Contemplações
Francisco Gil
O Espelho das Águas: Conjunto Escultórico ao Rei-Poeta.
- Partilhar 10/03/2026
No coração
histórico de Silves, antiga capital do
Algarve islâmico (Gharb al-Andalus),
encontra-se um espaço onde a arte, o
passado e a paisagem urbana dialogam de
forma singular: a Praça dedicada a
Al-Mutamid ibn Abbad. É aqui que se
ergue um conjunto escultórico criado em
2001 pelo escultor português António
Quina, uma obra que presta homenagem ao
célebre “rei-poeta” e à sociedade que
habitou a antiga cidade de Xelb durante
o século XI.
Figura marcante do
período de Al-Andalus, Al-Mutamid foi
inicialmente governador de Silves antes
de se tornar soberano da taifa de
Sevilha. Nascido em Beja, destacou-se
não apenas como governante, mas também
como poeta sensível e culto, cuja obra
literária permanece como um dos
testemunhos mais refinados da cultura
do Al-Andalus. O seu destino, contudo,
foi trágico: após a conquista
almorávida da região, terminou os seus
dias no exílio em Marraquexe.
O
conjunto escultórico concebido por
António Quina procura evocar esse
universo histórico através de uma
linguagem artística simultaneamente
simbólica e narrativa. Sobre um espelho
de água distribuem-se sete figuras
humanas, colocadas sobre pequenas
plataformas metálicas que parecem ilhas
flutuantes. As esculturas, ligeiramente
maiores do que o tamanho natural,
representam habitantes da antiga Xelb
em momentos simples da vida quotidiana.
Entre elas encontram-se três
mulheres alinhadas, envolvidas em
tarefas domésticas, e dois homens que
transportam uma padiola, evocando o
esforço coletivo que sustentava a vida
urbana. Um pouco afastados, outros dois
personagens permanecem sentados, como
se observassem calmamente o desenrolar
do dia. As figuras parecem indiferentes
ao olhar contemporâneo: pertencem a
outro tempo, como se continuassem a
viver no século XI.
A
materialidade da obra reforça esse
diálogo entre passado e presente. As
esculturas foram executadas em mármores
e grés provenientes de Silves,
materiais que apresentam tonalidades
quentes e naturais. Estes contrastam
com o brilho frio das estruturas
metálicas em aço inoxidável, criando um
jogo visual que articula tradição e
modernidade. O trabalho minucioso de
embutidos e contrastes cromáticos
revela o domínio técnico do escultor e
a sua atenção aos detalhes.
Quando a noite cai, o conjunto
transforma-se. A iluminação proveniente
do fundo do lago projeta feixes de luz
verticais que acentuam as silhuetas das
figuras. A água torna-se então um
elemento cénico essencial: os reflexos
duplicam as esculturas e multiplicam a
sua presença, sugerindo que o passado
permanece vivo, refletido na memória
coletiva.
Mais do que uma
homenagem individual, a obra assume um
significado cultural mais amplo. Ao
evocar a figura de Al-Mutamid e a
sociedade de Xelb, o conjunto
escultórico recorda a profunda
influência da presença islâmica na
formação histórica e cultural do
Algarve. As inscrições em árabe
presentes nas placas metálicas reforçam
essa dimensão pedagógica, convidando o
visitante a reconhecer as raízes
partilhadas entre diferentes tradições
culturais.
As figuras
esculpidas, com rostos serenos e gestos
contidos, tornam-se assim
simultaneamente personagens históricas
e metáforas universais. Representam o
povo comum que viveu sob o governo do
rei-poeta, mas também refletem o
espírito artístico que caracterizou o
próprio Al-Mutamid, governante que
conciliou poder político e criação
literária.
Hoje, este conjunto
escultórico é um dos espaços mais
contemplativos de Silves. Entre pedra,
água e luz, a obra de António Quina
convida a uma pausa e a uma reflexão
sobre a continuidade da história. No
espelho de água não se refletem apenas
figuras do século XI — reflete-se
também o olhar do visitante
contemporâneo, que descobre, nesse
encontro silencioso, a permanência de
uma herança cultural partilhada.◾
- Ano VII • 81 • 2026
