Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

O Espelho das Águas: Conjunto Escultórico ao Rei-Poeta.

No coração histórico de Silves, antiga capital do Algarve islâmico (Gharb al-Andalus), encontra-se um espaço onde a arte, o passado e a paisagem urbana dialogam de forma singular: a Praça dedicada a Al-Mutamid ibn Abbad. É aqui que se ergue um conjunto escultórico criado em 2001 pelo escultor português António Quina, uma obra que presta homenagem ao célebre “rei-poeta” e à sociedade que habitou a antiga cidade de Xelb durante o século XI.

Figura marcante do período de Al-Andalus, Al-Mutamid foi inicialmente governador de Silves antes de se tornar soberano da taifa de Sevilha. Nascido em Beja, destacou-se não apenas como governante, mas também como poeta sensível e culto, cuja obra literária permanece como um dos testemunhos mais refinados da cultura do Al-Andalus. O seu destino, contudo, foi trágico: após a conquista almorávida da região, terminou os seus dias no exílio em Marraquexe.

O conjunto escultórico concebido por António Quina procura evocar esse universo histórico através de uma linguagem artística simultaneamente simbólica e narrativa. Sobre um espelho de água distribuem-se sete figuras humanas, colocadas sobre pequenas plataformas metálicas que parecem ilhas flutuantes. As esculturas, ligeiramente maiores do que o tamanho natural, representam habitantes da antiga Xelb em momentos simples da vida quotidiana.

Entre elas encontram-se três mulheres alinhadas, envolvidas em tarefas domésticas, e dois homens que transportam uma padiola, evocando o esforço coletivo que sustentava a vida urbana. Um pouco afastados, outros dois personagens permanecem sentados, como se observassem calmamente o desenrolar do dia. As figuras parecem indiferentes ao olhar contemporâneo: pertencem a outro tempo, como se continuassem a viver no século XI.

A materialidade da obra reforça esse diálogo entre passado e presente. As esculturas foram executadas em mármores e grés provenientes de Silves, materiais que apresentam tonalidades quentes e naturais. Estes contrastam com o brilho frio das estruturas metálicas em aço inoxidável, criando um jogo visual que articula tradição e modernidade. O trabalho minucioso de embutidos e contrastes cromáticos revela o domínio técnico do escultor e a sua atenção aos detalhes.

Quando a noite cai, o conjunto transforma-se. A iluminação proveniente do fundo do lago projeta feixes de luz verticais que acentuam as silhuetas das figuras. A água torna-se então um elemento cénico essencial: os reflexos duplicam as esculturas e multiplicam a sua presença, sugerindo que o passado permanece vivo, refletido na memória coletiva.

Mais do que uma homenagem individual, a obra assume um significado cultural mais amplo. Ao evocar a figura de Al-Mutamid e a sociedade de Xelb, o conjunto escultórico recorda a profunda influência da presença islâmica na formação histórica e cultural do Algarve. As inscrições em árabe presentes nas placas metálicas reforçam essa dimensão pedagógica, convidando o visitante a reconhecer as raízes partilhadas entre diferentes tradições culturais.

As figuras esculpidas, com rostos serenos e gestos contidos, tornam-se assim simultaneamente personagens históricas e metáforas universais. Representam o povo comum que viveu sob o governo do rei-poeta, mas também refletem o espírito artístico que caracterizou o próprio Al-Mutamid, governante que conciliou poder político e criação literária.

Hoje, este conjunto escultórico é um dos espaços mais contemplativos de Silves. Entre pedra, água e luz, a obra de António Quina convida a uma pausa e a uma reflexão sobre a continuidade da história. No espelho de água não se refletem apenas figuras do século XI — reflete-se também o olhar do visitante contemporâneo, que descobre, nesse encontro silencioso, a permanência de uma herança cultural partilhada.◾