Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

O Cavaleiro da Ordem que guarda Castro Marim.

À entrada de Castro Marim, uma figura imponente dá as boas-vindas a quem chega: o Cavaleiro da Ordem de Cristo. A escultura, feita de ferro e arame, parece um desenho tridimensional traçado no ar, um conjunto de linhas e garatujas que se cruzam e entrelaçam até formarem o cavalo e o seu cavaleiro, de lança erguida com a bandeira da Ordem de Cristo ao vento. Criada por Carlos Correia, esta peça inaugurada em 2016, tornou-se um símbolo da vila algarvia — uma sentinela moderna que guarda a entrada do castelo e da história.

Mas este “guardião” não é obra isolada. Carlos Correia, arquiteto paisagista e viveirista de profissão, tem espalhadas pelo sotavento algarvio várias esculturas que conjugam pedra, ferro e arame — materiais simples, mas carregados de expressão. As suas criações habitam espaços públicos em Castro Marim, Alcoutim, Vila Real de Santo António e outras localidades, retratando cenas do quotidiano rural e urbano. Cada peça conta uma história, evoca uma memória e convida à reflexão sobre tradições que o tempo ameaça fazer esquecer.

A escolha do cavaleiro não é aleatória. A Ordem de Cristo foi criada em 1319 pelo rei D. Dinis, após a extinção dos Templários pelo Papa Clemente V. Para preservar o vasto património da antiga ordem e proteger a soberania portuguesa, D. Dinis instituiu esta nova congregação religioso-militar, que teve a sua sede no Castelo de Castro Marim entre 1319 e 1357, quando foi transferida para Tomar. Uma fortaleza estratégica que vigiava o Guadiana e o mar, fronteiras com os reinos muçulmanos do norte de África (reino Merínida) e de Granada (reino Nacérida).

Durante séculos, os cavaleiros da Ordem de Cristo, foram guardiões do território e da fé, defendendo o Algarve e as terras cristãs das incursões de piratas e invasores. Hoje, a escultura de Carlos Correia evoca essa herança — não como símbolo bélico, mas como ponte entre passado e presente, entre história e arte contemporânea.

Carlos Correia, angolano de nascença e algarvio por adoção desde 1982, formou-se em Engenharia Agrónoma e estudou Arquitetura Paisagística na Universidade do Algarve. Passa grande parte dos dias entre plantas e jardins — é proprietário de um viveiro de espécies florestais e ornamentais — e só mais tarde descobriu uma nova paixão: a escultura.

O impulso criativo nasceu quase por acaso, a partir dos materiais que tinha “em stock” no viveiro. “Em vez de os jogar fora, decidi dar-lhes uso”, conta. Assim surgiu a sua primeira obra de maior dimensão, um caçador em Martim Longo, e, depois dela, muitas outras figuras ganharam forma: pastores, cabras, aves e personagens do campo, sempre com uma narrativa subjacente. “Não sou muito adepto do abstrato”, confessa. “Gosto de dar forma a pessoas e animais, de criar movimento e contar uma história”.

As esculturas de Carlos Correia não são apenas elementos decorativos. São fragmentos de memória coletiva, erguidos com materiais do quotidiano e transformados em arte pública. Cada linha de arame que desenha presente no Cavaleiro da Ordem de Cristo é, ao mesmo tempo, homenagem e questionamento: à história de Castro Marim, às suas tradições e ao modo como o tempo as molda. De certa forma, o cavaleiro de ferro e arame continua a cumprir a sua missão — guardar a vila e as suas histórias, não contra invasores, mas contra o esquecimento.

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