José Júlio Sardinheiro

O bom e o bonito

José Júlio Sardinheiro

Por favor, conta-me…

A narrativa, que durante muito tempo prosperou no círculo do trabalho manual – do camponês, do marítimo e, depois, do homem urbano – é, ela também, como que uma forma artesanal de comunicação. Não pretende transmitir o que há de puro em si nas coisas, como o fazem a informação ou o relato. A narrativa mergulha as coisas na vida do narrador para depois as ir aí buscar de novo. Por isso a narrativa tem gravadas as marcas do narrador, tal como o vaso de barro traz as marcas da mão do oleiro que o modelou.

Walter Benjamin

Sempre gostei de ouvir contar histórias e talvez por isso admire bem quem as conta. Em mim, escutar histórias, episódios da vida de quem os relata ou de quem, os ouviu e, no momento que os conta, fez seus, é memória da mais recuada infância. Lembro que na minha terra as histórias raramente começavam com o tradicional “Era uma vez…”; isso era coisa dos livros que não servia bem os propósitos das narrativas que ouvia. Era normal narrar um episódio começando por “Uma ocasião estava eu…” e depois continuava, sempre na primeira pessoa, mesmo quando o narrador apenas tinha sido testemunha de algo, assumindo o discurso directo do protagonista. Foi assim que ouvi falar das peripécias de um tal Zé Moca, calceteiro de profissão, célebre por inventar patranhas e exageros do calibre do famoso Barão de Münchhausen que só muito mais tarde vim a conhecer. Na verdade, nunca ouvi da sua boca essas inverosímeis maravilhas, mas apenas por interpostos narradores. Um dos episódios mais antigos relatava o percurso entre o quartel da cidade onde cumpria o serviço militar e a nossa vila; percurso esse montado numa potente moto emprestada pelo comandante do quartel de quem dizia ser o “impedido”. Já próximo, começou a avistar gente que trabalhava nos campos acenando-lhes e causando grande admiração e lá ia nomeando a sucessão dos lugares. Isto, em princípio nada teria de extraordinário a não ser que no relato do que se passa em meia dúzia de quilómetros encontrava gente a desempenhar tarefas agrícolas de todo o ciclo anual, coisa que era imediatamente detectada pelos ouvintes bem conhecedores dos trabalhos do campo. Uma outra que ouvi era relacionada com a sua profissão de calceteiro. É sabido que, para além daquele martelo especial com que talham as pedras e as batem para as colocar no sítio, é preciso um maço (naquela altura um cilindro de madeira de dois palmos de altura com um cabo vertical) para bater e apertar a calçada. Pois o Zé Moca gabava-se, nas tabernas da vila, de ter feito um grande investimento em cabos para martelos e adiantava “Agora mandei vir da Alemanha um maço eléctrico todo automático; estive a telefonar e já foi desalfandegado no Porto… Vem por aí abaixo a bater calçada sozinho. Uma maravilha! Quando chegar cá já está pago!”.

Curiosamente, a psiquiatria criou no início dos anos 1950 o rótulo diagnóstico de “Síndrome de Münchhausen”. Ainda que não se aplique a estas situações – tendo antes a ver com a simulação de sintomas com vista a obter algum tipo de benefício, por vezes pouco óbvio – faz-me pensar no que poderá haver de necessidade para que algumas pessoas desenvolvam uma capacidade muito imaginativa para contar histórias. Acho que sempre me interroguei sobre a razão de ser de algumas pessoas quase se especializarem neste tipo de narrativa que pela sua mais do que evidente inverosimilhança não pode querer enganar ninguém.

Na área dos cuidados de saúde a que me tenho dedicado na maior parte da minha vida, em termos de trabalho, estudo e ensino, tenho aprendido bastante sobre as histórias que se contam, mas, sobretudo sobre o modo como elas são escutadas pelos profissionais de saúde. Há mais de trinta anos encontrei um livro de um quase desconhecido neuropsiquiatra chamado Oliver Sacks, cujo título, O homem que confundiu a mulher com um chapéu, escondia uma série de “histórias clínicas romanceadas”. A partir daí comecei a olhar e a escutar as narrativas que as pessoas trazem associadas à sua condição de “doentes” ou “pacientes” ou “clientes”… Muitas vezes a minha observação incidia era sobre quem escutava, seleccionava e retinha factos de modo a dar-lhe significado clínico. Valerá a pena entendercomo significado profundo do termo clínico que fica diminuído quando tomado como equivalente a médico. Na verdade, o chamado modelo médico, que contamina de forma totalitária toda a linguagem simbólica dos cuidados de saúde, acabou por cercear a narrativa e a própria clínica, reduzindo-a muitas vezes a um silêncio onde só falam os dados objectivos dos exames. Mais do que isso, como ouvi em tempos numa série de entrevistas ou conversas com João Lobo Antunes, na Antena 2, este modelo já “educou” o público para não fazer perder o precioso tempo dos médicos e outros profissionais com historietas, a ponto de, perante uma tentativa de escuta clínica, já se ter ouvido “o senhor doutor tem aí todos os exames o que é que precisa saber mais?”.

Um estudo nos EUA, de perto da viragem do século, citado por Rita Charon, dava conta de que em média, um médico interrompia a narrativa do doente ao fim de dezoito segundos, sempre que este se afastava do guião do médico. Esta atitude, muito frequente principalmente nos médicos impede a expressão do significado dos acontecimentos de saúde e doença na vida da pessoa, centra a atenção na doença e reduz a pessoa a um mero doente portador de sintomas. É mesmo, a referida médica e professora da Universidade de Columbia, Rita Charon que se torna a principal mentora de uma corrente designada como Narrative Medicine associando o conhecimento da literatura, artes e humanidades aos cuidados de saúde.

Os cuidados de saúde podem assim evoluir com base na “competência narrativa para reconhecer, apreender, interpretar e ser tocado por histórias de doença” de modo a procurar dar significado à experiência individual de quem procura ajuda num profissional de saúde.

Como tudo poderia ser diferente se em vez de “então diga-me lá do que é que se queixa…” o profissional abordasse a pessoa, cumprimentando-a, fazendo-a sentir bem-vinda, apresentando-se e pedindo: “por favor, conte-me o que acha que é importante eu saber para cuidar de si e da sua saúde”.