Contemplações
Francisco Gil
Dom Afonso III: a memória de uma longínqua conquista.
- Partilhar 10/02/2026
No centro do
Largo D. Afonso III, em Faro, ergue-se
uma das mais significativas esculturas
públicas da cidade: a estátua de D.
Afonso III, monarca fundamental da
história de Portugal e figura decisiva
na consolidação territorial do Algarve
no século XIII. A obra, executada em
bronze pelo escultor António Duarte
(1912–1998), foi inaugurada a 7 de
novembro de 1966, na presença do então
Presidente da República, o Almirante
Américo Thomaz.
A instalação da
estátua resulta de uma iniciativa
lançada em 1954 pelo Ministro das Obras
Públicas, José Frederico Ulrich, que,
através da Direção-Geral dos Edifícios
e Monumentos Nacionais (DGEMN), propôs
a oferta de uma escultura de uma
personalidade histórica relevante a
cada capital de distrito do país. Para
Faro, a escolha recaiu naturalmente
sobre D. Afonso III, o rei que, em
1249, liderou a conquista definitiva da
cidade muçulmana de Santa Maria de
Ossónoba, integrando o Algarve no
território português.
O
monumento apresenta uma composição
sóbria e equilibrada. Assenta sobre uma
base em cantaria de planta quadrada,
com pedestal robusto de perfil
ligeiramente tronco-piramidal e ângulos
cortados. Sobre este eleva-se a figura
em bronze, com cerca de 2,5 metros de
altura, representando o monarca de pé,
barbado, coroado, vestido com túnica
longa e capa. O braço direito
estende-se segurando o cetro, símbolo
de autoridade régia, enquanto o braço
esquerdo se recolhe junto ao corpo. Um
detalhe curioso distingue esta
escultura de muitas outras
representações de reis medievais: não
há espada, nem qualquer elemento
bélico, sublinhando uma imagem de poder
sereno e institucional, mais próxima da
ideia de governação do que da de
conquista militar.
A estátua
encontra-se implantada numa pequena
placa ajardinada no centro do largo,
também conhecido como Largo das
Freiras, por se situar junto ao antigo
convento de freiras capuchas fundado no
século XVI, hoje Museu Municipal de
Faro. A poucos metros ergue-se ainda o
Arco do Repouso, uma das portas da
antiga muralha medieval, associado à
tradição segundo a qual D. Afonso III
ali terá acampado e descansado durante
o cerco à cidade em 1249.
O
contrato para a execução da obra foi
celebrado no último trimestre de 1959
entre a DGEMN e o escultor António
Duarte, ficando a estátua orçada em
100.000 escudos, valor significativo
para a época. Duarte, natural das
Caldas da Rainha, foi uma das figuras
mais importantes da escultura
portuguesa do século XX. Formado na
Escola de Belas Artes de Lisboa,
discípulo de Simões de Almeida
(sobrinho) e de Veloso Salgado,
concluiu o curso com distinção,
apresentando como prova final a
escultura Figura Decorativa.
Considerado por José-Augusto França
como membro da segunda geração de
modernistas portugueses, António Duarte
defendeu sempre a centralidade do autor
na obra de arte. Para ele, a semelhança
no retrato tinha valor efémero, mas a
marca do criador permaneceria enquanto
a obra fosse contemplada como objeto
artístico. Ao longo da sua carreira
trabalhou múltiplos materiais — pedra,
bronze, madeira, barro, gesso —
mantendo uma linguagem de grande
sobriedade formal e rigor construtivo.
Entre as suas obras mais conhecidas
contam-se os Cavalos Marinhos, na Praça
do Império, em Belém, e o Santo
António, na Praça de Alvalade, em
Lisboa.
A estátua de D. Afonso
III em Faro inscreve-se plenamente
nesta estética: sem dramatismos
excessivos, sem gestos teatrais, aposta
numa figuração clara, digna e
intemporal. Mais do que um monumento
comemorativo, é uma peça que articula
memória histórica, espaço urbano e
criação artística, funcionando como
ponto de encontro entre o passado
medieval da cidade e a modernidade
escultórica do século XX.
Assim,
no quotidiano do centro histórico de
Faro, a figura de D. Afonso III
continua a erguer-se como símbolo
discreto, mas eloquente da fundação do
Algarve português e da permanência da
arte como forma de construir identidade
e memória coletiva. ◾.
- Ano VII • 80 • 2026
