Contemplações
Francisco Gil
Zephirus, o monumento à brisa suave da primavera.
- Partilhar 18/05/2026
Entre a
mitologia clássica e a arte
contemporânea ergue-se Zephirus,
escultura inusitada instalada desde 14
de julho de 2001 na rotunda da zona
industrial de Loulé. Criada pelos
escultores britânicos Adam Varley e
Beau McClellan, a obra convoca o
imaginário do deus grego Zéfiro,
divindade do vento oeste e símbolo da
brisa suave da primavera.
Na
tradição mitológica grega, Zéfiro era
um dos Anemoi, os deuses dos
ventos, filho de Eos, a
aurora, e de Astraeus, o
crepúsculo. Associado à fertilidade, às
flores e ao renascimento da natureza,
distinguia-se dos restantes ventos pela
sua suavidade e benevolência. A sua
figura atravessou séculos de imaginário
clássico, permanecendo ligada à ideia
de movimento, transformação e força
invisível.
É precisamente essa
dimensão imaterial que a escultura
Zephirus parece capturar. Com
cerca de oito metros de altura, a peça
apresenta-se como uma estrutura
ascensional composta por sete longas
lâminas em aço, dispostas em
semicírculo e unidas no topo. Deste
ponto eleva-se uma haste pontiaguda que
sustenta quatro elementos móveis em aço
inoxidável, semelhantes a espadas ou
cataventos contemporâneos. Movidos pela
ação do ar, estes elementos giram
lentamente, apontando em direções
variáveis, transformando continuamente
a perceção visual da obra.
A
relação entre escultura e vento é
central na experiência estética da
peça. Os seus movimentos, discretos e
quase impercetíveis à passagem rápida
dos automóveis, exigem tempo de
observação e atenção ao ambiente
envolvente. Quando o vento cessa,
também a escultura parece suspender a
sua energia cinética, permanecendo
imóvel, silenciosa, como se aguardasse
novamente a intervenção invisível da
natureza.
A obra ganha uma
dimensão adicional quando observada à
luz do percurso do seu cocriador, Beau
McClellan. Escultor, designer de
iluminação, cenógrafo, músico e diretor
artístico, o criador escocês construiu
no Algarve uma carreira marcada pela
experimentação e pela capacidade de
reinvenção. Chegado a Portugal no
início da década de 1990, após
abandonar a Escócia, encontrou em Loulé
um território fértil para desenvolver
uma linguagem artística própria,
inicialmente ligada ao ferro forjado e
à escultura de grande escala.
Em parceria com Adam Varley,
destacou-se pela criação de peças
contemporâneas em aço, conjugando
técnicas tradicionais com abordagens
inovadoras. Mais tarde, McClellan viria
também a afirmar-se internacionalmente
no design de iluminação, alcançando
reconhecimento mundial com obras de
grande dimensão e instalações cinéticas
movidas pela luz e pelo movimento,
elementos que já se insinuam em
Zephirus. O seu percurso revela
uma constante procura entre arte,
matéria e energia, numa relação
profundamente ligada ao gesto criativo
e à transformação do espaço.
Integrada numa rotunda desenhada
especificamente para a acolher,
envolvida por uma superfície ondulante
de calçada portuguesa, Zephirus
estabelece um diálogo entre espaço
urbano, movimento e paisagem. Observada
de diferentes ângulos, a estrutura
sugere uma chama metálica em permanente
mutação, moldada pelos ventos e pela
luz.
Mais do que um elemento
escultórico, Zephirus
afirma-se como um ponto de encontro
entre uma memória clássica e criação
contemporânea, trazendo para o espaço
público uma reflexão poética sobre as
forças invisíveis que moldam o mundo e
a experiência humana.◾
- Ano VII • 83 • 2026
