Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

NA COMUNIDADE

Numa dada altura, na terceira parte da saga da família Corleone, referindo-se ao seu desejo de tornar legais todos os negócios da família, Michael Corleone queixa-se:

"Just When I Thought I Was Out, They Pull Me Back In!"
(Logo quando eu pensava que estava fora, eles puxam-me para dentro de novo")

A minha história laboral no Reino Unido poderia — anedoticamente, claro — ser definida também nesses termos. Eu explico: não é que os imigrantes em terras de sua majestade sejam desprezados e, pura e simplesmente, tratados como cidadãos de segunda. Não. Não me parece que isso seja verdade. Ou seja, não é tanto aquilo que ao imigrante é vedado, em termos de oportunidades, mas é mais o que é esperado que ele faça.

Por outras palavras, ninguém me proíbe de me candidatar a um trabalho, imaginemos, numa agência de publicidade. Mas não é esperado que eu o faça. Mesmo que eu apresente no meu C.V. mais de duas décadas a trabalhar em publicidade, é esperado que eu retome a actividade que primeiro tive quanto arribei à Britannia. Isto, mesmo que eu tenha tido apenas quatro ou cinco anos de experiência como "carer" ou "support worker", parece que é esperado que eu — estrangeiro — deva "naturalmente" aceitar e cumprir esse meu destino e trabalhar nessa actividade.

E a verdade que eu vivi ao longo destes anos como profissional de saúde mental, é que a percentagem de estrangeiros com quem trabalhei foi sempre, de longe — de muito longe —, superior à de nacionais britânicos. No sector privado, então, trabalhei em lugares — como o hospital Priory de Ticehurst, por exemplo — onde o ratio de trabalhadores romenos nas enfermarias, em relação a trabalhadores de outras nacionalidades seria de uns nove para um.
Já nos escritórios dessa mesma instituição, curiosamente ou talvez não, não trabalhava um único estrangeiro. Nem como amostra das famosas diversidade, inclusão e equidade.
Talvez seja por isso que quase todos os "job-coaches" que aqui tive no serviço de desemprego durante este ano, quase todos fizeram tábua rasa, não só da minha formação escolar e experiência profissional em publicidade, como até das minhas mais recentes experiências como recrutador e como coordenador de recursos humanos... talvez seja por isso — dizia eu — que me empurraram sempre (delicadamente) para o "trabalho do costume".

Quando o estrangeiro cai do cavalo
… já não há cavalo.

Se algum dia eu escrever as minhas "Memórias De Um Auxiliar De Acção Médica De Saúde Mental", muito provavelmente, as mesmas deverão estar divididas em três grandes fatias: quando trabalhei no sector público, no NHS; no sector privado, em agências (NursePlus e Carestaff Bureau) e na comunidade. Sim, que esse é o novo capítulo da minha vida como "cuidador".

Depois de mais de um ano a candidatar-me para tudo o que era (ou se parecia com) trabalho de escritório, estou, desde fins de Setembro, a trabalhar novamente em saúde mental. Desta vez, na comunidade, em Brighton, ajudando na recuperação e reintegração social de doentes, na sua grande maioria, com diagnósticos de EUPD (1).
É um bom trabalho.

"Just When I Thought I Was Out..." .

(1) Emotionally Unstable Personality Disorder (EUPD) - Perturbação Borderline da Personalidade (PBP)

html>