Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

— E vamos ao Elinga esta noite, certo? — diz-me ele, antes de voltar a entrar na casa.

Fico sozinho na varanda das traseiras da "casa de passagem" que nos serve de escritório e acendo um Jogador, sem nunca deixar de olhar para paisagem que se estende agora sob o meu fumo. A varanda tem vista para uma rua que, noutros tempos certamente, deve ter sido o orgulho dos seus habitantes. Como inúmeras ruas da chamada "parte asfaltada" de Luanda, é estreita e as casas térreas, de um lado e de outro da artéria, quase todas apresentam na parte da frente, restos do que deve ter sido um pequeno jardim murado. Sem que o consiga evitar, o meu Bom João natal vem-me imediatamente à memória.

Mas aqui a realidade é bem diferente:
Nenhuma das janelas tem vidros. Todas as janelas de todas as casas têm barras de ferro. Vidros, nenhuma. Papéis, cartão, plásticos, madeira... Tudo é usado para as cobrir. Tudo menos vidros. Além disso, nos jardins de muros meio-partidos, carcaças secas de carros sem rodas, sem interiores, uns já queimados e outros ainda por queimar, ocupam o lugar das nespereiras e ameixeiras nos quintais do meu Algarve.
Aqui, por todas as aberturas, as casas vertem sacos de plástico que vertem lixo que se acumula, mistura e confunde com a terra suja que cobre a rua estreita. Sim, que o asfalto desta rua da parte asfaltada de Luanda já desapareceu há muito tempo.
Nas paredes sujas das casas, inúmeros tags e grafittis comunicam a omnipresença do gang da zona, "Os de Lenço". Serão estes, porventura, os famosos bandidos de que nos falaram, logo no nosso primeiro dia em Luanda?

"— Luanda não é como Lisboa.
Aqui não se pode sair à noite por causa dos bandidos."

E assim ficámos — eu, o Pula di bala e o Verynice — durante uns dois dias ou coisa que o valha, reféns dessa recém-adquirida ignorância, por detrás dos muros altos de uma enorme casa no Bairro Azul, escondidos dos bandidos, usufruindo apenas da nossa companhia e da dos engenheiros da empresa. Na verdade, nem isso. Os tipos com quem partilhávamos a casa deitavam-se religiosamente às oito da noite, visto terem de se levantar todas as matinas por volta das cinco para enfrentarem — pelo menos, pelo menos — umas três horas de trânsito selvagem, com o único objectivo de percorrem os modestos vinte quilómetros que separavam o Bairro Azul do armazém-sede da empresa situado no Cacuaco, logo ali a seguir às antigas instalações da refinaria de Luanda.

Felizmente, ao segundo ou terceiro dia, um conhecimento externo à empresa, mencionou a existência de "um sítio muito louco" chamado Elinga. O Elinga Teatro, bem no coração da cidade e aberto a partir das oito da noite, tornou-se, desde o primeiro momento em que lá pusemos os pés, o nosso poiso, o nosso segundo lar, o meu oásis.

Em caso de dor, dance.

(Grafitti na parede do Elinga Teatro)

Ou, no meu caso, beba. As quantidades industriais de todos os tipos de bebidas alcoólicas que lá consumi e a sofreguidão com que o fiz, atestam bem como "oásis" é a palavra que mais adequadamente descreve a minha relação com o local.
Situado no topo de um modesto edifício de dois pisos (obviamente, a cair aos bocados), o Elinga será sempre, na minha memória, o equivalente angolano ao saloon nos filmes de cowboys.
Aí, por entre o bar e a meia-dúzia de mesas e cadeiras (todas diferentes), movimentavam-se todos os tipos de clientes que é possível imaginar, pois era toda a fauna nocturna que, inevitavelmente pelos seus degraus apodrecidos, escada acima, por lá passava: de putas até generais do MPLA, passando por artistas, empresários e oportunistas; latifundiários, contrabandistas e falsários; ricos e entediados, pobres ou remediados, o Elinga era o verdadeiro exemplo... O único exemplo de convivência democrática na noite de Luanda.

— Hei, amigo. Pula di bangô. Amigo.

Uma voz de criança faz-me voltar à varanda do escritório. Olho para baixo e uns dos inúmeros miúdos da rua, talvez com uns sete ou oito anos, olha-me ansiosamente, enquanto tenta a sua sorte:

— Amigo, tem uma maçã?... Dá uma maçã, dá.


BEM-VINDO A LUANDA

O fedor.
Um cheiro a podre, quente e orgânico, quase doce.

Foi a primeira coisa que senti. Como um soco. Ainda as portas do avião não estavam completamente abertas e já o meu estômago se dobrava sobre si próprio e, com muita dificuldade, lá conseguia evitar que os meus primeiros momentos em África coincidissem com o meu primeiro vómito do ano de 2007. 

Nos três meses que se seguiram, seguindo o adágio popular que diz que, com o tempo, nos habituamos a tudo, acabei também eu por me habituar àquele cheirete húmido, fétido e omnipresente. Habituei-me também a não esperar nada do que tinha esperado em qualquer outro dos lugares onde já tinha estado. Coisas simples como água, luz, sei lá eu... gasolina, segurança.
Por exemplo, habituei-me à ideia que a partir das sete e meia, oito da noite, a distribuição de electricidade da rede pública, em absoluta sobrecarga, simplesmente parava, mergulhando a cidade simultaneamente na escuridão e no silêncio. Nessas alturas, habituei-me a ir até ao velho gerador a gasóleo, no quintal, e a pô-lo a funcionar, o que, se por um lado, de imediato resolvia a situação da iluminação, por outro, acrescia um fumo ensurdecedor por toda a casa.
Habituei-me a nunca beber água da torneira e a tomar duches rápidos com a boca e os olhos fechados; a ligar a ventoinha do tecto do quarto, a toda a velocidade, dez minutos antes de ir dormir, e a borrifar lá para dentro – generosamente – um spray insecticida pestilento e muito pouco ozone friendly.

Mas para falar verdade, o pior foi ter de me habituar a imensas outras coisas que nunca pensei que seria capaz:, nomeadamente, às pessoas em pedaços, mendigando pelas ruas entupidas de jipes e carros de luxo; sem mãos, sem pernas, braços... sem metade da cara. Habituei-me a conviver com a miséria humana numa escala como nunca tinha visto antes. Habituei-me... não me habituei nada. Quer dizer, habituei-me apenas a olhar pro outro lado.
E, para esquecer tudo, habituei-me a beber (muito) álcool e a dormir dez horas por noite... afinal de contas, enquanto estava a dormir não tinha de aturar aquela merda toda, certo?

EU – Estás aí há uma dezena de anos, como é que é a vida aí?
O MEU AMIGO – Pá, não te consigo explicar. Quando cá chegares vais perceber porquê.

Dormi a quase totalidade desse voo nocturno de Lisboa para Luanda.
Para que não houvesse dúvidas acerca do pesadelo que começava, a apresentação de passaportes na alfândega da capital africana roçou... não, passou muito para além do ridículo.
Chegada minha vez, encaminhei-me para o funcionário que, segurando meu passaporte aberto na mão esquerda e o carimbo fronteiriço na mão direita, me disse assim: 

FUNCIONÁRIO – Hoje ieufhawek reljfi um cafezinho.

EU – Hein???

FUNCIONÁRIO – Hoje (mesmo discurso incompreensível) um cafezinho.

EU – O quêê? 

Ele, fazendo uma cara misto de cansaço e paciência, esclareceu-me, por fim:

FUNCIONÁRIO – Hoje eu ainda não bebi nenhum cafezinho.

EU – (sem perceber) E...?

FUNCIONÁRIO – Tens dinheiro?

Olhou para mim. Olhou para o meu passaporte na mão esquerda. Olhou para o carimbo levantado na mão direita. Repetiu, em voz alta:

FUNCIONÁRIO – Tens dinheiro?

Balbuciei que sim, que tinha 5 euros. Perguntou-me se eram 5 euros em moedas ou em notas. Disse-lhe que era uma nota. Ordenou-me que lha desse, o que eu fiz. Depois, passados alguns segundos (suponho) que pareceram uma eternidade, misericordiosamente, aquele filho de uma grandessíssima puta, lá fez o favor de carimbar o meu maldito passaporte.


O MAU EMIGRANTE

Traduzo. Nunca penso em inglês.
Pelo menos, nunca coisas sérias.
Os meus pensamentos involuntários criados em língua inglesa são sempre (e apenas?) sound-bites, provavelmente
recuerdos inconscientes e involuntários de milhentos filmes americanos e de letras de músicas rap — onde abundam os "fuck", os "shit", os "motherfucker" e outras pérolas semelhantes — obviamente ofensivas para os nativos da língua de Shakespeare.

“estes imigrantes são como baratas (…)
conseguem sobreviver a uma bomba atómica.

Katie Hopkins
(colunista do jornal The Sun)

Na minha família, a emigração — sobretudo a da "época de ouro" do êxodo lusitano para fora de portas, nas décadas de 60 e 70 do século passado — é uma instituição com alicerces tão profundos quanto remotos: da Europa (Bélgica, França, Holanda, Suécia, por exemplo) aos continentes americano e africano (Brasil, Venezuela, Canadá, EUA, Angola e África do Sul) e, passando ainda além da Taprobana, até na desgraçadamente longínqua Cangurulândia. E isto são apenas os sítios que a minha mãe se lembra.
Por vezes, passeando pela aldeia da Alcaria, em Paderne, apontando para uma casa qualquer, no meio de um monte, ela diz-me: 

— Aquela casa além foi mandada construir por uma prima do teu pai, a Guilhermina, dos Lentiscais, que está na Austrália e que casou com um moço (de ali de ao pé, do Esteval dos Mouros) chamado Manel dos Cucos.  

Ou uma coisa assim desse género. Aliás, os nomes dos primos emigrantes da família são sempre "muito algarvios", nomes como Gregório, Arsénio (que nome espectacular), Patrício e Inácio; frequentemente casados com Quitérias, Zélias, Amélinhas e Felisminas. Eles e elas oriundos de lugares cujas designações parecem sempre falsas ou inventadas à pressa: Almeijoafras de Baixo, Monte do Parral, Cerro da Monchina, Casa dos Pires... Mas, como se vê, todas dignas de figurar nas palavras cruzadas do jornal da Associação Portuguesa de Toponímia.

Todo o imigrante que aqui chega devia ser obrigado a aprender inglês
durante cinco anos ou a abandonar o país.

Theodore Roosevelt

Começa que não consigo aturar esta estrangeirada durante muito tempo. Tudo bem, eu também já reparei que, como vivo e trabalho no estrangeiro, as probabilidades de me cruzar com estrangeiros são (bastante) elevadas... Eu sei, eu sei... Mas é mais uma questão de tempo. O que quero dizer é que, ao fim de dois anos (mais mês, menos mês) fora de Portugal, tudo me começa a irritar: a começar pela língua, lá está.
Nem vou falar de coisas mais corriqueiras como o clima de caca, a circulação rodoviária do lado errado da estrada ou a total inexistência de qualquer coisa semelhante a uma noção básica de culinária nesta gente. Não. Só o facto de ter de comunicar constantemente em inglês, coisa que — vejo agora — nunca me senti muito bem a fazer, só isso já me deixa estafado e mal-humorado, em média, dez minutos depois de sair à rua. 

Juro, nunca percebi como os meus familiares emigrantes conseguem meter tanta estrangeirice no seu discurso, enquanto eu não quero ter de falar inglês nem em Inglaterra. Eles, não; eu bem que os ouço aí, em Portugal, quando falam uns com os outros: em cada três palavras, uma é em português, uma na língua do país onde estão emigrados e a terceira, acho eu, em klingon.

No próximo mês, "o bom emigrante". 


UMA DERROTA ENSINA MAIS DO QUE MIL VITÓRIAS
(2ª parte)

(Primeira entrevista de emprego em Woodlands ― Hospital de Saúde Mental em Hastings, Reino Unido).

ENTREVISTADOR ― Jiuâkuime (é assim que se pronuncia?), ok, então Jiuákuiu...me... heu... está um grupo de seis pessoas num bar. Se eu lhe disser que uma delas sofre de uma doença mental, você, só de olhar para elas, sabe qual delas é?
EU (apanhado de surpresa) ― Heuu... bom, assim de repente, não sei...
ENTREVISTADOR ― Exacto, Jóyâcueimmeh. Exacto. Essa é resposta certa! Exacto.

Não foi capaz de dizer com uma qualquer percentagem de certeza: foi nessa hora ou nesse dia ou nessa semana... E, um pouco como na anedota verídica contada logo acima, por fora não houve nada que fizesse reparar numa mudança. Por dentro, no entanto, as coisas foram mais complicadas.

Sei que o meu amigo deu por ele sentado numa conversa informal com uma psicóloga nas instalações da Fundação Isabel Blackman em St. Leonards-On-Sea.
Aí, às quintas-feiras ― se a memória não me trai ― a organização Health in Mind patrocinava uma tarde de consultas pro-bono (e, pormenor muito importante, anónimas) com uma série de jovens e não-tão-jovens psicólogos que, muito gentilmente, cediam o seu tempo para ajudar a comunidade, efectuando uma espécie de retrato psiquiátrico, voluntário e gratuito, da população do bairro.

Uma vez, enquanto jantávamos ― às 3 da matina
na sala do pessoal em Woodlands ― o melhor enfermeiro
de saúde mental que conheci disse-me uma coisa assim do género:
"Só há dois tipos de pessoas: umas que têm medo da morte
e outras, da loucura."

Não sei se é verdade ou apenas uma tirada pseudopsicológica, mas esse meu amigo de que vos falo, nesse ano de 2014 (confessou-mo), teve inúmeras vezes ― genuinamente ― medo de estar a enlouquecer.
O acumular de contactos disruptivos que a convivência (quase) diária com os pacientes de Woodlands lhe proporcionava, começou a provocar algumas brechas na sua (já de si não muito famosa) estrutura psíquica. Para sua defesa, há que ter em conta uma série de factores que contribuíam bastante para a situação; senão, vejamos: encontrava-se numa terra ― para todos os efeitos ― estranha, forçado a comunicar uma língua que não lhe era (nem nunca lhe será) nativa, a trabalhar numa área que nunca tinha sido sequer sonhada nos seus devaneios profissionais mais alucinados; distanciado de todos os que amava, gostava ou simplesmente conhecia... Enfim, longe de tudo aquilo que, uns meros três anos antes, tinham sido as suas zonas de conforto pessoal, social e ocupacional.
E sim, a vida romântica, ou sentimental, do meu amigo ― caso estejam a perguntar-se ― também era uma perfeita merda, nessa altura.
Por isso tudo, talvez, soube-lhe bem, a ideia de ter alguém com quem falar.

E bem queria, mas esta vergonha ― dos homens da Europa do sul? ― de mostrar (qualquer tipo de) vulnerabilidade é mesmo fodida.
Não deixa de ser curioso que podes escrever poesia, prosa ou teatro sobre as tuas fraquezas; podes pintá-las, podes filmá-las, podes musicá-las... olha, compor desde faduchos choradinhos de três minutos a óperas heróicas de três horas, tudo dedicado às tuas misérias mentais e/ou psicológicas que não há qualquer problema: é apenas arte. Está tudo bem. Não é a realidade. É uma grande metáfora. Ele não é assim... Ele tem uma grande imaginação, lá está.
Lá está, podes fazer tudo... Só não podes queixar-te. E quando te queixas, se te atreves a tal, falas sempre como se estivesses a falar de uma terceira pessoa:
― Ah e tal, tenho um amigo que assim e assado...

Mas, também, que diabo, homem que é homem não anda por aí a lamentar-se a estranhos. Come e cala, e aguenta-se à bronca... E, para mais, o quê? Saúde mental e depressão e paranóia e essas paneleirices modernas? Antigamente não havia nada disto. Pareces uma gaja, pá. Tás triste, bebe uns copos que isso passa.
Somos todos machos latinos.
Mas o meu amigo não queria ser macho latino.
Nada disso. Aos cinquenta e poucos anos, queria era finalmente identificar o mal que o atormentava. Fitar a forma exacta do punhal que, traiçoeiro ― sempre cobardemente ―, lhe esfaqueava a lucidez e a sangrava até que, da realidade, não lhe sobrassem mais do que dúvidas.

Voltou para casa, derrotado.
Silenciado pelo medo de falar e pela vergonha do seu silêncio.
Deu por si, sozinho na segurança do seu quarto, adornado com um adereço improvisado e, como quem busca preservar uma lição de vida inestimável, decidido a fotografar a sua vergonha, a sua loucura.

Mas só por fora:


UMA DERROTA ENSINA MAIS DO QUE MIL VITÓRIAS
(1ª parte)

Acerca de uma doente mental, dizia-me o patrício da Fuseta assim:
― Foda-se, esta já não lhe bastava ser preta, também tinha de ser muçulmana ― e acrescentava, porventura convencido que eu lhe estava a achar grande piada ―, o Afonso Henriques é que tinha razão.

Fruto, possivelmente, de um desejo de melhor ruminar (e, posteriormente, digerir) algumas das situações com que fui confrontado ao longo dos anos em que servi como ― vamos chamar-lhe assim ― Auxiliar de Acção Médica (AAM) em vários hospitais e clínicas de saúde mental, acontece por vezes, em situações sociais, vir à baila uma ou outra situação mais estranha de que me sirvo para ilustrar no que consistia a minha actividade profissional em Inglaterra até há aproximadamente seis meses atrás.

No meu CV costumava descrevê-la assim: "permanecer, tanto quanto possível, mentalmente são, enquanto se ajuda pessoas que (pelos motivos mais variados) têm alguma dificuldade em fazer isso mesmo;"

A verdade é que, nessas ocasiões, na maior parte das vezes, as reacções que recebo por parte dos meus interlocutores pouco variam em "género e em número" das ideias preconcebidas que eu próprio levava da primeira vez que entrei numa enfermaria de saúde mental ― Daffodil de seu nome ― no Langford Centre, em Bexhill, há alguns anos atrás.
Nessa noite assustadora, e apesar do treino básico que tinha recebido na agência, "saúde mental" ainda era para mim ― há que dizê-lo ― um conceito bastante indefinido e lato, que incluía no seu seio os estereótipos mais vulgares e inexactos, desde "o inocente da aldeia", passando pelo "louco furioso" e acabando no "psicopata canibal", e considerei-me muito sortudo quando, ao fim de um turno de 12 horas, acabei por sair incólume do edifício.
Nunca o sol da manhã, baço e macambúzio do sul de Inglaterra, me pareceu tão prazenteiro.

Com o tempo, porém, acabei por me aperceber que as coisas não são assim tão lineares. Quero eu dizer com isto que um doente maníaco-depressivo sofre de uma maneira diferente de outro esquizofrénico, que por sua vez não tem nada em comum com um terceiro... Digamos, psicopata, ou o que quer que nos possamos lembrar... Bom, não têm em nada em comum a não ser nisso mesmo: no sofrimento.
Um jovem, filho ilegítimo de uma estrela da pop dos anos 80, que parte um taco de snooker ao meio e o espeta nas costas de um enfermeiro, não tem senão sofrimento em comum com uma mulher, na casa dos quarenta, que, à frente de duas AAM ― sem qualquer emoção que lhe traia a face repleta de serenidade ― morde, mastiga e engole a falange do seu dedo indicador direito.

Ser um cuidador significa (ao contrário do exemplo do "patrício da Fuseta" que abre este texto) que não se está acima dos pacientes, está-se ao lado deles. Arrogância e saúde mental não rimam.
Mas significa também nunca encarar os problemas no trabalho como pessoais.
Deixem-me exemplificar:
em princípio de Maio de 2019, um paciente de Ticehurst deu-me um soco nos queixos.
E não o fez porque queria dar aquele soco a mim em particular... Nós até que nos dávamos bem. Até jogávamos à carta na sala de jantar e tudo. Mas ele ia dar aquele soco nos queixos, de qualquer maneira, a quem estivesse lá naquele instante. Calhou-me a mim.
A situação é tão simples ― e tão importante ― quanto isto: se o paciente que me deu o soco nos queixos estivesse mentalmente saudável, não estaria internado.
Ponto final, parágrafo. 

Pode ser extremamente frustrante ser AAM de saúde mental e, neste caso, foi mesmo! Até porque, como já dizia o outro

 (...) Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco. (...)

Pois também eu nunca antes tinha sido agredido no exercício das minhas funções.
Ofensas verbais? Tive milhões. Ameaças à minha integridade física? Centenas. Tentativas de agressão... Uma dezena, talvez mais.
Socos nos queixos? Um.

Que porra! Não podia ter sido nos queixos do outro imbecil da Fuseta?

NOTA FINAL: tenho sempre imenso receio que estas palavras que escrevo acerca da minha experiência enquanto auxiliar de saúde mental, se transformem numa procissão de faits divers ― mais ou menos tragicómicos ― ou, pior ainda, num mero inventário das bizarrias que tive o azar de testemunhar.
Talvez por isso, decidi, se o editor da revista ainda assim o desejar, escrever apenas mais uma vez sobre este tema.


Matrix Total

Peter Gold, Estrela do Glam Rock
e comandante-operacional do Baader-Meinhof no Sussex

Ele tinha acabado de chegar a Woodlands para ser internado ― compulsoriamente, como era hábito ― quando me perguntaram se eu me importava de ficar com ele na sala de reuniões até que o psiquiatra de serviço, o enfermeiro e aquela malta toda que tem de estar presente na consulta de internamento estivesse disponível. É óbvio que não me importei. Que é que ia dizer-lhes: "Ah... não, hoje já tenho outros planos?" Adiante. Entrei na sala e lá estava ele: uma figura... elegante; um ar de artista decadente, sei lá eu, barbudo, guedelhudo, de aspecto um pouco cansado, mas sobretudo, com um olhar feroz.

Na sua maneira de ver ― contou-me mais tarde ― nada justificava aquele internamento forçado. Tudo não passava de (mais) um plano da irmã e, claro estava, da enfermeira-chefe Camelia para lhe ficarem com a fortuna resultante dos milhões de álbuns vendidos nos anos 70, quando era uma estrela do glam rock e conhecido mundialmente com o nome artístico Golden Star. E eis que, no meio dessa injustiça descarada e furiosa, apareci eu e, para mais, com a lata de lhe dizer o quê? ― Boa-tarde!  É claro que não podia dar bom resultado.

― Boa tarde? Boa tarde? Que é que há de bom nesta tarde? Suponho que a seguir ainda me vais dizer que está tudo bem e que me vou sentir muito melhor?!? ― gritou-me. ― "Pois bem, não faço a mínima ideia de quem és, não te quero ouvir e não te digo mais nada".

A verdade é que, com o passar do tempo, e apesar desta apresentação não muito famosa, acabámos por falar frequentemente. Acontece que, quando já estava melhor, não obstante usufruir de section 17* para três ou quatro saídas semanais, a maior parte dos trabalhadores de Woodlands tinha medo dele e, assim sendo, era-lhe bastante difícil arranjar alguém que o acompanhasse. Bastante difícil... excepto nos dias em que eu estava de serviço, claro.
(Sempre tive uma atitude descontraída em relação às saídas supervisionadas com pacientes e, tirando um puto escocês que se atirou para cima de um carro em andamento mal saímos as portas da clínica de Langford, nunca apanhei assim grandes sustos.)

Apesar do tom um bocadinho áspero na voz e no aspecto, Peter Gold ― o tempo também se encarregou de mo mostrar ― podia ser, na maior parte das vezes, um paranóico esquizofrénico bastante sereno. O seu destino favorito, a loja de conveniência na esquina da Ridge com Harrow Lane, situava-se a uns vinte ou trinta minutos de caminho do hospital... isto porque caminhávamos sempre pela Ridge afora da mesma maneira como conversávamos: sem objectivo aparente.

Nunca me lembro de o ter visto comprar senão tabaco, chocolates, refrigerantes... e, envelopes e papel de carta. Magotes de envelopes e de papel de carta que usava, obviamente, para escrever cartas.
Sim, cartas endereçadas à rainha Elizabeth II e respectivos ministros.
Aproveitava também, obviamente, para colocar no marco do correio as cartas escritas nos dias anteriores. Pelo caminho, invariavelmente, falava-me dos temas das cartas desse dia... que, invariavelmente também, eram os mesmos das cartas dos dias anteriores: as cartas endereçadas à rainha relacionavam-se com o seu problema de saúde mental (inexistente, segundo ele) e denunciavam e demandavam a justiça de Sua Majestade quanto ao já referido assunto dos dinheiros acumulados nos anos setenta enquanto Golden Star. Sobre as outras, era um bocadinho mais secretista, visto que eram assuntos de estado entre o Reino Unido e ele, o comandante-operacional para a região do Sussex do Baader-Meinhof. Sim, esse mesmo. O famigerado grupo terrorista alemão dos anos setenta.

Eu sempre tive inúmeros problemas em lidar com esta incapacidade que certas pessoas têm (ia escrever "pacientes", mas depois lembrei-me que há muita gente assim que nunca viu o lado de dentro de um hospital psiquiátrico)... a incapacidade que certas pessoas têm, dizia eu, de distinguir entre o real e o fruto da sua imaginação e, uma vez por outra, apanhavam-me completamente desprevenido e, essas situações, confesso, eram bastante difíceis de gerir. Por exemplo: uma vez, depois de uma viagem de retorno praticamente sem diálogo, vínhamos já dentro dos muros que circundam a zona do hospital, já a chegar à porta do St. Anne's Centre, quando ele pára e me diz assim:
― Sabes, Joe... ― ele chamava-me Joe, aliás, tal como toda a gente em Inglaterra; "Joaquim" parece ser uma impossibilidade verbal para esta gente ― "Sabes, Joe... neste sábado, ia eu a passear em Londres, à porta da estação de metro de Tottenham Court Road... Sabes onde é? Em Londres? Tem aquele passeio muito largo..."
― Até sei. ― digo-lhe eu. E ele: ― Ok, no meio do passeio, estás a ver a enfermeira-chefe Camelia, sim?… Então, vejo-a completamente nua em plena rua. Tudo de fora. E em Tottenham Court Road (!!!) e não só nua... nua e ajoelhada no passeio, a fazer broches a todos os homens que passavam. Exactamente, de joelhos. Nua. Olha, nem joelheiras tinha... Nem joelheiras.

* Section 17 é uma alínea do Mental Health Act que reconhece ao doente o direito de usufruir de saídas do ambiente hospitalar e é considerada uma parte essencial da sua reabilitação e recuperação. Essas saídas são normalmente supervisionadas por um membro da equipe hospitalar. Com o tempo, se as experiências de saída acompanhadas forem positivas, o paciente pode passar a usufruir de saídas não-supervisionadas.

NOTA: soube, não há muito tempo, que P.S., o homem que inspirou este relato verídico, morreu em 2017. Descansa em paz, grande Golden Star. E podes ficar descansado, se voltar a encontrar a enfermeira-chefe Camelia, eu ofereço-lhe as joelheiras da fotografia.


A primeira vez
Joaquim Coelho

Sempre encarei o meu trabalho de auxiliar de acção médica como uma coisa temporária.
Mas da primeira vez que impedi um paciente de se suicidar no hospital psiquiátrico onde agora trabalho, percebi que, se calhar, não se tem obrigatoriamente só uma profissão na vida.

Ao fazer as observações intervaladas de quinze minutos ao quarto número 1 (às onze e quinze minutos, precisamente), dei-me conta que A.J., uma paciente que chegara no dia antes, não estava no quarto. Ou que, pelo menos, não estava à vista.
A minha primeira reacção – natural – foi pensar que poderia estar no pátio, a fumar com os outros doentes ou em qualquer outro lugar do hospital. Afinal de contas, os doentes não são obrigados a estar constantemente nos seus quartos.
Mas, seguindo um pressentimento esquisito – e, pelo sim pelo não – abri a porta do quarto e, chamando-a pelo nome, entrei.

Puxei imediatamente o alarme que trazia à cintura e o som típico do mesmo, “a corneta das desgraças”, como carinhosamente lhe chamo, disparou, ruidoso como é seu dever, ouvindo-se por todo o hospital.

Lembro-me de pensar “oh pá, esta gaja vai lixar-me o dia.” enquanto tentava desesperadamente enfiar os meus dedos entre a pele e o fio eléctrico – um fio eléctrico de rádio, daqueles normalíssimos, com uma ficha na ponta para ligar a uma tomada? Isso mesmo. – dizia eu?… ah sim, o fio eléctrico que ela apertara à volta do pescoço, já marcado com inúmeras cicatrizes de outras tantas inúmeras tentativas.

E, enquanto olhava para aquela cara já claramente adornada de tons de azul, a única coisa que eu conseguia pensar era: “esta tipa não pode morrer… vai-me estragar a porra do dia”. E, pior ainda, vou passar o resto da vida a responder a inquéritos e investigações nos tribunais ingleses.

Confesso: a verdade é que tudo o que me saía boca afora eram palavrões, todos demasiado ofensivos para poderem ser repetidos neste espaço e a ideia assustadoramente clara que eu desempenhava – naquele momento decisivo – um papel com uma importância que dificilmente voltaria a ter em toda a minha vida.

Lá consegui, por fim, inventar um pouco de espaço para inserir uma das pontas de aço arredondado da tesoura de serviço. Tudo corria a mil à hora e os membros da equipa, alertados pelo alarme, começavam a chegar ao quarto número 1: eu, já a tentar cortar o fio eléctrico e ela, jovem, pequenina e magra; de cabelo cinzento-estranho e carinha azul, sentada no chão, aos pés da cama, com um casaquinho de lã preta pelos ombros (“deve ser para se proteger do frio no outro mundo” lembro-me de ironizar).
Alguém ordenou que se fosse buscar oxigénio no preciso instante em que, impotente perante o poder das mandíbulas da tesoura, o malfadado fio cedeu finalmente, num "SNAP" que abriu os pulmões a todos os presentes e nos permitiu, também a nós, expirar. Finalmente.
Não seria desta, ainda.

Ainda sob o efeito da adrenalina, controlei o melhor que pude, mas sem grande sucesso, o tremor que me agitava da cabeça aos pés e voltei ao meu trabalho.

Ao fim do dia, antes de me ir embora, passei de novo pelo quarto número 1 e ela, agora com um auxiliar permanentemente sentado à sua cabeceira, dormia tranquilamente como se nada se tivesse passado. Vinda lá de um fundo incerto, pelo corredor deserto, uma melodia ressoava: 

“But maybe I’m crazy,
maybe you’re crazy,
maybe we’re crazy
probably…” 

Woodlands, Hastings - 04/07/2014


"Grab'em, floor'em, jab'em"
Joaquim Coelho

"Grab'em, floor'em, jab'em"
(tradução aproximada: agarrá-los, prostrá-los e injectá-los.)

Era mais ou menos assim o "mantra" de um hospital de saúde mental (privado) onde trabalhei, a alguns quilómetros de Hastings.
Eu ainda não era qualificado para fazer restrição de movimentos a pacientes e, talvez por isso mesmo, causava-me alguma impressão a leviandade (e, por vezes, a agressividade) com que tal procedimento era adoptado.
Depois de me ter qualificado para executar imobilizações, quis a sorte que nunca voltasse a trabalhar nesse sítio, mas a sensação que tenho é que, caso tal tivesse voltado a acontecer, teria, de certezinha, feito queixa do staff do dito hospital.  

Eu explico:
É que ali, em vez de ser encarada com um último recurso — a que se recorria quando todos os outros meios de dissuasão falhavam — a restrição de movimentos "de cara no chão" ("face-down restraint", na gíria profissional) era usualmente utilizada como um castigo. Sendo que a tal prática se recorria frequentemente, inclusive na enfermaria das mulheres com doenças mentais mais graves; lugar onde uma das enfermeiras-chefe, e recordo-a sem qualquer saudade ou simpatia, apresentava tanta empatia com as suas pacientes —  mulheres física e intelectualmente extremamente vulneráveis — como uma "enfermeira" de um campo de concentração nazi... a grande puta. Mas adiante.
 

A primeira restrição de movimentos em que participei em Woodlands, logo no primeiro dia em que voltei ao trabalho, depois da semana de curso de PMVA*, foi inesquecível. Afinal de contas, que me lembre, foi a primeira vez que interferi intencionalmente na vida de uma pessoa, de modo a restringir as suas liberdades individuais e sociais... nomeadamente, a sua liberdade de movimentos e de escolha.
É verdade que ele — o paciente em questão — se encontrava num estado de grande agitação que punha em perigo não só a sua integridade física, como também a dos que o rodeavam. Assim mesmo, deu-me que pensar. 

No hospital de Woodlands, a imobilização de um paciente para o medicar implicava, normalmente, que todos os outros recursos (sejam eles diálogo, medicação voluntária, terapia ocupacional ou o diabo a quatro) tinham sido esgotados.
E percebe-se porquê. Basta pensar um bocadinho. Num estado de direito, as forças policiais são as únicas forças representadas na sociedade que têm — de facto — o poder de inibir o cidadão dos seus direitos humanos. E mesmo assim, com limites.
Rectificação: no Reino Unido, as forças policiais, MAS TAMBÉM os profissionais de saúde mental possuidores de um diploma de PMVA. 

Afinal de contas, imobilizar um paciente significa, só para começar, interferir com a sua liberdade individual. Da mesma maneira que o gesto de espetar uma seringa na sua pele, pode ser facilmente ligado a uma violação da integridade física. E que dizer de injectar um (regra geral, potente) cocktail de drogas que irão alterar significativamente o estado de consciência do paciente, sem que ele nada possa fazer para o impedir?  

Por isso tudo, talvez, cada procedimento semelhante implica sempre também uma montanha de papelada que nunca mais acaba. E todos os intervenientes na imobilização (cinco, definem as boas práticas do NHS*) são entrevistados após o evento e forçados (por lei) a pôr por escrito a sua versão do acontecimento.  

Para mim, no entanto, o mais difícil de esquecer é sempre aquele momento em que o paciente pára de se debater. Quando param os gritos e os movimentos. Quando sente que foi fisicamente subjugado e que não há maneira de evitar o que se vai seguir. Quando se entrega... quando desiste.
E, nesse preciso instante, tudo o que se vê e se ouve e se sente é o seu medo. Medo, talvez, que todos os dias que ainda restam sejam assim? Não sei.  

Já digo: que bom seria sentir resignação uma vez que fosse. Não só o medo denunciado na respiração ofegante e tantas vezes — sobretudo no caso das mulheres — pontuado também por um choro, baixinho. Um choro arrastado pelo desespero e por uma vergonha inexplicável.

E aquele olhar que foge de se fixar e que escolhe olhar para cima e virar-se para dentro. Irremediável e definitivamente.  

* Prevenção e Gestão de Violência e Agressão;
* Serviço Nacional de Saúde;