Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

Monumento a João de Deus: Arte, Pedagogia e Memória.

Erguido na Avenida João de Deus, em São Bartolomeu de Messines, o monumento dedicado ao poeta e pedagogo constitui uma das mais significativas homenagens públicas à sua memória. Realizada nos anos 1963-64, a obra é da autoria do escultor Raul Xavier e perpetua, em pedra calcária, a figura maior de João de Deus, natural da vila algarvia onde o conjunto se encontra implantado.

A composição apresenta o pedagogo sentado, em escala superior ao natural, segurando um livro fechado na mão esquerda, pousado sobre o joelho. Ao seu lado, duas crianças — uma menina e um menino — con-centram-se na leitura de um livro aberto, a “Cartilha Maternal”, de sua autoria. Este diálogo silencioso entre as três figuras é o núcleo simbólico do monumento: João de Deus surge como mestre e inspirador, enquanto as crianças corporizam o futuro, a aprendizagem e a promessa de transformação social através da educação.

A inscrição frontal — “João de Deus 1830-1896” — recorda as datas de nascimento e morte do homenageado, enquanto, na lateral da base, se lê “Escultor Raul Xavier 1963/4”, assinatura discreta de um artista que dominava profundamente a arte de talhar a pedra. A linguagem formal aproxima-se de um naturalismo contido, valorizando a clareza narrativa e a força pedagógica da imagem.

João de Deus destacou-se não apenas como poeta lírico, mas sobretudo como autor de um revolucionário método de ensino da leitura, exposto na sua obra Cartilha Maternal ou Arte de Leitura. Publicada em 1876, num país onde o analfabetismo era generalizado, a Cartilha propunha uma abordagem inovadora: em vez da repetição mecânica e descontextualizada, defendia a aprendiza-gem a partir da “língua viva”, aproximando as letras de palavras com sentido para a criança. O método foi amplamente adotado, tornando-se oficial nas escolas portuguesas entre 1882 e 1903, por decreto parlamentar, e contribuindo decisivamente para a alfabetização de milhares de crianças e adultos até ao início do século XX.

A própria introdução à terceira edição sublinhava a importância das mães na aprendizagem da leitura, apontando o ensino como responsabilidade partilhada entre escola e família. O monumento materializa essa visão humanista: o livro fechado nas mãos do pedagogo sugere saber consolidado; o livro aberto nas mãos das crianças simboliza o conhecimento em construção.

Curiosamente, embora João de Deus e Raul Xavier tenham coexistido durante dois anos — o escultor nasceu em 1894, dois anos antes da morte do poeta — nunca se cruzaram. Raul Xavier nasceu em Macau, de ascendência luso-chinesa, trazendo consigo uma herança cultural plural. Ainda criança veio para Lisboa, onde encontrou dois mestres decisivos: Palyart Pinto Ferreira, que lhe descobriu a vocação artística, e Costa Mota (tio), que orientou a sua formação em escultura. A ambos permaneceu fiel, revelando um traço de carácter que marcaria a sua vida e obra.

A primeira aproximação de Raul Xavier à figura de João de Deus ocorreu ainda na juventude, quando modelou um busto do pedagogo para a Casa Pia, a pedido do seu mestre Palyart. Assim, décadas antes do monumento de Messines, já o escultor iniciava um diálogo artístico com a figura do poeta.

A obra de Raul Xavier manteve-se sempre figurativa, opção que lhe valeu críticas num tempo em que o abstracionismo ganhava terreno. Ainda assim, a sua escultura revela uma síntese singular de influências e uma forte dimensão expressiva. No monumento a João de Deus, essa síntese traduz-se numa composição equilibrada entre arquitetura e escultura, evocando discretamente a estética monumental do período do Estado Novo — embora o artista nunca se tenha sentido plenamente confortável com os ideais pro-pagandísticos do regime.

Mais do que um marco urbano, o monumento de São Bartolomeu de Messines é um lugar de memória. Celebra o homem que acreditou na força libertadora da leitura e o artista que, talhando a pedra, soube dar forma duradoura a essa crença. Entre o livro fechado do mestre e o livro aberto das crianças, permanece a mensagem intemporal de que a educação é o alicerce de uma comunidade mais esclarecida e mais livre.◾