Margarida Vale

Os novos medievais

Margarida Vale

Os Reinos Merovíngios

Nos finais do século V, o rei Clóvis conquista a Gália através das armas. Os romanos não aceitam esta derrota com facilidade por isso o período que se segue será de lutas pelo poder supremo. A boa e a má vontade dos nobres será testada até ao extremo através da violência e da desordem. Esta é a imagem que vai sendo passada na memória coletiva desta época, um período muito obscuro e sanguinário.

No decurso dos séculos V e VI, os Bárbaros fixaram-se nas regiões da Europa e aí criaram estados. Dir-se-ia que continuariam a chacina a eito mas algo se modificou nestas gentes que acabaram por dar origem a reinos que deixaram marcas poderosas mas com sinal oposto ao do seu início. Se antes a ideia era devastar, agora era conquistar e assim amealhar.

Oriundos da região do Elba, ao Anglos e os Saxões, tomaram posse do território que, mais tarde, ganhará o nome de Inglaterra. Fundaram sete pequenos estados que ficaram conhecidos com o nome de Heptarquia. Nortúmbria, Mércia, Ânglia Oriental, Essex, Sussex e Wessex. Reinos pagãos que depois se cristianizaram.

Os Ostrogodos tomaram Itália em 489-93 fundando um reino que vai passando de mãos. Meio século depois o imperador bizantino reconquista-o e, na sua última vaga de trocas, é substituído pelos últimos invasores germanos, os Lombardos já em 568. Um território que andou em bolandas e que se reinventou.

Os Visigodos, os mais temíveis e terríveis destruidores de Roma em 410, arrebanham caminho e seguem até à Gália, ficando instalados dos dois lados dos Pirinéus, quer na Aquitânia, quer em Espanha. Toulose vem a ser a capital do reino que estende os seus domínios até ao Loire.

Os Burgúndios instalam-se no sudoeste da Gália e no final do século V dominavam toda a zona da bacia do Ródano, marcando a sua forma de estar e de manter alianças com quem lhes poderiam trazer os maiores benefícios políticos, incluindo os casamentos.

Os Francos ficam no norte da Gália, dividindo-se em tribos com reis individuais. É uma destas tribos que tem como soberano Childerico, pai de Clóvis, sendo que consegue a unidade destes povos deixando aos seus sucessores um trabalho menos penoso.

Clóvis assistirá a inúmeros confrontos contra todos os mencionados povos. A guerrilha alastra até Espanha, contra a resistência basca, provando que estava apto a qualquer confronto. As guerrilhas dinásticas são um palco interessante para a conquista do poder, mostrando o alastrar da violência como se fosse um fósforo lançado em palha seca.

O assassinato político, o que leva à eliminação do inimigo, é uma técnica bem explorada nestes tempos apesar de não ser seu apanágio. A pesada herança romana assim o obriga. Sem corpo não existem provas e o dito fica por não dito. Ideia que terá seguimento ao longo dos tempos.

Clóvis será o primeiro a conduzir a unificação do seu povo e, como se pode calcular, passa ordens para que Sigesberto, o Coxo, rei de Colónia, deixe de existir. Fica o caminho liberto para que Ragnacário, rei de Cambrai e Riquier, o seu irmão, sejam também eliminados. Desta vez foi Clóvis que tratou do assunto com um machado.

O sangue não se perdeu e durante anos a chacina foi contínua chegando a ter requintes de malvadez de que se destaca o episódio da morte de Brunilde, uma mulher de 80 anos. Foi presa pelos cabelos à cauda de um cavalo selvagem. Um espetáculo de teor pedagógico com os resultados desejados. Claro que estamos a falar de contendas dentro da mesma família.

A escalada de terror e horror inclui ainda os grandes nobres e os prelados de que se destaca o martírio do bispo de Autun, Léger. Este, por se opor a uma certa nomeação, foram-lhe cortados os lábios e a língua, os olhos vazados e de seguida, como toque final, é degolado. Como se tudo não fosse suficiente, ainda foi ainda lançado a um poço.

É neste contexto que surge a lei sálica, uma forma de travar esta onda desenfreada que invadia povos e se propagava a olhos vistos. As penas criminais tentam tornar a pena de talião " olho por olho, dente por dente ", de forma a quebrar o ritmo das vinganças. Assim sendo, a forma de reparação dos males feitos pode ser amenizada com pagamento de coimas. Criam-se, assim, listas compensatórias para fechar o ciclo. Caso não haja possibilidade de pagar, o direito de represália assiste-lhes.

Tempos medievais que soam a muito familiares. Hoje a violência é exercida de modo mais suave, com nomes elegantes mas que continua a castrar de forma dolorosa. São as multas, os castigos, as detenções, o enxovalho público, o ansiado gozo popular. E o povo é sempre aquele que mais sabe apontar o dedo e virar o prego quando é preciso.

As trevas tendem a descer e a cobrir os céus de hoje. Se não é pelo lugar de chefia é pelo mediatismo e, estes novos dirigentes, precisam de ter um exército grande e bem domesticado. O pão que lhes lançam, cheio de ranço, é tido como especial. Os escolhidos, os que o pensam ser, estão atentos a todos os movimentos para ver se alguém levantou a cabeça e se as normas, aquelas que mudam a toda a hora, estão a ser cumpridas.

Hoje não são os reinos que se degladiam mas existem somente uma espécie de guerra civil. De um lado temos os mascarados e do outros os de cara lavada. Uns aparentam ser as formigas que se encaminham para o carreiro e os outros desviam-se para encontrar novas rotas. Ainda não são muitos, o que provoca o efeito necessário, o de revolução.

Se Jesus Cristo não tivesse dito que vinha salvar os pecadores, todos os que viviam naquela época continuavam a ser politeístas. Ele, um, o homem, apenas uma pessoa, conseguiu virar o mundo e transformá-lo de tal ordem que se tornou persona non grata. Se houve muitos que o seguiram, aquando da sua detenção, esses mesmos, viraram-lhe as costas e até o insultaram.

Galileu, aos olhos de agora, seria considerado um negacionista. Foi forçado a retirar o que tinha afirmado mas a ciência e o tempo vieram a dar-lhe toda a razão. Ele sabia mas o mundo da ignorância onde a população vivia, era bem mais confortável e seguro do que aquele que ele apresentava. Era um risco grande pensar.

A Resistência teve um papel preponderante. Sem a ajuda preciosa dos que se chegaram à frente, arriscando a sua vida para que se soubesse, por artes e manhas nem sempre fáceis, o que estava previsto acontecer do lado do inimigo, a guerra talvez tivesse um outro desfecho. A coragem e a audácia permitiu que o rumo desejado fosse atingido.

Salgueiro Maia não vacilou nem um momento. O que estava combinado, mesmo com desvios e percalços, foi levado até ao fim. Era uma ilegalidade, uma violência maior para um militar, um capitão que se revoltava. A ideia inicial podia não ser aquela em que se transformou mas a sua coragem e a garra, permitiram-lhe o avanço.

Que se passa, então? Onde está a fibra dos destemidos e ousados que deram novas terras ao mundo e que não se incomodaram de enfrentar as vagas em barcos que mais pareciam casca de noz? Os deuses estiveram do seu lado e encaminharam-nos até à vitória final, a chegarem a bom porto. Heróis que se glorificam e que se eternizam.

Onde reside a herança que nos foi legada? Que é feito daquela ancestral e poderosa audácia que favoreceu os bravos e os valentes? Estaremos destinados a entrar em declínio ou há esperança de que o Quinto Império ainda possa ser uma realidade? A liberdade sempre gostou de passar por aqui e há que a continuar a acolher e cuidar, como se fosse sempre jovem e atraente.