Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

MARIA DAS DORES

Negra, longilínea e portadora de uma reputação de violência reconhecida por todos, Maria das Dores actualizava diariamente o seu cadastro de agressões na escola primária que frequentei. Durante os quatro anos que fomos obrigados a frequentar o mesmo espaço que semelhante entidade, todos os miúdos instintivamente sabíamos que, nem em casa, deveríamos mencionar o seu nome, não fosse tal invocação — por magia ou agoiro — iniciar alguma reacção em cadeia que terminaria numa série de eventos menos felizes no dia seguinte.
Tudo o que podíamos fazer era considerar-mo-nos muito afortunados por ela apenas assombrar a nossa existência durante as manhãs de segunda a sábado, que é como quem diz, no tempo que passávamos na Escola Primária da Sé, à Rua Rasquinho, na cidade velha.

Acho sempre imensa piada quando oiço gente a elogiar como "antigamente é que era bom".

Um dos temas mais utilizados para explicar precisamente isso, para explicar como "antigamente é que era bom", é o estado da educação no nosso país:
— Os miúdos hoje em dia já não aprendem nada. Já eu, no meu tempo... — e segue-se uma descrição exaustiva dos factos e curiosidades mais absurdas que o orador teve de aprender, lista que frequentemente inclui inutilidades como os principais rios de Angola e Moçambique (e seus afluentes), as capitais de todas as regiões administrativas das ex-colónias ultramarinas, as principais estações da linha de comboio Lisboa-Évora (incluindo o já extinto ramal de Casa Branca, claro) e outras pérolas demonstrativas da capacidade de memorização de fait-divers supostamente indispensáveis.

Ora, no meu caso particular, a interiorização da sabedoria escolar era-me inculcada, na melhor das hipóteses, pela sempre presente ameaça de violência física e, na pior, pelo sofrimento e pela dor causados, lá está, por Maria das Dores. Assim baptizada pela sua dona e com uns cinquenta centímetros de comprimento, dois dedos de largura e, talvez, um de grossura, Maria das Dores era uma régua de pinho negro que a nossa mui respeitada professora — a Dona A. — usava para impor a ordem e, mais que tudo, para sovar diariamente um grupo de miúdos, pobres e desprotegidos, com idades compreendidas entre os seis e os dez anos.

As justificações que originavam os castigos eram imensas e muito criativas, há que confessá-lo. Por vezes, porque (segundo ela) todos sem excepção se tinham portado mal, recorria a uma técnica que denominava "de uma ponta à outra". Como o nome indica, a senhora professora começava na carteira na ponta diagonal mais distante da porta e punia todos os alunos com uma série de — cinco ou seis, às vezes mais — violentas reguadas. Outras vezes, porém, bastava que um de nós se tivesse portado mal. Outras ainda, nas suas pausas para tabaco, entregava a um dos alunos o papel de bufo: assim, o eleito escreveria no quadro negro os nomes dos que se portavam mal na sua ausência e que seriam depois convocados à presença de Maria das Dores.

Lembro-me tão bem do dia em que a vi atar um aluno à sua carteira com uma linha de costura...

… e de a ouvir prometer que, se ele a partisse, todos seríamos castigados. É claro que o dito assim fez, o que originou mais uma sessão "de uma ponta à outra". O aluno na origem da punição, esse — que, hoje em dia, seria muito provavelmente reconhecido como uma criança com notórios problemas de aprendizagem — teve direito a um tratamento especial: à frente de todos nós, a senhora professora baixou-lhe as calças e, sem qualquer pudor ou remorso, açoitou-lhe o traseiro exposto. Assim, espancado e humilhado à frente de todos os colegas; bem-vindo a mais um dia normal na Escola Primária da Sé protagonizado, como sempre, pela inesquecível Maria das Dores.

Ali mesmo, paredes-meias com o edifício que, nessa época, albergava a Escola do Magistério Primário, onde eram formados os novos professores primários do concelho de Faro, Maria das Dores era um objecto perfeitamente aceitável e justificado no ensino primário português no fim da década de 60. Mas não era, claro está, a única. Não. As outras duas professoras que leccionavam na Escola Primária da Sé — incluindo a directora da escola — também tinham as suas "Marias das Dores" que não tinham qualquer problema de qualquer espécie em utilizar nos outros miúdos pelos quais eram, ou deveriam ser, responsáveis.

NOTA FINAL: Lembro-me muito bem da primeira vez que Maria das Dores me queimou as palmas das mãos. E lembro-me que só não chorei porque uma sensação que eu desconhecia até aí se apoderou de mim, superiorizando-se à dor.

Aos seis anos de idade, sem o saber, eu tinha tido o meu primeiro contacto com a indignação.