Contemplações
Francisco Gil
O Cavaleiro da Ordem que guarda Castro Marim.
- Partilhar 24/11/2025
À entrada de
Castro Marim, uma figura imponente dá
as boas-vindas a quem chega: o
Cavaleiro da Ordem de Cristo. A
escultura, feita de ferro e arame,
parece um desenho tridimensional
traçado no ar, um conjunto de linhas e
garatujas que se cruzam e entrelaçam
até formarem o cavalo e o seu
cavaleiro, de lança erguida com a
bandeira da Ordem de Cristo ao vento.
Criada por Carlos Correia, esta peça
inaugurada em 2016, tornou-se um
símbolo da vila algarvia — uma
sentinela moderna que guarda a entrada
do castelo e da história.
Mas
este “guardião” não é obra isolada.
Carlos Correia, arquiteto paisagista e
viveirista de profissão, tem espalhadas
pelo sotavento algarvio várias
esculturas que conjugam pedra, ferro e
arame — materiais simples, mas
carregados de expressão. As suas
criações habitam espaços públicos em
Castro Marim, Alcoutim, Vila Real de
Santo António e outras localidades,
retratando cenas do quotidiano rural e
urbano. Cada peça conta uma história,
evoca uma memória e convida à reflexão
sobre tradições que o tempo ameaça
fazer esquecer.
A escolha do
cavaleiro não é aleatória. A Ordem de
Cristo foi criada em 1319 pelo rei D.
Dinis, após a extinção dos Templários
pelo Papa Clemente V. Para preservar o
vasto património da antiga ordem e
proteger a soberania portuguesa, D.
Dinis instituiu esta nova congregação
religioso-militar, que teve a sua sede
no Castelo de Castro Marim entre 1319 e
1357, quando foi transferida para
Tomar. Uma fortaleza estratégica que
vigiava o Guadiana e o mar, fronteiras
com os reinos muçulmanos do norte de
África (reino Merínida) e de Granada
(reino Nacérida).
Durante
séculos, os cavaleiros da Ordem de
Cristo, foram guardiões do território e
da fé, defendendo o Algarve e as terras
cristãs das incursões de piratas e
invasores. Hoje, a escultura de Carlos
Correia evoca essa herança — não como
símbolo bélico, mas como ponte entre
passado e presente, entre história e
arte contemporânea.
Carlos
Correia, angolano de nascença e
algarvio por adoção desde 1982,
formou-se em Engenharia Agrónoma e
estudou Arquitetura Paisagística na
Universidade do Algarve. Passa grande
parte dos dias entre plantas e jardins
— é proprietário de um viveiro de
espécies florestais e ornamentais — e
só mais tarde descobriu uma nova
paixão: a escultura.
O impulso
criativo nasceu quase por acaso, a
partir dos materiais que tinha “em
stock” no viveiro. “Em vez de os jogar
fora, decidi dar-lhes uso”, conta.
Assim surgiu a sua primeira obra de
maior dimensão, um caçador em Martim
Longo, e, depois dela, muitas outras
figuras ganharam forma: pastores,
cabras, aves e personagens do campo,
sempre com uma narrativa subjacente.
“Não sou muito adepto do abstrato”,
confessa. “Gosto de dar forma a pessoas
e animais, de criar movimento e contar
uma história”.
As esculturas de
Carlos Correia não são apenas elementos
decorativos. São fragmentos de memória
coletiva, erguidos com materiais do
quotidiano e transformados em arte
pública. Cada linha de arame que
desenha presente no Cavaleiro da Ordem
de Cristo é, ao mesmo tempo, homenagem
e questionamento: à história de Castro
Marim, às suas tradições e ao modo como
o tempo as molda. De certa forma, o
cavaleiro de ferro e arame continua a
cumprir a sua missão — guardar a vila e
as suas histórias, não contra
invasores, mas contra o esquecimento.
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- Ano VII • 77 • 2025
