Paulo Cunha

Musique-se

Paulo Cunha

Os professores são «bué da fixes» e o ambiente é «altamente»!

Recordo com alguma saudade e nostalgia as divergências e desacordos que mantive com Pedro Ruivo, um dos fundadores do Conservatório Regional do Algarve Maria Campina. Sempre tivemos grande respeito e educação um pelo outro, mas tal não nos impedia de vincar a nossa posição. Na altura em que com ele privei, tinha idade para ser seu neto e, como tal, a deferência que por ele nutria era notória. Entre muitas outras coisas, não se cansava de proferir aos “quatro ventos" que jamais seria possível ver num músico um gestor de sucesso. Dizia que os músicos são artistas e, como tal, são sonhadores, “cabeças no ar”, “despistados”, enfim: ausentes da realidade.

Foram essas e outras palavras que fui ouvindo durante a juventude que me deram alento para mostrar - na prática - que ele, e muitos como ele, estavam errados. Quem me dera tê-lo agora entre nós para, com agrado, lhe mostrar o que quatro músicos/professores conseguiram fazer na área da gestão cultural. Seria com grande prazer e orgulho que o receberíamos em Olhão, numa casa com o mesmo espírito que ele e a sua esposa, Maria Campina, imprimiram nos primeiros anos do Conservatório.

Com o passar do tempo, aprendi que não adianta ripostar palavras vãs quando é nas ações que reside a verdade. Quase quinze anos depois de termos realizado o sonho de colocar os nossos conhecimentos, aspirações e anseios ao serviço da Música e de Olhão/Algarve, é com um misto de sensações de dever cumprido e desejo de continuar (fazendo diferente mas sempre mais e melhor) que eu, o Adriano St. Aubyn, a Anabela Silva e o Rui Gonçalves agradecemos a todos (muitos) que nos ajudaram neste percurso cheio de inúmeras conquistas, de vários desafios superados e de alguns contratempos que, não nos tendo derrotado, consolidaram a amizade e ajudaram-nos a crescer.

A meio da jornada (há sete anos), recordo-me de um episódio que vivenciei e que continua a ser uma referência do trabalho que realizámos enquanto professores e administradores. Falando com um colega do meu filho, que então não me conhecia, ouvi algo que me fez ganhar o dia. Respondendo-me à questão que lhe coloquei sobre a razão de frequentar o Conservatório de Música de Olhão, morando em Faro, disse-me apenas: “...apesar das instalações não serem nada de especial, os professores são «bué da fixes» e o ambiente é «altamente». Estou muito contente em cá estar!”. Hoje, noutras instalações, maiores e melhores, estas palavras continuam a fazer todo o sentido, continuando a motivar-nos, dando-nos alento e fazendo-nos continuar a acreditar que, todos, seremos unos no propósito de servir a música!

30-11-2019