Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

Música no 1.º ciclo de escolaridade?

Não poderia estar mais de acordo com a introdução ao documento “Aprendizagens essenciais/ Articulação com o perfil do aluno” que o Ministério da Educação, em julho de 2018, publicou como documento orientador para o ensino/aprendizagem da Música no 1.º ciclo de escolaridade: “(…) A música é uma prática social comunicativa e expressiva. A partir do ouvir e através da produção sonora em conjunto do cantar, do tocar, do compor, do olhar, do escutar, as crianças e jovens dialogam e constroem significados, partilhando-os e transformando-os, enriquecendo assim as suas práticas e horizontes culturais, em consonância com as diferentes Áreas de Competências do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (PA). A música existe no conjunto, no fazer e partilhar com os outros, no dialogar, na pergunta-resposta, e em inúmeros pequenos rituais que fazem parte do nosso quotidiano coletivo. (…) Desta forma, propõe-se que, à medida que progridem, os alunos aprofundem a sua apreciação, compreensão e desempenho musicais, permitindo criar, recriar e ouvir através do desenvolvimento de competências de experimentação, de improvisação, de composição, de escuta, de reflexão, de movimento, de interpretação (no sentido de performance), contribuindo para a sua formação como sujeitos criadores e fruidores de Música”.

No campo teórico e das intenções, este texto faz todo o sentido. Os jovens aprendizes, até antes do primeiro ciclo de escolaridade, deverão tomar contacto com as grandes aprendizagens essenciais na área da música: experimentação e criação, interpretação e comunicação e apropriação e reflexão. Mas como implementar no terreno tais meritórias intenções?

Enquanto professor e formador, tenho vindo a constatar que nos últimos anos em que tem sido realizada a prova de aferição de Expressões Artísticas no 2.º ano de escolaridade, cada vez me chegam mais relatos de professores titulares das turmas, comprovando que não basta exarar documentos orientadores muito bem intencionados, quando quem os irá aplicar não está preparado nem estimulado para o fazer.

Por vários motivos que espelham a realidade de um país que não se encontra na situação económico/financeira dos países que inspiraram a produção do documento sobre o qual aqui escrevo, é hoje possível constatar que não basta querer, é preciso ter os meios para fazer acontecer. Com mais de metade dos professores do 1.º ciclo de escolaridade (extenuados e ansiosos) à beira da reforma, com a falta de formação contínua na área da Expressão Musical, sem o investimento em novos equipamentos e materiais de produção musical e sem o interesse das novas gerações em abraçar a profissão de professor, vejo com alguma reserva e desconfiança a colocação em prática de tão ambiciosas teorias.

Serão as famigeradas, a seu tempo, AEC (Atividades de Enriquecimento Curricular) e os atuais professores titulares das turmas do 1.º ciclo, que se desdobram pelas várias áreas curriculares, muitas vezes sem condições infraestruturais e materiais, que conseguirão implementar tal desiderato para a Educação Musical no 1.º ciclo de escolaridade? Por mais provas de aferição que todos os anos se realizem, não me parece ser possível aferir o que, por falta de real e eficaz investimento, se resume a meros processos de intenção. “Onde é que já vi este filme?”, é o que me apetece perguntar, após algumas décadas de ensino que já levo em cima.