Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

Música aos quadradinhos

Depois deste confinamento a que todos fomos sujeitos, vimo-nos obrigados a um distanciamento físico com os nossos colegas, conhecidos e amigos. Felizes os que conseguiram ter junto a si a família mais direta, pois, doutra forma, estariam condenados a um verdadeiro isolamento social. Mas o que dizer de quem só consegue colocar o pão em cima da mesa através do trabalho coletivo desenvolvido com outros profissionais do mesmo ramo? E são tantos! 

Por mais multi-instrumentista que um músico possa ser, só conseguirá mostrar a dimensão, profundidade, abrangência e qualidade da sua música se a conseguir harmonizar com a música produzida pelos pares que com ele labutam, em sincronia plena - ao vivo. Seja nos ensaios, nos testes de som ou nos concertos, a música executada em grupo só atingirá o resultado desejado quando, una e indivisível, chegar ao ouvinte, como um casamento perfeito entre os seus membros. 

Em total isolamento e afastamento presencial dos seus colegas de conjuntos, agrupamentos, bandas, coros e orquestras, muitos dos seus elementos têm tentado manter-se ativos no estudo, no aperfeiçoamento e na execução do seu instrumento. Mas como interagir com os seus camaradas de lida musical? A resposta encontra-se, obviamente, no uso das ferramentas telemáticas ao dispor.  

Com inúmeros programas de comunicação virtual ao dispor, muitos músicos começaram a usar a comunicação assíncrona (interação e comunicação temporalmente diferida) e a comunicação síncrona (interação em tempo real através da utilização de recursos tecnológicos síncronos). Trocando e partilhando ficheiros áudio e vídeo entre si e visionando, ensinando e aprendendo novas formas de executar e interpretar, muitos músicos, na falta de um palco para se mostrarem, começaram a fazer das redes sociais os seus palcos privilegiados.  

Não podendo tocar em conjunto, os músicos começaram a valer-se da técnica usada em quase todos os estúdios de gravação: tocar/cantar por cima de uma pista sonora já pré-gravada. Gravados em distintos aparelhos tecnológicos e em condições acústicas diferenciadas, limitam-se a enviar a sua prestação individual para alguém que, com os programas de edição caseira disponíveis, se substitui a um engenheiro de som/imagem e, numa tela segmentada em pequenos quadrados, encarregar-se-á de nos fazer crer que estamos a “ouver” os grupos que nos habituámos a apreciar ao vivo.

De repente, vemos músicos aprisionados em quadradinhos, interpretando a música que devia ser sentida, absorvida e partilhada por todos, no mesmo espaço, no mesmo tempo e com todos os sentidos alerta e em sintonia. Ao vivo, como se quer a música viva. Será que teremos de esperar o tempo necessário para ficarmos imunes, para nos livrar deste vírus telemático que nos prende em pequenas jaulas nos nossos/vossos écrans? Faço figas para que não. A bem da música!


Para grandes males grandes músicas

Devido a um malfadado vírus, fomos forçados a permanecer confinados em casa por tempo indeterminado. Ainda a “procissão vai no adro” e este isolamento físico já teve o condão de, através das redes sociais, abrir a casa/espaço de muitos à comunidade. Entre pseudo-dotes, almejados-dotes, declarados-dotes, assumidos-dotes e reconhecidos-dotes, muitos portugueses têm procurado ocupar os seus tempos livres (das habituais ocupações) produzindo, interpretando e partilhando música on-line ou nas varandas das suas casas.  

Além de servir como uma boa terapia ocupacional, a música tem servido também para combater o isolamento social, potenciando a interação familiar, tal como o entretenimento e a fruição de quem a consome. A música é uma parte importante da nossa identidade e o seu potencial simbólico reside no facto de poder ser usada para expressar e manter tanto as diferenças como as similaridades. 

A música é uma das formas de expressão da cultura popular que exerce uma importante função na construção de identidades na sociedade moderna. Conseguindo quebrar a barreira das diferenças culturais, possibilita novas práticas sociais. Independentemente das diversas categorias étnicas da sociedade, as pessoas formam identidades em torno de diferentes tipos de músicas. 

As evidências científicas ainda são ténues, mas alguns estudos têm mostrado que, além do bem-estar e do prazer que proporciona, ouvir música pode ter efeitos terapêuticos em diversas áreas, sobretudo ao nível do comportamento. Diferentes regiões do cérebro são responsáveis por interpretar diferentes propriedades da música, podendo assim explicar a sensação de “arrepio na espinha” que sentimos ao ouvir determinadas músicas.

Estimulando a libertação de dopamina (uma substância química que promove a motivação e o bem-estar), a música molda sentimentos e emoções, ajudando ainda a gerir sensações menos agradáveis, já que funciona como uma distração, desviando a atenção de eventuais fontes de stress e ansiedade. Ajuda também a reduzir a tensão muscular e diminui a libertação de hormonas associadas ao stress.

Procurando usá-la como mais necessitamos ou nos agrada, a música mostra-nos ser útil em diferentes momentos. Um dado que tem sido apontado como razão da música estar tão presente em distintas situações das nossas vidas é sabermos que grande parte das pessoas costuma gostar de ouvir entre oito a dez géneros de música. É quase como se tivéssemos um tipo de música para cada situação!

Vivendo um período conturbado das nossas vidas, em que um vírus nos roubou o prazer de produzir, tocar e desfrutar - presencialmente - com os outros, aqui apelo que façam também da música um escudo protetor para os males que vos possam afligir. Porque não há mal que sempre dure, ao contrário da música!


Música no 1.º ciclo de escolaridade?

Não poderia estar mais de acordo com a introdução ao documento “Aprendizagens essenciais/ Articulação com o perfil do aluno” que o Ministério da Educação, em julho de 2018, publicou como documento orientador para o ensino/aprendizagem da Música no 1.º ciclo de escolaridade: “(…) A música é uma prática social comunicativa e expressiva. A partir do ouvir e através da produção sonora em conjunto do cantar, do tocar, do compor, do olhar, do escutar, as crianças e jovens dialogam e constroem significados, partilhando-os e transformando-os, enriquecendo assim as suas práticas e horizontes culturais, em consonância com as diferentes Áreas de Competências do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PA). A música existe no conjunto, no fazer e partilhar com os outros, no dialogar, na pergunta-resposta, e em inúmeros pequenos rituais que fazem parte do nosso quotidiano coletivo. (…) Desta forma, propõe-se que, à medida que progridem, os alunos aprofundem a sua apreciação, compreensão e desempenho musicais, permitindo criar, recriar e ouvir através do desenvolvimento de competências de experimentação, de improvisação, de composição, de escuta, de reflexão, de movimento, de interpretação (no sentido de performance), contribuindo para a sua formação como sujeitos criadores e fruidores de Música”.

No campo teórico e das intenções, este texto faz todo o sentido. Os jovens aprendizes, até antes do primeiro ciclo de escolaridade, deverão tomar contacto com as grandes aprendizagens essenciais na área da música: experimentação e criação, interpretação e comunicação e apropriação e reflexão. Mas como implementar no terreno tais meritórias intenções?

Enquanto professor e formador, tenho vindo a constatar que nos últimos anos em que tem sido realizada a prova de aferição de Expressões Artísticas no 2.º ano de escolaridade, cada vez me chegam mais relatos de professores titulares das turmas, comprovando que não basta exarar documentos orientadores muito bem intencionados, quando quem os irá aplicar não está preparado nem estimulado para o fazer.

Por vários motivos que espelham a realidade de um país que não se encontra na situação económico/financeira dos países que inspiraram a produção do documento sobre o qual aqui escrevo, é hoje possível constatar que não basta querer, é preciso ter os meios para fazer acontecer. Com mais de metade dos professores do 1.º ciclo de escolaridade (extenuados e ansiosos) à beira da reforma, com a falta de formação contínua na área da Expressão Musical, sem o investimento em novos equipamentos e materiais de produção musical e sem o interesse das novas gerações em abraçar a profissão de professor, vejo com alguma reserva e desconfiança a colocação em prática de tão ambiciosas teorias.

Serão as famigeradas, a seu tempo, AEC (Atividades de Enriquecimento Curricular) e os atuais professores titulares das turmas do 1.º ciclo, que se desdobram pelas várias áreas curriculares, muitas vezes sem condições infraestruturais e materiais, que conseguirão implementar tal desiderato para a Educação Musical no 1.º ciclo de escolaridade? Por mais provas de aferição que todos os anos se realizem, não me parece ser possível aferir o que, por falta de real e eficaz investimento, se resume a meros processos de intenção. “Onde é que já vi este filme?”, é o que me apetece perguntar, após algumas décadas de ensino que já levo em cima.


Música tradicional – um património imaterial que urge apoiar

Há mais de trinta anos, quando ia ao Círculo Cultural do Algarve (Faro) assistir aos ensaios do grupo Dar de Vaia, estava longe de imaginar que, volvidos tantos anos, a representação da música tradicional portuguesa/algarvia no Algarve iria estar restringida a uma meia dúzia de grupos que, estoicamente, resistem ao abandono e desinteresse das entidades produtoras e promotoras musicais.

Entristece-me e confrange-me saber que muitos grupos que por cá (Algarve) existiam, e que ajudavam a preservar, a divulgar, a promover e a enriquecer a música tradicional portuguesa, foram obrigados a terminar ou a virar-se para outros géneros musicais, uma vez que, progressiva e acentuadamente, lhes foi faltando o apoio que lhes garantiria a motivação necessária para continuarem a despender o seu tempo, disponibilidade e algumas poupanças na nobre e meritória função de manter vivo o património imaterial musical português.

Não sendo a música de raiz, cariz e inspiração tradicional portuguesa uma música comparável à música que é tornada popular pelo destaque e promoção que são dados pelos órgãos de comunicação e pelas redes sociais, naturalmente não é solicitada para os eventos e iniciativas a que deveria estar também associada. Não é, de facto, uma música destinada a grandes animações, festas e ações de entretinimento, e por isso tem sido penalizada, ostracizada e esquecida.

Saúdo o investimento que algumas entidades públicas na área da cultura, da educação, do turismo e da administração local têm vindo a efetuar na reabilitação, promoção e divulgação de algum património edificado (material) do Algarve. É claro que gostaria que a mesma atenção, dedicação e investimento fossem também concedidos a quem mantém vivas as tradições musicais portuguesas (património imaterial).

Não gosto muito de ter que recorrer a comparações para que quem de direito e com responsabilidades reflita na importância das suas ações, mas quando determinadas inações têm consequências diretas na vida das pessoas, sinto-me na obrigação de, publicamente, referir o que me é dado a observar nos países que levam a sério o investimento no apoio ao seu património imaterial. Basta atravessar a fronteira e entrar na vizinha Espanha e constataremos o valor que, em qualquer espaço público, qualquer espanhol dá à sua música regional.

Não basta usar o slogan “O que é português é bom!”, quando, recorrentemente, se vota ao esquecimento as raízes musicais que nos fizeram chegar à música portuguesa que, hoje, é dada a fruir ao mundo. Porque quem renega as suas tradições, jamais terá uma perspetiva do que virá a ser o seu futuro!


Palmas para ti, António Lopes

Quem, como eu, privou com o Professor Doutor António Lopes sabe que ao vê-lo partir, ficámos privados do contacto físico com um grande homem e, sobretudo, com um homem bom. Ao deixar-nos, várias instituições de ensino a que esteve ligado constataram, de imediato, o seu empobrecimento. O “nosso” António levou com ele um enorme saber e uma alegria de viver que contagiou todos os que com ele privaram.

Sendo um homem das letras (professor universitário de língua inglesa, cultura inglesa, literatura inglesa, estudos culturais e estudos literários), desde o primeiro dia colocou ao dispor do Conservatório de Música de Olhão (CMO) toda a sua musicalidade, criatividade, sabedoria, disponibilidade e bondade. Pai atento, colaborante e participativo, foi um exemplo a seguir para todos os que acreditam na realização dos sonhos através do empenho, do trabalho, da dedicação e da perseverança.

Com um sorriso nos lábios, os seus olhos cintilavam quando, disponibilizando-se para acompanhar os alunos do CMO, colocava as mãos no piano e mostrava ao mundo que a música era também o seu mundo. Sempre disponível para o que fosse necessário, desde cedo, constituiu-se como uma peça-chave na engrenagem que faz mover uma escola de música.

Sempre com um enorme desejo de aprender, aceitou o desafio que o Conservatório lhe lançou para que abraçasse a aprendizagem de um instrumento à medida da sua grandeza – o contrabaixo. E em pouco tempo foi possível vê-lo a tocar, dedicado e seguro, com a orquestra de cordas do CMO, tendo sido um exemplo para todos, principalmente para os mais novos.

É sabido que a grandiosidade de poucos toca e é estrela-guia para muitos. Foi e continuará a ser o caso do amigo de sempre (e para sempre) António Lopes. Todos nós, elementos que constituem o Conservatório de Música de Olhão, teremos por ele uma eterna dívida de gratidão. De pé e efusivamente, prestar-lhe-emos, sempre, a devida e merecida homenagem.

Palmas, muitas palmas para ti, António. Mereceste-as em vida e continuarás a merecê-las onde quer que estejas!

* António Lopes, natural de Faro, foi professor da Universidade do Algarve. Faleceu no dia 14 de dezembro de 2019, aos 52 anos, vítima de doença.


Os professores são «bué da fixes» e o ambiente é «altamente»!

Recordo com alguma saudade e nostalgia as divergências e desacordos que mantive com Pedro Ruivo, um dos fundadores do Conservatório Regional do Algarve Maria Campina. Sempre tivemos grande respeito e educação um pelo outro, mas tal não nos impedia de vincar a nossa posição. Na altura em que com ele privei, tinha idade para ser seu neto e, como tal, a deferência que por ele nutria era notória. Entre muitas outras coisas, não se cansava de proferir aos “quatro ventos" que jamais seria possível ver num músico um gestor de sucesso. Dizia que os músicos são artistas e, como tal, são sonhadores, “cabeças no ar”, “despistados”, enfim: ausentes da realidade.

Foram essas e outras palavras que fui ouvindo durante a juventude que me deram alento para mostrar - na prática - que ele, e muitos como ele, estavam errados. Quem me dera tê-lo agora entre nós para, com agrado, lhe mostrar o que quatro músicos/professores conseguiram fazer na área da gestão cultural. Seria com grande prazer e orgulho que o receberíamos em Olhão, numa casa com o mesmo espírito que ele e a sua esposa, Maria Campina, imprimiram nos primeiros anos do Conservatório.

Com o passar do tempo, aprendi que não adianta ripostar palavras vãs quando é nas ações que reside a verdade. Quase quinze anos depois de termos realizado o sonho de colocar os nossos conhecimentos, aspirações e anseios ao serviço da Música e de Olhão/Algarve, é com um misto de sensações de dever cumprido e desejo de continuar (fazendo diferente mas sempre mais e melhor) que eu, o Adriano St. Aubyn, a Anabela Silva e o Rui Gonçalves agradecemos a todos (muitos) que nos ajudaram neste percurso cheio de inúmeras conquistas, de vários desafios superados e de alguns contratempos que, não nos tendo derrotado, consolidaram a amizade e ajudaram-nos a crescer.

A meio da jornada (há sete anos), recordo-me de um episódio que vivenciei e que continua a ser uma referência do trabalho que realizámos enquanto professores e administradores. Falando com um colega do meu filho, que então não me conhecia, ouvi algo que me fez ganhar o dia. Respondendo-me à questão que lhe coloquei sobre a razão de frequentar o Conservatório de Música de Olhão, morando em Faro, disse-me apenas: “...apesar das instalações não serem nada de especial, os professores são «bué da fixes» e o ambiente é «altamente». Estou muito contente em cá estar!”. Hoje, noutras instalações, maiores e melhores, estas palavras continuam a fazer todo o sentido, continuando a motivar-nos, dando-nos alento e fazendo-nos continuar a acreditar que, todos, seremos unos no propósito de servir a música!


Qual o valor de um bilhete para um concerto?
Paulo Cunha

Tendo em conta que a arte engloba uma série de disciplinas e de linguagens estéticas (arquitetura, desenho, escultura, pintura, literatura, música, dança, teatro, cinema e circo) em que o processo criativo surge da necessidade de expressar emoções, sensações, ideias e ideais, apetece-me perguntar quais são os fatores que nos permitem atribuir um valor correto a uma obra? Serão mensuráveis e quantificáveis? Obviamente, todos os fatores que possam ser enumerados contribuirão para a inevitável lei de mercado em que a procura condicionará a oferta e vice-versa.  

No caso particular da música, em que a criação, a produção e a execução musicais estão, hoje, completamente dependentes, submissas e condicionadas à indústria musical, o preço final de um ingresso para uma qualquer apresentação musical estará, inevitavelmente, dependente de uma série de circunstâncias diretamente ligadas aos custos de agenciamento, promoção, produção e do cachet do artista. Não é por isso de estranhar alguns preços praticados em concertos de certos géneros musicais, em que para a generalidade do público o preço cobrado parece excessivo. 

Durante muitos anos, após um período em que a oferta de concertos musicais  em Portugal era diminuta, instituiu-se uma cultura de intervenção, de apoio e de subsídio por parte do estado e das autarquias à produção e à realização de eventos musicais, o que com o passar do tempo criou e fidelizou público mas, ao mesmo tempo, criou o mau hábito de achar que os concertos onde tocam músicos ligados às “outras músicas” ou à música pouco comercial deverão ser gratuitos ou mais baratos.  

Tal como numa consulta com qualquer profissional da saúde ou da justiça, que, por mais curta que seja, está devida e justificadamente tabelada, um concerto também o está e não é a sua duração que justifica o custo do bilhete, mas sim todo o investimento, trabalho e tempo despendidos até ali chegar. Poucos questionam o preço que se paga para assistir a jogos de futebol profissional, mas muitos acabam por se queixar publicamente do preço de um bilhete para um qualquer concerto. 

Terão os músicos que ser artistas beneméritos e “porreiraços” que vivem das palmas, dos favores do poder, do desenrascanço e da caridade alheia? Profissionais que quem contrata pede para baixar o cachet e que quem assiste pede “borlas”. Tal como noutras profissões, não tendo um salário fixo, somam o valor dos bilhetes, subtraem-lhe o valor dos impostos, dividem-no pelos dias que estão sem tocar e pelas contas por pagar e multiplicam as preocupações até ao próximo concerto. Por isso, afirmo perentoriamente: seja qual for o valor de um bilhete para um concerto, é - com certeza - pouco para tudo o que os músicos investiram para, num só momento, tudo proporcionar!


Carreiras musicais à medida
Paulo Cunha

Tomando como referência Portugal, país de onde raramente se tenta sair para, musicalmente, conquistar outros mundos, facilmente enumeramos o nome dos cantores/conjuntos musicais portugueses que nos acompanharam (e continuam a acompanhar) no nosso crescimento. Dessas mãos cheias de músicos que compuseram e interpretaram as músicas que hoje são as das nossas vidas, rapidamente nos vêm à memória os seus nomes, bem como os seus êxitos mais representativos.

Sem nunca terem sido convidados para as nossas casas, muitos cantores e grupos musicais nelas entraram através da sua música e connosco convivem diariamente. Em suma, já fazem parte da família! Todos eles, músicos maduros, experientes e sábios, que contabilizam mais de metade das suas e das nossas vidas a tentar que a música não seja apenas um hobby, um biscate ou um complemento salarial, dão o devido prestígio e dignidade à profissão Músico. Só por isso, já são dignos do respeito dos seus fãs e dos seus pares.

Acumulando décadas de trabalho, resistiram às várias transformações socioculturais que, ciclicamente, ditam as ditatoriais modas musicais. As tais modas que, em empoeiradas prateleiras, facilmente arrumam carreiras que se adivinhavam promissoras. Crescendo connosco são, por isso, motivo de interesse e de aprendizagem por parte dos aspirantes a músicos.

Saber ler os sinais que, escondidos entre os “barulhos das luzes”, inebriam os músicos demasiado ambiciosos, é meio caminho andado para ultrapassar a previsível desilusão ou até o fracasso. Estar atento e aprender com as carreiras musicais dos mais velhos, os tais “dinossauros musicais” que ainda temos a sorte de ter entre nós, é um privilégio só ao alcance de quem sabe que uma carreira é como uma escalada. Por isso mesmo, sempre aconselhei aos aspirantes a ter sucesso musical boas doses de humildade e de reconhecimento por todo o conhecimento que todos os dias a vida nos proporciona.

Mas fará sentido falar em carreiras musicais, hoje? Talvez fosse mais coerente falar em percursos musicais, tal a forma como, neste cantinho luso, se vive dependente da indústria e do comércio ligados à música. Contratualizados e vinculados às poderosas multinacionais discográficas, os novos e atuais “artistas musicais” da nova era, tal como os jogadores profissionais de futebol, veem a sua atividade laboral gerida por outrem.

Sendo Portugal geograficamente pequeno, não há espaço para grande concorrência nos diversos nichos musicais que o servem, por isso, depois de usados, há que dar lugar aos novos músicos/cantores. Fabricados para consumo rápido, provavelmente não terão o tempo devido para o crescimento e envelhecimento que observam nos artistas da “velha guarda”. Tal como os outros com as chuteiras, neste caso, prematuramente, pendurarão os instrumentos e os microfones … e ainda com tanto para dar e mostrar!

É claro que fico feliz por ver tantos jovens músicos e agrupamentos musicais com pouco tempo de percurso firmado a aventurarem-se e a encherem as salas emblemáticas que, antes, consistiam no corolário de uma vida musical. “Empurrados” pelas suas editoras/agências para, em menos de metade do tempo dos seus antecessores, percorrerem um caminho já conhecido, passam pelas várias “casas” deste jogo, que para a indústria musical não é mais do que um simples Monopólio e onde os músicos não passam de peças à espera de serem substituídas.

Seja na música, seja no que for, não basta ser bom, é preciso mostrá-lo, administrá-lo, potenciá-lo e geri-lo. Chama-se a isso maturidade! Têm-na? Ótimo, usem-na, mas nunca percam a humildade, a independência e a dignidade - condimentos certos à mão de semear!

30-09-2019


Para quando o grande “Festival de Música do Algarve”?
Paulo Cunha

Não sendo um grande fã dos apelidados festivais de verão, acompanho com alguma atenção este fenómeno que, tal como noutros países, tem vindo a crescer e a consolidar-se em Portugal, gerando enormes receitas e servindo de âncora para a economia sustentada pela indústria, comércio e turismo. Como muitos de vós, valorizo a música em toda a sua plenitude e por isso tenho alguma dificuldade em vê-la tratada com outros propósitos que não sejam os que a tornaram a nobre arte. Daí algumas reservas em relação a “Festas e vais”… mas isso são outros “quinhentos”!

Sabendo que os festivais em Portugal são uma aposta relativamente barata de entretenimento, com grande grau de satisfação e consistindo numa boa solução de férias em tempos de crise, é natural que as empresas ligadas à produção de eventos musicais procurem patrocinadores privados e institucionais que caucionem a contratação das “estrelas” nacionais e internacionais que garantirão o sucesso dos eventos programados.

Temos, dizem os agentes, um mercado solidificado e rentável que já pertence ao circuito mundial de festivais. Sendo atrativo, pelos preços baixos e pelo clima, ao crescente público estrangeiro que nos visita, em Portugal o número de concertos e os lucros daí resultantes têm crescido consistentemente ao longo da última década, acompanhando assim a tendência mundial.

"Em alturas de crise, as pessoas querem escapar, querem divertir-se, e um festival oferece essa possibilidade (…) Os festivais são em maior número, mas diversificaram-se, o que permite chegar a vários públicos", refere um promotor/produtor, atribuindo a esses fatores a história do sucesso dos festivais em Portugal.

Com os músicos mais disponíveis para digressões devido à quebra acentuada na venda de discos, e com o público habituado à experiência do universo que rodeia os concertos, os festivais tornaram-se parte de um roteiro que já não é apenas para melómanos e apreciadores de música. Apesar das dificuldades que vivemos em Portugal, o nível de vida tem vindo a subir e os festivais de música já integram o cabaz das necessidades de muitos, consistindo até um percurso iniciático de vida para os mais jovens.

Devido à facilidade logística que consiste produzir um concerto ao ar livre, é hoje possível, através da proclamada animação musical, ter qualquer evento, feira, certame, efeméride transformados em minifestivais de música que servirão assim de chamariz para o verdeiro propósito das citadas manifestações de entretenimento e comemoração.

Disputando as vagas ainda disponíveis nas agendas dos artistas da moda, as entidades promotoras e produtoras de todos estes concertos disseminados pelo país pouco ou nada trazem, oferecem ou acrescentam aos músicos independentes, desconhecidos e “suburbanos” que não integram o «mainstream» e a agenda das editoras e agentes sediados na capital.

Estando a escrever-vos duma região que nos meses de verão duplica o seu número de habitantes (Algarve), continuo a estranhar como é que ainda não houve um “tubarão” que, em parceria com uma qualquer multinacional, não se lançou a este mar manso que é a zona sul de Portugal. Tomemos como exemplo a Concentração de Motos de Faro, que no Vale das Almas internacionalizou o Algarve, porque não colocar o Algarve na rota dos Festivais de Música realizados no verão, a exemplo dos que, em Portugal, já se tornaram referências internacionais? Porque perguntar não ofende, aqui deixo esta dica…

28-08-2019


Quando a boa música aterra no Algarve
Paulo Cunha

Ver as principais salas algarvias repletas de público vindo de várias localidades para ouver os seus músicos nacionais e internacionais de eleição é um sinal mais do que suficiente para que os promotores e produtores musicais comecem a incluir, todo o ano, o Algarve na programação das suas agendas. Os residentes e visitantes algarvios há muito tempo que dão sinais de serem um público interessado, presente e participativo. Os vários concertos lotados comprovam-no!

No dia 10 de julho de 2019, o Teatro das Figuras, em Faro, testemunhou, uma vez mais, a apetência e o acolhimento de um público fiel e interessado em artistas de comprovada relevância e excelência criativa, técnica e interpretativa. Depois do ano passado ter efetuado três concertos no (costumeiro) Coliseu dos Recreios, em Lisboa, desta feita o clã Veloso aterrou em Faro para presentear e deleitar todos os fãs e admiradores que, num ápice, esgotaram os ingressos para o concerto realizado na maior sala de espetáculos da capital algarvia.

Segundo Caetano Veloso, não foi fácil juntar os seus três filhos, Zeca, Moreno e Tom, para tocarem e cantarem consigo ao vivo. Depois de convencer Zeca (o único dos três que inicialmente estava mais reticente), o cantor brasileiro levou quase três anos para conciliar as agendas dos quatro. Por não passar tanto tempo com os filhos desde a altura em que estes eram pequenos, Caetano Veloso considerou o concerto de quase duas horas como uma oração a um tempo fecundo e uma homenagem à reprodução.

Permitindo, finalmente, a reunião de um pai com os seus três filhos, num palco onde todos os momentos foram impregnados de afetos, cumplicidades, risos, danças, inconfidências e criatividade, foi possível partilhar, conhecer e assimilar histórias da música e da vida desta genial família brasileira.

Com a participação do deliciado, encantado e participativo público presente, o jovem homem velho, patriarca de 76 anos, recordou e homenageou a sua mãe Claudionor Viana Teles Veloso (Dona Canô), interpretando o tema Ofertório, música e letra que compôs para a celebração dos 90 anos de quem, em Santo Amaro da Purificação, no interior da Baía, o colocou no nosso mundo.

Perto das 23h30, eu e o meu filho Miguel saímos deste ofertório musical num estado de autêntico encantamento musical e espiritual. Tudo se conjugou para que tal tivesse acontecido: a sala esteve cheia com um público atento, respeitador e participativo; o cenário, sóbrio e atraente, foi servido e complementado por uma muito profissional e eficaz luminotecnia e sonoplastia; os músicos revelaram um grande profissionalismo e mestria interpretativa aliadas à naturalidade, empatia e comportamentos afetuosos próprios duma família que se quer e se gosta.

Quando alguém, depois do concerto, me disse que não tinha ido porque o preço dos bilhetes era demasiado caro, respondi-lhe apenas que, além do que os algarvios pouparam ao não terem que se deslocar até à capital, o preço foi similar ao de uma consulta médica ou psicológica e o efeito, provavelmente, foi o mesmo.

Não posso terminar esta minha singela homenagem à música brasileira, através da apreciação à música da família Veloso, sem recordar um ato revelador da importância que a harmonia, o ritmo, a melodia e a palavra vindas do outro lado do Oceano Atlântico têm para o mundo. Muito me sensibilizou o facto do meu amigo Francisco Gil, tendo ido de férias ao Brasil, ter-se deslocado propositadamente à casa da Dona Canô (na altura ainda viva), unicamente para lhe agradecer ter dado ao mundo tão grandes filhos (Caetano Veloso e Maria Bethânia). Não lhe abriu a porta, pois, segundo a vizinha, a mesma estaria na casa de uma das filhas. Mas o recado ficou dado! É inquestionável: o Brasil existe e sempre existirá na música que há em nós.


Crónica sobre um concerto a que não assisti
Paulo Cunha

Tendo a Universidade do Algarve (UAlg) completado quarenta anos de existência, incluiu na programação das suas atividades a realização, no dia 7 de junho de 2019, do Concerto Comemorativo do 40º Aniversário da Universidade do Algarve. Contando com a participação da Orquestra Clássica do Sul e do estreante Coro da Orquestra Clássica do Sul, o Grande Auditório do Campus de Gambelas foi pequeno para o vasto público que, nesse dia, lá acorreu.

Para além do simbolismo da data que se pretendia festejar, a mesma iria constituir um marco histórico através da estreia pública de um novo coro sedeado na capital algarvia. Sendo o mesmo composto por muitos algarvios que, em comum, têm o gosto pela música coral, muito naturalmente, tenho com alguns deles uma relação afetiva construída, cimentada e solidificada ao longo do tempo.

Logo que soube do evento, marquei-o na minha agenda como imperdível, para que a minha presença efetiva fosse mais um motivo de apoio e de alento para todos os elementos do novel coro. Sabendo que esta era uma estreia muito aguardada, devido ao facto de muitos dos coralistas integrarem coros da região, e os outros coralistas, por nunca terem cantado num coro, veriam nela a sua “prova de fogo”, cedo percebi que o concerto (gratuito) iria esgotar a lotação da sala. Bastava que, para além do público ligado à UAlg, lá fossem os familiares, amigos e colegas dos coralistas.

Mais do que a música, seria a atração pela novidade o principal tónico para que muitos farenses se deslocassem ao Grande Auditório do Campus de Gambelas. Também eu, antigo professor, diretor coral, colega e amigo de alguns coralistas, não quis deixar de lá estar para, através das palavras, poder aqui expressar o que vi, ouvi e frui.

Quis o destino que, por motivos familiares, não tivesse podido sair de casa, pelo menos, uma meia-hora antes da hora marcada. Ora não sendo eu uma individualidade com acesso garantido aos costumeiros convites, ou chegava a tempo da abertura da porta do auditório ou arriscava-me a não entrar. Bem dito, bem feito: quando lá cheguei, deparei-me com algumas pessoas paradas à entrada. Figuras que, tal como eu, tentavam que a diligente e intransigente porteira lhes facultasse a entrada para, assim, poderem juntar-se a uma parte do público que já ocupava um bocado da escada.

Educadamente, como é meu apanágio, solicitei à senhora com o poder de me deixar entrar (ou não!) que me permitisse entrar e assim sentar-me, partilhando com outros um bocado de chão. Perentória e sobranceira exerceu o seu pequeno/grande poder, negando-me a pretensão. Como não estou habituado a mendigar seja o que for, dei meia-volta e às 21h30, hora do início do concerto, já estava dentro do meu automóvel, preparado para regressar a casa. Não lhe critiquei a atitude, mas sim a forma como expressou a sua autoridade!

Como seria de esperar, no dia seguinte, muita gente, através de mensagens nas redes sociais e no telemóvel, quis saber qual foi a minha opinião sobre a sua participação no concerto, à qual, obviamente, respondi que não iria fazê-lo tomando apenas como base pequenos excertos de vídeo partilhados nas redes sociais.

Mais do que eles, coralistas e diretor coral, lamento não poder aqui ter escrito um artigo sobre um concerto que, por certo, constituiu um marco no seu percurso de vida e uma data histórica no panorama musical algarvio. Não tendo conseguido ouvi-los cantar, contaram-me, posteriormente, a alegria e a satisfação que sentiram ao cantar em grupo. Por eles, pela música e pelo Algarve fiquei feliz!

07.2019


O Algarve Musical está bem e recomenda-se!
Paulo Cunha

Na qualidade de agente cultural, músico, professor de música e, principalmente, enquanto apreciador e consumidor de música, é com grande orgulho, prazer e satisfação que aqui registo, constato e convosco partilho a evolução que observei e vivenciei no panorama musical algarvio ao longo do último meio século.

Tendo sido surpreendido pela revolução dos cravos com apenas dez anos, ainda consegui, principalmente através da minha família, aperceber-me da parca oferta nas áreas da formação musical de base e genérica e na produção, criação e realização musicais registadas no Algarve num período em que também a música era condicionada pelos imutáveis e superiores interesses do Estado Novo.

Tomando como referência - e até ponto de partida - a data de 25 de abril de 1974, enquanto espetador e ator atento à praxis musical algarvia, posso hoje afirmar que, fruto de determinadas conjunturas económico/financeiras e políticas culturais, também na área cultural a democracia (enquanto escolha das maiorias) passou a ser a mola impulsionadora da maioria das decisões culturais até hoje tomadas.

Só quem anda muito desatento ou tem fraca memória é que não se recordará de um tempo em que o Algarve musical era pobre, acanhado, subaproveitado, esquecido e menosprezado. Em cerca de cinquenta anos passámos de uma província que só era relembrada e merecia atenção nos meses de verão para uma região que durante todo o ano já consta na agenda musical de Portugal e até noutras internacionais.

Fruto duma (ainda que tímida e insuficiente) descentralização cultural e duma aposta e investimento na educação e nas produções musicais por parte de alguns políticos e decisores visionários, criativos e empreendedores, muito tem vindo a mudar para melhor no espetro musical algarvio. Face às condições que, nas últimas décadas, têm sido dadas aos artífices e interventores musicais algarvios, podemos hoje constatar que a região algarvia, vista e assumida enquanto laboratório musical, está bem e recomenda-se!

Muito me apraz registar que os nossos descendentes têm hoje uma oferta cultural (onde a música tem uma considerável quota parte) que é motivo de satisfação e de regozijo. É hoje possível ter acesso a uma educação especializada, profissional e genérica nos vários estabelecimentos de ensino público, associativo, cooperativo e privado que, ao longo das últimas décadas, se disseminaram pelo barlavento e sotavento algarvios.

Vêm hoje à região algarvia músicos de várias proveniências gravar e produzir os seus discos, tal a qualidade dos estúdios de gravação, dos seus componentes técnicos e, principalmente, dos técnicos e engenheiros de som que neles trabalham. Basta ouvir o resultado e, através dos sentidos, fruir e apreciar a qualidade dos nossos músicos e intérpretes para intuir que, em termos de criação/execução/interpretação musicais estamos ao melhor nível do que se produz em Portugal.

Temos (algarvios), hoje, uma programação musical distribuída por todos os meses do ano, que nos permite, quase todos os dias, ter um ou mais concertos a acontecer nas várias localidades do barrocal ao litoral algarvio. Basta estarmos atentos e assim querermos para encontrar vários tipos de manifestações musicais a acontecer periodicamente nas programações semestrais das múltiplas salas e equipamentos culturais ao dispor, nos eventos de vária índole, nos festivais, nas feiras, nos encontros, nos congressos, etc. Todas elas, eficaz e profissionalmente, conduzidas por técnicos de som e de luz algarvios ou residentes no algarve.

A Música, uma vertente artística e cultural que, para além do sol e mar, está, objetiva e consistentemente, a colocar o Algarve na memória de muitos que o visitam… e nós agradecemos!

06.2019