Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

UMA PROPOSTA MODESTA

Para prevenir que as desigualdades se agravem ainda mais em Portugal e assegurar que os políticos nunca mais sejam um fardo para o país, tornando-os até benéficos para a população nacional.

Vou agora, portanto, humildemente propor as minhas próprias ideias, que espero não sejam passíveis da menor objecção:

Foi-me assegurado por um cozinheiro muito conceituado que conheço em Londres, que: "um político minimamente saudável e com uma qualidade de vida acima da média é, depois de devidamente desossado, desinfectado e fervido, um alimento nutritivo e saudável dos mais deliciosos, seja cozido ou assado, não restando dúvidas de que servirá igualmente para confeccionar um excelente fricassé ou um grelhado." (fim de citação)

Portanto, modestamente ofereço à consideração pública que, dos milhares de oportunistas e arrivistas políticos já devidamente computados, todos os de idade inferior a cinquenta anos devam ser mantidos nos seus cargos (para engorda e abate públicos), mas só depois de correctamente capados (no caso das fémeas, esterilizadas, claro), de modo a evitar qualquer tipo de reprodução no futuro.

Proponho também que todos os restantes, com cinquenta e um anos de idade ou mais, sejam obrigatoriamente vendidos (para engorda e abate privados) àqueles que sempre usufruíram dos seus favores e pareceres, a saber: empresas de construção civil,  bancos e pessoas de qualidade e fortuna de todo o país; sempre aconselhando os futuros gestores a deixá-los mamar abundantemente no último mês antes da matança, de modo a torná-los gordos, pois — à semelhança do porco preto —, o político português, em regra, quanto mais gordura apresenta, mais seguramente tenra é a sua carne.

Garantidamente mais elevado será também o preço deste animal de coutada privada, no entanto, tenho fé que a nossa vizinha Espanha, tal como já acontece com o presunto "pata negra", não demorará muito a conquistar uma posição privilegiada no nosso mercado de exportação... e a vender-nos depois mais caro como se fosse de origem espanhola.

Calculei que o deputado mediano, quando recém-empossado, pesará entre 75 e 80 quilos e que, no espaço de uma legislatura, se devidamente amamentado — numa dieta rica em almoços grátis, já se vê — aumentará facilmente para a faixa dos 100 quilos de peso corporal.

Assim, um político em meio da legislatura fará com facilidade as vezes de um borrego numa festa de casamento para, digamos, 50 convidados e ainda deverá sobrar — à vontade — um quarto traseiro para o almoço das famílias dos noivos no dia seguinte ao da boda. Afinal de contas, tirando os frequentes maus-fígados, o desperdício é quase inexistente, pois bem sabemos que no caso dos machos, por exemplo, quanto mais avançada é a carreira no serviço público, menor é o tamanho dos túbaros, sendo que, na maioria das vezes, está até cientificamente provada a sua desaparição completa, bem como a da espinha dorsal, aliás.

Propriamente administrado, o que não custa crer que será o caso (visto que a gestão NÃO SERÁ FEITA por políticos), o mercado da carne de político terá a sua estação ao longo de todo o ano, mas será mais abundante de quatro em quatro anos. Nessas épocas específicas, sobretudo em ano de eleições presidenciais e autárquicas, poderá suceder que os mercados se encontrem um pouco mais saturados do que o normal, visto que o surgimento de novos políticos é, obviamente, muito superior à média.

Nesses períodos, para evitar eventuais desvalorizações no mercado interno por excesso da oferta, proponho uma maior diversificação da oferta através da criação de sub-géneros (kosher e halal) e o aumento da exportação para mercados alternativos como Israel e Emiratos Árabes.

Para terminar, gostaria de confessar que nada me move nesta proposta, mais do que a firme vontade de servir ao meu país uma solução, que espero e desejo definitiva, para o populismo fácil e também fornecer uma fonte estável de rendimentos que permita, a breve prazo, a construção do trecho de TGV Louriçal do Campo/Oleiros e de um novo aeroporto para Lisboa, no Bairro Alto. 

Absit Invidia  

Joaquim Coelho
Eastbourne, 2021