Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

Zephirus, o monumento à brisa suave da primavera.

Entre a mitologia clássica e a arte contemporânea ergue-se Zephirus, escultura inusitada instalada desde 14 de julho de 2001 na rotunda da zona industrial de Loulé. Criada pelos escultores britânicos Adam Varley e Beau McClellan, a obra convoca o imaginário do deus grego Zéfiro, divindade do vento oeste e símbolo da brisa suave da primavera.

Na tradição mitológica grega, Zéfiro era um dos Anemoi, os deuses dos ventos, filho de Eos, a aurora, e de Astraeus, o crepúsculo. Associado à fertilidade, às flores e ao renascimento da natureza, distinguia-se dos restantes ventos pela sua suavidade e benevolência. A sua figura atravessou séculos de imaginário clássico, permanecendo ligada à ideia de movimento, transformação e força invisível.

É precisamente essa dimensão imaterial que a escultura Zephirus parece capturar. Com cerca de oito metros de altura, a peça apresenta-se como uma estrutura ascensional composta por sete longas lâminas em aço, dispostas em semicírculo e unidas no topo. Deste ponto eleva-se uma haste pontiaguda que sustenta quatro elementos móveis em aço inoxidável, semelhantes a espadas ou cataventos contemporâneos. Movidos pela ação do ar, estes elementos giram lentamente, apontando em direções variáveis, transformando continuamente a perceção visual da obra.

A relação entre escultura e vento é central na experiência estética da peça. Os seus movimentos, discretos e quase impercetíveis à passagem rápida dos automóveis, exigem tempo de observação e atenção ao ambiente envolvente. Quando o vento cessa, também a escultura parece suspender a sua energia cinética, permanecendo imóvel, silenciosa, como se aguardasse novamente a intervenção invisível da natureza.

A obra ganha uma dimensão adicional quando observada à luz do percurso do seu cocriador, Beau McClellan. Escultor, designer de iluminação, cenógrafo, músico e diretor artístico, o criador escocês construiu no Algarve uma carreira marcada pela experimentação e pela capacidade de reinvenção. Chegado a Portugal no início da década de 1990, após abandonar a Escócia, encontrou em Loulé um território fértil para desenvolver uma linguagem artística própria, inicialmente ligada ao ferro forjado e à escultura de grande escala.

Em parceria com Adam Varley, destacou-se pela criação de peças contemporâneas em aço, conjugando técnicas tradicionais com abordagens inovadoras. Mais tarde, McClellan viria também a afirmar-se internacionalmente no design de iluminação, alcançando reconhecimento mundial com obras de grande dimensão e instalações cinéticas movidas pela luz e pelo movimento, elementos que já se insinuam em Zephirus. O seu percurso revela uma constante procura entre arte, matéria e energia, numa relação profundamente ligada ao gesto criativo e à transformação do espaço.

Integrada numa rotunda desenhada especificamente para a acolher, envolvida por uma superfície ondulante de calçada portuguesa, Zephirus estabelece um diálogo entre espaço urbano, movimento e paisagem. Observada de diferentes ângulos, a estrutura sugere uma chama metálica em permanente mutação, moldada pelos ventos e pela luz.

Mais do que um elemento escultórico, Zephirus afirma-se como um ponto de encontro entre uma memória clássica e criação contemporânea, trazendo para o espaço público uma reflexão poética sobre as forças invisíveis que moldam o mundo e a experiência humana.◾