Francisco Afonso Rita

Música e Palavras

Francisco Afonso Rita

Compasso do Oriente

Partida: Mente aberta
Destino: Música do oriente

Bem-vindo de novo a bordo do “Compasso do Oriente”, o comboio musical imaginário que passa por tesouros escondidos da música do oriente que merecem ser visitados. Depois da primeira paragem em Moscovo no princípio do século XX, passamos agora por Tóquio nos dias de hoje. 

Recomendo a quem não tem conta de Spotify que crie uma (grátis), para conseguir ouvir as gravações recomendadas ao longo do texto.

2ª Paragem: “O Oriente do Sol nascente

No Japão existe uma cultura de dedicação e excelência, sobretudo para as artes e ofícios. Acredito que isto se deve, essencialmente, à disciplina presente nas várias maneiras de pensar e agir da sociedade japonesa.
O primeiro contacto do Japão com a música clássica ocidental deu-se apenas na segunda metade do século XIX, mas independentemente de ser uma data bastante tardia, isso não impediu que os japoneses a agarrassem e rapidamente se tornassem num importante mercado para este tipo de música. Mas o seu contacto com a música clássica ocidental não se limitou apenas a consumir e apreciar; começaram também a surgir grandes intérpretes, maestros e compositores, que nela incorporaram o estilo antigo da música tradicional japonesa e criaram a sua própria sonoridade. Ou não fosse essa a típica devoção nipónica! 

Nesta paragem vamos espreitar a música de um compositor da natureza, Takashi Yoshimatsu, nascido em Tóquio em 1953. Não tendo tido formação musical formal em jovem, Yoshimatsu foi um autodidata em composição e teclista em bandas amadoras de rock e jazz, tendo mais tarde recebido aulas de composição com Teizo Matsumura. Desde cedo que se interessou pela música clássica e romântica, mas foi passando por múltiplos géneros, desde jazz, rock, música eletrónica e eventualmente chegou à música clássica atonal. Foi no contexto desse género musical que se estreou como compositor, aos 28 anos, com o seu trabalho Threnody to Toki. Contudo, rapidamente transitou de estilo tendo-se finalmente encontrado num estilo neo-romântico livre, ao qual juntou as experiências por que passara ao longo da vida. Mas todas estas influências, ainda que importantes, não são o que distingue a música de Yoshimatsu. Para além do rock, jazz e demais estilos, ele consegue fundir a música tradicional do Japão e o som da natureza nas suas obras. Em particular, o som dos pássaros.
Para ele, os pássaros são umas das principais fontes de inspiração, aos quais já se referiu como sendo os melhores “criadores de melodia”. E para além do seu cantar, há ritmos das mais variadas formas nos seus graciosos e estranhos movimentos.

Mas Yoshimatsu não foi o primeiro compositor a tomar inspiração explícita nos pássaros. Olivier Messiaen já o fizera antes, em obras como Catalogue d’oiseaux. Contudo, a música do compositor japonês é bastante menos atonal e, em minha opinião, bastante mais rica em termos de técnicas utilizadas para emular os sons emitidos pelos pássaros nos seus voos, movimentos e cantos. 

De seguida apresento três peças do compositor que, como é óbvio, são insuficientes para capturar toda a essência da sua música. Contudo, escolhi-as por representarem elementos que considero fundamentais na sua obra como um todo: O elemento clássico contemporâneo, a natureza, os pássaros, o jazz e, por fim, o Japão.

Threnody to Toki

Esta foi a peça que lançou Yoshimatsu como compositor. Esta obra para orquestra e piano é uma música de lamento à extinção do pássaro Toki, devida à sua caça abusiva e desrespeito pela natureza. O Toki, de corpo branco e cabeça vermelha, era um símbolo do Japão, tendo as mesmas cores da sua bandeira. Durante os anos 80, o pássaro foi considerado extinto depois de o último sobrevivente na posse do governo japonês ter morrido. Angustiado pela perda deste símbolo, Yoshimatsu compôs esta peça que parece representar a dor de um pássaro a lutar pela sua existência. As cordas evocam um voo esforçado e agoniado, por oposição ao voo ligeiro de outrora.

  • Gravação recomendada: New Japanese Philharmonic, Michiyoshi Inoue

    Aos minutos 1:05 e 1:32 há um som produzido pelo arco do contrabaixo semelhante ao bater de asa de um pássaro a levantar, uma técnica recorrente na música de Yoshimatsu. Existem também muitos harmónicos nos violinos, que conjugados com piano e bastante dissonância criam um som de desassossego, como por exemplo na passagem a partir do minuto 7:00. Há também momentos que parecem implicar uma queda, como nos trinta segundos a partir dos 8:28. Há um momento particularmente dilacerante que me evoca um choro, de 11:05 até 11:30, culminando naquelas notas graves e fúnebres do piano aos 11:41 que me parecem simbolizar a morte do Toki.
    Isto são apenas observações e interpretações feitas por mim com o intuito de ajudar a tentar entender a música, mas mais importante do que isso, é cada qual deixar-se imergir e dar asas à imaginação.
     

Por fim apenas queria deixar duas notas interessantes; a disposição da orquestra é única para esta peça, sendo também inspirada num pássaro. O piano situa-se ao centro fazendo o corpo, os violinos são simetricamente colocados nos lados para fazer as asas e o maestro ocupa o lugar à cabeça. A segunda nota é que há um final feliz, uma vez que já que perto dos anos 90 foram descobertos Tokis selvagens na China, que os ofereceu como presente ao Japão. Ainda que continuando a ser uma espécie ameaçada, esperemos que nunca mais se caia no mesmo erro!

Sinfonia nº5, op.87

Provavelmente a minha obra preferida deste compositor. Esta sinfonia tem influências de jazz, como por exemplo no segundo e quarto andamentos, sendo que no segundo junta uma componente um pouco mais dissonante e excêntrica e no quarto parece incorporar elementos de rock. Também há passagens com um sabor mais japonês, ainda que sejam menos prevalentes do que em muitas outras peças suas. Exemplos estão no meio do primeiro e ao longo do terceiro andamentos.

  • Gravação recomendada: BBC Philharmonic, Sachio Fujioka

    Este link é para o terceiro andamento desta sinfonia, que é o mais calmo dos quatro. Recomendo muito vivamente que oiçam todo o andamento para que possam desfrutar com contexto do maravilhoso culminar que começa ao minuto 5:58. Do que conheço da obra de Takashi Yoshimatsu, este culminar é para mim, sem dúvida, o momento mais belo. Sinto-me a respirar ar do mais puro que há, enquanto passeio por uma floresta em sonhos cheia de cor, magia e luz. Se Lothlórien existisse, tal como Tolkien a descreve no Senhor dos Anéis, então esta seria a sua música. E o cantar dos pássaros está tão bem escrito que, no outro dia, confessou-me um rouxinol a vergonha que sentia…

    Concerto para piano e orquestra op.67 “Memo Flora”

    Este é inequivocamente um concerto japonês. Mas para além de ser tão fortemente marcado pela sua nacionalidade, também tem um suave toque de jazz que o pinta com mais cores ainda. Tal como toda a música de Yoshimatsu, este concerto é uma verdadeira paleta sonora de cores, que desta vez é inspirado num tema floral e não num tema ornitológico.

    • Gravação recomendada: Manchester Camerata, dirigida por Sachio Fujioka e com Kyoko Tabe ao piano

      Este link é para o primeiro andamento. Ao minuto 6:34 escutamos outra conversa entre pássaros, mas desta vez representados também pelo piano, para além da orquestra.  

    Há muitas outras músicas que gostaria de apresentar, como And Birds Are Still …, White Landscapes op.47, Concerto para Saxofone op.59, Chikap e outras mais. Por isso mesmo, apesar de não terem sido apresentadas, estão presentes na playlist do Compasso do Oriente, junto com as músicas dos textos anteriores:

    Obrigado e desfrutem desta vista maravilhosa para a nação do Sol nascente. O comboio segue viagem!

    21-01-2021


    Compasso do Oriente

    Partida: Mente aberta
    Destino: Música do oriente

    Permita-me, leitor, que lhe dê as boas vindas a bordo do “Compasso do Oriente”. Este comboio musical imaginário que passa por tesouros escondidos da música do oriente que merecem ser visitados. Passaremos por Moscovo no princípio do século XX e a próxima paragem será em Tóquio no princípio do século XXI.

    1ª Paragem: “O oriente do folclore e dos contos de fadas”

    A música de piano russa muitas vezes me parece refletir a sua própria geografia, ao apresentar aquilo que são características da música clássica europeia, mas ao mesmo tempo misturando uns pós evocativos de folclore antigo e de, até me atreveria a dizer, magia; Aquela magia dos poemas épicos e dos verdadeiros contos de fadas. Nesta paragem vamos tentar entrar no mundo do homem que os conta pelo piano, Nikolai Medtner.

    Medtner nasceu em Moscovo em 1880 e lá viveu a maior parte da vida. Só bem depois da revolução de 1917 decidiu abandonar, estabelecendo-se em Londres em 1936 com a sua mulher, Anna. Aí viveu até à data da sua morte em 1951, tendo levado uma vida modesta dedicada à música. Rachmaninoff chegou a dizer que Medtner era o maior compositor do seu tempo. Creio que tamanho elogio nunca existiria a propósito de alguém que não o merecesse.

    Mas não quis o destino que a sua obra fosse mais conhecida, pelos mais diversos motivos; Desde o facto de Medtner não ter optado por uma carreira de concertista, como pelo facto de se assumir como uma das últimas linhas de defesa contra o Modernismo, na mesma altura em que nomes como Schoenberg, Bartok e Stravinsky se afirmavam de grande importância no mundo da música. Contudo, passados estes tempos, e já depois do próprio Medtner ter morrido, a sua música tem despertado um interesse crescente e ocupa um lugar cada vez mais consolidado e único.

    Pessoalmente, acho que a sua música é profundamente melancólica e sonhadora. Para mim, é a música de um mundo místico e cheio de história, pintado com muitas cores e que consegue ser, ao mesmo tempo, tranquilo e desassossegado. Naturalmente, cada um sente o que sente quando ouve uma música, e é essa a sua beleza.

    O que quero mostrar nesta paragem da nossa viagem imaginária são algumas das paisagens apresentadas na sua música. Como não creio haver valor em descrever o que cada peça significa para mim, apenas introduzirei brevemente algumas delas e darei a minha melhor sugestão para as ouvir.

    Skazki

    As “Skazki” (em russo querendo dizer contos, geralmente referindo-se aos contos populares ou contos de fadas), são talvez as peças mais distintas do compositor. Verdadeiras joias do reportório de piano, cada uma é significativamente diferente da outra. Não se sabe se Medtner tinha alguma narrativa em mente quando as escreveu, ou se elas simplesmente traduzem lutas pessoais e são um reflexo da sua vida. Mas seja qual for a verdade, pouco importa.

    • Skazki op.51 nº2: Sem dúvida a minha preferida, aventureira e apaixonada:
      Gravação recomendada: Interpretada por Geoffrey Tozer

      Ao minuto 2:01 a música culmina num belo tema aventureiro e em menos de trinta segundos viaja no tempo e volta expor o mesmo tema, mas desta vez num tom de recordação aos 2:33.

    • Skazki op.51 nº5: Uma caótica turbulência onírica.
      Gravação recomendada: Interpretada por Geoffrey Tozer

      Logo no princípio, ao minuto 0:21, surge uma melodia muito lírica num estilo que, para mim, pertence a Medtner.

    Existem mais de trinta “Skazki” com números de opus desde 8 até 51, confirmando que este tipo de peças foram uma constante na vida de Medtner.

    Melodias Esquecidas

    As “Melodias Esquecidas”, não podiam ser mais memoráveis. Existem três ciclos de “Melodias Esquecidas”, cada um contendo várias peças. O primeiro ciclo, op.38, é um conjunto de peças que começa com uma sonata de um só andamento, a “Sonata Reminiscenza”. As outras sete peças do ciclo contêm variações sobre o tema de abertura desta sonata.

    • Melodia esquecida op.38 nº6 – Canzona Serenata: Uma das oito peças do ciclo, muito romântica:
      Gravação recomendada: Interpretada por Geoffrey Tozer

      Ao minuto 1:12 desta gravação surge, tal como na skazki op.51 no.5, uma destas doces melodias tão próprias de Medtner.

    Sonatas

    As sonatas são obras de maior dimensão e complexidade. Para quem se quiser, são um mergulho mais profundo no mundo de Medtner que muitas vezes nos parece falar de Beethoven. Aqui apenas deixo mais uma sugestão, a última de todas as sonatas, a “Sonata-Idyll”.

    • Sonata-Idyll op.56: Pacífica, idílica (como o nome indica) e conclusiva. Oiço-a como uma sonata bem madura e, deste modo, muito representativa da identidade musical do compositor.
      Gravação recomendada: Interpretada por Earl Wild

      A sonata tem um culminar muito tardio no segundo andamento, ao minuto 9:20 desta gravação. Momento bonito.

    Há muitíssimo mais para descobrir de Nikolai Medtner, desde mais peças para piano solo, quintetos e concertos para piano! Espero que esta vista da janela tenha sido o suficiente para querer sair e explorar!

    Aqui fica uma ligação para a playlist “Compasso do Oriente” no Spotify, onde se encontram todas as músicas mencionadas nos textos e que cada vez terá mais à medida que vamos passando por mais paragens!

    E sem mais demora, o comboio parte para a próxima paragem, no Japão!

    Uma nota final para admirar o gigantesco talento do pianista Australiano Geoffrey Tozer, que é um dos grandes responsáveis pela maior visibilidade de Medtner nos nossos dias.

    6-05-2020


    Chopin, um compositor superior

    As definições são gaiolas para as coisas, mais ainda quando se trata de arte. Como só utilizam palavras, e a arte tem momentos inexpressáveis, tudo o que se possa dizer está destinado a ser incompleto. Ainda assim, gostaria de construir esta gaiola abstrata com a minha definição do que é a música, e explicar porque considero Chopin um compositor superior. E para evitar más interpretações, convém notar que a música a que me refiro é a música sem palavras, seja ela absoluta ou programática. 

    Começando com uma definição muito geral, a música é um conjunto de sons e silêncios. Mas tratando-se de uma arte, que é uma criação do Homem, a música tem que ser humana. Por isso mesmo podemos particularizar mais e dizer que é um arranjo inteligente de sons e silêncios. E é a inteligência posta na sua criação que distingue a música de outros sons belos, como o som de um riacho a correr ou o canto dos pássaros. 

    Pode-se continuar a particularizar esta definição, tornando-a cada vez mais específica. Por exemplo, a música varia enormemente de região para região do Mundo. A música clássica Indiana é fundamentalmente um jogo de melodia e ritmo. Para a música clássica Europeia, a harmonia, totalmente omitida na Índia, desempenha um papel fundamental, sendo um dos pilares da criação musical. Contudo, e ciente de que esta definição está condenada a ser incompleta, a introdução da componente da inteligência já a torna suficientemente completa para fins deste texto. 

    A simplicidade ou complexidade de uma peça correlaciona-se, na maioria dos casos, com o nível ou quantidade de inteligência empregue na sua criação. Obviamente, uma música pode ser complexa com pouco esforço intelectual, por exemplo através da sobreposição de padrões de notas simples com durações diferentes. Contudo, a sobreposição de várias camadas musicais gera caos, o que rapidamente se torna desagradável, e inevitavelmente conduz a uma reorganização da música ou reformulação dos padrões utilizados, até que o resultado seja satisfatório. Por outras palavras, um elevado grau de complexidade implica um maior emprego de inteligência quando se quer produzir música.  

    No Mundo atual, em pleno século XXI, o mercado da música é fortemente dominado pela economia. Com a globalização e as estratégias de marketing, consegue-se abranger um público cada vez maior, desta forma forçando e moldando a popularidade das músicas e os gostos das pessoas. Como consequência existe uma uniformização e simplificação crescente da maior parte da música consumida. Isso é facilmente observável através da análise harmónica das músicas comerciais, onde se verificam uma série de padrões a nível de progressões de acordes e ritmos. E esses acordes maioritariamente surgem em tríades maiores e menores, ou seja, em formas muito pouco elaboradas. Em suma e sem entrar em grandes detalhes, a maior parte da música consumida nos dias de hoje é de uma simplicidade quase absurda dada a capacidade cognitiva do ser humano. É por esta razão que existem tantas músicas semelhantes entre si; porque são fáceis de fazer, musicalmente, e consequentemente muito substituíveis. Num sketch musical, o trio The Axis of Awesome evidencia esta semelhança geral hilariante. Claro que, em defesa da música ligeira, o seu objetivo é ser ligeira, assim justificando a sua simplicidade! Ainda, esta é uma análise puramente musical, e por isso mesmo incompleta, porque ignora o seu elemento principal, que são as palavras. E aqui a música encontra-se com a poesia e a literatura, e o mérito criativo espalha-se por outras artes, que não são o foco deste texto. 

    Mas mesmo na música sem palavras a tendência para a simplificação pode ser verificada, em compositores populares como Yiruma, Yann Tiersen e Ludovico Einaudi. Claro que as suas obras são deliberadamente simples, dado que se destinam a ser músicas fáceis de ouvir ou de ambiente, e não seguem nenhuma estrutura clássica. E, de novo, nada contra a música ambiente, que aliás foi criada pelo famoso (e excêntrico!) compositor Erik Satie, que na altura lhe chamou musique d’ameublement, ou música de mobiliário numa tradução literal. Mas ao contrário de Satie, este tipo de música domina a obra destes novos compositores, que a ela se dedicam fundamentalmente, tornando-os muito ligeiros no seu todo. 

    Sem mais elaboração passemos para o outro extremo em termos de complexidade; a música clássica contemporânea (não minimalista). Aqui encontram-se compositores que elevam o nível intelectual da composição a pontos quase inacessíveis, o que em geral requer muito conhecimento para se apreciar verdadeiramente. Um exemplo de um pioneiro neste tipo de música é Arnold Schoenberg e um exemplo extremo será Pierre Boulez. Tudo é difícil nesta música, tudo parece ter poucos padrões e repetições (e de facto tem, propositadamente) ao ponto de parecer quase aleatório. Aliás, no princípio do século XX foi mesmo criado um tipo de música denominada música aleatória. E porque a simetria, harmonia de proporções, repetições e padrões são intrinsecamente satisfatórios para o ser humano, peças como a segunda sonata para piano de Pierre Boulez são muito difíceis de apreciar requerendo um esforço atento e uma intelectualização da experiência de ouvir música. 

    Neste ponto creio que surge uma questão natural: Se há música tão simples que possa ser descartada por aqueles que nela não encontrem qualquer desafio intelectual que lhes proporcione satisfação, e música tão complexa cujo desafio transcenda a intelectualidade de algumas pessoas, que dela também não retiram qualquer satisfação, então haverá uma quantidade óptima de complexidade e inteligência que torne a música de um compositor o mais abrangente possível? 

    Ser abrangente não creio ter que ver com o número absoluto de pessoas que admiram uma música ou um artista, mas sim com o número de tipos de pessoas que o fazem. Por exemplo, se uma obra é admirada por um músico de jazz, um de rock, por um leigo em música e por um melómano, então essa é uma obra mais abrangente do que outra que não seja apreciada por um grupo tão diverso, ainda que esse grupo possa ser maior em número absoluto.  

    Ora retomando a questão anterior, uma das muitas respostas encontrar-se-á, naturalmente, entre a música comercial e a música contemporânea mais elaborada. Terá que haver um compositor que satisfaça os desejos mais básicos e nos presenteie com harmonias simples e melodias contínuas. Um compositor que utilize repetições, padrões e cadências de acordes que transmitam plenitude. Contudo terá de incorporar elementos desafiantes, para que aqueles que buscam um complexidade maior também se sintam satisfeitos. Para que, de vez em quando, surja uma surpresa na música, como um acorde inesperado ou uma melodia emergente, uma mudança de ritmo, ou até que exista uma certa ausência de forma! No fundo, uma música que possa ser apreciada por todos, que tenha um desafio inerente e uma satisfação atingível. 

    E é claro que há um grande número de compositores cuja música se revê nesta definição, com estas limitações. E de entre todos os que consigo pensar, Frédéric Chopin adequa-se particularmente bem. 

    Chopin é admirado pelos mais eruditos, estudiosos e virtuosos. Ainda assim é capaz de ser entendido, na honestidade da sua música, pelos mais simples também. Por aqueles que não estudam música e até pelos que não percebem muito de música mas acham que percebem! Também há músicos de outros géneros musicais, desde pop a jazz que o admiram. Para tal basta reparar em músicas como I Get Along Without You Very Well, I’m Always Chasing Rainbows, Till the End of Time, e tantas mais. Também duas ilustres senhoras Portuguesas manifestaram o seu amor por Chopin em obras de carácter bem distinto! Florbela Espanca em poemas como Sombra e Chopin, e Bertha Rosa-Limpo, a criadora do famoso O Livro de Pantagruel, que no prefácio liga a música à arte da cozinha. É um compositor tão abrangente que até as crianças conseguem gostar da maior parte da sua música! Foi um homem admirado no seu tempo e continua a sê-lo até aos dias de hoje. Dá o nome a uma das competições de música mais importantes do mundo e deste modo está intimamente ligado a todos os seus grandes vencedores. E para quem pense que por ter composto maioritariamente peças para piano solo isso o torne um compositor mais limitado, lanço o convite a abordar este facto de forma inversa e pensar em como é possível dominar tantas formas musicais e até criar outras, usando tão pouco a voz e os outros instrumentos para além do piano. 

    E em todas as (mais de trezentas) peças que Chopin escreveu se pode perceber o quão brilhantes são e de que modo a simplicidade se cruza com a complexidade num balanço fantástico. Por isso vou pegar numa só e tentar explicar brevemente porque se trata de uma obra de um compositor maior. Aproveito simultaneamente para mostrar por que razão acho erradíssima a ideia popular de que esta peça é um exemplo em que Chopin não estava no seu melhor. 

    Concerto para piano e orquestra op.11 nº1 em mi menor - I. Allegro Maestoso 

    O primeiro andamento quebra uma “regra” ao utilizar a forma-sonata de um modo “errado”. Chopin decide não fazer a transição natural para a relativa maior (sol maior) no princípio do concerto, e em vez disso alterna entre mi menor e mi maior até perto do final do andamento, onde finalmente passa para sol maior. Enquanto isto apresenta sempre o terceiro tema, que é o tema mais “alegre” dos três presentes no andamento, interrompendo-o com uma modulação abrupta de mi maior para mi menor. Linguagem musical à parte, o efeito que isto tem é que nunca há um sentimento de conclusão e o ouvinte cai sempre no vazio, como uma criança a quem lhe foi feita uma promessa vã. Mas no final, Chopin utiliza estes dois efeitos em conjunto e culmina numa explosão de satisfação. Neste ponto ele completa o terceiro tema (finalmente, já passados mais de 15 minutos!), e fá-lo utilizando uma progressão de acordes extremamente simples (bastante utilizada na música pop de hoje em dia), e ainda por cima na escala para onde deveria ter partido logo no princípio (sol maior), que é a mais natural dado o contexto harmónico da obra. Em suma, numa jogada extremamente criativa, Chopin aplica um ideia básica e como que nos diz “Esperai, já vos revelo o que está por debaixo do pano!”. É possível deduzir muitas características de um objecto coberto por um pano, tais como a sua dimensão ou forma, mas não é possível saber outras, como a sua cor ou textura. Mas nem tudo são brincadeiras e jogos de crianças, pois mal termina este culminar tão pleno, segue-se, sem qualquer pausa, uma secção final com material completamente novo, de harmonias diferentes e melodias rápidas com um ritmo bastante irregular, que terminam numa secção apressada e aparentemente desorientada. Mas a peça é conduzida a um fim; A um bom fim. E mesmo este incremento no tempo e complexidade é bastante hábil, e é o que dá o golpe final no coração de quem a ouve. Ao suceder o momento em que a plenitude é finalmente atingida, e ao não terminar a música nesse momento, impede forçosamente que esse estado de êxtase se prolongue. E o génio está em entender muito bem como funciona a mente humana; A plenitude é altamente volátil, porque por natureza o Homem vive numa incessante busca da novidade e num aperfeiçoamento que nunca chega a ver o perfeito. 

    Por isso, Chopin, na sua superioridade, constrói o caminho para a perfeição, e prova que não tem um destino. Dá-nos mistérios e dissabores, incertezas e certezas, dá-nos paz e, acima de tudo, relembra-nos do que é ser Homem. 

    21-08-2019