José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

“OS CANIBAIS”

Em tempos de pandemia

Inicio hoje uma nova série de “fábulas surrealistas” que penso levar a bom termo até ao princípio do fim, isto é ainda sou daqueles que acredita que um milénio tem mil anos!

E nada melhor, para descomprimir e compreender este conturbado período que antecede os Armajedões, as Pandemias, os Apocalipses e outros Endworlds afins, que um conjunto de minicrónicas surrealistas onde não deixará de estar presente a nossa pertinente “paranoia erótico crítica” (como diria S. Dalí) ... Tudo isto para o preparar condignamente para o acelerar deste percalço do milénio, (e sair da crise) pois, certamente, pode ter a grata certeza que o tempo não para e tudo cura…

E o caso não era para menos: D. Belinda Gomes, recentemente enviuvada, já tinha consultado, desde o desaparecimento do seu Prosápio, três otorrinos, um gastro, um úrico, um vidente, um naturopata, duas cartomantes, um osteopata, um quiroprático,  um endireita, uma radiestesista e um guru tibetano da Guiné, que aparecera a habitar,  há pouco tempo, ao fundo da sua rua... e, tudo isto, por causa de uns grandes calores que lhe começavam no baixo ventre e só paravam ao fundo da garganta,  quando não chupava ardentemente duas ou três pedrinhas de gelo!

Os sintomas agravavam-se cada vez mais, surgindo, invariavelmente, lá para o sol poente e só aliviando por volta das duas da manhã, e sempre com aquele recurso que acidentalmente lhe surgiu, quando, uma noite sequiosa, se atirou a um grande copo de água, com as tais pedrinhas de gelo dentro.

Mas, com o tempo, aquela mezinha foi deixando de resultar e, aos calores de ontem, acrescentavam-se agora grandes tremores e maiores ardores que só finalizavam, após algumas convulsões em que não conseguia evitar um longo gemido (por vezes um ronco profundo) e um estranho revirar de olhos... e tudo isto com grande ansiedade e espalhafato à mistura!

Por vezes, fazia umas orações noturnas a São Cipriano, São Cosme e ao Anjo Rafael, o que normalmente acompanhava com alguns beijos fugazes e sentidos na urna onde dormiam "ad eterno" os restos mortais do seu ido Prosápio.

E, foi assim, entre preces e percalços que numa serena noite de verão, após três sentidas orações, duas ladainhas e um credo, que D. Belinda, ao tocar ardentemente no mini sarcófago do ex., sentiu uma súbita gula pelo macabro conteúdo daquele vaso funerário. Num gesto trémulo, lacrimejado, ululante, quase irrefletido e desfeito abre sofregamente o recipiente em alabastro rosa alcantilado, e, mergulhando o indicador esquerdo (D. Belinda era canhota) e suado naquelas pacatas cinzas, deixou que as mesmas se lhe colassem ao dedo e com os olhos semicerrados sorveu deliciada e cataléptica aquele insípido e inodoro pó, cinzento chumbo... E, oh milagre entre os milagres, como por encanto, os calores cessaram instantaneamente - o corpo estremeceu-lhe, numa longa convulsão nunca sentida até aí, o seu cansado espírito recolhe "a casa" e, no mais profundo recanto da sua atormentada alma, sentiu um alívio como também nunca tinha sentido na vida...e diga-se,  também um estranho sentimento de culpa… mitigada. O torpor invadiu-a, irremediavelmente, e, pela primeira vez, dormiu  a sono solto, como uma inocente donzela, dia a dentro...

O tempo passa! Escusado será dizer que, ao fim de meia dúzia de meses, D. Belinda tinha "devorado" por completo os sais miraculosos jacentes na mini urna de Prosápio (mais uma vítima do covid 19). Ela que odiara sempre aquela expressão do seu defunto, quando lhe sussurrava com ternura aos ouvidos, na intimidade da sua conjugal alcova - "Gosto tanto de te comer, Belinda!"… e que ela nunca o conseguiu desligar mentalmente, duma oculta tendência antropofágica… o seu Prosápio!

As azias, os arrepios e os calores desapareceram, bem como as cinzas que já não lhe aqueciam agora o irrequieto dedo indicador da mão direita!

Ouse dizer-se, no derradeiro folgo desta estória verídica, que D. Belinda, anteriormente frígida, descobrira, durante um curto espaço de tempo, o mitificado Orgasmo e Prosápio Gomes perdido no limbo dos "malcomidos" sentia-se finalmente vingado!!! Tenha sido totalmente devorado e sorvido, pela sua “ausente” esposa que ainda pairava neste virulento mundo do aquém…