José Maria de Oliveira

Letras e Traços

José Maria de Oliveira

A Muralha dos Imortais

Em tempos fora apenas um lugar escampado... um daqueles escanifrados ermos suburbanos que costumam ficar ao abandono – ou porque nunca foram de ninguém, ou porque pura e simplesmente a civilização cansou-se de passar por ali, e partiu para outras bandas…
Terra barrenta de malaquite arenosa, gretada, por onde espreitavam, de quando em vez, agrestes rochedos de crómio, compartilhando o espaço com uma espécie de trepadeira rastejante, acastanhada, que mais parecia uma artéria crestada ao sol dum recém retalhado cadáver.
Lá longe, na linha do horizonte, o astro rei, vermelho rubro de raiva, derramava os últimos restos de calor e luz sobre a paisagem, naquele dia.
A meia encosta, descambando sobre o mar, estendia-se um extenso e estranha “muro”, com largos quilómetros, a esfumar-se ao longe, como cauda de serpente morta, há muito escanifrada...
O viajante aproximou-se, transido pelo medo e pelo frio, que àquelas horas da tarde começavam-se a fazer sentir. Mas o que mais o vergava era o temor, sobretudo pelo arrepio que sentia na mórbida curiosidade que o levara a percorrer centenas de quilómetros, para ver “aquilo”.
Desde criança que ouvira falar nesse sítio amaldiçoado, onde só alguns “desviados” ainda iam aparecendo, quem sabe se para cumprir velhas promessas de rituais esconjuratórios.
Até os maiores delinquentes da Terra, que em tempos fizeram “permanência” obrigatória naquele local, tinham sido despenalizados das suas penas, após longas lutas com o governo das nações, para os transferirem, nem que fosse para o inferno!
Talvez por isso mesmo é que as únicas ruínas que por ali jaziam pertencessem a uma velha fortaleza penitenciária, que albergara, em tempos, uma população de quase um milhão dos piores facínoras produzidos pelo planeta, sem contar com uma boa centena de milhares de funcionários prisionais, famílias, comerciantes, proxenetas e rameiras, entre outros, que englobavam o ramalhete.
Os tempos foram correndo, a engenharia genética, na sua expressão mutante, tinha sido posta de lado há muito, bem como os assassinos das espécies, os tarados dos catecismos, os loucos da esperança e todos os que eram “diferentes”. Nessa imensa multidão desapareceram igualmente (aperceberam-se disso “os árbitros” das nações, demasiado tarde) os últimos artistas da Terra. Os poetas, os pintores, os filósofos, os escritores e todos os outros sonhadores que ousavam pensar, sentir e agir diferente e por conta própria, tinham sido extintos!
Com a crise da globalização viera o novo holocausto, a extinção da floresta verde, o esgotamento dos mares, a “Guerra do Lixo”, a Guerra da Água Potável, o esgotamento dos crudes, o cisma das energias alternativas, a extinção dos automóveis, a supressão dos electrodomésticos e para colmatar esta sucessão de maldições “modernas” uma desvairada manipulação genética dera origem às primeiras gerações de imortais.
Por ironia do destino a ciência desenterrara das entranhas da Terra (para onde há muito eram lançados os lixos da superfície, através das chaminés gigantes tecidas nas entranhas de velhos vulcões semi-controlados, a fim de serem cremados nas longas torrentes de lava que fervilhavam nos abismos) um meteoro fóssil com esporos vivos congelados, numa geleira petrificada, com quase 15.000 milhões de anos; gerado, acreditava-se, quase no início do Big Bang... hipótese essa que mais tarde viria a ser rejeitada quando se descobriu que esse “esporo” sobrevivera e transitara, não se sabe como, doutro Universo anterior ao último Big Bang...
Nele foi encontrado aquilo que a ciência resolveu baptizar por gene da auto-suficiência; uma espécie de Genoma “moto-continuo” da vida, que extrai toda a energia que necessita, por osmose, directamente do meio envolvente, seja ele qual for, sem precisar da complexidade de orgãos especializados para a elaboração e manutenção de tudo o que em si processa. Esta “eternidade genética” fora transferida para o homem - alguns homens - através de tecnologias caríssimas, e, quando, passadas algumas centenas de anos, começaram a surgir os primeiros “arrependidos” já era demasiado tarde para voltar atrás. O gene trouxera, sem dúvida, a imortalidade, mas não a interrupção do envelhecimento, e que envelhecimento…
A eutanásia falhara!!!

Quase cinquenta mil imortais tinham sido engendrados artificialmente, depois... com o decorrer dos séculos e dos milénios esses “humanos” foram-se cansando de tudo, sobretudo de si próprios, mas óh maldição das maldições, não conseguiam morrer porque isso lhes estava eternamente interditado até ao mais profundo da sua essência cósmica.
Ao tentarem destruir-se e como tentaram tudo, de novo se reiniciava um eterno ciclo de regeneração, de perpetuidade e tédio infinito…
Essa turba estranha de “imortais” convergira, há muito, para ali, como que a procurar, com os seus iguais, dum “cemitério para vivos”, para encontrar a paz e o descanso eterno…em “vida”… A estranha massa humana, que se espraiava ululante ao longo do muro, transformara-se sinistra trepadeira fóssil, semi petrificada, esquecida, ondulante como um vómito de vento, no tempo de todos os tempos, revestia-se de tons acastanhados e negro ressequido...
Singular “muro das lamentações” aquele, onde Deus não chegara e onde um murmúrio constante de rogativas, crepitava ao longo da extensa muralha como eco dum grito arrancado, em uníssono, às almas penadas dos mais profundos abismos dos Infernos de Dante!
Lá estavam eles envelhecidos como raízes, já quase sem forma humana, arbóreos, frutos da desilusão dum velho sonho da loucura humana, acoitados, ao longo de milénios, numa singular “confraria” de zombis, tecida com “mortos vivos”, semiapagados, esgotados, ululantes, perdidos na memória do esquecimento… mas sobretudo vazios de alma, numa necrose eternamente adiada sem encantos, novidades, esperança e fé.

Eram a “nata” dos antigos rapinadores do planeta Terra, que tudo investiram, sequiosos, nesse estranho “elixir da longa vida”, cozinhado na aventura apocalíptica dum conjunto de experiências genéticas, só para ricos, forjada em laboratórios secretos, daqueles em que se fabricam os “antraxes”. Os “coronavírus” e outros venenos apocalípticos, longe dos povos, que começaram primeiro com os “congelados”, e acabaram por fim, ali, às “portas de Deus”, como pensavam, e por onde queriam penetrar, em vida, no apex dourado dos seus orgasmos paranóicos... esquecendo-se que Deus é em si o Único Eterno e a Única Porta!

O Viajante, ajeitou definitivamente a gola do borel que o revestia dos pés à cabeça, e preparou-se para abalar sem contudo ter conseguido evitar, num “adeus” derradeiro, de olhar, sobre a longa perspectiva da infindável trepadeira humana, a apagar-se aos poucos no horizonte do fim da tarde...
No ar pairava um estranho odor adocicado a humos, vindo da cortina fosforescente, que qual bambinela de limbos e líquenes entrelaçava os “pés raízes” dessa perversa “trepadeira humana”, petrificada, com olhos de “celulóide”, redondos como frutos exóticos, vomitando enxofre, vidrados e agitando-se numa estranha “macumba”, amarelecidos e inexoravelmente “escravizados” a um desconhecido “tempo” onde há muito ruíram os portais do ontem, do hoje e do amanhã!...