Contemplações
Francisco Gil
As Operárias: Um tributo à força anónima de Portimão.
- Partilhar 13/10/2025
Na rotunda
da Casa dos Pescadores, junto ao Museu
de Portimão, ergue-se uma escultura que
celebra o trabalho e a dignidade das
mulheres conserveiras — figuras
centrais na história industrial da
cidade. Criada pela escultora Paula
Hespanha e inaugurada em maio de 2008,
a obra foi pensada para o lugar que
ocupa e nele encontra o seu sentido
mais profundo.
Como observa
Isabel Laranjo, autora de uma excelente
dissertação sobre escultura pública no
Algarve, trata-se de uma obra
escultórica “pormenorizadamente
elaborada”, cuja temática rompe com o
espírito do tempo em que foi criada,
mas que reconhece e valoriza as
personagens anónimas do passado — as
mulheres que, entre o lar e a fábrica,
sustentaram famílias e ajudaram a
moldar a identidade de Portimão.
O conjunto escultórico, instalado
no centro da rotunda, é composto por
três figuras femininas voltadas para o
exterior, como se dialogassem com quem
passa. Representam gestos simples e
autênticos: uma mulher, sentada e
concentrada, descabeça sardinhas com
uma tesoura; outra organiza cestos
cheios de peixe; e uma terceira, com um
bebé ao colo, amamenta enquanto
conversa com uma companheira de
trabalho. Aos seus pés, pequenos peixes
de pedra evocam o ambiente das antigas
fábricas de conserva, onde tantas
mulheres passaram a vida.
As
figuras, talhadas em rochas de várias
cores e origens, revelam o cuidado e a
sensibilidade da artista: o calcário
amarelo dá forma às latas e cestos; o
mármore branco, aos aventais e lenços;
o mármore rosa, aos rostos e braços; o
lioz, aos vestidos; e o calcário azul
de Moleanos, aos peixes. A tesoura,
curiosamente, é um objeto real — não
uma escultura — incorporada na obra
pela própria artista.
Rodeado
por um lago circular, que cria uma
distância simbólica e física entre o
monumento e a estrada, o conjunto
ergue-se como uma pequena ilha de
memória e serenidade no coração urbano
de Portimão.
Mais do que
representar um espaço, esta escultura
faz parte dele, inserindo-se no
quotidiano da cidade e no seu ritmo
social, um exemplo do “campo expandido”
da escultura contemporânea. Mesmo numa
envolvência urbana descaracterizada, a
“Homenagem à Mulher Conserveira”
impõe-se como um marco identitário e
afetivo, lembrando a força silenciosa
das mulheres que deram corpo e alma à
história local.
Paula Hespanha.
"As Operárias, homenagem à mulher
conserveira", 2008.
- Ano VII • 76 • 2025
