Afonso Dias

reflexões in verso

Afonso Dias

em alexandrino
               da insónia

em alexandrino
               da insónia

gelada vinha a noite           que de enfado fervia
e a madrugada tonta           sonâmbula riscava
a sombra do meu melro          planava as colcheias
que floriam aladas           pelo mestre da vigília
invadiam os gatos          o casario altivo
pé ante pé subiam          ‘té ao silêncio nu

lá fora a humanidade          ó desordem das horas
p’lo mercado vagueia           à luz do tempo cru
imundos são os pombos          que cagam as varandas
(natureza imperfeita           haja deus que lhe acuda)
de alerta tudo vejo           nesta atalaia azul

e ao despertar serôdio           eu solto a caramunha
que ao menos a poesia           me adormente a alma
se o corpo não comando           todo em nervos aceso
que a boa musa cante           uma cantiga branda
e a paz me embale ao colo           da bonançosa lei
fundido seja o ferro           que as insónias ateia
e floresça o sossego           em leve sinfonia