Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

Horas de luz.

O Sol, esse Deus primordial da vida na Terra. Na velha Europa, os territórios mais a Sul têm o privilégio de receber mais horas de sol por ano do que aqueles lugares situados mais a Norte. No Algarve e no Sul da Península Ibérica, estima-se que sejam mais de três mil horas de sol por ano.

Foi precisamente a propósito desta abundância de luz que António Aleixo Candeias criou, em ferro pintado, uma peça instalada na rotunda de Monte Gordo, em Monte Fino, intitulada “Horas de luz” com data de 2007.

De forma simples e eficaz, o escultor e o município de Vila Real de Santo António decidiram recordar a importância do Sol e da luz para todos os seres vivos. Uma homenagem à luz que, por estes Algarves, nos acompanha durante tantas horas do ano.

Mas a relação entre o ser humano e o Sol é muito mais antiga.

Não sabemos ao certo se os tartessos, antigo povo do Sul da Península Ibérica, entre os séculos IX e V a.C., adoravam o Sol. É, contudo, uma possibilidade. Os seus contactos comerciais com os fenícios aproximara-os de uma cultura em que Baal, uma das principais divindades, estava associado ao céu, à fertilidade e às forças da natureza, incluindo o poder solar.

Muito antes, no antigo Egipto, já se adorava Rá, o deus solar por excelência. O próprio nome significa “Sol”. Rá personificava o poder do astro rei, mas era também imaginado como o próprio Sol, navegando numa barca através dos céus durante o dia e descendo ao mundo subterrâneo ao anoitecer.

Do outro lado do Atlântico, também os Maias construíram templos e pirâmides tendo em conta os movimentos do Sol. Um dos exemplos mais famosos encontra-se em Chichén Itzá, no México. Nos equinócios, a luz solar projeta sobre a escadaria da pirâmide de El Castillo um efeito de luz e sombra que parece formar o corpo de uma serpente a descer pela escadaria. Para os Maias, o Sol estava igualmente ligado aos ciclos agrícolas, às colheitas e à prosperidade.

Para os Incas, nos Andes, o Sol não era apenas um astro: era uma divindade central, fonte de vida e elemento fundamental da organização da sociedade e da autoridade do imperador. Inti, o deus Sol, era considerado poderoso, mas também benevolente e generoso. Os eclipses solares, porém, podiam ser interpretados como sinais do descontentamento divino, exigindo rituais destinados a recuperar o seu favor.

E quem não se lembra de Tintim e da aventura “O Templo do Sol”? Perdidos no Peru, Tintim e os seus companheiros acabam por enfrentar precisamente o poder atribuído ao Sol. E é um eclipse que, inesperadamente, acaba por lhes salvar a vida, fazendo acreditar que se trata de um sinal da vontade divina.

A escultura “Horas de luz” recorda-nos que o Sol é muito mais do que uma presença quotidiana. É um símbolo universal de vida, celebrado por povos de diferentes continentes ao longo de milhares de anos.

Talvez seja essa a força desta obra de António Candeias: lembrar-nos de que, no Algarve, convivemos diariamente com um património natural que tantas civilizações veneraram. A luz que hoje nos aquece é a mesma que inspirou mitos, religiões, calendários, monumentos e obras de arte desde a Antiguidade.

E, quando um eclipse solar voltar a escurecer o céu por breves instantes, voltaremos a celebrar o Sol através desse extraordinário espetáculo celeste, com o mesmo sentimento de admiração que sempre despertou na Humanidade e que, felizmente, continua tão intenso como há milhares de anos
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