Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

1% de inspiração, 99% de transpiração

Quando o editor desta revista (Francisco Gil) me desafiou para aqui escrever, prontamente lhe respondi que sim, dizendo-lhe que retomaria os artigos que há 30 anos escrevi para o jornal O Meridional. Tal como esta, a coluna chamava-se Musique-se.

Impresso em papel de jornal, no dia 24 de maio de 1990 foi publicado este artigo. Três décadas depois, parece-me – infelizmente – atual. Fruto da evolução tecnológica, a publicação 1% de inspiração, 99% de transpiração irá assim chegar a todos vós.

“Um destes dias encontrei um amigo meu que está a frequentar o Curso Superior de Piano e que eu não via há algum tempo. Depois das trivialidades costumeiras nestas situações, começámos então a falar daquilo que me deixou boquiaberto e, de certa forma, apreensivo:
– Estive há uma semana com uma antiga colega de Liceu que já não via há anos e que me disse estar a finalizar o seu curso de Direito. Depois de lhe dizer também o que estava a fazer, exclamou ela com uma certa ironia: Só???... Mas além de tocares piano, o que é que estudas afinal?...

Alguém disse que é preciso ver para crer. Talvez, ou... talvez não! Talvez seja, mas é preciso crer para ver. E é fazendo fé na minha afirmação que vos vou tentar dar a conhecer um pouco do mundo que rodeia o estudante dum instrumento musical (pois a pensar como a ex-colega do meu amigo, sei haver muito boa gente).

Tentando complementar a frequência da escola primária com outra atividade de caráter mais lúdico/artístico, muitos pais tentam que os filhos frequentem aulas instrumentais, seja em Conservatórios ou em Escolas de Música paralelas. Começa então o fabrico do chamado músico clássico. Teve a sorte de ter pais que o incentivassem para o gosto da Música; teve um bom professor de Iniciação Musical; começou, pouco a pouco, a descobrir os segredos deste mundo, afinal tão acessível, que é a Música. Enfim, não podia agora que ia para o ensino preparatório e seguidamente para o secundário parar e desistir de algo que tanto prazer lhe dava. Ora como o ensino oficial, a nível de escolaridade obrigatória, não garantia um ensino específico e continuado na via opcional da Música, lá tiveram os pais, se calhar com algum sacrifício, que custear a continuidade do filho num curso paralelo. Com algumas horas de estudo diárias retiradas das horas de lazer que sobravam dos afazeres normais de qualquer estudante e vendo os seus colegas gozando os prazeres da vida “numa boa”, só, frente a frente ao seu instrumento, decide ainda com mais perseverança e amor pela arte que abraçou, continuar. Os “prazeres” dos colegas dissipavam-se com a rapidez duma nuvem passageira enquanto o seu aumentava gradualmente e... era para ficar! Acabou o 12.º ano de escolaridade e para trás tinham ficado muitas horas e dias de “namoro” com o seu instrumento, mas, finalmente, o Curso Geral do Instrumento estava já concluído.

Arrependido? Não! Muito pelo contrário, de tal forma que a escolha estava feita: ia frequentar o Curso Superior do Instrumento. Continuando a pagar do seu bolso (ou dos pais), agora com médias de estudo de 6 a 8 horas diárias, sempre solitárias, conseguiu, finalmente, chegar ao dia do exame final. Só em peças, estudos e exercícios a sua prova contabilizava uma hora de execução. Uma hora que pareceu uma eternidade, frente a um júri que pontuava a técnica, a musicalidade, o conhecimento específico do “toque” próprio de cada compositor, a memorização total e absoluta das obras tocadas, a forma de tratar o instrumento. Enfim, depois de muita transpiração e daquele nervoso miudinho (por vezes miudão) próprio de quem pisa o palco, chegou-lhe, finalmente, a imensa satisfação de se saber instrumentista diplomado superiormente e que todo o trabalho empreendido em jovem será por toda a vida reconhecido através de algo vital e de extrema importância para qualquer artista: as palmas.

As minhas palmas também. Reconhecidamente!"