Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

153
(baseado em acontecimentos verídicos)


— Ó 153, você devia ter-lhe dado um tiro.

E o 153, forte mas tímido, na sua voz serena e desalentada lá repetia pela milésima vez desde essa madrugada:
— Ó meu comissário, não me pareceu correcto dar um tiro nas costas de um homem...

— Ó 153, correcto? Mas você é um cobarde ou um traidor?

— O Sr. Comissário desculpe, cobarde, eu? Cobarde é um indivíduo que dá um tiro nas costas de alguém... assim sim, à traição.

Mas o comissário não estava nada contente:
— É que a P.I.D.E. não me larga a porta, homem. Querem respostas. Não percebe? Aquele homem era um subversivo; quem sabe, um socialista... ou, pior ainda, um comunista. Um comunista, percebe? 

— Ó Sr. Comissário... 

— Homem, como é que eu lhes vou explicar que o meu melhor atirador estava de serviço à porta da esquadra e não deu um tiro num prisioneiro que se escapou pela porta principal? E que prisioneiro? Pois logo um subversivo, se calhar, trotskista... ou um comunista, que ainda é pior. 

E o 153 lá voltava a moer as palavras — de olhos baixos e mãos grossas rodando nervosamente o boné surrado — a garganta entupida pela correcção que lhe desimpedia a visão desde miúdo, mas que, ao mesmo tempo, não parava de, constantemente, lhe atrapalhar a vida: mas, que diabo, não se dá assim tiros nas pessoas. O dito subversivo, se calhar, até podia não ser inocente, mas era uma pessoa.  Não é correcto.  

E claro que não era cobarde, que diabo de conversa mais parva.
Mais do que uma vez tinha provado que os seus colegas podiam contar com ele, fosse em que situação fosse. Olha, como daquela vez no Cais do Sodré — ainda ele era o 1328 da Esquadra da Meia-Laranja, uma das piores de Lisboa no fim dos anos 50 — quando andava à patrulha com o Santos. Era Santos?... enfim, com o 1500. Então, estavam eles os dois, o 1328 e o 1500, a tentar acalmar uma bulha numa tasca entre uns chulos e três marinheiros de um barco de guerra americano — por causa de umas infelizes de umas andorinhas, coitadas — quando um quarto americano vem por detrás do 1500 e, sem a gente ver, saca do cinto, enrola uma ponta à volta da mão e, fazendo como se fosse um chicote, dá com a outra ponta — a da fivela — na cabeça do 1500.

É claro que abriu-lhe logo ali a cabeça. Espirrou sangue por todo o lado. O 153 — nessa altura, o 1328 — não foi de modas. Tirou o cassetete e começou a arriar pra esquerda e pra direita... pra quem estivesse ao alcance. O primeiro a levar foi o do cinto. Uma paulada de leste pra oeste, bem no meio dos queixos, deitou-o logo ao chão, agarrado à cara, a chorar. Quem lhe manda atacar assim pelas costas, à traição?

E o que é que os bufos da P.I.D.E. percebiam de correcto e incorrecto?
Como é que se acaba assim com a vida de um homem?
Todo o homem é filho de pais e, quem sabe até, pai de filhos.
 

Esse sim, é que era um cobarde. Entretanto, enquanto tenta ajudar o 1500 a levantar-se, há um outro américa que se abeira dele pela esquerda, com intenções agressivas. O 1328 roda o corpo e, sem pensar, dá-lhe uma cotovelada na cara e ouve-se um estoiro enorme; resultado: partiu-lhe a cana do nariz.
Os outros dois marujos levantam os braços como quem diz: "já chega, já chega." e gritam: "stop, stop". E parece que tudo acalma por uns instantes. Porém, ao tentar ajudar de novo o 1500 a levantar-se, o 1328 apercebe-se que tem as calças da farda cobertas de sangue. Sangue do 1500, coitado. Dá-lhe uma ira. Levanta-o do chão de uma assentada e amparando-o com uma mão por debaixo do sovaco, com a outra mão desbrava caminho com o cassetete até à porta da rua.
O 1340... ou era 1430? Enfim, o Costa Gordo e o 1297, que andavam à patrulha no Bairro Alto, foram os primeiros colegas a chegar ao local concordaram que, se não fosse a lealdade do 1328 para o colega, o 1500 tinha-se esvaído em sangue, o pobre. Era assim o 153.  

O silêncio, mais pesado do que o desalento geral e embalando as suas recordações de Lisboa, arrastou-se por algum tempo na "Sala Grande" do primeiro andar da esquadra da Alameda, em Faro. Por fim, o Sub-Chefe Bacalhau retomou:

— Ó 153, eu conheço-o. Os nossos filhos são da mesma turma na Afonso III e eu sei que você é um guarda exemplar. Mas a P.S.P., como a gente sabe, está abaixo da P.I.D.E. em questões de segurança nacional e, assim sendo, nem que seja só para os calar... vamos ter de lhe dar um castigo.  

— Ó meu Sub-Chefe, pois o que... 

— Ainda para mais, você recusou o convite para ir trabalhar para eles. Vamos mesmo ter de lhe dar um castigo qualquer. Mas, deixe lá, não se apoquente, que a gente vai fazer os possíveis para não lhe tirar o pão da boca. Não é, Sr. Comissário?



NOTA FINAL — poucos dias depois, antes que o castigo fosse decidido e aplicado, foi dia 25 Abril de 1974. O 153 nunca chegou a ser castigado por não ter dado um tiro nas costas do subversivo em fuga (quem sabe, um comunista) e morreu — em Julho de 2009 — sem nunca ter sabido quem era o dito subversivo, o potencial comunista.