Contemplações
Francisco Gil
Memória, poder e modernidade em Loulé.
- Partilhar 08/01/2026
No topo da atual
Avenida 25 de Abril, em Loulé, ergue-se
um dos monumentos mais emblemáticos do
Algarve do século XX: o Monumento ao
Engenheiro Duarte Pacheco, inaugurado a
16 de novembro de 1953, exatamente dez
anos após a morte do homenageado.
Implantado numa zona de expansão urbana
da cidade e articulado com o então
projetado Parque Municipal, o monumento
assume-se não apenas como homenagem
individual, mas também como expressão
simbólica de uma ideia de progresso e
modernidade associada ao Estado Novo.
Duarte Pacheco (1900–1943), natural
de Loulé, foi Ministro das Obras
Públicas e Comunicações, destacando-se
como uma das figuras mais influentes da
política de infraestruturas do regime.
A sua morte prematura, num acidente de
viação, contribuiu para a construção de
uma narrativa heroica em torno da sua
figura, amplamente explorada pelo poder
político da época.
O monumento
resultou de um complexo processo
institucional, envolvendo a Câmara
Municipal de Loulé, a Direção dos
Serviços de Melhoramentos Urbanos e a
Direção-Geral dos Serviços Urbanos, sob
coordenação direta do Ministério das
Obras Públicas. Comparticipada pelo
Estado e pelos municípios, a obra foi
executada num prazo relativamente curto
— cerca de 17 meses —, ficando
concluída pouco antes da efeméride dos
dez anos da morte do ministro.
Inicialmente, o arquiteto Cottinelli
Telmo foi convidado a conceber o
projeto, mas a sua morte em 1948 levou
à passagem da responsabilidade para
Cristino da Silva (1896–1976), um dos
arquitetos mais relevantes do Estado
Novo, autor, entre outras obras, do
Pavilhão de Honra e de Lisboa na
Exposição do Mundo Português de 1940 e
professor na Escola de Belas Artes de
Lisboa.
Cristino da Silva
concebeu um monumento de linguagem
austera e simbólica, centrado numa
coluna cilíndrica monumental, com cinco
metros de diâmetro e dezassete metros
de altura, esculpida em calcário. A
opção por uma coluna incompleta, com
aspeto fraturado e inacabado, funciona
como poderosa alegoria plástica da vida
e da obra abruptamente interrompidas de
Duarte Pacheco.
Distribuídos ao
longo do fuste da coluna encontram-se
dezassete baixos-relevos, observáveis
de cima para baixo, que representam os
principais domínios da ação governativa
do ministro: estradas, pontes, caminhos
de ferro, aeroportos, portos,
radiodifusão, urbanização, habitação,
hospitais, abastecimento de águas,
escolas, barragens hidroelétricas,
estádios, monumentos nacionais e a
Exposição do Mundo Português, entre
outros. Este programa iconográfico
transforma o monumento numa verdadeira
síntese visual da política de obras
públicas do Estado Novo.
Na face
frontal da coluna, voltada para o eixo
da praça, destaca-se um baixo-relevo em
bronze com a efígie de Duarte Pacheco,
da autoria do escultor Leopoldo de
Almeida, uma das figuras centrais da
escultura portuguesa do século XX. O
retrato surge enquadrado por grandes
folhas de oliveira esculpidas na pedra
— símbolo de glória e consagração — e
acompanhado da inscrição: AO ENGENHEIRO
DUARTE PACHECO / MINISTRO DAS OBRAS
PÚBLICAS / 1899–1943.
O conjunto
assenta numa ampla plataforma circular
com cerca de 30 metros de diâmetro,
enquadrada por um muro de suporte
semicircular com quatro metros de
altura, dotado de dupla escadaria
lateral. Este muro integra uma
inscrição que sintetiza a retórica
oficial do regime: “Uma vida velozmente
vivida e inteiramente consagrada”. A
referência explícita a Salazar,
originalmente presente, foi eliminada
em 1976, após o 25 de Abril, revelando
as sucessivas camadas de leitura
política que o monumento foi adquirindo
ao longo do tempo.
Considerado
por muitos como o monumento mais
conhecido do Algarve, a par do D.
Sebastião de João Cutileiro, o
Monumento a Duarte Pacheco permanece
como uma peça fundamental para
compreender a relação entre arte,
arquitetura, poder e memória no
Portugal do século XX. Mais do que uma
simples homenagem individual, trata-se
de um documento material de uma época,
das suas ambições, contradições e
estratégias simbólicas.
Alvo de
uma operação de limpeza e restauro no
ano 2000, o monumento continua hoje a
marcar a paisagem urbana de Loulé,
desafiando o observador contemporâneo a
refletir sobre a forma como o passado é
monumentalizado e reinterpretado à luz
do presente. ◾.
- Ano VII • 79 • 2026
