José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

O PERU DE NATAL OU O NATAL DO PERU

INTRÉPIDO, VIVAZ…
DE CRISTA À BANDA,
APRUMADO NO GESTO,
SINCERO NO ANDAR,
DIZIA GLU,GLU, GLU
A TODO A GENTE, 
A AFORA ISSO
NINGUÉM O VIU VOTAR… 

JÁ FORA PAI DE TRÊS ÍNCLITAS NINHADAS
E À SUA COMPANHEIRA
SE ALGUÉM LHE PERGUNTAR
 VAI CERTAMENTE OUVIR,
 ENTRE DUAS BICADAS,
QUE O SEU PERU ERA O MÁIOR
DOS PERUS A GLUGLUSAR… 

VIVIAM NUMA QUINTA
NOS ARREDORES DA ALDEIA
COM OUTROS CAMARADAS,
 NA ARTE DE CANTAR…
JÁ TINHA MUITOS ANOS
E ENTRE MUITAS BICADAS
 ERA UM VETERANO ACÉRRIMO,
 DO PORTE, AO DESFILAR… 

APROXIMAVA-SE O NATAL
(DIZIAM OS HOMENS)…
DATA BOA PRÓS MENINOS
MAS MÁ PARA AS CAPOEIRAS.
POIS TODOS OS ANOS POR ALI HAVIA
FARTA MORTANDADE
E GRANDE CHINFRINEIRAS… 

JULGAVA A DIVINA AVE
POR VELHA E REFORMADA,
QUE NINGUÉM
 PARA A GUERRA DAS FORNALHAS
O IA ALI BUSCAR!
MAS PASME-SE BOM POVO
(A VIDA É TÃO MALVADA)
O ANO ERA DE CRISE
E A FOME DE PASMAR!... 

NAQUELA MANHÃ LEDA
DA SANTA MADRUGADA
(EM QUE O MENINO NASCEU
NUMA CAMA “PALHAR”)
O CASEIRO DA QUINTA
ALI O FOI BUSCAR! 

DESALINHADA, A PERUA (ESPOSA) GRASNAVA, SUFOCADA,
QUATRO PERUZINHOS ÓRFÃOS
IAM ALI FICAR
E MAIS CINCO OVINHOS,
NUM MONTE DE PALHINHAS, 

AGUARDAVAM OUTRO FIM:
A MÁ SORTE DE GORAR!

.......

NA COZINHA DO MONTE
UM VELHO PERU ESPERAVA,
DEPOIS DE EMBEBEDADO,
PARA SE TORNAR MANJAR.
E QUANDO ALGUÉM, PASME-SE,
A FACA LHE CHEGAVA:
OUVIU-SE UM LONGO UIVO…
A CHEGAR… A CHEGAR!

ERAM OS LOBOS DA SERRA,
 QUE POR ALI RONDAVAM…
(A FOME CHEGA A TODOS)
E NUM AR QUE LHE DEU,
PELA PORTA ESCANCARADA,
ENTRAVAM, SEIS, UIVANTES,
E AO QUINTEIRO, COITADO,
NEM A FACA VALEU!

O PERU “CHEIRAVA A VINHO”
(POIS ESTAVA EMBRIAGADO)
E OS LOBOS “ECOLÓGICOS” COMO NÃO BEBIAM
PASSARAM A SEU LADO, DESCUIDADOS, ENQUANTO DO QUINTEIRO
JÁ NEM RESTOS SE VIAM…

RECUPEROU O PERU DAQUELA CARRASPANA,
REGRESSOU PARA O LAR,

ONDE OS DOCES FILHINHOS:
O ENCHERAM DE GLU…GLUS.
E MIL BICADAS,
E O FOI ASSIM O NATAL
DESTES GRANDES
PASSARINHOS…