Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

Males que vêm por bem

Habituados a chegar ao seu público através dos canais normalizados para o efeito, os músicos veem a atual pandemia a privá-los, quase há um ano, da sua única fonte de rendimento. Sabendo que é para o público e do público que vivem, estes profissionais sem salário fixo nem garantido no final do mês, num ápice e inesperadamente, viram as suas principais fontes de rendimento (concertos e, nalguns casos, a venda de discos) diminuir drasticamente, ou até cessar, fruto das medidas tomadas nos sucessivos estados de emergência, colocadas em prática como forma de minorar as cadeias de disseminação viral.

Usando grande parte do seu tempo para praticar, compor e ensaiar, é nos concertos ao vivo que os músicos se habituaram a contactar com o seu público, trocando a sua arte pelas palmas e pelo merecido cachet. Uma troca justa, onde músicos e público se acostumaram assim a comungar entre si. Mas como continuar a fazê-lo, tendo estes artesãos dos sons e dos silêncios de estar confinados e, como tal, impedidos de socializarem com o seu público?

Tal como outros artistas de outras áreas, muitos músicos arregaçaram as mangas e à sua arte juntaram o engenho necessário para colmatar a falta do precioso contacto com o seu público. E em boa hora o fizeram! Aproveitando as janelas abertas para o mundo real que a internet proporciona através das múltiplas plataformas de comunicação digital, os nossos músicos de eleição dispuseram-se a entrar-nos em casa para, no sentido literal do termo, dar-nos música.

Basta abrir qualquer rede social e é hoje possível dispor de imensa oferta de formação com compositores, letristas e músicos que, mesmo noutros continentes, à distância de um simples clique estão disponíveis para, através do écran do nosso computador, entrarem-nos em casa e tratarem-nos por tu e vice-versa. Algo impensável há um ano, quando, com agendas repletas de trabalho, jamais teriam disponibilidade para partilhar os seus ensinamentos com outros músicos.

E o que dizer da possibilidade de, no aconchego do lar e em família, termos o privilégio de entrar na casa ou estúdio dos nossos ídolos e podermos desfrutar de concertos informais, onde, via live streaming, trocamos o prazer que nos proporcionam pela justa remuneração do seu trabalho, podendo, ao mesmo tempo, com eles confraternizar e mostrar-lhes o quão importantes são para nós?!

Fruto de um mal maior, surge assim um novo paradigma relacional entre o músico e o público, com benefício para ambos. Acredito que depois da pandemia vingará um modelo híbrido de concertos: ao vivo e através das várias plataformas digitais para quem não pode deslocar-se aos concertos ou queira revê-los mais tarde. E se assim for, permitindo aos músicos e aos seus fãs um mútuo ganho, bem-vindos ao futuro!