José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

O Corredor

Um dia, quatro bichinhos (a carocha, a formiga, a aranha e a mosca) resolveram dar um passeio conjunto através dum lindo túnel que descobriram na floresta.

A carocha foi pelo chão, a formiga pela parede, a aranha mandou a sua cordinha transparente de lado a lado e foi pelo ar, quanto à nossa amiga mosca, como estava cansada de voar, foi caminhando pelo tecto.

Quando chegaram ao fim do seu percurso resolveram falar das suas aventuras e cada um contou o que viu. Aí começou a discussão pois a carocha disse que tinha visto ervinhas, pequenas pedras, alguns buracos, meia dúzia de flores e um casalinho de bichos-de-conta, era assim o túnel para ela; a formiga, que foi pela parede, falou de musgo, pedrinhas bicudas, outras companheiras suas que ali moravam, pedacinhos de madeira a desprenderem-se, etc., era assim o túnel para ela; a aranha, que tinha viajado no seu teleférico brilhante, falou das alturas, de libelinhas que a cumprimentaram, dum passarinho que quase a ia derrubando, dum rio que se via ao longe,... Era assim o túnel para ela; finalmente a mosca falou do tecto onde encontrou cinco morcegos, muitas teias de aranhas pequeninas, gotas de água que escorriam das paredes, e muito mais, era assim o túnel para ela.

Os bichinhos deram com eles quase zangados a chamarem-se de mentirosos uns aos outros. Estava quase tudo envolvido em bulha quando apareceu uma borboleta azul que ali morava e que nas suas viagens pelo túnel, tanto conhecia as paredes, como o tecto, como o chão e como o ar. Ouvia-as a discutir surpreendida e pedindo licença meteu-se na discussão dizendo:

— Não  percebo o vosso desacordo. Todos têm razão; só que cada um viu as coisas à sua maneira e como não pode ver o resto pensa que aquilo que viu era tudo o que havia para ver.

Eles escutaram a borboleta, perceberam a lições continuaram amigos por muito tempo e sempre que podiam juntavam-se para contarem uns aos outros as aventuras que passavam e que muito deliciavam os outros companheiros do grupo.

Com o tempo todos foram conhecendo melhor a floresta e como tinham aprendido a lição da borboleta ficavam sempre pensando quão bonita seria o resto da floresta vista por outros bichinhos que eles não conheciam, mas que por ali andavam por todo o lado...