Aníbal de Sousa

Breves Notas

Aníbal de Sousa

Devaneio em dia de São Valentim

Prestemos atenção às coisas sérias!
dizia a minha tia…“Mas sem perder
jamais de vista
                 a poesia!
falava em tom de artista
O meu tio,
Enquanto tateava sob a cama
Procurando
O bacio.

Torradas com manteiga
e algum cio, é que é para mim
a pura poesia!


E, ripando de um lenço lavajado,
Solene, ela cuspia,
Enquanto o velho ria,
Sem, contudo, parar a vil micção.

Olha o que fazes, cão!

E, um pouco atrapalhado,
Então o velho via
Que mijara …o porão…

E assim se interrompia
O devaneio e a discussão…

E a poesia, enfim, se resumia
Àquela porcaria
Ali no chão!

*In É tempo de salvar o que nos resta, inéd.


Breviário Bento e Resignado

I
Deus abençoe os apresentadores e jornalistas que não se cansam de entoar a Antífona 760 760 do Primeiro Livro de Cresus. Eles vieram de Conservatórios e Universidades, trazem licenciaturas, mestrados e doutoramentos e muitos têm Carteira Profissional. Pela fé e pela piedade que demonstram merecem bem a salvação eterna por entre os esplendores da Luz Perpétua.

II
Que Deus tenha piedade dos autores morais e materiais das telenovelas que lideram as audiências em Portugal. É certo que muitos dos que aparecem nos écrans não são atores; são gente miúda recrutada em escolas e em pequenas vilas e cidades da província, em função das audiências que podem carrear. Mas há também por ali atores com nome feito e responsabilidades. A esses só a luta pela subsistência pode justificar o nível dos textos e dos guiões que aceitam. Por todos eles, rezemos para que lhes seja reservado um local tranquilo no Purgatório.

III
Oremos pelos enviados especiais que as estações de televisão portuguesas destacam para os grandes palcos do mundo inteiro, como foi o caso de uma conhecida e venerada portuguesa, por ocasião da investidura de mais um Cardeal português, no Vaticano. Ela trepou aos telhados romanos tentando imitar As Sandálias do Pescador. Infelizmente ficou-se por modestas alpergatas, talvez por razões orçamentais. Devemos rezar por ela e por todos esses enviados especiais que vão aos confins do mundo para nos darem opiniões pessoais e dizerem banalidades, que nem se justificariam na Penha de França ou no Alto do Pina. Para todos eles pedimos um cantinho ameno no Purgatório. E vão com muita sorte; se Dante os apanhasse metia-os a todos, pelo menos, na Segunda Zona do Quarto Círculo do Inferno.

IV
Um dia, a caminho de Jericó, seguia eu com um velho mestre essénio que me disse: “-Sabes? Os jornalistas têm o seu Estatuto, o seu Código Deontológico, têm a Lei de Imprensa e têm o lied, as pirâmides e outras normas e princípios, mas nada disso é dogmático; qualquer um o pode ignorar desde que seja um génio.”

V
Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses: “-Vós, Tessalonicenses, não quereis pagar a vossa dívida aos honestos cambistas do Templo. Argumentais vós que eles vos emprestaram 100 moedas para que vós lhes comprásseis por 150 moedas, cabras que valiam 50 moedas. Ora argumentais vós muito bem! Tendes o meu inteiro apoio. Eu vos prometo que, como Jesus, também expulsarei esses cambistas do Templo.”

VI
Naquele tempo ia Jesus com seus discípulos a caminho de Cafarnaum, disse Pedro ao Senhor: “-Mestre, eles colocam os blocos publicitários todos ao mesmo tempo em todos os canais.”
“-Deixa lá, Pedro! Isso, para eles, parece não configurar ilícito de concertação de modos entre concorrentes. E, de resto, eles apenas fazem isso em 99% dos casos.”

VII
Esta sexta-feira houve um porblema com os porlongamentos dos porjetos dos ilcópteros. Esta quinta-feira choveu. E a próxima quinta-feira também chove. Arranca hoje a primavera improvável e o inverno já era. E aquilo que foi e aquilo que era. E também faz parte. No porgrama o principal personagem é uma bebé. (Telejornais do ano inteiro de todos os canais)
Perante isto, São Judas Tadeu declarou: “-Em verdade vos digo que é mais chique arremeter contra o Acordo Ortográfico do que contra o Asneirês.”

VIII
Os Procuradores das Províncias foram ao Rei Sargão I reclamar da política dos sátrapas. Segundo eles, parecia que estava a ser prosseguida uma política que visava empobrecer cada vez mais o povo. “-É verdade! – disse o Rei! – O contrário é que seria muito mau. Pois quanto mais o povo enriquece, mais come; quanto mais come, mais engorda; quanto mais engorda, mais dorme; quanto mais dorme, menos trabalha; quanto menos trabalha, menos ganha; quanto menos ganha, mais empobrece. Logo, se virem bem, quanto mais o povo enriquece, mais, na verdade, ele empobrece. Assim, ao promover o empobrecimento do povo, estaremos, na realidade, a conduzi-lo à riqueza. Louvemos o Senhor!”

IX
Neste tempo de Quaresma, Páscoa, Pentecostes, Advento e Epifania, oremos ao Senhor para que tenha compaixão e salve os nossos inimigos e adversários, os nossos concorrentes, os nossos governantes, e os árbitros que prejudicam as nossas equipas. E oremos ainda, com particular devoção, por todos aqueles que se divertem e gozam à grande.

X
“-Senhor!” – disse Pedro a Jesus – “está ali uma alminha que quer à força entrar. Diz que ia todos os dias à missa e que, uma vez, deu umas roupinhas usadas a um peditório da Cruz Vermelha. Mas na sua ficha vejo que despediu professores, médicos, funcionários públicos, e que cortou as pensões aos reformados. Isto para não falar de umas trapalhadas com uns cursos da CEE e outras malfeitorias.”
“-Se assim é, não poderá entrar.”
“-Mas Senhor, é um sujeito teimoso. Tentou subornar-me com ações do BES, e diz que quer ajudar-me a ‘passar-Te a perna’ e tomar o Teu lugar.”
“-Mas sendo assim, como quer ele que o deixemos entrar?”
“-É que, Mestre, ele apresenta um cartão dourado; diz que é um Golden Visa.”
“-Ah! Já sei de quem se trata! Olha, Pedro: manda-o entrar e passa-o pela porta dos fundos a Satanás, com um cartãozinho meu dizendo que se trata de um presente. Quando Satã se aperceber que se trata de um presente envenenado, já será tarde; então é que ele verá o que é um Inferno a sério.”

XI
De sorte que todas as gerações desde Eliadoc a Sadiud, são catorze gerações; de Sadiud até ao desterro de Babilónia, catorze gerações; e desde o desterro de Babilónia até Ananeu, catorze gerações.
E Eliadoc foi um escravo de Abraão; Sadiud foi um servo de David; e Ananeu foi o criado que varreu a sala depois da Última Ceia.
Evangelho, segundo o criado de São Mateus.

XII
“-Senhor!” – disse o Camarlengo ao Papa Francisco – “estão ali uns fulanos loiros, que falam como se tivessem a boca cheia de favas, e que insistem em fazer negócios connosco. Já lhes disse que aqui não se fazem negócios, mas eles insistem, insistem; falam em grandes comissões, luvas e dinheiro que nunca mais acaba, e sei lá que mais.”
“-Mas que querem eles, afinal?”
“-Imagine Vossa Santidade – Deus me perdoe - que eles querem que os nossos padres, nas missas, depois do ‘ite missa est’, digam “…E lavem os dentes com pasta Cola Gato!”
“-Ó meu Pai!” – disse o Santo Padre pondo as mãos e erguendo os olhos para o alto – “No que este mundo se tornou! Só me apetecia era tomar o lugar de Cristo na cruz!”
“-Pois é, Iminência! Nem isso lhes ecapa. Eles querem substituir a expressão ‘INRI’ que consta no alto dos crucifixos, por ‘VW’”.

XIII
Senhor, na Vossa infinita bondade, fazei com que eu supere os meus opositores, os meus inimigos, os meus concorrentes. Para Vossa glória e louvor!
Das minhas mãos, Senhor, nascerão templos magníficos e deslumbrantes, que o povo admirará com enlevo e temor de Vós! Fazei, Senhor, com que o meu saber prevaleça e aplainai as veredas do meu destino. Para Vosso gáudio e triunfo, é claro!

XIV
No caminho para a Galileia, Cristo e os seus discípulos, passaram por um viandante que se arrastava penosamente com manifestos sinais de desnutrição e esgotamento.
“-Para onde vais, meu irmão?” – perguntou o Salvador.
“-Ó, meu Senhor! Nem sei bem para onde vou. Fui despedido e disseram-me que emigrasse. Não tenho dinheiro, nem trabalho, nem sorte. Ando à procura de um lugar para viver.”
“-E de onde vens tu, meu irmão?”
“-Da Lusitânia, Senhor! As coisas não vão nada bem por lá.”
“-Mas olha, meu irmão: por aqui também não vais por bons caminhos. Não tarda nada que tudo isto fique repleto de colonatos e de barreiras de arame farpado. O melhor que poderás fazer será mesmo rumar à Terra Brasilis, pois parece que as coisas por lá vão melhorar muito.”

XV
Naquele tempo disse Pedro a Jesus: “-Mestre! Eles não querem que os americanos reduzam o pessoal lá da base das Lajes e, no entanto, despedem milhares e milhares de professores e funcionários públicos.”
Jesus, que escutara atentamente, coçou as têmporas e disse: “-Olha, Pedro: teremos de reformar o Código de Avaliação das Almas e da Atribuição de Penas. Trata disso assim que possas. Pede ajuda ao Dante que é entendido nessas coisas. O mundo está a tornar-se muito complicado.”

XVI
Senhor - disse Pedro a Jesus, – ele acusa os que descobriram a marosca, ele culpa a Administração Fiscal e, no fim, ainda diz que os seus crimes já prescreveram. Senhor, se a moda da prescrição das penas faz jurisprudência lá em baixo, vamos ter problemas, pois logo virão reclamar o mesmo aqui. Achas que os pecados também poderão prescrever?
-Não, Pedro. Aqui não há nem haverá prescrição de pecados. Pecado é e será sempre pecado. Não será por passar um minuto, um ano, ou um século, que um pecado deixará de o ser. Essa coisa da prescrição das penas é a maior e mais infame das diabruras.
-Senhor, mas então, e o Purgatório?
-O Papa Bento XVI decretou o fim do Purgatório. Isso poderia, de facto, resolver alguns problemas. Mas não quisemos, nem queremos, contrariar o nosso representante na Terra. No entanto, poderemos conceder algumas indulgências a certos pecadores que reponham integralmente o que roubaram e que manifestem um sincero e genuíno arrependimento pelo mal que fizeram. Agora, prescrição, jamais!
E Cristo acrescentou ainda:
-Já agora, Pedro, não te esqueças de falar ao Dante nesta questão, para que isso fique bem claro no Código de Avaliação das Almas e da Atribuição de Penas; não vá aparecer por aí algum advogado esperto que nos venha a causar problemas.

XVII
Santa Valburga viu os infinitos programas de culinária, de petiscos, de temperos, de chefes, de tasqueiros e de banquetes, de cozinhas, de fogões, de tachos fumegantes, de pratos simples, ou complicados, coloridos, sofisticados, de grelhados, gratinados, no fogão, na caçarola, na frigideira, e considerando as não menos infinitas legiões de famintos que a invocam, ergueu as mãos ao Céu e proclamou: “-Deus se compadeça deles!”

XVIII
São Bernardino de Sena viu os anúncios e não gostou; São Francisco de Sales viu os jornais e os noticiários das Tv’s e não gostou; São João Bosco viu os filmes, as séries e as novelas e não gostou; São Gelásio viu os palhaços e não gostou; Santa Valburga viu os programas de culinária e não gostou. No fim, reuniram e emitiram um comunicado: “-Verificado que foi o actual estado de coisas, recomendamos aos jornais e televisões e demais espaços de comunicação, que encerrem e reabram mais tarde depois de profunda reflexão.”

XIX
Quando Santa Valburga soube que as esmolas iam ser taxadas e sujeitas a IRS e escrituração apropriada, tal como as moedinhas dos arrumadores e as dádivas para os ceguinhos e para o cancro e que os mendigos tinham de se colectar para poder exercer, foi falar com ele. Depois, reuniu os pobrezinhos e disse-lhes:
“-Olhem: ele foi muito educado comigo e prometeu fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para resolver o problema. Além disso, ele prometeu solenemente voltar a por tudo como estava se votarem nele outra vez.”

XX
São Francisco de Sales fez uma análise exaustiva da situação e depois concluiu no relatório que apresentou a São Gabriel Arcanjo:“-Eles, quando deveriam dar notícias ou fazer reportagens, dão opiniões e tentam produzir literatura, poesia; mas quando pretendem dar opiniões ou fazer literatura, poesia, não fazem outra coisa senão contar histórias, relatar factos.”

XXI
São José, que tinha vindo com a incumbência de ver o que se estava a passar, ouviu o outro dizer do chefe:
“-Nunca tivemos em Portugal um Primeiro-Ministro tão honesto, tão bondoso, tão caridoso, tão escrupuloso, tão cumpridor, tão exemplar, tão piedoso, tão generoso, tão íntegro, tão virtuoso, tão probo, tão honrado, tão imaculado, tão isento, tão altruísta, tão abnegado, tão justo, tão clemente, tão pio, tão bento, tão franciscano.”
São José ouviu ainda o outro dizer baixinho: “- O Salazar não conta para isto, pois não era Primeiro-Ministro, mas Presidente do Conselho.”
“-Ah, bom!” – disse para consigo São José – “Assim já fico mais descansado.”

XXII
Naquele tempo, o homem ainda novo, sujo, magro e trôpego, desenrolou um papel ensebado e disse:
“- Sou portador do vírus da Sida, HIV; dêem-me qualquer coisinha, por favor!”
A multidão acorreu alegremente e deu-lhe leite e mel, taças repletas, donzelas e mansões.
São Mateus registou isso nos seus apontamentos.

XXIII
Naquele dia, comi, bebi, amei, e ri abundantemente.
Então, Satanás veio e disse:
“- Ah! Também gostas! E, no entanto, falas, falas...”
“- Não me levarás contigo, Satã! Bem sabes que não sou tão mau quanto tu precisas...Mas também não me atrairás às armadilhas da santidade.

XXIV
Carta de Antioquia:
“- Pequemos! ...Para que disso nos possamos arrepender e pedir perdão ao Senhor!”

XXV
Como Gandhi, somos herdeiros dos desertos e dos bairros da lata, dos analfabetos, dos paralíticos e dos leprosos;
-Somos herdeiros, também, das bostas das vacas sagradas de Calcutá.
-Somos herdeiros dos subnutridos, dos órfãos, das prostitutas, dos despedidos sem justa causa, dos toxicómanos, dos cantoneiros, dos varredores das ruas, dos cauteleiros, das criadas de servir, dos contínuos das repartições públicas, dos mendigos e dos presos de delito comum;
-Somos herdeiros, também, das bostas das vacas sagradas de Calcutá.

XXVI
Sermão de Santo António aos Papagaios:
“-Quando são os justos que vencem, os vencidos ficam alegres e felizes. -Bem-aventurados os surdos e os cegos, pois a eles pertencerá a mais melodiosa e colorida das eternidades.”

XXVII
Naquele tempo, disse Jesus a São Pedro:
“-Pedro! Afinal parece que sempre existe a tal lista das alminhas que podem pecar à vontade sem que isso conte para o Juízo Final!”
“-Pois é, Senhor. Mas isso ainda vem do tempo do Caifás, do Antigo Testamento. Eu já despedi três levitas e um publicano. Pode ser que eles se calem.”
“-Vê lá, Pedro! Resolve isso depressa! Caso contrário ainda terei de colocar o Paulo no teu lugar. Olha que ele anda a cobiçar o teu cargo!”

XXVIII
Os Banu Annadir:
No dia em que o homem possa ver diante de si tudo o que as suas mãos foram capazes de fazer, exclamará incrédulo: - Oxalá fosse pó!
Nesse dia, ai dos impostores!
Bebei e descansai um pouco, infiéis, porque a ira do Clemente não tarda a cair impiedosa sobre vós!

XXIX
Noé:
“-Em verdade vos digo que, se vos revelar toda a minha imensa sabedoria, vocês me viram as costas.
Sou um náufrago perdido e receio que me encontrem e salvem.
Fecho, finalmente, os olhos e acordo. Mais tarde recitarei este salmo.”

XXX
Santa Clara veio a São Gabriel Arcanjo e disse-lhe:
“-As televisões de todo o mundo estão um verdadeiro lamaçal. Não sei o que fazer por elas. Não me ouvem, nem me ligam. Ó Gabriel, por favor, muda-me para outra devoção. Faz-me padroeira de outra coisa qualquer.”
“-Acalma-te, Clara! As coisas hão-de melhorar.”
“-Não melhoram, Gabriel! Pioram de dia para dia! Agora fazem tudo com grandes planos; dizem que sai mais barato e pensam que produz maiores impactos. E nos desastres e calamidades? Em lugar de fornecerem dados concretos sobre os acontecimentos, só mostram destroços e vítimas ensanguentadas e gente chorosa.”
“-Não estarás a exagerar, Clara?”
“-Não estou, não, Gabriel! Olha: num terço das emissões passam publicidade, noutro terço passam autopromoções, e no resto repetem tudo mil vezes. E os filmes e as séries? Só violência, sangue, tiros, explosões. E tudo passado aceleradamente e com músicas de fundo enlouquecedoras. E as novelas não têm argumento algum, nem beleza, nem piada, nem conteúdo: são bandos de gente fina a dizer o que lhes vem à cabeça, como se aquela fosse a sua vida de todos os dias.”
“-Mas, achas que não se aproveita mesmo nada?”
“-É possível que um ou outro programa tenha algum interesse e alguma qualidade. Mas serão grãos de areia no deserto.”
“Estás, então, bem segura do que me contas?”
“-Estou sim, Gabriel. Eles já perderam o respeito pela ética e pela deontologia. Passam imagens de arquivo como se fossem diretas e não dizem nada; criam acontecimentos falsos para darem oportunidade aos políticos para responderem uns aos outros; usam e abusam do “-Veja já a seguir.”; entrevistam uma pessoa e põem uma voz em ‘off’ a repetir o que ela disse. E fazem isto em todo o mundo. Copiam uns pelos outros. Perderam a vergonha, Gabriel! É preciso fazer alguma coisa por essa gente.”
“-Lamento muito, Clara: mas não poderei fazer grande coisa por isso. Nem posso mudar-te de padroado.”
“-Mas, então, que hei-de fazer?”
“-Olha, Clara: aconselha os teus devotos a desligarem as televisões. Podem aproveitar para ler, para passear e para conversar com a família e com os amigos. Eles verão que isso lhes fará bem.” – e São Gabriel Arcanjo prosseguiu – “-E quanto a esses palermas das televisões, deixa-os da mão. Eles cansar-se-ão, ou cairão de podres.”

XXXI
Do relatório de Santa Clara a São Gabriel Arcanjo:
“-Programação para o dia 26-3-2015, segundo a revista ‘Correio da Manhã TV’, suplemento da edição nº 13062 do ‘Correio da Manhã’.
Para o canal ‘AXN’ – 09,00 Mentes Criminosas; 10,36 Chicago Fire; 12,24 Investigação Criminal; 13,52 Arrow; 15,30 Mentes Criminosas; 17,10 Investigação Criminal; 18,50 Arrow; 20,30 Chicago Fire; 22,15 Como Defender um Assassino; 01,00 Investigação Criminal; 01,44 Arrow; 03,10 Mentes Criminosas; 14,15 Como Defender um Assassino.
Para o canal ‘AXN WHITE’ – 09,38 Traição; 10,25 Pequenas Mentirosas; 11,59 Criadas e Malvadas; 12,46 Pequenas Mentirosas; 18,36 Traição; 21,00 Infiéis; 00,53 Infiéis; 01,40 Pequenas Mentirosas; 04,01 Pequenas Mentirosas.
Para o canal ‘MOV’ – 08,10 Dead Zone; 10,25 Dead Like Me; 01,10 Teen Wolf; 12,40 Dead Like Me; 14,55 Teen Wolf; 15,40 Dead Zone;19,30 As Cinzas do Tempo Redux; 21,00 Dead Zone; 21,45 Defiance; 22,30 True Blood; 23,20 As Portas do Cemitério; 01,40 True Blood; 02,30 Libertem o Inferno; 04,55 Juventude Perdida.”

XXXII
Via espagíria:
“-Verterás o sal e a água pôntica no aludel à sétima hora do sétimo dia de Julho; juntarás orvalho colhido em Março, em noite de Lua Nova, e pó de projeção.
- Eis o Sol e eis a Lua: - Esta é verdadeiramente a Grande Obra.
Porém, nunca gritarás o que pensas na rua!”

XXXIII
“-Santidade!” -disse o camarlengo ao Papa Francisco - “ela afirmou que eles têm os cofres cheios e depois o chefe confirmou isso com todas as letras!”
“-Hum…” – disse o Papa –“E o que diz São Lourenço disso?”
“-Santidade, São Lourenço diz que não se entende com aquela contabilidade criativa.”
“-Mas a que propósito me vens tu falar disso agora?”
“-É que, Santidade, há aquela contazinha antiga, do tempo do Vosso antecessor Lúcio II; as tais 4 onçazinhas de oiro do tal Afonso Henriques, que era um bocadinho intempestivo.”

XXXIV
Zacarias:
“-Já vejo o fio de medidor e o grande livro sagrado; vejo quatro cornos e cavalos vermelhos, brancos e malhados. A bênção do Senhor dos exércitos cairá sobre vós e a nova cidade não terá muralhas nem publicanos e a multidão mover-se-á em paz e alegria.
Oh, tristes, não tendes já escravidão que vos baste? Não vos dirige e guarda o vosso amado Senhor?
Por que pecais sonhando com Terras Prometidas, banquetes, dádivas e cálices repletos?
O lugar onde estiverdes é a vossa Terra Prometida, e aí havereis de suar e padecer alegremente, pelo maior tempo.
Não vos basta a escravidão?
Sede submissos, ó tristes, e amai o vosso Senhor, que vos dirige e guarda!”

XXXV
Epístola dos Tessalonicenses a S. Paulo
Nós, os Tessalonicenses, te desejamos graças e paz.
Tu, Paulo, escreveste-nos em tempos umas epístolas que muito nos conformaram. Com elas aprendemos, de entre muitas outras coisas, o valor da concórdia e do trabalho. Neste particular, chegaste mesmo a dizer que ‘quem não quiser trabalhar não tem direito a comer.’ É claro que percebemos que não te referes a crianças, doentes e velhos.
Mas, Paulo, estamos agora a haver-nos com uns senhores Naodizemosdondenses, que querem que nós trabalhemos sem comer, para que possam eles comer sem trabalhar.
Poderias tu, Paulo, ter a piedade apostólica de escrever umas epistolazinhas também a esses Naodizemosdondenses?

XXXVI
Nietzsche:
“-Livrai-me, Senhor, de remexer nos contentores do lixo e de catar no chão abandonadas pontas de cigarro;
Livrai-me, Senhor, da Luz da Revelação Absoluta e do limbo, da espera eterna e do supremo entendimento;
Livrai-me, Senhor, da paciência infinita, do resplendor perpétuo e das Assistentes Sociais dos bairros degradados;
Livrai-me, Senhor, dos designers, dos copywriters, dos public-relations, dos animadores culturais e dos porteiros dos cabarés;
Livrai-me, Senhor, de agradecer com vénia e chapéu na mão, aos domingos, à saída da missa, uma esmolazinha;
Livrai-me, Senhor, de ter mau hálito e salivar falando, de ser feio, sujo e cheirar mal, e de cair de bêbado nos passeios e causar pena a toda a gente;
...E, sobretudo, Senhor, livrai-me das ideias subversivas e dos desejos de revolta e de vingança.”

XXXVII
Melquisedeque:
“-No meu retrato nada temo e nada me dói; no espelho, porém, eu estou no lado errado.”

XXXVIII
Estavam eles em Bruxelas a falar e a aplaudir-se mutuamente, quando chegou o Eclesiastes e disse:
“-Vocês são pó! Pó e vaidade! E não há nada de novo debaixo do sol que tenha saído das vossas mãos!”
O Presidente ainda tentou interromper o Eclesiastes, mas ele continuou resoluto e confiante:
“-Pó e vaidade! Eis o que vocês são. E se pensam que trazem alguma coisa de novo ao mundo, estão enganados! Já na Suméria-Acádia havia bancos, prestamistas e usurários; mesmo antes disso, já no Cro-Magnom os poderosos tomavam à força as grutas dos mais fracos e faziam-nos escravos; já os Caldeus tinham notários, tribunais, juízes e magistrados; e os Hititas e os Jebuseus já elegiam os seus sátrapas e os seus edis; e os Amorreus e os Amalecitas compravam, vendiam, hipotecavam, tinham escolas, hospitais, termas, teatros, bibliotecas e prisões.”
A Assembleia estava suspensa nas palavras do Eclesiastes, e ele prosseguiu:
“-Vocês governam o mundo há cem mil anos. E que herança deixaram na terra? Não mais que fortificações, templos e palácios! Mais nada! Vocês são pó! Pó e vaidade! E não há nada de novo debaixo do sol que tenha saído das vossas mãos!”

XXXIX
Do segundo relatório de Santa Clara a São Gabriel Arcanjo.
“-Gabriel: identifiquei 3 causas principais para o estado actual da televisão: 1 – ausência de crítica; 2 – o álibi das receitas; 3 – a globalização.
-A ausência de crítica conduziu à irresponsabilização total e ao ascenso da mediocridade;
-O álibi das receitas conduziu à exagerada redução de meios e à pauperização dos resultados, com abuso das autopromoções, dos grandes planos, das repetições, dos interlocutores anónimos e não qualificados, das vozes ‘off’, dos eventos simulados, da publicidade disfarçada;
-A globalização conduziu ao nivelamento, por baixo, das produções universais, sendo que tudo se tornou igual em todo o mundo - produções, formatos, conteúdos e, sobretudo, defeitos, palermices e imbecilidades.”
XL
Complemento do Breviário VII
Bem-aventurados os ‘improváveis’, os que ‘já eram’, os que ‘arrancam’, os que ‘agarram’, os que ‘porjetam’ , ‘porlongam’ e ‘porclamam’ ; Bem-aventurados os ‘ilcópteros’, ‘as bebés’ e os ‘faz parte’ os ‘à séria’, os ‘deu de caras com’ e ‘aquilo que foi’ e ‘aquilo que é’.
São Martinho de Porres reclinou-se no seu nicho e, interrogando-se, disse: “-Mas se eles falam assim, por que razão se manifestam contra o Novo Acordo Ortográfico?

 


A Máquina de Chilrear

Completa-se em 2022 um século sobre a conceção de um dos mais fascinantes quadros de toda a História da Arte: A Máquina de Chilrear. Seria necessário recorrer à mais refinada e erudita écfrase para dar uma ideia razoável sobre esta maravilha da pintura universal. O quadro pode ser visto no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (Mrs. John D. Rockefeller Jr. Purchase Fund.), mas com um bocado de sorte podem ver-se reproduções mais ou menos aceitáveis em manuais avulsos da especialidade.

Trata-se de uma engrenagem de elementos finos dotados de uma manivela, com um arame helicoidal sobre o qual poisam pássaros, ou só os bicos deles, numa postura que nos permite quase ouvi-los chilrear. A manivela está projetada numa reta que parece prender-se na parede e se apoia num suporte vertical. Na base uma mesa baixa, transparente, irradia uma claridade rosa que contrasta com o fundo azul deslumbrado e manso, só perturbado, no topo, por outra explosão de rosa de um lado e escura do outro. Tudo bordejado por uma moldura de um verde denso, amistoso e doce.

Podia talvez atribui-se ao quadro uma matriz infantilista, ou primitivista, se não fosse a profunda emoção, a musicalidade, a poesia, que dele brota. Também se lhe podia atribuir um estilo mecanicista, industrial, mas é tal a ternura e a ingenuidade que irradia, que isso não faria sentido algum.

O seu autor, Paul Klee, nasceu em 18 de Dezembro de 1879, em Munchenburchsee, na Suiça, mas recebeu a nacionalidade alemã por parte de seu pai. Sua mãe era suiça e ele sempre desejou adquirir essa nacionalidade. Faleceu em 29 de Junho de 1940, em Locarno-Muralto, sofrendo de uma terrível doença da pele, quando estava prestes a conseguir esse objetivo.

O quadro foi gerado quando o artista era também professor na celebrada escola vanguardista de arte e arquitetura, Bauhaus, ainda em Weimer, antes dessa prodigiosa instituição ser transferida para Dessau e Berlin, para ser extinta em 1933 pelos nazis.

Klee conheceu e privou com todas as escolas, tendências e movimentações artísticas do seu tempo, mas não aderiu formalmente a nenhuma. Esteve presente na primeira exposição oficial surrealista, organizada em Novembro de 1925, na galeria Pierre (Loeb), na rue des Beaux-Arts, em Paris, com Arp, De Chirico, Ernst, Masson, Miró, Picasso, Man Ray e Pierre Roy[i] . Conheceu e participou no movimento Blaue Reiter, com Kubin, Macke, Kandinsky, relacionou-se com Dada e tinha grande admiração por Van Gogh.

Mas Klee sempre prosseguiu a sua linha autónoma, de pintor, poeta e músico, só por si reflexo da História da Arte da primeira metade do século XX.

Havia uma tradição musical na sua família e ele mesmo recebeu uma sólida formação, tendo sido um notável violinista. Talvez por isso os seus quadros parecem irradiar melodias: doces cantatas, árias e fugas de Bach.

Em 1912 completa a ilustração do romance Cândido ou o Otimismo de Voltaire.[ii]

Em 1916, Paul Klee é incorporado no exército alemão. Nesse mesmo ano realiza-se na galeria Der Sturm, em Berlin, uma exposição onde, pela primeira vez, ele assume ter vendido bem os seus trabalhos. Tinha realizado, em 1914, uma proveitosa viagem à Tunísia, onde conheceu as glórias da luz daquela terra, o que o levou a profundas experiências e estudos sobre a cor. “ (…) eu e a cor somos uma só coisa. Agora sou pintor.” – disse ele na altura.[iii]

Em 1937 recebe a visita de Kandinsky e Picasso em Berna. Nesse ano, em 19 de Julho, realizou-se na Hofgarten, em Munique, a degradante e tristemente célebre exposição da Arte Degenerada, onde se exibiram 17 quadros seus, num total de 650 confiscados de 23 museus alemães. Hitler expropriou trabalhos de impressionistas, cubistas, fauvistas, expressionistas, surrealistas, dadaistas e de outros modernistas que considerava degenerados e decadentes, para mostrar aos arianos nazis a glória da arte oficial do Terceiro Reich, neoclássica e naturalista. Por esse tempo faziam-se fogueiras nas ruas onde se queimavam os livros proibidos.

Em 15 de Setembro de 1906, Paul Klee casa com Lily Stumpf, uma pianista que conheceu meia dúzia de anos antes num serão musical. Casam em Berna, mas mudam-se depois para um bairro periférico de Munique. Vivem num pequeno apartamento de três divisões. Lily dá aulas de piano e Paul faz a lida da casa e trata do filho.

Numa vida de 60 anos, Klee, músico, poeta e pintor, teórico da pintura, sempre presente na crista dos movimentos intelectuais e artísticos do seu tempo, nunca parou de criar. Contam-se no seu catálogo mais de 9.000 títulos. [iv]



[i] ABCedário do Surrealismo, Edição Portuguesa da Reborn, 2001 Flamarion, Paris, p.20.

[ii] Génios da Pintura, nº 42, Klee, 1963, Abril Cultural SA, São Paulo, Brasil, p.56

[iii] Idem, p.59.

[iv] Partsch, Susana, Paul Klee – 1879-1940, Taschen – Público. 2004 TASCHEN GmbH

 


O Padre Pedro e a Professora Sara

Na primeira vez que me confessei, senti que iria realizar uma experiência iniciática, que me transformaria e me colocaria a par de toda a gente que enchia a igreja, conhecedor, também, daquele mistério. Estava nervoso, mas decidido.

Quando me ajoelhei e encostei a cabeça à grade do confessionário, ouvi uma voz, que eu sabia ser a do padre Pedro, mas que me parecia vir do Além inatingível. Era uma voz segredada, bíblica, que me comandava e à qual eu me entregava sem reservas. Repeti o Ato de Contrição e logo me senti esmagado pelo peso dos enormes pecados de que, só naquele momento, tomava consciência plena de ter cometido. «-Confessa os pecados que cometeste por pensamentos, palavras e ações!» E confessei que tinha chegado a casa depois da hora que me fora estabelecida; que, sem querer, partira a asa de uma terrina, e não me tinha acusado; que durante a missa não tirava os olhos de uma menina, a Gracinha, que me fascinava; que tinha copiado uma conta numa prova, na escola; que uma vez em que me baixei para apanhar um lápis do chão, vi as pernas e as cuequinhas azuis da professora D. Sara; que mentira ao Jesuíno Rochinha, dizendo-lhe que tinha no Algarve uns avós muito ricos; que tinha achado o abafador perdido pelo Costinha e não lho devolvera; que tinha chamado nomes ao Luís Henrique; que tinha roubado uns damascos do quintal do Salvador Matias.

E talvez não me tivesse calado nunca mais, se a voz surdinada do confessionário não me tivesse interrompido para me admoestar com severidade e para me impor a penitência de seis ave-marias e seis pai-nossos. Que me arrependesse e não voltasse a pecar.

Quando saí da igreja, com a penitência cumprida, senti-me leve, puro, bom. No dia seguinte, rapazes e raparigas fariam a primeira comunhão. Nós, com laços alvíssimos no braço; elas, todas de branco e com grandes véus de tule presos na cabeça com singelas coroas de flores.

Foi outro momento de grande exaltação, aquele em que recebi solenemente a Hóstia Consagrada. Senti um frémito purificante que me deixou pronto para franquear as portas do Paraíso.

Durante algum tempo essas sensações místicas foram-se mantendo e mesmo aprofundando, por exemplo, quando por vezes me era pedido que fizesse a leitura da Epístola. Nessas alturas sentia-me instruído por celestiais anélitos.

Mas o contacto mais próximo com as cerimónias religiosas e com os objetos do culto - cálice, patena, sacrário, píxide, custódia, turíbulo - e com estolas, casulas, alvas e amictos, e com o ambiente da sacristia, foi pouco a pouco embaciando aos meus olhos o brilho luminoso das encenações litúrgicas. E também a vida, que corria célere, todos os dias me confrontava com novas dúvidas e interrogações. E, com o andar dos tempos, passei a sentir um grande desconforto com as missas, a sacristia, as procissões. E passei mesmo a chegar tarde e a faltar às eucaristias dominicais, e deixei de me ajoelhar no confessionário, onde havia já muita matéria que eu omitia, por não acreditar que pudesse ser pecaminosa.

In Cerro Alto, inéd.


Breve arrolamento toponímico acerca de
PARRAGIL - GILVRASINO

A propósito do assunto em epígrafe. Por um lado, os topónimos Gilvrasino e Parragil conflituam, por outro lado identificam uma constelação de sítios e lugares que vão progressivamente mudando de nome, merecendo atenção também o que se passa com os lugares de Nora dos Velhos e Cerro Alto, com relação a Soalheira, Varjota e Palmeiral.

Destaque para a hipótese, que há quem levante, de Parragil se situar na rota da exploração fenícia de sal gema no Algarve.

Acresce ainda o facto de se encontrar uma estranha e considerável disseminação do patronímico Parragil nos EUA (Arizona, Califórnia, Novo México) e no México (Sonora), tanto quanto pude apurar. Esta pista merece ser estudada por quem saiba e o possa fazer.

De notar que o topónimo Parragil não aparece mencionado na relação dos "Montes" no Rol dos Confessados da Freguesia de São Clemente de Loulé de 1835.

O que poderemos considerar como o centro do Parragil, à volta de um antiquíssimo poço - que nunca secava e abastecia gente de léguas em redor, atualmente fora de uso, - tem uma localização digna de nota: sobe-se de sul para norte e de norte para sul e desce-se de leste para oeste e de oeste para leste.

Bordejando os limites do topónimo Parragil, fica a capelinha de Nossa Senhora da Boa Hora, que Francisco Lameira localiza nos princípios do Séc. XVIII. Ora, uma notável figura local, José Debrúzias, em Junho de 1970, reclama a criação da Freguesia de Boa Hora, para aquela região, com o propósito de concitar o apoio das gentes de outros lugares periféricos.

Esta é uma matéria fascinante que justifica a participação, além dos especialistas em
Toponímia, também de os de outras disciplinas como a História e a Genealogia.

Aceda ao documento aqui:
Breve arrolamento toponímico acerca de PARRAGIL - GILVRASINO - PDF


Breves Notas sobre o Zéjel

O Zéjel é uma forma poética arábico-andaluza que Ramon Menendez Pidal estudou, tal como Rodrigues Lobo, e a que atribuiu enorme importância na formatação poética, sobretudo da Península Ibérica, mas também do Sul de França e da Itália e de toda a bacia mediterrânica.
A sua invenção é atribuída a Muqaddam ibn Muafá al Qabri (847-912), sendo mais tarde tratado e reformulado por Ibne Gusmão (1078-1160).

Trata-se de uma poética apoiada em canto e dança, constituída por um estribilho que alterna, no formato de al Qabri, com uma infinidade de estrofes de quatro versos, sendo que o último rima com esse mesmo estribilho que, por sua vez, era entoado por um coro. A celebração do Zéjel aconteceria em festas populares ao ar livre.

No tempo de Ibne Gusmão já o Zéjel tinha sido admitido nas cortes senhoriais e naturalmente ganhou uma forma mais abreviada e mais erudita.

Apresento a seguir quatro exemplos de Zéjel, sendo que o referido a Loulé mostra o modelo mais elaborado do séc. XII, enquanto os que se referem a Palmela, São Brás e ao mar são construídos segundo a tradição dos séculos IX, X.
São apenas ensaios com o que pretendi recriar o espírito arábico-andaluz que deixou tantas raízes entre nós.

Bendita sejas, Palmela!

Nasce o sol, abro a janela;
Bendita sejas, Palmela!


      Como um lírio, uma açucena,
      Na serra verde, verbena,
      Flutuas doce e serena,
      E ris-te, casta donzela;

Nasce o sol, abro a janela;
Bendita sejas, Palmela!


      Enche-se o ar de frescura,
      De uma azulada ternura
      E a alma respira, pura,
      Mais quem respira com ela;

Nasce o sol, abro a janela;
Bendita sejas, Palmela!


      Na manhã santa, rezada,
      Rosada espreitas, pintada,
      Tão carmim, tão anilada,
      Foi Deus que te quis tão bela;

Nasce o sol, abro a janela;
Bendita sejas, Palmela!

* * *

Três mourinhas de Loulé

Três mourinhas de Loulé,
Cássima, Tula, Salé.


      Três mourinhas me prenderam,
                                          de Loulé,
      Cássima, Tula, Salé.

      Três mourinhas tão trigueiras,
      Tão garridas, tão brejeiras,
      Belas mouras feiticeiras
                                          de Loulé,
      Cássima, Tula, Salé.

      Quem sois vós, jovens senhoras,
      Tão belas, tão sedutoras?
     
Somos cristãs, fomos mouras,
                                          de Loulé,
      Cássima, Tula, Salé.

      São três mourinhas cristãs,
      Colhendo figos, romãs,
      Três langorosas irmãs
                                          de Loulé,
      Cássima, Tula, Salé.

* * *

Nas colinas de São Brás

Nas colinas de São Brás
Encontro, serena, a paz.


      Cansado de guerra e morte,
      De ser cruel e ser forte,
      Procuro agora outra sorte,
      Que a vida é breve e fugaz,

Nas colinas de São Brás
Encontro, serena, a paz.


      Cansado de fome e dor,
      De atrocidades, de horror,
      Procuro agora o amor,
      Oh, meu amor, onde estás?

Nas colinas de São Brás
Encontro, serena, a paz.


      Cansado de fome e frio,
      Procuro o sol algarvio,
      Oh, meu amor, quem te viu?
      Quem novas, de ti, me traz?

Nas colinas de São Brás
Encontro, serena, a paz.

* * *

Três princesas coloridas

À beira do mar floridas
Três princesas coloridas.


      Oh! Que princesas tão belas,
      Que jovens lindas aquelas,
      Tão atraentes donzelas,
      Sobre a areia aparecidas.

À beira do mar floridas
Três princesas coloridas.


      Três princesas a bailar,
      Deslumbrantes ao luar,
      Mas que belezas sem par;
      Danças venais, proibidas.

À beira do mar floridas
Três princesas coloridas.


      Que alegres, que langorosas,
      Que danças pecaminosas;
      Três feiticeiras formosas,
      Do alto dos céus descidas.

À beira do mar floridas
Três princesas coloridas.


      Três bailarinas lascivas,
      Nas suas danças furtivas;
      Três andaluzas, três divas,
      Na praia ardente perdidas.

À beira do mar floridas
Três princesas coloridas.