Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

Homenagem ao Pescador de João Cutileiro.

Na zona ribeirinha de Alvor, antiga aldeia piscatória do concelho de Portimão, a localização privilegiada, entre a ria e o mar, fez deste lugar um porto natural de importância desde tempos remotos. O seu desenvolvimento consolidou-se sobretudo durante a presença romana na Península Ibérica, mas a vida quotidiana das suas gentes sempre se fez ao ritmo das marés. A história da comunidade esteve, desde sempre, intimamente ligada ao mar e à pesca.

É precisamente neste encontro entre a terra e a ria que se ergue uma das mais significativas homenagens à identidade local: a escultura Homenagem ao Pescador, da autoria de João Cutileiro. Inaugurada em 2000, esta obra em pedra, com cerca de quatro metros de altura, traduz, de forma simultaneamente simples e profunda, a relação ancestral entre a comunidade alvorense e o mar.

Durante gerações, Alvor foi uma vila marcadamente ligada à atividade piscatória. Mais do que uma profissão, a pesca constituiu um verdadeiro modo de vida, estruturando práticas sociais, económicas e simbólicas. Não surpreende, por isso, que o espaço público acolha uma escultura dedicada a esta atividade, implantada de forma particularmente expressiva junto à antiga lota e à zona portuária.

A figura concebida por Cutileiro representa um pescador que segura um peixe, num gesto que sugere, em simultâneo, conquista e gratidão. Não há dramatismo nem heroísmo idealizado; existe antes uma contenção expressiva que remete para a dignidade do trabalho quotidiano e para a relação de dependência do homem em relação ao mar.

A obra inscreve-se na linguagem muito própria de João Cutileiro, um dos mais singulares escultores portugueses do século XX. A sua abordagem caracteriza-se por uma relação direta com a matéria, neste caso, a pedra, explorando o equilíbrio entre a forma e o informe, entre o acabamento e a sugestão.

Desde cedo, Cutileiro rompeu com as convenções académicas, introduzindo uma dimensão quase performativa no ato escultórico. As suas obras dialogam frequentemente com arquétipos antigos, figuras humanas e gestos primordiais, reinterpretados à luz de uma sensibilidade contemporânea. Neste contexto, o Pescador de Alvor ultrapassa a dimensão estritamente local, tornando-se uma evocação universal da relação do ser humano com a natureza e com o seu sustento.

Como sucedeu com muitas das suas esculturas públicas, também esta obra suscitou alguma controvérsia aquando da sua inauguração. A depuração formal e a ausência de convencionalismo não reuniram consenso imediato. Com o passar do tempo, porém, a escultura foi sendo plenamente apropriada pela comunidade, tornando-se um marco identitário e uma referência incontornável da paisagem urbana de Alvor.

Este percurso, da estranheza inicial à aceitação, é, aliás, característico da obra de Cutileiro, frequentemente descrita como "excessiva, festiva e generosa", e que marcou de forma decisiva a cultura visual portuguesa da segunda metade do século XX.

Ao longo da sua carreira, João Cutileiro recebeu importantes distinções, entre as quais o grau de Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada e o título de Doutor Honoris Causa por universidades portuguesas. A sua obra foi amplamente exposta, destacando-se a grande retrospetiva apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian, permanecendo hoje como uma referência incontornável da escultura contemporânea portuguesa.
Entre os temas recorrentes do escultor destacam-se os corpos femininos, mas também figuras humanas de forte carga simbólica, como este pescador de Alvor, simultaneamente concreto e intemporal.

Mais do que um objeto artístico, a Homenagem ao Pescador constitui um espelho da identidade coletiva. Num tempo em que muitas comunidades costeiras enfrentam profundas transformações e novos desafios sociais e económicos, a escultura permanece como um testemunho silencioso da herança cultural das comunidades piscatórias e da memória de um modo de vida moldado pelo mar.

Ao recordar João Cutileiro, recorda-se também a capacidade da arte de fixar no espaço aquilo que, por natureza, é efémero: o gesto, o trabalho, a tradição e, neste caso, o eterno diálogo entre o homem e o mar.◾