Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

CASA VELHA, CASA NOVA

A Casa Nova queixou-se de novo.
Era tudo o que podia fazer. Murmurar a sua dor. A Casa Velha, mesmo ao lado, obviamente sentia o rumor das paredes novas encostadas às suas. A queixa era, frequentemente, a mesma: algures na sua parede de leste havia uma dor profunda que a incomodava, lá quase um metro abaixo, em plenas estruturas.
A Casa Nova, apesar de ter sido erigida havia apenas umas décadas, queixava-se frequentemente deste problema à Casa Velha que mais não podia fazer do que ouvi-la... Ou não seja uma verdade universal que as paredes têm ouvidos.

Agora, quando me perguntam porque motivo a Casa Velha ainda dava atenção à sua congénere mais nova, respondo-lhes sempre que a Casa Velha — claramente — encarava a Casa Nova como uma irmã-gémea, só que muito mais nova.
Eu explico: a Casa Velha de que vos falo fica situada na cidade imaginária de Hastebourne, no Sussex. Na época em que foi erigida, nos fins do século XIX, a Casa Velha foi construída, como milhões de outras, geminada com uma outra casa — neste caso específico — à sua direita. Duas casas iguais, gémeas, mas simétricas; opostas como numa imagem espelhada, reflectindo-se fielmente uma à outra.

Durante a segunda guerra mundial, porém, a gémea da Casa Velha foi uma das primeiras do Reino Unido a ser destruída (logo durante a primeira semana de Setembro de 1940) durante um bombardeamento da Luftwaffe.

A Casa Velha chorou a perda da sua gémea em silêncio, que é como as casas choram. Durante mais de meia-década, até que a reconstrução nacional teve lugar, a Casa Velha tornou-se motivo de conversação na vizinhança.
Não raramente, quando se falava dos tempos difíceis do conflito, a postura inabalada da Casa Velha era enaltecida por todos.
Foi já na década de 1950 que, por fim, a Casa Nova foi construída. Uma noite, quando as luzes da sala-de-estar foram acesas pela primeira vez, a Casa Nova, finalmente, ganhou vida.
Surpreendida, a Casa Velha olhou pela primeira vez em muitos anos para o lugar onde um dia existira a sua irmã e descobriu que já não estava mais sozinha. Uma nova irmã-gémea tinha sido construída: a Casa Nova. A fraternidade, no entanto, já não era tão evidente. As janelas já não eram perfeitamente quadradas como as da Casa Velha, a porta tinha uma ombreira diferente... Enfim, a Casa Nova, para além da intenção... Já pouco reflectia a irmã mais velha.

Uma pequena nota para lembrar que as casas, normalmente, apenas
ganham verdadeira vida à noite, quando se lhes iluminam os interiores.

Mas a Casa Velha ganhou afeição à Nova e, aos poucos, foi-lhe passando os ensinamentos que ganhara através dos tempos. Como, no princípio, nem electricidade ela tinha quando fora construída ou como lhe custava, no fim de cada inverno, sentir os seus interiores, encardidos pelo fumo constante das suas várias lareiras, a serem raspados pelos limpa-chaminés. Das coisas que mais a aborreciam na actualidade, a Casa Velha destacava as ilusões semi-esotéricas de alguns inquilinos recentes, adeptos do Feng-Shui, que insistiam em colocar espelhos ao fundo dos corredores para "aumentar a dimensão psicológica" da casa ou virar os pés das camas para Sul, como se cada uma delas fosse o trono do Império do Meio... A  grande "Tolice Chinesa", como lhe chamava.

Quando o tema da conversa eram as dores da Casa Nova, a velha lembrava-lhe que muito possivelmente seria algum espigão de ferro que permanecera da estrutura da Casa Irmã Original destruída e que nenhum ser humano iria alguma vez perceber a sua dor e fazer algo acerca disso. Dizia-lhe que eram muito raros, hoje em dia, os pedreiros — livres, subjugados ou contratados — que sabiam ler as casas olhando apenas para elas e descobrir assim a pua, o espinho que a magoava.

A Casa Nova ouvia tudo com muita atenção e sentia, por seu lado, um grande orgulho quando percebia que a Casa Velha se amparava — cada vez mais — às suas paredes novas.

Esta história só não tem fim porque ambas as casas — a Velha e a Nova — ainda continuam em pé em Carisbrooke Road, na cidade imaginária de Hastebourne, no Sussex, apoiando-se física e psicologicamente uma à outra.
Como duas irmãs, gémeas, não-idênticas.