Contemplações
Francisco Gil
António Aleixo: o poeta popular sem “papas na língua”.
- Partilhar 18/04/2026
Entre as vozes
mais singulares da poesia portuguesa do
século XX, destaca-se a de António
Aleixo. Nascido em Vila Real de Santo
António, a 18 de fevereiro de 1899, foi
em Loulé que construiu a sua identidade
humana e literária, tornando-se uma
figura indissociável da cidade.
Poeta popular por excelência,
Aleixo elevou a quadra a instrumento de
reflexão moral, crítica social e
sabedoria quotidiana. A sua poesia,
marcada por uma impressionante clareza
e por uma aguda consciência do mundo,
permanece atual, atravessando gerações.
Não por acaso, é considerado um dos
poetas populares mais lido em Portugal.
A força da sua obra
reside na simplicidade aparente que
encerra profundidade ética e
sensibilidade invulgar. Aleixo falava
do povo e para o povo, denunciando
injustiças, ironizando os poderosos e
refletindo sobre a condição humana com
palavras diretas e memoráveis. A sua
ligação a Loulé foi tão intensa que a
cidade tem procurado, ao longo das
décadas, perpetuar a sua memória
através de topónimos, instituições
culturais e monumentos públicos.
Em 1989, assinalando o quadragésimo
aniversário da sua morte, Loulé decidiu
prestar-lhe uma homenagem especial: a
inauguração de um auditório no Parque
Municipal e a criação de uma escultura
evocativa. O artista plástico escolhido
foi Lagoa Henriques, um dos mais
destacados escultores portugueses do
século XX.
O mestre Lagoa
Henriques propôs-se conhecer o universo
do poeta, visitar a cidade e conversar
com quem o recordava. Dessa imersão
nasceu uma obra de grande força
evocativa: António Aleixo sentado numa
cadeira, em pose descontraída e
reflexiva, como tantas vezes se
encontrava à mesa do emblemático Café
Calcinha, onde improvisava versos e
partilhava ideias com amigos. Ao seu
lado, uma mesa de bronze exibe excertos
da sua poesia gravados no tampo,
convidando o visitante à leitura e à
contemplação.
A escultura, com
1,42 metros de altura e executada em
bronze, foi inaugurada a 16 de novembro
de 1989 no Parque Municipal de Loulé,
junto ao Anfiteatro António Aleixo,
também construído em sua honra.
Contudo, a localização revelou-se
demasiado isolada. A população e
familiares do poeta defenderam que o
monumento deveria ocupar um espaço mais
central, mais próximo da vivência
quotidiana que marcara a vida do
homenageado.
Perante a intenção
de transferir a estátua para o centro
da cidade, Lagoa Henriques opôs-se à
deslocação da obra original, propondo
antes a realização de uma réplica.
Assim, em 28 de março de 1996, foi
inaugurada uma segunda escultura,
colocada na esplanada do Café Calcinha,
na Praça da República, o verdadeiro
palco da sociabilidade do poeta
popular. Na cerimónia estiveram
presentes familiares, autoridades
locais, numerosos fregueses e o próprio
escultor, num momento de celebração da
memória coletiva.
A figura de
Aleixo, sentada de lado, com um braço
apoiado nas costas da cadeira e a perna
cruzada, transmite serenidade e
introspeção. Não é um herói
monumentalizado, mas um homem do povo,
captado num instante de pausa e
pensamento. A escala real da obra
reforça essa proximidade, permitindo
que qualquer pessoa se sente
simbolicamente à sua mesa.
Lagoa
Henriques, escultor neofigurativo de
linguagem depurada, foi também autor da
célebre estátua de Fernando Pessoa na
esplanada do Café Brasileira, no Chiado
lisboeta. Formado no Porto e em Lisboa,
premiado e com carreira internacional,
o artista encontrou na poesia uma fonte
constante de inspiração criativa. No
caso de António Aleixo, soube traduzir
em bronze a dignidade simples de um
poeta que transformou a palavra popular
em património cultural.
No
Parque Municipal, uma parede branca com
azulejos recorda: “ANTÓNIO ALEIXO POETA
POPULAR 1899–1949”, acompanhada de
versos seus que celebram a transmissão
do saber de geração em geração. Entre o
bosque tranquilo e o bulício do centro
histórico, as duas esculturas dialogam
com a cidade e com o tempo.
Hoje, António Aleixo vive não apenas
nos livros, mas no espaço público, na
memória coletiva e na identidade
cultural algarvia. Sentado à mesa do
café, eternizado em bronze, continua a
ensinar, lição por lição, que a palavra
simples pode conter a mais profunda
verdade.◾
"Sei que
pareço um ladrão,
mas há muitos que
eu conheço,
que, sem parecer o que
são,
são aquilo que eu pareço."
- Ano VII • 82 • 2026
