Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

António Aleixo: o poeta popular sem “papas na língua”.

Entre as vozes mais singulares da poesia portuguesa do século XX, destaca-se a de António Aleixo. Nascido em Vila Real de Santo António, a 18 de fevereiro de 1899, foi em Loulé que construiu a sua identidade humana e literária, tornando-se uma figura indissociável da cidade.

Poeta popular por excelência, Aleixo elevou a quadra a instrumento de reflexão moral, crítica social e sabedoria quotidiana. A sua poesia, marcada por uma impressionante clareza e por uma aguda consciência do mundo, permanece atual, atravessando gerações. Não por acaso, é considerado um dos poetas populares mais lido em Portugal.

A força da sua obra reside na simplicidade aparente que encerra profundidade ética e sensibilidade invulgar. Aleixo falava do povo e para o povo, denunciando injustiças, ironizando os poderosos e refletindo sobre a condição humana com palavras diretas e memoráveis. A sua ligação a Loulé foi tão intensa que a cidade tem procurado, ao longo das décadas, perpetuar a sua memória através de topónimos, instituições culturais e monumentos públicos.

Em 1989, assinalando o quadragésimo aniversário da sua morte, Loulé decidiu prestar-lhe uma homenagem especial: a inauguração de um auditório no Parque Municipal e a criação de uma escultura evocativa. O artista plástico escolhido foi Lagoa Henriques, um dos mais destacados escultores portugueses do século XX.

O mestre Lagoa Henriques propôs-se conhecer o universo do poeta, visitar a cidade e conversar com quem o recordava. Dessa imersão nasceu uma obra de grande força evocativa: António Aleixo sentado numa cadeira, em pose descontraída e reflexiva, como tantas vezes se encontrava à mesa do emblemático Café Calcinha, onde improvisava versos e partilhava ideias com amigos. Ao seu lado, uma mesa de bronze exibe excertos da sua poesia gravados no tampo, convidando o visitante à leitura e à contemplação.

A escultura, com 1,42 metros de altura e executada em bronze, foi inaugurada a 16 de novembro de 1989 no Parque Municipal de Loulé, junto ao Anfiteatro António Aleixo, também construído em sua honra. Contudo, a localização revelou-se demasiado isolada. A população e familiares do poeta defenderam que o monumento deveria ocupar um espaço mais central, mais próximo da vivência quotidiana que marcara a vida do homenageado.

Perante a intenção de transferir a estátua para o centro da cidade, Lagoa Henriques opôs-se à deslocação da obra original, propondo antes a realização de uma réplica. Assim, em 28 de março de 1996, foi inaugurada uma segunda escultura, colocada na esplanada do Café Calcinha, na Praça da República, o verdadeiro palco da sociabilidade do poeta popular. Na cerimónia estiveram presentes familiares, autoridades locais, numerosos fregueses e o próprio escultor, num momento de celebração da memória coletiva.

A figura de Aleixo, sentada de lado, com um braço apoiado nas costas da cadeira e a perna cruzada, transmite serenidade e introspeção. Não é um herói monumentalizado, mas um homem do povo, captado num instante de pausa e pensamento. A escala real da obra reforça essa proximidade, permitindo que qualquer pessoa se sente simbolicamente à sua mesa.

Lagoa Henriques, escultor neofigurativo de linguagem depurada, foi também autor da célebre estátua de Fernando Pessoa na esplanada do Café Brasileira, no Chiado lisboeta. Formado no Porto e em Lisboa, premiado e com carreira internacional, o artista encontrou na poesia uma fonte constante de inspiração criativa. No caso de António Aleixo, soube traduzir em bronze a dignidade simples de um poeta que transformou a palavra popular em património cultural.

No Parque Municipal, uma parede branca com azulejos recorda: “ANTÓNIO ALEIXO POETA POPULAR 1899–1949”, acompanhada de versos seus que celebram a transmissão do saber de geração em geração. Entre o bosque tranquilo e o bulício do centro histórico, as duas esculturas dialogam com a cidade e com o tempo.

Hoje, António Aleixo vive não apenas nos livros, mas no espaço público, na memória coletiva e na identidade cultural algarvia. Sentado à mesa do café, eternizado em bronze, continua a ensinar, lição por lição, que a palavra simples pode conter a mais profunda verdade.◾

"Sei que pareço um ladrão,
mas há muitos que eu conheço,
que, sem parecer o que são,
são aquilo que eu pareço."