Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

Memória, poder e modernidade em Loulé.

No topo da atual Avenida 25 de Abril, em Loulé, ergue-se um dos monumentos mais emblemáticos do Algarve do século XX: o Monumento ao Engenheiro Duarte Pacheco, inaugurado a 16 de novembro de 1953, exatamente dez anos após a morte do homenageado. Implantado numa zona de expansão urbana da cidade e articulado com o então projetado Parque Municipal, o monumento assume-se não apenas como homenagem individual, mas também como expressão simbólica de uma ideia de progresso e modernidade associada ao Estado Novo.

Duarte Pacheco (1900–1943), natural de Loulé, foi Ministro das Obras Públicas e Comunicações, destacando-se como uma das figuras mais influentes da política de infraestruturas do regime. A sua morte prematura, num acidente de viação, contribuiu para a construção de uma narrativa heroica em torno da sua figura, amplamente explorada pelo poder político da época.

O monumento resultou de um complexo processo institucional, envolvendo a Câmara Municipal de Loulé, a Direção dos Serviços de Melhoramentos Urbanos e a Direção-Geral dos Serviços Urbanos, sob coordenação direta do Ministério das Obras Públicas. Comparticipada pelo Estado e pelos municípios, a obra foi executada num prazo relativamente curto — cerca de 17 meses —, ficando concluída pouco antes da efeméride dos dez anos da morte do ministro.

Inicialmente, o arquiteto Cottinelli Telmo foi convidado a conceber o projeto, mas a sua morte em 1948 levou à passagem da responsabilidade para Cristino da Silva (1896–1976), um dos arquitetos mais relevantes do Estado Novo, autor, entre outras obras, do Pavilhão de Honra e de Lisboa na Exposição do Mundo Português de 1940 e professor na Escola de Belas Artes de Lisboa.

Cristino da Silva concebeu um monumento de linguagem austera e simbólica, centrado numa coluna cilíndrica monumental, com cinco metros de diâmetro e dezassete metros de altura, esculpida em calcário. A opção por uma coluna incompleta, com aspeto fraturado e inacabado, funciona como poderosa alegoria plástica da vida e da obra abruptamente interrompidas de Duarte Pacheco.

Distribuídos ao longo do fuste da coluna encontram-se dezassete baixos-relevos, observáveis de cima para baixo, que representam os principais domínios da ação governativa do ministro: estradas, pontes, caminhos de ferro, aeroportos, portos, radiodifusão, urbanização, habitação, hospitais, abastecimento de águas, escolas, barragens hidroelétricas, estádios, monumentos nacionais e a Exposição do Mundo Português, entre outros. Este programa iconográfico transforma o monumento numa verdadeira síntese visual da política de obras públicas do Estado Novo.

Na face frontal da coluna, voltada para o eixo da praça, destaca-se um baixo-relevo em bronze com a efígie de Duarte Pacheco, da autoria do escultor Leopoldo de Almeida, uma das figuras centrais da escultura portuguesa do século XX. O retrato surge enquadrado por grandes folhas de oliveira esculpidas na pedra — símbolo de glória e consagração — e acompanhado da inscrição: AO ENGENHEIRO DUARTE PACHECO / MINISTRO DAS OBRAS PÚBLICAS / 1899–1943.

O conjunto assenta numa ampla plataforma circular com cerca de 30 metros de diâmetro, enquadrada por um muro de suporte semicircular com quatro metros de altura, dotado de dupla escadaria lateral. Este muro integra uma inscrição que sintetiza a retórica oficial do regime: “Uma vida velozmente vivida e inteiramente consagrada”. A referência explícita a Salazar, originalmente presente, foi eliminada em 1976, após o 25 de Abril, revelando as sucessivas camadas de leitura política que o monumento foi adquirindo ao longo do tempo.

Considerado por muitos como o monumento mais conhecido do Algarve, a par do D. Sebastião de João Cutileiro, o Monumento a Duarte Pacheco permanece como uma peça fundamental para compreender a relação entre arte, arquitetura, poder e memória no Portugal do século XX. Mais do que uma simples homenagem individual, trata-se de um documento material de uma época, das suas ambições, contradições e estratégias simbólicas.

Alvo de uma operação de limpeza e restauro no ano 2000, o monumento continua hoje a marcar a paisagem urbana de Loulé, desafiando o observador contemporâneo a refletir sobre a forma como o passado é monumentalizado e reinterpretado à luz do presente. ◾.