Contemplações
Francisco Gil
A Infinita Leveza da Pedra.
Em Vale do Lobo,
no concelho de Loulé, quatro blocos de
granito parecem desafiar as
propriedades da matéria. Intitulada
Die unendliche Leichtigkeit des Steins
(A Infinita Leveza da Pedra), a
escultura foi criada em 2005 pelo
artista alemão Volker Schnüttgen e
apresenta um surpreendente equilíbrio
entre peso e leveza.
A
composição é constituída por quatro
blocos de granito cinzento, próximos
uns dos outros e dispostos
verticalmente. As formas, semelhantes a
paralelepípedos, encontram-se
subtilmente arqueadas, torcidas e
inclinadas para o centro, embora nunca
se toquem. A distância entre os
elementos cria uma tensão visual:
parecem prestes a cair ou, pelo
contrário, a apoiar-se através de uma
força invisível.
O granito é uma
rocha rígida, pesada e resistente. No
entanto, o trabalho do escultor
confere-lhe uma aparência flexível,
quase elástica. Os blocos parecem
dobrar-se suavemente em direção ao
solo, como se fossem constituídos por
um material dócil e moldável. É
precisamente deste contraste que nasce
o significado do título: aquilo que
deveria transmitir estabilidade e peso
apresenta-se suspenso num equilíbrio
delicado.
A obra pertence ao
domínio da abstração. Não representa
uma figura, um objeto ou uma narrativa
facilmente identificável. A matéria, a
forma, o volume e o espaço constituem o
seu conteúdo principal. Ao circular em
torno da escultura, o observador
descobre diferentes relações entre os
blocos, os vazios e a paisagem
envolvente.
A ideia de leveza
pode também ser entendida num sentido
interior. Na tradição filosófica e
poética alemã, associa-se
frequentemente à serenidade, à
libertação e à capacidade de viver sem
o peso excessivo do passado ou a
ansiedade do futuro. Assim, a escultura
pode sugerir tanto um equilíbrio físico
como um estado de elevação espiritual.
Nascido em Attendorn, Alemanha, em
1961, Volker Schnüttgen estudou
Escultura e Gravura na Universidade das
Artes de Bremen. Recebeu, em 1992, uma
bolsa do Ministério dos Negócios
Estrangeiros português e, desde 1993,
vive e trabalha em Sintra. Desenvolveu
ainda projetos em escultura, multimédia
e artes performativas, tendo lecionado
na Faculdade de Belas-Artes da
Universidade do Porto.
Em A
Infinita Leveza, Schnüttgen
realiza um pequeno prodígio visual:
coloca diante de nós uma obra que, por
instantes, nem parece que temos à nossa
frente toneladas de pedra.◾
- Ano VIII • 87 • 2026
