Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

NOS BRASIS

O homem apoiou o antebraço esquerdo sobre o tejadilho do carro; a mão direita — essa — abraçava a coronha do "três oitão" enfiado no cinto, mesmo abaixo do umbigo, com o cano perigosamente apontado para as suas partes baixas. Inclinando-se um pouco para melhor direccionar a voz para a janela aberta e, enquanto gotas de suor lhe corriam — abundantes — pelo queixo abaixo, disse-me:
— Buah tardji. Vâmo précisá dji révisstá o sêu viículo em bussca dji drogách e dji arrma.

Numa dada altura da minha vida, por motivos que não são para aqui chamados, viajei frequentemente para o Brasil... ou deveria dizer para "os Brasis"?.

O seu hálito exalava um odor estranho: um perfume a cachaça misturada com uma olência mais adocicada de maconha.
Confesso que, apesar de não termos connosco nem "drogách" nem "arrma", fiquei um bocadinho apreensivo. Afinal, era o meu primeiro encontro, face-a-face, com agentes policiais brasileiros, neste caso, polícias fronteiriços na divisa entre os estados de S. Paulo e Rio de Janeiro. Para adicionar um bocadinho extra de frisson à situação, o colega do meu interlocutor escolheu posicionar-se apenas a uns metros do carro, também com a mão direita agarrada à coronha da sua pistola, mas essa — segundo os regulamentos (?) — devidamente enfiada no coldre de cabedal castanho-escuro.

Cada vez que relembro esses momentos, a sensação que me domina sempre é que não há um só Brasil.

A vida numa metrópole como S. Paulo pouco ou nada... huum, nada... nada tem a ver com a vida em Varginha. Apesar de estar no centro de uma conspiração com extra-terrestres que fazem da cidade de Minas Gerais uma espécie de "Roswell tropical", as exigências sociais em Varginha em nada se poderão comparar com as das grandes cidades. E esses são logo dois Brasis completamente diferentes. Igualmente não será de esperar encontrar grandes semelhanças entre a vida no último porto-seco do café de Minas e, digamos, na Meca de surfistas, em Ubatuba, no litoral paulista... ou entre essa e Paraty, a uns meros 75 quilómetros mais para Este. Podia estar aqui a comparar situações até amanhã, mas, para terminar, dir-vos-ei que basta ter comido pão-de-queijo em S. Paulo e em Minas para confirmar cientificamente o que aqui afirmo.

O guarda-costas de aspecto assustador da dondoca dos Jardins Europa, em S. Paulo, já pouco tem em comum com o seu primo que ficou para trás a tratar na padaria da família em Pindamonhagaba.

Na Rodovia Rio/Santos, na zona de pesagens de Santa Catarina, a tensão parecia estar para durar: sempre com um ar bastante ameaçador, o homem ordenou-nos que saíssemos do carro e lhe apresentássemos os nossos documentos. Nem a aparição (surrealista) de um tipo, completamente nu (à excepção de umas havaianas de padrão camuflado), todo nu, dizia eu, surgido do meio da mata com uns 20 e tal quilos de proibidíssimo palmito às costas, nem isso provocou qualquer alteração na situação. Foi preciso o gordo bêbedo e ganzado olhar para o meu passaporte para gritar na direcção do colega:

— Oh, Valdemar, oh... é um pátrício mêu. — e, na minha direcção, tentando imitar a pronúncia portuguesa — ora póis, que surprêza, ora êsta... ó pá.

O bisavô dele era de Pontchi dji Leima e, por isso, só nos gamou alguns maços de tabaco.