Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

Monumento a Manuel Teixeira Gomes.

No centro da praça que ostenta o seu nome, em Portimão, o monumento dedicado a Manuel Teixeira Gomes mantém viva a memória de uma das personalidades mais singulares da história contemporânea portuguesa. Presidente da República, diplomata, escritor, viajante e esteta, Teixeira Gomes permanece profundamente ligado à cidade onde nasceu, em 1860.

A atual Praça Manuel Teixeira Gomes integrava os antigos Jardins Visconde de Bivar e recebeu esta designação em 1950. Durante décadas, o seu espaço central foi ocupado por um coreto, palco de concertos, cerimónias e momentos de convívio. Demolido na década de 1960, deu posteriormente lugar ao monumento escultórico concebido por Fernando Conduto e erguido em 1974.

A obra é constituída por três blocos retangulares de pedra lioz, dispostos verticalmente e aparentemente descentrados. O elemento inferior encontra-se parcialmente submerso num espelho de água, criando a ilusão de ser mais pequeno. Apesar do aparente desequilíbrio, as arestas dos blocos estabelecem alinhamentos rigorosos, reveladores do gosto de Conduto pela geometria, pela depuração formal e pela relação entre cheios e vazios.

No bloco central surge o retrato de Teixeira Gomes. Em vez de um busto convencional, o artista criou uma efígie em baixo-relevo, obtida através de incisões longitudinais na pedra. Inspirado numa fotografia a preto e branco, o retrato constrói-se pela alternância entre superfícies polidas e zonas escavadas: a parte lisa capta a luz, enquanto as depressões produzem a sombra. Deste diálogo nasce uma imagem que parece emergir da própria matéria.

Natural de Silves, Fernando Conduto desenvolveu atividade como escultor, pintor, gravador, designer e professor, sendo igualmente uma figura renovadora da medalhística portuguesa contemporânea.

A escolha deste artista para homenagear Teixeira Gomes estabelece, assim, uma interessante ligação entre duas figuras algarvias. Eleito sétimo Presidente da República em 1923, Teixeira Gomes abandonou o cargo em 1925, num período de grande instabilidade política. Escritor de reconhecida sensibilidade, passou os últimos anos na Argélia, onde morreu em 1941.

Rodeado por jardins, bancos e esplanadas, o monumento continua a integrar o quotidiano de Portimão. Celebrando um ilustre portimonense, homem de cultura, profundamente cosmopolita, que nunca deixou de levar consigo a memória da sua terra natal.◾