Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

Dom Afonso III: a memória de uma longínqua conquista.

No centro do Largo D. Afonso III, em Faro, ergue-se uma das mais significativas esculturas públicas da cidade: a estátua de D. Afonso III, monarca fundamental da história de Portugal e figura decisiva na consolidação territorial do Algarve no século XIII. A obra, executada em bronze pelo escultor António Duarte (1912–1998), foi inaugurada a 7 de novembro de 1966, na presença do então Presidente da República, o Almirante Américo Thomaz.

A instalação da estátua resulta de uma iniciativa lançada em 1954 pelo Ministro das Obras Públicas, José Frederico Ulrich, que, através da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), propôs a oferta de uma escultura de uma personalidade histórica relevante a cada capital de distrito do país. Para Faro, a escolha recaiu naturalmente sobre D. Afonso III, o rei que, em 1249, liderou a conquista definitiva da cidade muçulmana de Santa Maria de Ossónoba, integrando o Algarve no território português.

O monumento apresenta uma composição sóbria e equilibrada. Assenta sobre uma base em cantaria de planta quadrada, com pedestal robusto de perfil ligeiramente tronco-piramidal e ângulos cortados. Sobre este eleva-se a figura em bronze, com cerca de 2,5 metros de altura, representando o monarca de pé, barbado, coroado, vestido com túnica longa e capa. O braço direito estende-se segurando o cetro, símbolo de autoridade régia, enquanto o braço esquerdo se recolhe junto ao corpo. Um detalhe curioso distingue esta escultura de muitas outras representações de reis medievais: não há espada, nem qualquer elemento bélico, sublinhando uma imagem de poder sereno e institucional, mais próxima da ideia de governação do que da de conquista militar.

A estátua encontra-se implantada numa pequena placa ajardinada no centro do largo, também conhecido como Largo das Freiras, por se situar junto ao antigo convento de freiras capuchas fundado no século XVI, hoje Museu Municipal de Faro. A poucos metros ergue-se ainda o Arco do Repouso, uma das portas da antiga muralha medieval, associado à tradição segundo a qual D. Afonso III ali terá acampado e descansado durante o cerco à cidade em 1249.

O contrato para a execução da obra foi celebrado no último trimestre de 1959 entre a DGEMN e o escultor António Duarte, ficando a estátua orçada em 100.000 escudos, valor significativo para a época. Duarte, natural das Caldas da Rainha, foi uma das figuras mais importantes da escultura portuguesa do século XX. Formado na Escola de Belas Artes de Lisboa, discípulo de Simões de Almeida (sobrinho) e de Veloso Salgado, concluiu o curso com distinção, apresentando como prova final a escultura Figura Decorativa.

Considerado por José-Augusto França como membro da segunda geração de modernistas portugueses, António Duarte defendeu sempre a centralidade do autor na obra de arte. Para ele, a semelhança no retrato tinha valor efémero, mas a marca do criador permaneceria enquanto a obra fosse contemplada como objeto artístico. Ao longo da sua carreira trabalhou múltiplos materiais — pedra, bronze, madeira, barro, gesso — mantendo uma linguagem de grande sobriedade formal e rigor construtivo. Entre as suas obras mais conhecidas contam-se os Cavalos Marinhos, na Praça do Império, em Belém, e o Santo António, na Praça de Alvalade, em Lisboa.

A estátua de D. Afonso III em Faro inscreve-se plenamente nesta estética: sem dramatismos excessivos, sem gestos teatrais, aposta numa figuração clara, digna e intemporal. Mais do que um monumento comemorativo, é uma peça que articula memória histórica, espaço urbano e criação artística, funcionando como ponto de encontro entre o passado medieval da cidade e a modernidade escultórica do século XX.

Assim, no quotidiano do centro histórico de Faro, a figura de D. Afonso III continua a erguer-se como símbolo discreto, mas eloquente da fundação do Algarve português e da permanência da arte como forma de construir identidade e memória coletiva. ◾.