para esta época estival com o recurso à “prata da casa”. Sem olharem aos géneros musicais que apoiam, fizeram-no como garantia de subsistência e de continuidade do património cultural da sua região. Naturalmente, achei que tal atitude é digna de relevo. Daí, aqui mencioná-la, homenageá-la e parabenteá-la!

Mas o que dizer dos senhores programadores/decisores de determinadas autarquias que, apesar da míngua a que os “seus” se viram obrigados durante quase dois anos de continuada pandemia, logo que puderam começar a dar música aos seus concidadãos, recorreram imediatamente às receitas antigas em termos de programação rápida, eficaz e a gosto? Obviamente, recorrendo ao que vem de fora e já foi legitimado com o selo de garantia das habituais playlists financiadas pelas editoras multinacionais, as lotações das salas, nas atuais condições de segurança, terão sempre o cartaz “Esgotado” nas bilheteiras!

Por andar nestas lidas há algumas décadas, naturalmente já tive e provoquei algumas “azias”. Nada que o passar dos anos não ajude a dissipar! Por isso, respondo sempre o mesmo quando alguém me questiona qual é a razão por que são sempre os mesmos a tocar em determinadas regiões e eventos. Naturalmente, que colocando a qualidade dos músicos de parte, as razões são óbvias para quem tenha “dois dedos de testa”, não precisando, por isso, de me alongar nas respostas.

Agora, que se aproximam as eleições autárquicas, entre os muitos fatores que poderão ponderar para votar numa lista e não noutra, que tal fazerem um flashback e recordarem o apoio que os autarcas e os candidatos que tiveram a liderar os destinos das localidades onde moram concederam aos músicos que, há anos, andam a colocar a vossa região no mapa cultural do país?!

Eu sei que este artigo de opinião tem um curto prazo de validade, mas não custa nada continuar a sonhar com uma gestão autárquica que dê um genuíno destaque e valorização ao que é da sua região. Por isso, quem sabe, daqui a quatro anos, republico-o neste ou noutro órgão de comunicação social!?

E ainda há quem pense que a pandemia mudou formas de estar, pensar e de agir... Eu não!


O regresso ao palco

Olho para algumas fotografias que vão passando no screen saver do meu computador e, por vezes, sou assaltado por uma mistura de saudade com nostalgia, tais as boas recordações que guardo dos ensaios e das atuações musicais que realizei ao longo da minha vida adulta. Sem ter sido por vontade própria, de um dia para o outro eu e muitos outros vimo-nos impedidos de realizar algo que nos proporciona um enorme prazer: tocar com pessoas e para pessoas.

Foi um ano e meio em que nos vimos privados de um dos maiores desideratos da música – a partilha. Naturalmente, só o tempo se encarregará de mostrar os estragos, de vária ordem, que um maldito vírus conseguiu operar na orgânica produtiva de várias estruturas musicais deste país. 

Numa altura de alguma retoma de uma certa normalização artística, os músicos que já tiveram o privilégio de – finalmente – pisar o almejado palco são unânimes em proferir que, apesar de terem tocado para plateias reduzidas, mascaradas e afastadas, experienciaram uma sensação ótima e entusiasmante. Acredito que seja um prazer redobrado, e todos esses sentimentos passam do proscénio para o público, que, obviamente, retribui. Por isso mesmo, esta é uma ótima altura para retomar as idas aos espetáculos musicais!

As saudades dos ensaios presenciais e do palco são gigantes. Os músicos estão ansiosos por voltar a sentir aquele frio miudinho, bem como as “borboletas no estômago”, antes de entrarem em palco, para então libertarem toda a criatividade e energia contidas. Para além da retribuição pecuniária, a catarse e a metamorfose que as palmas proporcionam e operam é indescritível. É preciso lá estar – no palco – para sentir!

Há quem aconselhe os músicos mais propensos aos nervos iniciais a não enfrentar diretamente o olhar do público, traçando um palmo acima da linha das cabeças e fixando nesse ponto o olhar. Efetivamente, funciona. Os elementos do público ficam assim com a sensação que os músicos estão a comungar das suas expressões, não estando. Mas depois das primeiras músicas, nada é melhor para quem pisa um palco do que compartilhar e responder às diversas expressões e manifestações que tem à sua frente. Olhos nos olhos, sem qualquer tipo de máscara. 

Agora que, fora de portas, o verão nos escancara as muitas e diversas entradas disponíveis para a apreciação e fruição da música viva e ao vivo, aqui vos deixo o apelo para que lutem contra um certo amorfismo que este vírus semeou. Saiam de casa e apoiem, ao vivo, os músicos que merecem, fizeram por merecer ou têm quem os mereça. A música sairá sempre a ganhar!


Palminhas, mãos ao ar!

Apesar de algum tipo de fado possuir músicas/letras consideradas tristes e melancólicas, os portugueses não escondem a sua miscigenação cultural quando a batida do bombo da bateria se mistura com o «groove» da guitarra baixo e, inconsciente e inevitavelmente, atraem e fazem soltar o percussionista amador que há escondido em si. Para tal, basta juntarem uma mão à outra e “afinarem” as palmas com o ritmo.

Seja através do trauteio das melodias/letras já memorizadas e/ou das palmas que marcam a pulsação da música, sentir e observar a participação do público é algo que todos os músicos almejam quando pisam um palco. Mas serão todos os géneros musicais atreitos a estas reações tão latinas?

Recordo-me que depois de cantar “Os putos”, Carlos do Carmo, acompanhado pela plateia com palmas, pediu que o público guardasse as mãos nos bolsos e deixasse as palmas apenas para o final das canções. Como bem o entendi: como poderia alguém que mascarava o ambiente musical com palmas, apreciar a beleza do poema de Ary do Santos e o esmerado acompanhamento dos excelentes músicos que acompanhavam o nosso fadista maior?

A atitude inapropriada, e por vezes incómoda, de interromper determinadas prestações e interpretações musicais com palmas, impede a maioria do público de apreciar e fruir todas as diversas nuances musicais (poéticas, melódicas, rítmicas, tímbricas, agógicas, de forma, de textura, de arranjo e interpretativas) que integram e constituem o elemento diferenciador duma música interpretada ao vivo.

Entendo que o poder, a atração e a ação da música sejam tão contagiantes que apeteça participar na sua execução, nem que seja com palmas. A esses “músicos de ocasião” aconselho que usem partes do corpo que não emitam um som muito audível, pois o que se faz de improviso, no calor do momento, não deverá colidir com o trabalho de um profissional.

Se existem músicas de caráter mais popular que, naturalmente, impelem à participação do público, outras há em que o silêncio é de ouro, tal a concentração e introspeção interpretativa necessárias. Os músicos sabem-no e por isso, em conformidade, tocam para o público ou tocam com o público. Afinal de contas, o que realmente interessa é tocar o público!
Tomando como referência a famosa frase com que o mandador no Baile de Roda Mandado nos brinda no final, deixemos as palmas para quem delas faz o uso adequado: “Tudo certo, devagar. Palminhas, mãos ao ar até ao baile acabar. Palminhas, acabou e o baile de roda terminou.”


Colher a música que se semeou

À medida que me aproximo das quatro décadas a (tentar) semear música a sul, continuo a ficar desiludido com o que observo e com o que muitos alunos me dizem ser o seu conhecimento da música produzida na região onde vivem com os seus pais. Ao contrário do tempo em que tinha a sua idade, é hoje possível, no Algarve, ter uma oferta diversificada no que concerne aos vários géneros e tendências musicais. Mas se assim é, porque é que continuo a ter uma média de 75% de alunos dos segundo e terceiro ciclos de escolaridade a responder-me que nunca assistiram, a título de exemplo, a um concerto ao vivo de uma orquestra ou de uma banda de jazz?

É claro que de pouco serve oferecer música sem antes estimular os sentidos do potencial consumidor/apreciador para a devida fruição. Para que tal aconteça é, obviamente, necessário plantar - de forma continuada - o gosto pelas várias formas de nos expressarmos através de uma língua/linguagem comum – a Música. 

Sabendo que é desde os últimos meses de gestação da mãe que se inicia o percurso de estímulo para o pleno e abrangente gosto pela música, foi o meu desiderato, há 20 anos, criar uma produção destinada aos pais e bebés até aos 24 meses. Batizei-a de “Música de Pais para Filhos” e, para lhe dar corpo, chamei os mais habilitados pais/músicos algarvios que, tal como eu, acreditavam nos objetivos da mesma. 

Foi assim que no dia 17 de novembro de 2001, na Biblioteca Municipal de Faro, iniciámos um percurso que, volvidas duas décadas, fruto do desinteresse da maioria das autarquias algarvias e por contingências várias, terminou. Pretendíamos estimular os sentidos; promover a audição passiva e ativa; ensinar a distinguir morfologicamente os instrumentos; promover o conhecimento e identificação dos timbres dos instrumentos; estimular a interação e aproximação entre pais e filhos;  exercitar a memória tímbrica, melódica e rítmica; promover a audição, a seleção e a apreciação; potenciar o desenvolvimento das várias competências cognitivo/artísticas; estimular a aprendizagem da música enquanto língua, paralelamente à da fala. 

Quase a celebrar 20 anos, seria interessante a entidade produtora (Associação Cultural Música XXI) juntar os progenitores e os então bebés (felizmente registados numa reportagem da RTP) para partilharem as suas opiniões sobre de que forma as suas participações nas várias sessões da produção “Música de Pais para Filhos” influiu na sua atual relação com a música.

Conhecendo alguns desses então bebés, tenho como corolário e satisfação ver um deles a ensinar, hoje, piano à minha filha.  Efetivamente, somos o resultado daquilo que semeamos!


Música “very typical”

Haverá maior colonização de um povo do que a que é promovida pela apropriação, assimilação e disseminação de culturas alheias em detrimento da nossa?

Atente-se no exemplo que dou quando explico (em tom de graça) o baile mandado algarvio aos meus alunos: “Sabiam que o R.A.P. foi inventado no Algarve há mais de um século? Pois... Nos anos 60, um americano que cá estava a passar férias gostou tanto do baile mandado que levou a ideia para os E.U.A.  Como é um país enorme, o conceito de preencher a harmonia da música com o ritmo das palavras ditas, em menos de nada, transformou-se em Rhyme And Poetry e assim conquistou o mundo. Vejam lá!?” E não é que a partir desta (inocente) mentira, eles começam a olhar para o folclore algarvio doutra forma?! 

É claro que é triste ter de ir buscar exemplos ao estrangeiro para que os portugueses conheçam o seu património e assim o legitimem e valorizem. Não sendo nada a que já não estejamos habituados, na cultura e noutras áreas, confrange observar o desinteresse a que algumas franjas da cultura musical portuguesa são votadas, relegando-as a um esquecimento e abandono imerecidos. 

Não sendo contra a globalização cultural, antes pelo contrário, reconheço que é no poderio económico que, em grande parte, reside o segredo para colonizar musicalmente um povo. Cada vez mais, os media, as plataformas digitais de comunicação e as redes sociais têm vindo a ter um papel preponderante na entrada das “músicas de sempre” nas nossas casas. 

É inegável considerar que com a disseminação da oferta musical proporcionada pelas novas tecnologias aumenta o conhecimento de outras culturas, o que é enriquecedor, mas de que interessa se, por falta de interesse e de investimento no ensino e na divulgação do nosso património identitário, os mais novos não conhecem o que é genuinamente seu? 

Não deixa de ser paradigmático o que os turistas estrangeiros referem sobre a nossa música, classificando-a como muito rica, bela e “very typical”, quando, ao mesmo tempo, a mesma é tratada com desdém e indiferença por quem tem o dever de a promover e divulgar, dentro e fora de portas.   

Não, não é necessário mascarar nem travestir a música das nossas regiões, transformando-a naquilo que não é para assim chegar mais longe e a mais gente. Deem-lhe apenas a importância que lhe é devida e verão as marcas que a nossa história deixou no nosso património musical. Basta descobri-lo!


1% de inspiração, 99% de transpiração

Quando o editor desta revista (Francisco Gil) me desafiou para aqui escrever, prontamente lhe respondi que sim, dizendo-lhe que retomaria os artigos que há 30 anos escrevi para o jornal O Meridional. Tal como esta, a coluna chamava-se Musique-se.

Impresso em papel de jornal, no dia 24 de maio de 1990 foi publicado este artigo. Três décadas depois, parece-me – infelizmente – atual. Fruto da evolução tecnológica, a publicação 1% de inspiração, 99% de transpiração irá assim chegar a todos vós.

“Um destes dias encontrei um amigo meu que está a frequentar o Curso Superior de Piano e que eu não via há algum tempo. Depois das trivialidades costumeiras nestas situações, começámos então a falar daquilo que me deixou boquiaberto e, de certa forma, apreensivo:
– Estive há uma semana com uma antiga colega de Liceu que já não via há anos e que me disse estar a finalizar o seu curso de Direito. Depois de lhe dizer também o que estava a fazer, exclamou ela com uma certa ironia: Só???... Mas além de tocares piano, o que é que estudas afinal?...

Alguém disse que é preciso ver para crer. Talvez, ou... talvez não! Talvez seja, mas é preciso crer para ver. E é fazendo fé na minha afirmação que vos vou tentar dar a conhecer um pouco do mundo que rodeia o estudante dum instrumento musical (pois a pensar como a ex-colega do meu amigo, sei haver muito boa gente).

Tentando complementar a frequência da escola primária com outra atividade de caráter mais lúdico/artístico, muitos pais tentam que os filhos frequentem aulas instrumentais, seja em Conservatórios ou em Escolas de Música paralelas. Começa então o fabrico do chamado músico clássico. Teve a sorte de ter pais que o incentivassem para o gosto da Música; teve um bom professor de Iniciação Musical; começou, pouco a pouco, a descobrir os segredos deste mundo, afinal tão acessível, que é a Música. Enfim, não podia agora que ia para o ensino preparatório e seguidamente para o secundário parar e desistir de algo que tanto prazer lhe dava. Ora como o ensino oficial, a nível de escolaridade obrigatória, não garantia um ensino específico e continuado na via opcional da Música, lá tiveram os pais, se calhar com algum sacrifício, que custear a continuidade do filho num curso paralelo. Com algumas horas de estudo diárias retiradas das horas de lazer que sobravam dos afazeres normais de qualquer estudante e vendo os seus colegas gozando os prazeres da vida “numa boa”, só, frente a frente ao seu instrumento, decide ainda com mais perseverança e amor pela arte que abraçou, continuar. Os “prazeres” dos colegas dissipavam-se com a rapidez duma nuvem passageira enquanto o seu aumentava gradualmente e... era para ficar! Acabou o 12.º ano de escolaridade e para trás tinham ficado muitas horas e dias de “namoro” com o seu instrumento, mas, finalmente, o Curso Geral do Instrumento estava já concluído.

Arrependido? Não! Muito pelo contrário, de tal forma que a escolha estava feita: ia frequentar o Curso Superior do Instrumento. Continuando a pagar do seu bolso (ou dos pais), agora com médias de estudo de 6 a 8 horas diárias, sempre solitárias, conseguiu, finalmente, chegar ao dia do exame final. Só em peças, estudos e exercícios a sua prova contabilizava uma hora de execução. Uma hora que pareceu uma eternidade, frente a um júri que pontuava a técnica, a musicalidade, o conhecimento específico do “toque” próprio de cada compositor, a memorização total e absoluta das obras tocadas, a forma de tratar o instrumento. Enfim, depois de muita transpiração e daquele nervoso miudinho (por vezes miudão) próprio de quem pisa o palco, chegou-lhe, finalmente, a imensa satisfação de se saber instrumentista diplomado superiormente e que todo o trabalho empreendido em jovem será por toda a vida reconhecido através de algo vital e de extrema importância para qualquer artista: as palmas.

As minhas palmas também. Reconhecidamente!"


Convites à medida

Institucionalizou-se divulgar eventos culturais (pagos), convívios sociais (pagos), aniversários (pagos) e jantares (pagos) através de convite. Cedo, fui ensinado que quem convida quer proporcionar o prazer da sua presença e, usufruindo da nossa companhia, tudo faz e providencia para oferecer e partilhar; se não, não convida!

Tome-se como exemplo a quantidade de concertos, representações, atuações e performances para que somos convidados, através das redes sociais, e que afinal de contas são convites para comprar um bilhete.

Sempre tomei como princípio convidar quem quero e quem posso, não vulgarizando e fazendo confundir a palavra CONVITE com promoção e angariação de fundos. Assim sendo, poupem-me para certos “convites” ... porque se eu quiser ir, irei pelo meu pé!

Durante dez anos presidi à direção duma instituição cultural que, quando podia, convidava os seus associados e demais interessados para as suas atividades. Nunca nos “passou pela cabeça” solicitar aos convidados que pagassem ingresso, pois se os convidávamos era porque já tínhamos os custos da produção assegurados.

Hoje, já só na qualidade de “mero” apreciador e divulgador de cultura, recebo imensos convites de várias instituições para me deslocar aos seus eventos pagos. Deixo aqui um “mero” conselho a essas instituições e organismos: substituam a palavra Convido por Divulgo.

Tal como não devemos oferecer seja o que for com o intuito de receber o equivalente ou mais em troca, também não devemos convidar com o intento de extorquir o convidado. Felizmente, em boa altura, aprendi que tais propósitos não são muito cristãos.

Qualquer segunda (ou terceira) intenção deita imediatamente a perder o prazer de ser convidado. É, por isso (no séc. XXI), um privilégio ser convidado - apenas - pelo gozo da nossa presença.

Tal como eu, muitas pessoas cresceram a dar o devido e correto valor à palavra CONVITE. E porque quando saio de casa, por convite, para um conCerto, fico desiludido quando, à entrada, me deparo com um conSerto.


Males que vêm por bem

Habituados a chegar ao seu público através dos canais normalizados para o efeito, os músicos veem a atual pandemia a privá-los, quase há um ano, da sua única fonte de rendimento. Sabendo que é para o público e do público que vivem, estes profissionais sem salário fixo nem garantido no final do mês, num ápice e inesperadamente, viram as suas principais fontes de rendimento (concertos e, nalguns casos, a venda de discos) diminuir drasticamente, ou até cessar, fruto das medidas tomadas nos sucessivos estados de emergência, colocadas em prática como forma de minorar as cadeias de disseminação viral.

Usando grande parte do seu tempo para praticar, compor e ensaiar, é nos concertos ao vivo que os músicos se habituaram a contactar com o seu público, trocando a sua arte pelas palmas e pelo merecido cachet. Uma troca justa, onde músicos e público se acostumaram assim a comungar entre si. Mas como continuar a fazê-lo, tendo estes artesãos dos sons e dos silêncios de estar confinados e, como tal, impedidos de socializarem com o seu público?

Tal como outros artistas de outras áreas, muitos músicos arregaçaram as mangas e à sua arte juntaram o engenho necessário para colmatar a falta do precioso contacto com o seu público. E em boa hora o fizeram! Aproveitando as janelas abertas para o mundo real que a internet proporciona através das múltiplas plataformas de comunicação digital, os nossos músicos de eleição dispuseram-se a entrar-nos em casa para, no sentido literal do termo, dar-nos música.

Basta abrir qualquer rede social e é hoje possível dispor de imensa oferta de formação com compositores, letristas e músicos que, mesmo noutros continentes, à distância de um simples clique estão disponíveis para, através do écran do nosso computador, entrarem-nos em casa e tratarem-nos por tu e vice-versa. Algo impensável há um ano, quando, com agendas repletas de trabalho, jamais teriam disponibilidade para partilhar os seus ensinamentos com outros músicos.

E o que dizer da possibilidade de, no aconchego do lar e em família, termos o privilégio de entrar na casa ou estúdio dos nossos ídolos e podermos desfrutar de concertos informais, onde, via live streaming, trocamos o prazer que nos proporcionam pela justa remuneração do seu trabalho, podendo, ao mesmo tempo, com eles confraternizar e mostrar-lhes o quão importantes são para nós?!

Fruto de um mal maior, surge assim um novo paradigma relacional entre o músico e o público, com benefício para ambos. Acredito que depois da pandemia vingará um modelo híbrido de concertos: ao vivo e através das várias plataformas digitais para quem não pode deslocar-se aos concertos ou queira revê-los mais tarde. E se assim for, permitindo aos músicos e aos seus fãs um mútuo ganho, bem-vindos ao futuro!


Aplausos para vós, músicos!

É comum escutar os músicos referirem que, apesar de ser bastante compensador, reconfortante e gratificante, não são as palmas que recebem entre músicas e nos finais dos seus concertos que lhes pagam as contas. 

Vulgarizou-se, ao longo da história, a ideia que a música, por ser uma disciplina artística com grande potencialidade de intervenção, participação e disseminação, se encontra ao alcance de todos e, por assim ser, todos têm em si um pouco de músico. Talvez por isso se vulgarizou a depreciação e a desvalorização dos músicos enquanto profissionais.   

Vítimas de uma pandemia que lhes roubou o palco e, por consequência, o público que lhes alimentava a alma e o corpo, mais uma vez os músicos do meu país têm vindo a constatar que integram o nível mais baixo da cadeia alimentar social. Só assim se contextualiza o habitual desinteresse manifestado pelos vários tipos de poder instituído em relação aos obreiros da música.  

Todos o sabemos, mas insistimos em não o valorizar: não sendo prioritários para a economia e para as finanças, os músicos são vitais e imprescindíveis para os nosso bem-estar mental e emocional! 

"Tudo o que não nos destrói, torna-nos mais fortes!", bem pode ser o lema de todos os músicos que, estoica, empenhada e nobremente atravessaram 2020, lutando pela sua sobrevivência e, ao mesmo tempo, pela nossa felicidade.   

Já em 2021, é caso para dizer e desejar: “Tudo vai ficar bem!”, principalmente para todos os profissionais da música que nunca tiveram a sorte de integrar o núcleo restrito de músicos que nos habituámos a tratar pelo nome, tal o destaque que mereceram e tiveram nos vários órgãos de comunicação do país. 

Os músicos, já nas “lonas” por não terem conseguido amealhar o tal “pé de meia” de que muitos falam, não precisam de conselhos e palavras de circunstância. Mais do que as merecidas palmas, que tanto ânimo lhes dão, necessitam de palco pago. O palco que lhes afaga o ego, mas sobretudo lhes coloca a comida na mesa. Assim sendo: “Música aos músicos em 2021!”


Música para o Natal, no Natal ou de Natal?

Como qualquer um de vós, tenho discos com música com letras alusivas à época natalícia. Um destes dias, no verão, apeteceu-me ouvir alguns desses discos, não tanto pela temática, mas pela boa música que os compõem. Imaginam, por certo, a surpresa que causei aqui em casa, por ouvir a citada música fora de tempo. Já para não falar nas “negas” que tenho levado por parte das coralistas do Coral Feminino Outras Vozes quando lhes proponho cantar músicas de Natal nos concertos realizados durante os outros meses, que não o de dezembro. 

Habituámo-nos aos rótulos que as datas simbólicas nos impuseram e, à sua custa, menorizamos e restringimos (no tempo e no espaço) a atenção merecida para músicas que nos deviam merecer interesse e reconhecimento. Como se já não bastasse o aproveitamento - oportunista - que as editoras discográficas fazem desses clássicos musicais, que todos anos têm de ser reinventados e remoçados pelos novos intérpretes que, à sua boleia, acrescentam nas suas discografias os famigerados sucessos de Natal. 

Será que, a exemplo de tantas outras músicas, estrategicamente arrumadas em estantes cronológicas e simbólicas, a música de Natal terá também técnicas de composição definidas para a prossecução dos objetivos (sejam eles quais forem) dos seus compositores? Como em tudo na vida, acredito que haja teóricos que se debrucem no estudo do percurso criativo que os compositores dos clássicos natalícios percorreram, para assim descobrirem a fórmula certeira e ganhadora. Imaginem o que seria um sucesso musical natalício - um autêntico “Euromilhões”!  

Servirá o Natal a música ou será a música, como tantos outros, um acessório de Natal? Sabendo que ambos se complementam, penso que ambas as opções se validam! Sendo a música uma entidade una e autossuficiente, fornece matéria prima a quem a ela recorre para os mais diversos propósitos e objetivos. 

É óbvio que o Natal sem música ficaria muito mais pobre, mas isso já todos nós sabemos. Aliás, o que seria da nossa vida sem a companhia e o apoio da música? Fará então sentido apelidar de música de Natal os sons que já vamos ouvindo nas ruas e nos estabelecimentos comerciais onde entramos? Penso que todos os músicos que musicaram letras imbuídas de espírito natalício o fizeram, sem pretensiosismos, com o propósito de servir a música. Música composta para o Natal, ouvida no Natal e que o tempo transformou em Música de Natal.

E como o Natal é quando um homem quiser, então também a sua música o é. Assim sendo, oiçamo-la todo o ano. E, já agora: Feliz Natal (todo o ano)!


Instrumentos para todas as idades, gostos e feitios

As questões que os pais dos candidatos a aprendizes de música mais me colocaram, ao longo da minha atividade profissional, foram: qual a melhor idade para começar a aprender música e qual o melhor instrumento para o fazer? Talvez, também, por isso eu tenha abraçado a produção de iniciativas musicais destinadas a pais e a filhos de tenra idade, como forma de, através da observação direta, experimentação e prática, lhes responder às naturais e previsíveis dúvidas e perguntas. 

Na qualidade de professor e de eterno aprendiz, sempre assumi e defendi que na música não há receitas e fórmulas únicas e irrefutáveis, sob pena da mesma perder a sua principal função enquanto vertente artística: a de provocar todo o tipo de emoções e sensações a quem a executa e a quem dela frui.  Entenderão, por isso, a reserva que coloco ao responder a questões que poderão influenciar e condicionar a escolha individual dos possíveis aspirantes a músicos.  

Estas questões que aqui abordo são mais complexas do que aparentam, uma vez que poderão definir o percurso profissional e artístico de muitos jovens. No seu adequado aconselhamento poderá residir a conquista dos seus sonhos, daí que muitos encarregados de educação ponderem a importância da sua orientação vocacional.  

Como noutras situações da vida, convém tentar simplificar o que nem sempre o é. Entre tantos instrumentos musicais que nos são dados a desfrutar presencialmente e através dos vários meios de comunicação tecnológica ao dispor, qual deles então eleger como o “nosso” instrumento? No meio de tantas variáveis e condicionantes (famílias instrumentais  - cordofones, aerofones, idiofones, membranofones e eletrofones -, dimensão, peso, intensidade sonora, custo, técnica de execução, local de ensino, professores habilitados, etc.), costumo dizer que não somos nós que escolhemos o instrumento, é o instrumento que nos escolhe!  

Em relação à idade para começar a aprender a tocar um instrumento, tomando como certa a premissa que antes de nascer os bebés já se familiarizam com a música que os pais escutam, é natural que o contacto com os sons e os silêncios da música que ouvem no seu lar seja a maior fonte de aprendizagem. Haja disponibilidade, interesse e interação por parte dos seus progenitores e o dia a dia das famílias mostrará que, através de jogos de exploração e experimentação musical, a percussão e a voz serão os primeiros veículos para a produção musical.  

Não querendo dar receitas, nem estipular idades certas para iniciar a aprendizagem de um instrumento convencional (seja ele qual for), aconselho que antes de iniciar o processo de seleção, os responsáveis pela educação dos candidatos escolham, fundamentalmente, professores que conheçam, valorizem e adeqúem o seu ensino aos diversos estádios de desenvolvimento cognitivo dos alunos, às suas características intelectuais, artísticas e comportamentais e que recorram a métodos ativos, estimulando a exploração, a experimentação e a descoberta. Com o mestre certo, certa será a escolha!


Música, todos os dias

Com base num pedido feito pelo então Diretor-Geral da UNESCO, em 1949 foi criado o Internacional Music Council (IMC). O seu objetivo inicial era aconselhar a organização de tudo que se relacionasse com música. Atualmente, o seu maior objetivo é divulgar e promover o valor da música na vida das pessoas. O IMC debruça-se sobre a promoção do livre acesso à música por todos os cidadãos e sobre o valor que a música assume na vida de todos. Tem acesso a mais de 1000 organizações espalhadas por cerca de 150 países, envolvendo aproximadamente 200 milhões de pessoas que desenvolvem e partilham conhecimentos e experiências sobre música.

Sendo a música, desde sempre, uma das mais procuradas, respeitadas e adoradas vertentes artísticas, foi com naturalidade que, por vontade de Yehudi Menuhin, violinista e então presidente do Conselho Internacional de Música, em 1975 foi criado o Dia da Música. No entanto, foi apenas em 1980 que, devido ao forte impulso dado pela Sociedade Internacional de Educação Musical, foi declarado como Dia Mundial.

O Dia Mundial da Música presta homenagem à arte e à história musical existente em todo o mundo, independentemente do seu género. O principal objetivo deste dia não é apenas destacar os benefícios e a importância da música, mas, principalmente, promover a paz e a amizade das nações através da união gerada a partir da música. Sabe-se que a música é uma forma de arte universal que atravessa barreiras e que pode unir as populações com um mesmo propósito.

O Dia Mundial da Música é comemorado a 1 de outubro de cada ano. Apesar do seu título, em vários países este dia ainda regista algumas variações no seu nome e na data de comemoração. Neste dia é usual decorrerem vários concertos por todo o mundo, sendo muitos deles gratuitos. Costuma também ser o dia ideal para comprar discos e instrumentos musicais, uma vez que várias lojas apresentam descontos.

Em contexto escolar é recomendável: ouvir música gravada e, se possível, ao vivo; assistir a filmes evocativos da música e dos músicos; convidar agrupamentos musicais da área geográfica em que se encontra a escola dando assim a conhecer o trabalho desenvolvido pelos músicos locais; visitar as sedes de coletividades que se dediquem a esta área cultural; sugerir que na casa de cada um se perpetue a celebração, ouvindo música em família ou com outras atividades que se julguem pertinentes.

O Dia Mundial da Música é um dia de celebração que se alicerça em objetivos centrados na promoção da música em todos os setores da sociedade, na divulgação da diversidade musical e na aplicação dos ideais e fundamentos da UNESCO, como a paz e a amizade entre as pessoas, a evolução das culturas e a troca de experiências. Fazendo parte do quotidiano de milhões de pessoas, é vivenciada e usada de diversas formas, sendo, no entanto, muitas vezes abandonada e desprezada por governos e outras organizações. Por isso, faço votos para que a promoção e a divulgação da música por todos os setores da sociedade sejam uma realidade diária e não integrem apenas um dia evocativo. Se assim for, por certo, a paz, a amizade e a evolução das culturas encontrarão, na música, um forte aliado. Assim o espero! 


O vírus na Educação Musical

Com o novo ano letivo à porta e ainda sem uma solução à vista que evite os nefastos e maléficos efeitos provocados pelo novo coronavírus, resta aos principais intervenientes na ação educativa cumprirem as várias medidas de etiqueta respiratória convencionadas, a devida higienização das mãos e o necessário afastamento social.  

Segundo a Organização Mundial da Saúde, as evidências científicas sugerem que várias vias podem levar ao contágio, mas que a principal via de transmissão é o contacto direto entre pessoas. A infeção transmite-se normalmente através de secreções da boca e do nariz, saliva ou gotículas projetadas quando uma pessoa fala, canta, sopra, espirra ou tosse. Daí a importância do distanciamento de, pelo menos, um metro entre as pessoas. 

Mas como deverão os professores das disciplinas eminentemente práticas proceder em contexto presencial de sala de aula? Qualquer técnico de educação ou encarregado de educação mais atento verificará que nas disciplinas de Educação Visual, Educação Tecnológica, Educação Musical e Educação Física existe grande contacto, manuseamento e troca de materiais por parte de professores e alunos. Então o que fazer para manter uma higiene frequente das mãos, bem como uma etiqueta respiratória eficaz? 

Com as aulas quase a começar aguardam-se as indicações preciosas (e milagrosas) da Direção Geral da Saúde e do Ministério da Educação para que essas disciplinas façam jus ao seu nome. Tomemos como exemplo a Educação Musical, uma disciplina onde grande parte dos alunos usa um tubo (flauta de bisel) no qual sopra para emitir som. Obviamente manda o bom senso que este ano letivo os professores não recomendem a sua utilização, pois para além do som são libertadas e projetadas muitas gotículas de saliva.  

Manda também o bom senso que os professores de Educação Musical não estafem os seus alunos, pedindo-lhes que cantem músicas longas, amordaçados por máscaras que não foram feitas a pensar na música. E o que dizer da execução instrumental com os instrumentos da sala de aula que, naturalmente, são partilhados ao longo do dia? Terão os alunos que ter, individualmente, o seu frasco de gel-desinfetante para passar grande parte da aula a “dar banho” ao instrumento que lhes coube em sorte? 

São questões que preocupam os professores de Educação Musical pois, tal como os seus colegas das outras disciplinas maioritariamente práticas, sabem que as suas aulas podem ser potenciadoras de contágios indesejados. Por isso, dei a quem de direito alguns conselhos da Associação Portuguesa de Educação Musical. Quem sabe, talvez ajudem a minorar a disseminação de um vírus que vai entrar nas escolas sem ser convidado! 

Assim sendo, também eu aconselho a: considerar o desdobramento das turmas na disciplina de Educação Musical; entrar no espaço de aula ou ensaio sempre com máscara; reorganizar a sala de aula de Educação Musical para ganhar espaço; ter sempre disponível material desinfetante; nunca partilhar instrumentos de sopro; manter portas e/ou janelas abertas; recorrer ao espaço exterior da escola e auditórios para atividades de movimento e trabalho de grupo; incluir na planificação das atividades musicais o recurso a plataformas, software e aplicações novas; adaptar instrumentos de avaliação prática assíncronos.

Saudável ano letivo!

 


Porquê a Música?

Seja com que idade for, a música tem o condão de exercer uma atração capaz de despoletar uma série de reações emocionais em quem com ela contacta. Qualquer pessoa que, de forma lúdica ou profissional, lide com música sabe que ninguém consegue ficar indiferente aos seus atraentes e inebriantes efeitos. Coloquemos uma fonte sonora ao dispor de quem se sinta atraído pela música e constataremos que, de forma natural e intuitiva, essa fonte será experimentada e explorada, tal o poder da música. 

Por mais difíceis que, em diversas circunstâncias, possam parecer as condições para produzir música, a vontade de a concretizar é sempre mais forte, conseguindo assim superá-las. A história da música assim o regista e a música na atualidade comprova-o.  Havendo vontade, persistência, empenho, dedicação e disciplina, surge música onde haja engenho e arte para a criar e interpretar. 

A par da Matemática e da Filosofia, antigamente, a Música era considerada como fundamental para a formação dos futuros cidadãos. Ao longo dos tempos, as cantigas de rodas, as lengalengas populares e outras músicas do folclore regional sempre exerceram uma função muito importante nas relações socioculturais e no desenvolvimento psicológico e corporal das crianças do mundo inteiro. A música pode, também, contribuir na aprendizagem doutras disciplinas, favorecendo o desenvolvimento de áreas correlacionadas (cognitiva, linguística, psicomotora e socioafetiva). 

Estando a música presente na vida e na cultura dos povos, potenciando transformações, determinando condutas e conceitos e servindo como forma de expressão da sensibilidade, da criatividade e dos valores éticos e estéticos, ensiná-la respeitosa e condignamente é uma obrigação! Parece-me, por isso, imperioso e fulcral ter, como veículo potenciador e catalisador, gente que queira e goste de ensinar música a quem esteja disponível para a aprender.   

“Querer é poder” é mais do que uma frase feita. Tendo-se baseado nesta premissa, todos os agentes educativos têm encontrado ao longo da história, para além de todas as diferenças sociais, económicas, étnicas, geográficas, políticas e religiosas, formas de superação e de união em torno de um objetivo comum: dignificar e valorizar a Música. 

Quando me questionam quais são os fatores mais importantes para o ensino e aprendizagem da música nas escolas, apetece-me responder apenas: “O querer!” A Escola acontece quando alguém aprende o que alguém tem para ensinar, independentemente do espaço físico onde tal ocorra. E não há melhor exemplo para o mostrar ao mundo do que a mais antiga e universal língua colocada à disposição de toda a humanidade – a Música. Haja quem a queira aprender e o céu será o limite! 


A pandemia na música coral

Como resultado da proibição de todas as manifestações coletivas, durante o primeiro surdo pandémico da Covid-19, também os grupos corais se ressentiram da paragem forçada dos ensaios presenciais. Por mais que tenham tentado manter a chama acesa (o prazer e o gosto pela atividade coral) através de reuniões síncronas por meios telemáticos, estes “ensaios” virtuais não conseguiram substituir a verdade coral dos ensaios presenciais.  

Ensaiar e cantar num coro pressupõe usar todos os sentidos, dando assim sentido a quem, como eu, defende que um coro canta o que vive. Formado por unidades tímbricas distintas, encontra o seu propósito quando, na sua perfeita junção e fusão, coloca os naipes vocais a soar como autênticas famílias instrumentais. Ora, tal propósito só se adquire através de ensaios presenciais, onde a vivência, a convivência e a empatia operam o efeito desejado. 

Como resultado de um desconfinamento progressivo (e ansiado), muitos coros deste país estão, neste momento, divididos no que deverão fazer e como agir. Ao contrário dos jogadores de futebol que são testados quanto ao seu estado de saúde antes de qualquer treino ou jogo, os vinte coralistas com permissão de se juntar no “estado de alerta” (que se antevê prolongado) não o farão. 

É compreensível que a vontade de cantar e conviver musicalmente em grupo é muita, que grande parte dos diretores corais queiram justificar os seus honorários e que, sem atuações corais, muitos coros amadores venham a perder uma das suas principais fontes de receita. Por isso, têm decorrido uma série de webinar (seminários realizados através da internet) com diretores corais, coralistas e elementos dos órgãos sociais de coros de Portugal e doutros países.  

Tomando como referência de debate e de discussão os pareceres de peritos em vários setores da saúde pública e diretores corais de outros países que desconfinaram mais cedo do que nós, cantar em grupo com o uso da máscara, de viseiras ou com grandes distâncias entre coralistas, mais uma vez não reúne o consenso da comunidade coral nacional. E para reforçar tais receios e alguma apreensão, vamos dando conta do contágio de coralistas nalguns coros que já começaram a ensaiar. 

Cantar, rir, tossir, espirrar ou tossir são atividades libertadoras de gotículas e aerossóis que propagam os vírus no ar. Um estudo publicado no New England Journal of Medicine, a meio de abril, estima que o tempo de vida infecioso de partículas aerossol do novo coronavírus no ar, em condições propícias, é de três horas. Por concentrar várias dezenas de pessoas no mesmo sítio, há especialistas que recomendam que os coros não deveriam ensaiar presencialmente na atual situação de pandemia.

Cantar de máscara colocada é difícil, cansativo e penoso. Cantar com uma viseira colocada desvirtua as qualidades sonoras que se exigem na interpretação coral, mascarando assim o resultado. Talvez, por isso, alguns coros tenham optado por cantar em ambiente exterior, com a distância devida de dois metros entre os seus membros. Mas, para além de ser pouco prático, quantos coros terão ao seu dispor as condições necessárias para ensaiar em locais exteriores não públicos?

Ao cantar, um coralista realiza respirações mais profundas e projeta a voz. Tendo na acústica um aliado necessário e nas cordas vocais o seu utensílio, é difícil que as pessoas estejam distanciadas umas das outras. Por isso, é-me difícil aconselhar seja quem for na decisão a tomar relativamente ao reatamento dos ensaios corais. Tal como noutras vertentes artísticas, primeiro deve-se preservar a saúde dos coralistas e das suas famílias para que, a seu tempo, possamos – todos – cantar a uma só voz!


O que é necessário para ser músico?

Em pleno séc. XXI, ainda é hoje difícil para muitos encarar a música como um modo de vida. Por muitas razões, a música é muitas vezes dissociada da esfera do trabalho, por ser entendida, para muitos, como uma atividade pouco lucrativa ou rentável. Tendo em conta que o nosso entendimento sobre o que é considerado profissão é relativo e limitado à construção social que fazemos das profissões e do trabalho, podemos perguntar-nos se as artes constituem, ainda, uma esfera distinta de outras, na qual nenhum dos princípios de funcionamento é comparável aos dos vulgares mundos de produção, ou se, pelo contrário, deve o trabalho artístico ser considerado também como uma profissão?  

Infelizmente, as condições em que os músicos trabalham são precárias: as oportunidades de trabalho escasseiam com o aumento da oferta; a instabilidade é constante; o acesso a uma posição de prestígio é longo e demorado; os salários são baixos, tendo em conta os gastos elevados (formação, atualização e manutenção); o esforço diário e o investimento pessoal são grandes.  

O que leva então os músicos a querer abraçar a carreira profissional? O constante desejo em ver reconhecida a sua atividade e a sua obra; a possibilidade de fazerem coisas diferentes com grande frequência e de fazerem aquilo de que mais gostam, permitido assim o acesso a um conjunto de outros benefícios (adrenalina, prazer, união, companheirismo, convivência, reconhecimento, prestígio, etc.); as recompensas que atuam ao nível da satisfação e do bem-estar psicológico e social. Em resumo, são os argumentos não monetários que permitem compensar a parca retribuição pecuniária.  

O mercado de trabalho musical é limitado em termos de oportunidades, oferecendo poucas possibilidades para o integrar. Nesse sentido, muitos veem-se obrigados a assumir diversas atividades, de forma a sobreviver e a combater as situações de maior fragilidade laboral. A maioria dos músicos assume ter mais do que uma atividade, seja dentro ou fora do ramo musical. A incerteza laboral é uma constante na atividade destes profissionais e são muitos os obstáculos e as dificuldades diárias. Mas, mesmo assim, para lá da exigência, da necessidade de adaptação, da instabilidade, do trabalho, do rigor e do estudo constante, continuam a almejar uma carreira profissional promissora e estável.  

Poderemos então considerar que é músico quem estudou música e vive unicamente da execução musical, tendo para isso que estar coletado, passar recibos, pagar impostos, ser sindicalizado e reconhecido pelos pares como tal? Se afirmarmos que sim, levantam-se então outras questões pertinentes: e aqueles que, não tendo aprendido música, através das suas capacidades inatas e prática musical, compõem, produzem e interpretam música? E aqueles que tendo outra profissão, tocando ocasionalmente, ombreiam e até superam qualitativamente alguns músicos profissionais? E aqueles que, não sendo remunerados, usam a música apenas para satisfação própria e de outrem? Imaginem-se a fazer estas perguntas relativamente a outras profissões. Pareceriam disparatadas, não é? Na arte não… felizmente! Da soma e na mistura de uma série de fatores, “fabricam-se” todos aqueles que, através dos sons e dos silêncios, nos tornam a vida mais bela: os Músicos.

Sendo uma classe pouco unida, muitos músicos, por múltiplas razões, olham-se de lado, reclamando o título de músico apenas para si. Serão os músicos profissionais, os poucos que conseguem (sobre)viver exclusivamente da música em Portugal, os únicos músicos do nosso país? Tal como noutros setores profissionais, também a desunião é o “calcanhar de Aquiles” na área musical. A grandiosidade e a força duma classe cimentam-se na luta contra os preconceitos e a desunião interna. Para que, de uma vez por todas, nos bons e nos maus momentos, todos os músicos ajam como profissionais, urge que pensem também como tal!


Música aos quadradinhos

Depois deste confinamento a que todos fomos sujeitos, vimo-nos obrigados a um distanciamento físico com os nossos colegas, conhecidos e amigos. Felizes os que conseguiram ter junto a si a família mais direta, pois, doutra forma, estariam condenados a um verdadeiro isolamento social. Mas o que dizer de quem só consegue colocar o pão em cima da mesa através do trabalho coletivo desenvolvido com outros profissionais do mesmo ramo? E são tantos! 

Por mais multi-instrumentista que um músico possa ser, só conseguirá mostrar a dimensão, profundidade, abrangência e qualidade da sua música se a conseguir harmonizar com a música produzida pelos pares que com ele labutam, em sincronia plena - ao vivo. Seja nos ensaios, nos testes de som ou nos concertos, a música executada em grupo só atingirá o resultado desejado quando, una e indivisível, chegar ao ouvinte, como um casamento perfeito entre os seus membros. 

Em total isolamento e afastamento presencial dos seus colegas de conjuntos, agrupamentos, bandas, coros e orquestras, muitos dos seus elementos têm tentado manter-se ativos no estudo, no aperfeiçoamento e na execução do seu instrumento. Mas como interagir com os seus camaradas de lida musical? A resposta encontra-se, obviamente, no uso das ferramentas telemáticas ao dispor.  

Com inúmeros programas de comunicação virtual ao dispor, muitos músicos começaram a usar a comunicação assíncrona (interação e comunicação temporalmente diferida) e a comunicação síncrona (interação em tempo real através da utilização de recursos tecnológicos síncronos). Trocando e partilhando ficheiros áudio e vídeo entre si e visionando, ensinando e aprendendo novas formas de executar e interpretar, muitos músicos, na falta de um palco para se mostrarem, começaram a fazer das redes sociais os seus palcos privilegiados.  

Não podendo tocar em conjunto, os músicos começaram a valer-se da técnica usada em quase todos os estúdios de gravação: tocar/cantar por cima de uma pista sonora já pré-gravada. Gravados em distintos aparelhos tecnológicos e em condições acústicas diferenciadas, limitam-se a enviar a sua prestação individual para alguém que, com os programas de edição caseira disponíveis, se substitui a um engenheiro de som/imagem e, numa tela segmentada em pequenos quadrados, encarregar-se-á de nos fazer crer que estamos a “ouver” os grupos que nos habituámos a apreciar ao vivo.

De repente, vemos músicos aprisionados em quadradinhos, interpretando a música que devia ser sentida, absorvida e partilhada por todos, no mesmo espaço, no mesmo tempo e com todos os sentidos alerta e em sintonia. Ao vivo, como se quer a música viva. Será que teremos de esperar o tempo necessário para ficarmos imunes, para nos livrar deste vírus telemático que nos prende em pequenas jaulas nos nossos/vossos écrans? Faço figas para que não. A bem da música!


Para grandes males grandes músicas

Devido a um malfadado vírus, fomos forçados a permanecer confinados em casa por tempo indeterminado. Ainda a “procissão vai no adro” e este isolamento físico já teve o condão de, através das redes sociais, abrir a casa/espaço de muitos à comunidade. Entre pseudo-dotes, almejados-dotes, declarados-dotes, assumidos-dotes e reconhecidos-dotes, muitos portugueses têm procurado ocupar os seus tempos livres (das habituais ocupações) produzindo, interpretando e partilhando música on-line ou nas varandas das suas casas.  

Além de servir como uma boa terapia ocupacional, a música tem servido também para combater o isolamento social, potenciando a interação familiar, tal como o entretenimento e a fruição de quem a consome. A música é uma parte importante da nossa identidade e o seu potencial simbólico reside no facto de poder ser usada para expressar e manter tanto as diferenças como as similaridades. 

A música é uma das formas de expressão da cultura popular que exerce uma importante função na construção de identidades na sociedade moderna. Conseguindo quebrar a barreira das diferenças culturais, possibilita novas práticas sociais. Independentemente das diversas categorias étnicas da sociedade, as pessoas formam identidades em torno de diferentes tipos de músicas. 

As evidências científicas ainda são ténues, mas alguns estudos têm mostrado que, além do bem-estar e do prazer que proporciona, ouvir música pode ter efeitos terapêuticos em diversas áreas, sobretudo ao nível do comportamento. Diferentes regiões do cérebro são responsáveis por interpretar diferentes propriedades da música, podendo assim explicar a sensação de “arrepio na espinha” que sentimos ao ouvir determinadas músicas.

Estimulando a libertação de dopamina (uma substância química que promove a motivação e o bem-estar), a música molda sentimentos e emoções, ajudando ainda a gerir sensações menos agradáveis, já que funciona como uma distração, desviando a atenção de eventuais fontes de stress e ansiedade. Ajuda também a reduzir a tensão muscular e diminui a libertação de hormonas associadas ao stress.

Procurando usá-la como mais necessitamos ou nos agrada, a música mostra-nos ser útil em diferentes momentos. Um dado que tem sido apontado como razão da música estar tão presente em distintas situações das nossas vidas é sabermos que grande parte das pessoas costuma gostar de ouvir entre oito a dez géneros de música. É quase como se tivéssemos um tipo de música para cada situação!

Vivendo um período conturbado das nossas vidas, em que um vírus nos roubou o prazer de produzir, tocar e desfrutar - presencialmente - com os outros, aqui apelo que façam também da música um escudo protetor para os males que vos possam afligir. Porque não há mal que sempre dure, ao contrário da música!


Música no 1.º ciclo de escolaridade?

Não poderia estar mais de acordo com a introdução ao documento “Aprendizagens essenciais/ Articulação com o perfil do aluno” que o Ministério da Educação, em julho de 2018, publicou como documento orientador para o ensino/aprendizagem da Música no 1.º ciclo de escolaridade: “(…) A música é uma prática social comunicativa e expressiva. A partir do ouvir e através da produção sonora em conjunto do cantar, do tocar, do compor, do olhar, do escutar, as crianças e jovens dialogam e constroem significados, partilhando-os e transformando-os, enriquecendo assim as suas práticas e horizontes culturais, em consonância com as diferentes Áreas de Competências do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PA). A música existe no conjunto, no fazer e partilhar com os outros, no dialogar, na pergunta-resposta, e em inúmeros pequenos rituais que fazem parte do nosso quotidiano coletivo. (…) Desta forma, propõe-se que, à medida que progridem, os alunos aprofundem a sua apreciação, compreensão e desempenho musicais, permitindo criar, recriar e ouvir através do desenvolvimento de competências de experimentação, de improvisação, de composição, de escuta, de reflexão, de movimento, de interpretação (no sentido de performance), contribuindo para a sua formação como sujeitos criadores e fruidores de Música”.

No campo teórico e das intenções, este texto faz todo o sentido. Os jovens aprendizes, até antes do primeiro ciclo de escolaridade, deverão tomar contacto com as grandes aprendizagens essenciais na área da música: experimentação e criação, interpretação e comunicação e apropriação e reflexão. Mas como implementar no terreno tais meritórias intenções?

Enquanto professor e formador, tenho vindo a constatar que nos últimos anos em que tem sido realizada a prova de aferição de Expressões Artísticas no 2.º ano de escolaridade, cada vez me chegam mais relatos de professores titulares das turmas, comprovando que não basta exarar documentos orientadores muito bem intencionados, quando quem os irá aplicar não está preparado nem estimulado para o fazer.

Por vários motivos que espelham a realidade de um país que não se encontra na situação económico/financeira dos países que inspiraram a produção do documento sobre o qual aqui escrevo, é hoje possível constatar que não basta querer, é preciso ter os meios para fazer acontecer. Com mais de metade dos professores do 1.º ciclo de escolaridade (extenuados e ansiosos) à beira da reforma, com a falta de formação contínua na área da Expressão Musical, sem o investimento em novos equipamentos e materiais de produção musical e sem o interesse das novas gerações em abraçar a profissão de professor, vejo com alguma reserva e desconfiança a colocação em prática de tão ambiciosas teorias.

Serão as famigeradas, a seu tempo, AEC (Atividades de Enriquecimento Curricular) e os atuais professores titulares das turmas do 1.º ciclo, que se desdobram pelas várias áreas curriculares, muitas vezes sem condições infraestruturais e materiais, que conseguirão implementar tal desiderato para a Educação Musical no 1.º ciclo de escolaridade? Por mais provas de aferição que todos os anos se realizem, não me parece ser possível aferir o que, por falta de real e eficaz investimento, se resume a meros processos de intenção. “Onde é que já vi este filme?”, é o que me apetece perguntar, após algumas décadas de ensino que já levo em cima.


Música tradicional – um património imaterial que urge apoiar

Há mais de trinta anos, quando ia ao Círculo Cultural do Algarve (Faro) assistir aos ensaios do grupo Dar de Vaia, estava longe de imaginar que, volvidos tantos anos, a representação da música tradicional portuguesa/algarvia no Algarve iria estar restringida a uma meia dúzia de grupos que, estoicamente, resistem ao abandono e desinteresse das entidades produtoras e promotoras musicais.

Entristece-me e confrange-me saber que muitos grupos que por cá (Algarve) existiam, e que ajudavam a preservar, a divulgar, a promover e a enriquecer a música tradicional portuguesa, foram obrigados a terminar ou a virar-se para outros géneros musicais, uma vez que, progressiva e acentuadamente, lhes foi faltando o apoio que lhes garantiria a motivação necessária para continuarem a despender o seu tempo, disponibilidade e algumas poupanças na nobre e meritória função de manter vivo o património imaterial musical português.

Não sendo a música de raiz, cariz e inspiração tradicional portuguesa uma música comparável à música que é tornada popular pelo destaque e promoção que são dados pelos órgãos de comunicação e pelas redes sociais, naturalmente não é solicitada para os eventos e iniciativas a que deveria estar também associada. Não é, de facto, uma música destinada a grandes animações, festas e ações de entretinimento, e por isso tem sido penalizada, ostracizada e esquecida.

Saúdo o investimento que algumas entidades públicas na área da cultura, da educação, do turismo e da administração local têm vindo a efetuar na reabilitação, promoção e divulgação de algum património edificado (material) do Algarve. É claro que gostaria que a mesma atenção, dedicação e investimento fossem também concedidos a quem mantém vivas as tradições musicais portuguesas (património imaterial).

Não gosto muito de ter que recorrer a comparações para que quem de direito e com responsabilidades reflita na importância das suas ações, mas quando determinadas inações têm consequências diretas na vida das pessoas, sinto-me na obrigação de, publicamente, referir o que me é dado a observar nos países que levam a sério o investimento no apoio ao seu património imaterial. Basta atravessar a fronteira e entrar na vizinha Espanha e constataremos o valor que, em qualquer espaço público, qualquer espanhol dá à sua música regional.

Não basta usar o slogan “O que é português é bom!”, quando, recorrentemente, se vota ao esquecimento as raízes musicais que nos fizeram chegar à música portuguesa que, hoje, é dada a fruir ao mundo. Porque quem renega as suas tradições, jamais terá uma perspetiva do que virá a ser o seu futuro!


Palmas para ti, António Lopes

Quem, como eu, privou com o Professor Doutor António Lopes sabe que ao vê-lo partir, ficámos privados do contacto físico com um grande homem e, sobretudo, com um homem bom. Ao deixar-nos, várias instituições de ensino a que esteve ligado constataram, de imediato, o seu empobrecimento. O “nosso” António levou com ele um enorme saber e uma alegria de viver que contagiou todos os que com ele privaram.

Sendo um homem das letras (professor universitário de língua inglesa, cultura inglesa, literatura inglesa, estudos culturais e estudos literários), desde o primeiro dia colocou ao dispor do Conservatório de Música de Olhão (CMO) toda a sua musicalidade, criatividade, sabedoria, disponibilidade e bondade. Pai atento, colaborante e participativo, foi um exemplo a seguir para todos os que acreditam na realização dos sonhos através do empenho, do trabalho, da dedicação e da perseverança.

Com um sorriso nos lábios, os seus olhos cintilavam quando, disponibilizando-se para acompanhar os alunos do CMO, colocava as mãos no piano e mostrava ao mundo que a música era também o seu mundo. Sempre disponível para o que fosse necessário, desde cedo, constituiu-se como uma peça-chave na engrenagem que faz mover uma escola de música.

Sempre com um enorme desejo de aprender, aceitou o desafio que o Conservatório lhe lançou para que abraçasse a aprendizagem de um instrumento à medida da sua grandeza – o contrabaixo. E em pouco tempo foi possível vê-lo a tocar, dedicado e seguro, com a orquestra de cordas do CMO, tendo sido um exemplo para todos, principalmente para os mais novos.

É sabido que a grandiosidade de poucos toca e é estrela-guia para muitos. Foi e continuará a ser o caso do amigo de sempre (e para sempre) António Lopes. Todos nós, elementos que constituem o Conservatório de Música de Olhão, teremos por ele uma eterna dívida de gratidão. De pé e efusivamente, prestar-lhe-emos, sempre, a devida e merecida homenagem.

Palmas, muitas palmas para ti, António. Mereceste-as em vida e continuarás a merecê-las onde quer que estejas!

* António Lopes, natural de Faro, foi professor da Universidade do Algarve. Faleceu no dia 14 de dezembro de 2019, aos 52 anos, vítima de doença.


Os professores são «bué da fixes» e o ambiente é «altamente»!

Recordo com alguma saudade e nostalgia as divergências e desacordos que mantive com Pedro Ruivo, um dos fundadores do Conservatório Regional do Algarve Maria Campina. Sempre tivemos grande respeito e educação um pelo outro, mas tal não nos impedia de vincar a nossa posição. Na altura em que com ele privei, tinha idade para ser seu neto e, como tal, a deferência que por ele nutria era notória. Entre muitas outras coisas, não se cansava de proferir aos “quatro ventos" que jamais seria possível ver num músico um gestor de sucesso. Dizia que os músicos são artistas e, como tal, são sonhadores, “cabeças no ar”, “despistados”, enfim: ausentes da realidade.

Foram essas e outras palavras que fui ouvindo durante a juventude que me deram alento para mostrar - na prática - que ele, e muitos como ele, estavam errados. Quem me dera tê-lo agora entre nós para, com agrado, lhe mostrar o que quatro músicos/professores conseguiram fazer na área da gestão cultural. Seria com grande prazer e orgulho que o receberíamos em Olhão, numa casa com o mesmo espírito que ele e a sua esposa, Maria Campina, imprimiram nos primeiros anos do Conservatório.

Com o passar do tempo, aprendi que não adianta ripostar palavras vãs quando é nas ações que reside a verdade. Quase quinze anos depois de termos realizado o sonho de colocar os nossos conhecimentos, aspirações e anseios ao serviço da Música e de Olhão/Algarve, é com um misto de sensações de dever cumprido e desejo de continuar (fazendo diferente mas sempre mais e melhor) que eu, o Adriano St. Aubyn, a Anabela Silva e o Rui Gonçalves agradecemos a todos (muitos) que nos ajudaram neste percurso cheio de inúmeras conquistas, de vários desafios superados e de alguns contratempos que, não nos tendo derrotado, consolidaram a amizade e ajudaram-nos a crescer.

A meio da jornada (há sete anos), recordo-me de um episódio que vivenciei e que continua a ser uma referência do trabalho que realizámos enquanto professores e administradores. Falando com um colega do meu filho, que então não me conhecia, ouvi algo que me fez ganhar o dia. Respondendo-me à questão que lhe coloquei sobre a razão de frequentar o Conservatório de Música de Olhão, morando em Faro, disse-me apenas: “...apesar das instalações não serem nada de especial, os professores são «bué da fixes» e o ambiente é «altamente». Estou muito contente em cá estar!”. Hoje, noutras instalações, maiores e melhores, estas palavras continuam a fazer todo o sentido, continuando a motivar-nos, dando-nos alento e fazendo-nos continuar a acreditar que, todos, seremos unos no propósito de servir a música!


Qual o valor de um bilhete para um concerto?
Paulo Cunha

Tendo em conta que a arte engloba uma série de disciplinas e de linguagens estéticas (arquitetura, desenho, escultura, pintura, literatura, música, dança, teatro, cinema e circo) em que o processo criativo surge da necessidade de expressar emoções, sensações, ideias e ideais, apetece-me perguntar quais são os fatores que nos permitem atribuir um valor correto a uma obra? Serão mensuráveis e quantificáveis? Obviamente, todos os fatores que possam ser enumerados contribuirão para a inevitável lei de mercado em que a procura condicionará a oferta e vice-versa.  

No caso particular da música, em que a criação, a produção e a execução musicais estão, hoje, completamente dependentes, submissas e condicionadas à indústria musical, o preço final de um ingresso para uma qualquer apresentação musical estará, inevitavelmente, dependente de uma série de circunstâncias diretamente ligadas aos custos de agenciamento, promoção, produção e do cachet do artista. Não é por isso de estranhar alguns preços praticados em concertos de certos géneros musicais, em que para a generalidade do público o preço cobrado parece excessivo. 

Durante muitos anos, após um período em que a oferta de concertos musicais  em Portugal era diminuta, instituiu-se uma cultura de intervenção, de apoio e de subsídio por parte do estado e das autarquias à produção e à realização de eventos musicais, o que com o passar do tempo criou e fidelizou público mas, ao mesmo tempo, criou o mau hábito de achar que os concertos onde tocam músicos ligados às “outras músicas” ou à música pouco comercial deverão ser gratuitos ou mais baratos.  

Tal como numa consulta com qualquer profissional da saúde ou da justiça, que, por mais curta que seja, está devida e justificadamente tabelada, um concerto também o está e não é a sua duração que justifica o custo do bilhete, mas sim todo o investimento, trabalho e tempo despendidos até ali chegar. Poucos questionam o preço que se paga para assistir a jogos de futebol profissional, mas muitos acabam por se queixar publicamente do preço de um bilhete para um qualquer concerto. 

Terão os músicos que ser artistas beneméritos e “porreiraços” que vivem das palmas, dos favores do poder, do desenrascanço e da caridade alheia? Profissionais que quem contrata pede para baixar o cachet e que quem assiste pede “borlas”. Tal como noutras profissões, não tendo um salário fixo, somam o valor dos bilhetes, subtraem-lhe o valor dos impostos, dividem-no pelos dias que estão sem tocar e pelas contas por pagar e multiplicam as preocupações até ao próximo concerto. Por isso, afirmo perentoriamente: seja qual for o valor de um bilhete para um concerto, é - com certeza - pouco para tudo o que os músicos investiram para, num só momento, tudo proporcionar!


Carreiras musicais à medida
Paulo Cunha

Tomando como referência Portugal, país de onde raramente se tenta sair para, musicalmente, conquistar outros mundos, facilmente enumeramos o nome dos cantores/conjuntos musicais portugueses que nos acompanharam (e continuam a acompanhar) no nosso crescimento. Dessas mãos cheias de músicos que compuseram e interpretaram as músicas que hoje são as das nossas vidas, rapidamente nos vêm à memória os seus nomes, bem como os seus êxitos mais representativos.

Sem nunca terem sido convidados para as nossas casas, muitos cantores e grupos musicais nelas entraram através da sua música e connosco convivem diariamente. Em suma, já fazem parte da família! Todos eles, músicos maduros, experientes e sábios, que contabilizam mais de metade das suas e das nossas vidas a tentar que a música não seja apenas um hobby, um biscate ou um complemento salarial, dão o devido prestígio e dignidade à profissão Músico. Só por isso, já são dignos do respeito dos seus fãs e dos seus pares.

Acumulando décadas de trabalho, resistiram às várias transformações socioculturais que, ciclicamente, ditam as ditatoriais modas musicais. As tais modas que, em empoeiradas prateleiras, facilmente arrumam carreiras que se adivinhavam promissoras. Crescendo connosco são, por isso, motivo de interesse e de aprendizagem por parte dos aspirantes a músicos.

Saber ler os sinais que, escondidos entre os “barulhos das luzes”, inebriam os músicos demasiado ambiciosos, é meio caminho andado para ultrapassar a previsível desilusão ou até o fracasso. Estar atento e aprender com as carreiras musicais dos mais velhos, os tais “dinossauros musicais” que ainda temos a sorte de ter entre nós, é um privilégio só ao alcance de quem sabe que uma carreira é como uma escalada. Por isso mesmo, sempre aconselhei aos aspirantes a ter sucesso musical boas doses de humildade e de reconhecimento por todo o conhecimento que todos os dias a vida nos proporciona.

Mas fará sentido falar em carreiras musicais, hoje? Talvez fosse mais coerente falar em percursos musicais, tal a forma como, neste cantinho luso, se vive dependente da indústria e do comércio ligados à música. Contratualizados e vinculados às poderosas multinacionais discográficas, os novos e atuais “artistas musicais” da nova era, tal como os jogadores profissionais de futebol, veem a sua atividade laboral gerida por outrem.

Sendo Portugal geograficamente pequeno, não há espaço para grande concorrência nos diversos nichos musicais que o servem, por isso, depois de usados, há que dar lugar aos novos músicos/cantores. Fabricados para consumo rápido, provavelmente não terão o tempo devido para o crescimento e envelhecimento que observam nos artistas da “velha guarda”. Tal como os outros com as chuteiras, neste caso, prematuramente, pendurarão os instrumentos e os microfones … e ainda com tanto para dar e mostrar!

É claro que fico feliz por ver tantos jovens músicos e agrupamentos musicais com pouco tempo de percurso firmado a aventurarem-se e a encherem as salas emblemáticas que, antes, consistiam no corolário de uma vida musical. “Empurrados” pelas suas editoras/agências para, em menos de metade do tempo dos seus antecessores, percorrerem um caminho já conhecido, passam pelas várias “casas” deste jogo, que para a indústria musical não é mais do que um simples Monopólio e onde os músicos não passam de peças à espera de serem substituídas.

Seja na música, seja no que for, não basta ser bom, é preciso mostrá-lo, administrá-lo, potenciá-lo e geri-lo. Chama-se a isso maturidade! Têm-na? Ótimo, usem-na, mas nunca percam a humildade, a independência e a dignidade - condimentos certos à mão de semear!

30-09-2019


Para quando o grande “Festival de Música do Algarve”?
Paulo Cunha

Não sendo um grande fã dos apelidados festivais de verão, acompanho com alguma atenção este fenómeno que, tal como noutros países, tem vindo a crescer e a consolidar-se em Portugal, gerando enormes receitas e servindo de âncora para a economia sustentada pela indústria, comércio e turismo. Como muitos de vós, valorizo a música em toda a sua plenitude e por isso tenho alguma dificuldade em vê-la tratada com outros propósitos que não sejam os que a tornaram a nobre arte. Daí algumas reservas em relação a “Festas e vais”… mas isso são outros “quinhentos”!

Sabendo que os festivais em Portugal são uma aposta relativamente barata de entretenimento, com grande grau de satisfação e consistindo numa boa solução de férias em tempos de crise, é natural que as empresas ligadas à produção de eventos musicais procurem patrocinadores privados e institucionais que caucionem a contratação das “estrelas” nacionais e internacionais que garantirão o sucesso dos eventos programados.

Temos, dizem os agentes, um mercado solidificado e rentável que já pertence ao circuito mundial de festivais. Sendo atrativo, pelos preços baixos e pelo clima, ao crescente público estrangeiro que nos visita, em Portugal o número de concertos e os lucros daí resultantes têm crescido consistentemente ao longo da última década, acompanhando assim a tendência mundial.

"Em alturas de crise, as pessoas querem escapar, querem divertir-se, e um festival oferece essa possibilidade (…) Os festivais são em maior número, mas diversificaram-se, o que permite chegar a vários públicos", refere um promotor/produtor, atribuindo a esses fatores a história do sucesso dos festivais em Portugal.

Com os músicos mais disponíveis para digressões devido à quebra acentuada na venda de discos, e com o público habituado à experiência do universo que rodeia os concertos, os festivais tornaram-se parte de um roteiro que já não é apenas para melómanos e apreciadores de música. Apesar das dificuldades que vivemos em Portugal, o nível de vida tem vindo a subir e os festivais de música já integram o cabaz das necessidades de muitos, consistindo até um percurso iniciático de vida para os mais jovens.

Devido à facilidade logística que consiste produzir um concerto ao ar livre, é hoje possível, através da proclamada animação musical, ter qualquer evento, feira, certame, efeméride transformados em minifestivais de música que servirão assim de chamariz para o verdeiro propósito das citadas manifestações de entretenimento e comemoração.

Disputando as vagas ainda disponíveis nas agendas dos artistas da moda, as entidades promotoras e produtoras de todos estes concertos disseminados pelo país pouco ou nada trazem, oferecem ou acrescentam aos músicos independentes, desconhecidos e “suburbanos” que não integram o «mainstream» e a agenda das editoras e agentes sediados na capital.

Estando a escrever-vos duma região que nos meses de verão duplica o seu número de habitantes (Algarve), continuo a estranhar como é que ainda não houve um “tubarão” que, em parceria com uma qualquer multinacional, não se lançou a este mar manso que é a zona sul de Portugal. Tomemos como exemplo a Concentração de Motos de Faro, que no Vale das Almas internacionalizou o Algarve, porque não colocar o Algarve na rota dos Festivais de Música realizados no verão, a exemplo dos que, em Portugal, já se tornaram referências internacionais? Porque perguntar não ofende, aqui deixo esta dica…

28-08-2019


Quando a boa música aterra no Algarve
Paulo Cunha

Ver as principais salas algarvias repletas de público vindo de várias localidades para ouver os seus músicos nacionais e internacionais de eleição é um sinal mais do que suficiente para que os promotores e produtores musicais comecem a incluir, todo o ano, o Algarve na programação das suas agendas. Os residentes e visitantes algarvios há muito tempo que dão sinais de serem um público interessado, presente e participativo. Os vários concertos lotados comprovam-no!

No dia 10 de julho de 2019, o Teatro das Figuras, em Faro, testemunhou, uma vez mais, a apetência e o acolhimento de um público fiel e interessado em artistas de comprovada relevância e excelência criativa, técnica e interpretativa. Depois do ano passado ter efetuado três concertos no (costumeiro) Coliseu dos Recreios, em Lisboa, desta feita o clã Veloso aterrou em Faro para presentear e deleitar todos os fãs e admiradores que, num ápice, esgotaram os ingressos para o concerto realizado na maior sala de espetáculos da capital algarvia.

Segundo Caetano Veloso, não foi fácil juntar os seus três filhos, Zeca, Moreno e Tom, para tocarem e cantarem consigo ao vivo. Depois de convencer Zeca (o único dos três que inicialmente estava mais reticente), o cantor brasileiro levou quase três anos para conciliar as agendas dos quatro. Por não passar tanto tempo com os filhos desde a altura em que estes eram pequenos, Caetano Veloso considerou o concerto de quase duas horas como uma oração a um tempo fecundo e uma homenagem à reprodução.

Permitindo, finalmente, a reunião de um pai com os seus três filhos, num palco onde todos os momentos foram impregnados de afetos, cumplicidades, risos, danças, inconfidências e criatividade, foi possível partilhar, conhecer e assimilar histórias da música e da vida desta genial família brasileira.

Com a participação do deliciado, encantado e participativo público presente, o jovem homem velho, patriarca de 76 anos, recordou e homenageou a sua mãe Claudionor Viana Teles Veloso (Dona Canô), interpretando o tema Ofertório, música e letra que compôs para a celebração dos 90 anos de quem, em Santo Amaro da Purificação, no interior da Baía, o colocou no nosso mundo.

Perto das 23h30, eu e o meu filho Miguel saímos deste ofertório musical num estado de autêntico encantamento musical e espiritual. Tudo se conjugou para que tal tivesse acontecido: a sala esteve cheia com um público atento, respeitador e participativo; o cenário, sóbrio e atraente, foi servido e complementado por uma muito profissional e eficaz luminotecnia e sonoplastia; os músicos revelaram um grande profissionalismo e mestria interpretativa aliadas à naturalidade, empatia e comportamentos afetuosos próprios duma família que se quer e se gosta.

Quando alguém, depois do concerto, me disse que não tinha ido porque o preço dos bilhetes era demasiado caro, respondi-lhe apenas que, além do que os algarvios pouparam ao não terem que se deslocar até à capital, o preço foi similar ao de uma consulta médica ou psicológica e o efeito, provavelmente, foi o mesmo.

Não posso terminar esta minha singela homenagem à música brasileira, através da apreciação à música da família Veloso, sem recordar um ato revelador da importância que a harmonia, o ritmo, a melodia e a palavra vindas do outro lado do Oceano Atlântico têm para o mundo. Muito me sensibilizou o facto do meu amigo Francisco Gil, tendo ido de férias ao Brasil, ter-se deslocado propositadamente à casa da Dona Canô (na altura ainda viva), unicamente para lhe agradecer ter dado ao mundo tão grandes filhos (Caetano Veloso e Maria Bethânia). Não lhe abriu a porta, pois, segundo a vizinha, a mesma estaria na casa de uma das filhas. Mas o recado ficou dado! É inquestionável: o Brasil existe e sempre existirá na música que há em nós.


Crónica sobre um concerto a que não assisti
Paulo Cunha

Tendo a Universidade do Algarve (UAlg) completado quarenta anos de existência, incluiu na programação das suas atividades a realização, no dia 7 de junho de 2019, do Concerto Comemorativo do 40º Aniversário da Universidade do Algarve. Contando com a participação da Orquestra Clássica do Sul e do estreante Coro da Orquestra Clássica do Sul, o Grande Auditório do Campus de Gambelas foi pequeno para o vasto público que, nesse dia, lá acorreu.

Para além do simbolismo da data que se pretendia festejar, a mesma iria constituir um marco histórico através da estreia pública de um novo coro sedeado na capital algarvia. Sendo o mesmo composto por muitos algarvios que, em comum, têm o gosto pela música coral, muito naturalmente, tenho com alguns deles uma relação afetiva construída, cimentada e solidificada ao longo do tempo.

Logo que soube do evento, marquei-o na minha agenda como imperdível, para que a minha presença efetiva fosse mais um motivo de apoio e de alento para todos os elementos do novel coro. Sabendo que esta era uma estreia muito aguardada, devido ao facto de muitos dos coralistas integrarem coros da região, e os outros coralistas, por nunca terem cantado num coro, veriam nela a sua “prova de fogo”, cedo percebi que o concerto (gratuito) iria esgotar a lotação da sala. Bastava que, para além do público ligado à UAlg, lá fossem os familiares, amigos e colegas dos coralistas.

Mais do que a música, seria a atração pela novidade o principal tónico para que muitos farenses se deslocassem ao Grande Auditório do Campus de Gambelas. Também eu, antigo professor, diretor coral, colega e amigo de alguns coralistas, não quis deixar de lá estar para, através das palavras, poder aqui expressar o que vi, ouvi e frui.

Quis o destino que, por motivos familiares, não tivesse podido sair de casa, pelo menos, uma meia-hora antes da hora marcada. Ora não sendo eu uma individualidade com acesso garantido aos costumeiros convites, ou chegava a tempo da abertura da porta do auditório ou arriscava-me a não entrar. Bem dito, bem feito: quando lá cheguei, deparei-me com algumas pessoas paradas à entrada. Figuras que, tal como eu, tentavam que a diligente e intransigente porteira lhes facultasse a entrada para, assim, poderem juntar-se a uma parte do público que já ocupava um bocado da escada.

Educadamente, como é meu apanágio, solicitei à senhora com o poder de me deixar entrar (ou não!) que me permitisse entrar e assim sentar-me, partilhando com outros um bocado de chão. Perentória e sobranceira exerceu o seu pequeno/grande poder, negando-me a pretensão. Como não estou habituado a mendigar seja o que for, dei meia-volta e às 21h30, hora do início do concerto, já estava dentro do meu automóvel, preparado para regressar a casa. Não lhe critiquei a atitude, mas sim a forma como expressou a sua autoridade!

Como seria de esperar, no dia seguinte, muita gente, através de mensagens nas redes sociais e no telemóvel, quis saber qual foi a minha opinião sobre a sua participação no concerto, à qual, obviamente, respondi que não iria fazê-lo tomando apenas como base pequenos excertos de vídeo partilhados nas redes sociais.

Mais do que eles, coralistas e diretor coral, lamento não poder aqui ter escrito um artigo sobre um concerto que, por certo, constituiu um marco no seu percurso de vida e uma data histórica no panorama musical algarvio. Não tendo conseguido ouvi-los cantar, contaram-me, posteriormente, a alegria e a satisfação que sentiram ao cantar em grupo. Por eles, pela música e pelo Algarve fiquei feliz!

07.2019


O Algarve Musical está bem e recomenda-se!
Paulo Cunha

Na qualidade de agente cultural, músico, professor de música e, principalmente, enquanto apreciador e consumidor de música, é com grande orgulho, prazer e satisfação que aqui registo, constato e convosco partilho a evolução que observei e vivenciei no panorama musical algarvio ao longo do último meio século.

Tendo sido surpreendido pela revolução dos cravos com apenas dez anos, ainda consegui, principalmente através da minha família, aperceber-me da parca oferta nas áreas da formação musical de base e genérica e na produção, criação e realização musicais registadas no Algarve num período em que também a música era condicionada pelos imutáveis e superiores interesses do Estado Novo.

Tomando como referência - e até ponto de partida - a data de 25 de abril de 1974, enquanto espetador e ator atento à praxis musical algarvia, posso hoje afirmar que, fruto de determinadas conjunturas económico/financeiras e políticas culturais, também na área cultural a democracia (enquanto escolha das maiorias) passou a ser a mola impulsionadora da maioria das decisões culturais até hoje tomadas.

Só quem anda muito desatento ou tem fraca memória é que não se recordará de um tempo em que o Algarve musical era pobre, acanhado, subaproveitado, esquecido e menosprezado. Em cerca de cinquenta anos passámos de uma província que só era relembrada e merecia atenção nos meses de verão para uma região que durante todo o ano já consta na agenda musical de Portugal e até noutras internacionais.

Fruto duma (ainda que tímida e insuficiente) descentralização cultural e duma aposta e investimento na educação e nas produções musicais por parte de alguns políticos e decisores visionários, criativos e empreendedores, muito tem vindo a mudar para melhor no espetro musical algarvio. Face às condições que, nas últimas décadas, têm sido dadas aos artífices e interventores musicais algarvios, podemos hoje constatar que a região algarvia, vista e assumida enquanto laboratório musical, está bem e recomenda-se!

Muito me apraz registar que os nossos descendentes têm hoje uma oferta cultural (onde a música tem uma considerável quota parte) que é motivo de satisfação e de regozijo. É hoje possível ter acesso a uma educação especializada, profissional e genérica nos vários estabelecimentos de ensino público, associativo, cooperativo e privado que, ao longo das últimas décadas, se disseminaram pelo barlavento e sotavento algarvios.

Vêm hoje à região algarvia músicos de várias proveniências gravar e produzir os seus discos, tal a qualidade dos estúdios de gravação, dos seus componentes técnicos e, principalmente, dos técnicos e engenheiros de som que neles trabalham. Basta ouvir o resultado e, através dos sentidos, fruir e apreciar a qualidade dos nossos músicos e intérpretes para intuir que, em termos de criação/execução/interpretação musicais estamos ao melhor nível do que se produz em Portugal.

Temos (algarvios), hoje, uma programação musical distribuída por todos os meses do ano, que nos permite, quase todos os dias, ter um ou mais concertos a acontecer nas várias localidades do barrocal ao litoral algarvio. Basta estarmos atentos e assim querermos para encontrar vários tipos de manifestações musicais a acontecer periodicamente nas programações semestrais das múltiplas salas e equipamentos culturais ao dispor, nos eventos de vária índole, nos festivais, nas feiras, nos encontros, nos congressos, etc. Todas elas, eficaz e profissionalmente, conduzidas por técnicos de som e de luz algarvios ou residentes no algarve.

A Música, uma vertente artística e cultural que, para além do sol e mar, está, objetiva e consistentemente, a colocar o Algarve na memória de muitos que o visitam… e nós agradecemos!

06.2019