José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

“O APRENDIZ DE ALZHEIMER”

Fimósio Lopes olhou para trás deixando a perder de vista o velho vale florido donde partira há cerca de duas horas, a fazer a sua caminhada...

Sentia-se bem nos seus oitenta e quatro anos. Sempre tivera saúde e não se podia queixar da vida que sempre lhe fora grata — talvez por nunca ter sido demasiado exigente — pois, lá no fundo, a única coisa que lhe “doía” um pouco, era a sensação de ingratidão em relação aos filhos, que por vezes “esquecem” o que fazemos por eles e que após duas tentativas falhadas para o encurralar num lar, desses, tipo penitenciária, que há para aí aos milhares, acabaram por ter do aceitar em regime de internamento rotativo a “dividir por quatro”: assim, ao fim de cada quatro meses, descrevia ele, como dizia de brincadeira, o seu movimento de translação, pois as casas de cada filho eram um pouco como as quatro estação do ano…

A casa da filha mais velha, divorciada, com dois filhotes de onze e treze anos era a Primavera: Os miúdos ajudavam, a filha não o chateava muito e ele gostava de os ensinar naquilo que sabia...

Seguia-se o Verão, o filho mais velho continuava igual a si próprio, trabalhava que nem um Mouro de Fez, já tinha um filho com 22 anos e a nora era, uma choninhas que só pensava em trapos, seca que nem uma serapilheira a torrar ao sol, sem emoções, tal como a mãe dela, com quem já tivera alguns desaguisados e que passava as tardes lá em casa, a chatear tudo e todos desde que enviuvara, com a mania das doenças e a dar conselhos, a torto e a direito, a quem inadvertidamente passavam lá por casa…aquilo era um autêntico “pincel”…

Seguia-se o Outono: a casa da filha mais nova — acolhedora e embora tivesse bom ambiente raramente estava em casa, pois vivia a maior parte do tempo com o namorado no Barreiro, onde tinha uma gráfica, ao que consta com algum sucesso. Ela fazia-lhe todo o expediente, mas era tudo gente muito atarefada. Tinham um lindo bebé, o Diogo que ficava todos os dias no infantário.

Finalmente o Inverno a casa da outra filha a quem tinha dado uma boa maquia, para a compra do último carro, ia para três anos. Como paga, acedeu a tê-lo lá em casa de quatro em quatro meses... tudo isto uma pechincha, dizia ela!

Fimósio já andava por estas vidas ia para cinco anos — desde que a mulher, dez anos mais nova que ele, lhe deu na veneta e com os pés e foi viver para casa dum antigo gerente bancário, reformado. Um pulha qualquer que gastava a reforma toda na batota... Também não se perdeu nada, tenho para mim que ela andou para trás!

Mas começava a estar farto disto tudo, as conversas dos filhos não passavam dum chorrilho constante de futilidade vazias e aquela agressividade com que falavam com ele quando aparecia de malas aviadas e de que já há muito reparara, começava a chateá-lo... também as leituras que outrora adorava fazer, pois andava sempre com uma boa dúzia de livros às costas e a velha máquina fotográfica com que gostava de fixar os netos (a sua predileção) pouco ou nada lhe diziam agora, verdades de há trinta anos tinham ido todas por água abaixo, tudo mudava, e ele que sempre gostara de “verdades consistentes” assistiu ao longo de meio século como elas — as verdades de outrora — se esgueirava por entre ou dedos desfeitas qual torrão de areias movediças. No fundo ninguém continuava a saber nada de nada e o resto da informação que lhe chegava era aquela profusão de ladainhas abonecadas, em que a Internet dos seus tempos de moço, se transformara, pior que uma droga dourada de 24 quilates!

Com o tempo apetecia-lhe cada vez falar menos, e ia também se desligando de pequenos hábitos desnecessários que o caracterizaram, a vida inteira... adorava contemplar a vida e a sua delícia principal era absorver as benesses do quatro elementos que Deus lhe ofertara à nascença – a Terra, a Luz, a Água e o Ar… Aí bebia tudo o que precisava de mais puro e gratuito: as brisas, as sombras estivais, a frescura do mar, as promessas dos horizontes, os frutos doirados do sol… os filhos viam-no assim deste modo a “alhear-se” e começando a preocupar-se, acabaram por levá-lo a meia dúzia de médicos e o último remate dum grande sapiente veio entre os dentes, mas que ele conseguiu ouvir — É Alzheimer! Não há dúvidas! E quem seria eu para desconfiar daquela eminência parda, a que chamavam doutor?

No fundo deu-me uma imensa vontade de rir, aquelas preocupações, as outras, mais veladas, para saber a quem “o velho” iria deixar as massas, as casas, as meia dúzia de ações e uns quantos cacos de família, que se recusava a tirar da velha vivenda onde de vez em quando ia, pois o neto, que já tinha carta, levava-o lá à surdina, sem que ninguém soubesse, a não ser o outro neto mais crescido, que sempre o adoraram e trataram por avô, num tom, que ele, todo dado às músicas, não deixava de estremecer como se fosse a sua ausente mãe quando o embalava em criança com doces nanas de amor... sim, porque também ela depois endureceu e não era mais do que uma das muitas mães, sem tempo para nada, de tal modo o espelho, as amigas, e o conferir as cadernetas com o meu pai lhe assoberbavam o tempo!... Mas aquela “do Alzheimer” era demais... e que diabo: é que vinha mesmo a calhar, talvez agora com o estatuto de “parvoíce galopante” se pudesse começar a “vingar” em pequenas doses, (porque no fundo nunca fora rancoroso), das pulhices que as noras e os filhos de vez em quando lhe fossem fazendo e que ele não gostava… que diabo! Porque não merecia!!!

Uma vez foi dar um passeio pelos arredores, entreteve-se a falar com um velho colega de escola que caíra na mendicidade o que veio às quinhentas. Foi o fim do mundo, tiveram-no guardado cinco dias e cinco noites. Depois começou a fazer-se desentendido às conversas, sobretudo quando não lhe interessavam, ou então quando lhe perguntavam onde tinha o dinheiro, quanto tinha, quando fazia testamento... e que “merda” há mais de um ano que não sabia o que era um leite-creme que ele tanto adorava, não fossem os doces que lhe traziam os netos às escondidas e estava feito! Para eles nunca faltara a massa, aliás já tinha feito o testamento em nome dos três netos, às escondidas, e deixava uma velha casa a um amigo de infância, um pouco mais novo do que ele e que nunca dera meia para a caixa, sempre com a mania de era poeta e só tinha uma reforma de 250 euros, de quatro anos passados na guerra colonial donde veio meio passado! Merdas da “democracia” do nosso quotidiano!

Agora aquela do Alzheimer era demais: Começou a dizer o que pensava, a fazer o que gostava, inclusivamente um dia pregou uma lambada na nora mais velha que tinha a mania que era filha de gente fina, e andava há uns tempos a “ornamentar” o palerma do filho, esquecendo-se que sempre fora bem tratada e que viera para casa dele com uma mão à frente o outro atrás...quase que aposto que nem trouxera cuecas!

Quanto aos medicamentos que lhe davam, para “o Alzheimar”, metia-os debaixo da prótese palatal e quando ia à retrete: — Pia com eles!

No fundo de si próprio sentia-se bem, resistente, cheio de apetite e duma lucidez “maligna” ..., mas na frente dos filhos e doutros estranhos “cada vez mais tolo e esquecido” e agora aprendera a armar-se em surdo — era um sucesso, as coisas que ouvia!!!... E então se apareciam lá em casa dos filhos alguns dos pindéricos amigos que tinham a mania que eram “ingleses” — só dizia baboseiras, e de vez em quando até partia um copo! Uma vez peidou-se (estava a casa cheia de gente fina), foi o fim da macacada! Era um espectáculo; perdão: a doença!

Foi-se habituando “àquilo”, e lá por dentro, cada vez rejubilava mais nos seus 84 anos. Adorava passear com os três netos mais velhos, pelos campos ou quando iam de carro, a alguma petiscada clandestina. Por vezes vinha à noite, com os netos do meio para o jardim, e se estivesse só com eles perdia a seu ar de ché-ché, deixando no salão os filhos ou a fazer contas de cabeça aos seus dinheiro, e olhava então para o céu estrelada e ia dissertando para os netos embevecidos: Olha Catarina aquela estrela além brilhante é Siriús, uma estrela dupla... mais além vês, aquele “molhinho”, são as Pleiades, e falava depois sobre os “deuses” que andavam lá por cima, enquanto para os seus botões, ia revivendo a história maravilhosa dum velho de cabelos brancos, que descobrira a Totalidade da Vida e que uma bela noite de verão sob a penumbra doce duma latada... resolveu adormecer no Universo!