Francisco Gil

Contemplações

Francisco Gil

As Operárias: Um tributo à força anónima de Portimão.

Na rotunda da Casa dos Pescadores, junto ao Museu de Portimão, ergue-se uma escultura que celebra o trabalho e a dignidade das mulheres conserveiras — figuras centrais na história industrial da cidade. Criada pela escultora Paula Hespanha e inaugurada em maio de 2008, a obra foi pensada para o lugar que ocupa e nele encontra o seu sentido mais profundo.

Como observa Isabel Laranjo, autora de uma excelente dissertação sobre escultura pública no Algarve, trata-se de uma obra escultórica “pormenorizadamente elaborada”, cuja temática rompe com o espírito do tempo em que foi criada, mas que reconhece e valoriza as personagens anónimas do passado — as mulheres que, entre o lar e a fábrica, sustentaram famílias e ajudaram a moldar a identidade de Portimão.

O conjunto escultórico, instalado no centro da rotunda, é composto por três figuras femininas voltadas para o exterior, como se dialogassem com quem passa. Representam gestos simples e autênticos: uma mulher, sentada e concentrada, descabeça sardinhas com uma tesoura; outra organiza cestos cheios de peixe; e uma terceira, com um bebé ao colo, amamenta enquanto conversa com uma companheira de trabalho. Aos seus pés, pequenos peixes de pedra evocam o ambiente das antigas fábricas de conserva, onde tantas mulheres passaram a vida.

As figuras, talhadas em rochas de várias cores e origens, revelam o cuidado e a sensibilidade da artista: o calcário amarelo dá forma às latas e cestos; o mármore branco, aos aventais e lenços; o mármore rosa, aos rostos e braços; o lioz, aos vestidos; e o calcário azul de Moleanos, aos peixes. A tesoura, curiosamente, é um objeto real — não uma escultura — incorporada na obra pela própria artista.

Rodeado por um lago circular, que cria uma distância simbólica e física entre o monumento e a estrada, o conjunto ergue-se como uma pequena ilha de memória e serenidade no coração urbano de Portimão.

Mais do que representar um espaço, esta escultura faz parte dele, inserindo-se no quotidiano da cidade e no seu ritmo social, um exemplo do “campo expandido” da escultura contemporânea. Mesmo numa envolvência urbana descaracterizada, a “Homenagem à Mulher Conserveira” impõe-se como um marco identitário e afetivo, lembrando a força silenciosa das mulheres que deram corpo e alma à história local.

Paula Hespanha.
"As Operárias, homenagem à mulher conserveira", 2008.