Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

O CIGANO VELHO
Uma Fantasmagoria Ibérica Em Quatro Actos

(1º acto – Os Trogloditas)

Num dia de um ano, há muitos anos atrás, em 1997, vinha eu fresquinho da concentração dos Hell's Angels em Puy-de-Dôme, quando, já no sul de Espanha, numa aldeola próxima de Granada — em La Peza, ou lá como se chama aquele degredo andaluz — dei comigo num posto da Guardia Civil por motivos que não são para aqui chamados.

 Muito bem, para não pensarem que fiz asneira e me estou a esquivar a contar a verdade, a verdade é que dois toscos da Guardia Civil marraram comigo numa bomba de gasolina da A-92... sabem aquela área de serviço do Centro de Interpretación y Hábitat Troglodita Almagruz? Os trogloditas, amigos. Quem vem de leste, pela A-92, a uns quarenta minutos antes de Granada. Ajudem-me aqui, vá lá... os trogloditas... a que tem montes de barracas a vender cerâmicas e um bar simpático onde servem umas tostas mistas geniais?

Sim, claro que sabem, com toda a certeza: perto do Rio Fardes; do lado da auto-estrada oposto àquele puticlub vermelho, enorme, que se vê a mais de um quilómetro de distância? Exacto, vêem? Enfim, aí mesmo... onde é que eu ia? Sim, os trogloditas. 

Então, estava eu a atestar a minha Triumph e os moços, dois putos novos sem cara pra levarem uma chapada, só porque tinham uma farda vestida decidiram implicar comigo convencidos que eu trazia "hachís"... que eu não trazia, certo? Por esses dias, já haveria uma meia-dúzia de anos, pelo menos, que não fumava "hachís" nem qualquer outra porcaria do género. Olhem, fumava Camel nessa altura. Camel. 

Chatearam-me, chatearam-me... obrigaram-me a desfazer os sacos e a mochila e a tenda — só quem anda de mota é que sabe o trabalhão que é acomodar a tralha toda em cima da dita —, depois queriam ver no meio da minha roupa suja... e queriam que pusesse tudo ali, bem no meio do chão nojento da bomba de gasolina. Sem vergonha nenhuma.

Às tantas, acabei por me chatear a sério e obrigá-los a levarem-me até ao posto da Guardia Civil mais próximo, dez quilómetros a sul da auto-estrada, na já referida aldeola de La Peza, onde apresentei uma queixa formal acerca do seu comportamento.

Foi aí, enquanto esperava pelo superior hierárquico daqueles retardados, que vi pela primeira vez o personagem que dá nome a esta história:  

o cigano velho. 


(2º acto - O Desterro)

Num dia de um ano de há muitos anos atrás, em 1997, regressava eu de mota do único Free-Wheels em que participei, quando ainda era em Puy-de-Dôme e vai que, já no sul de Espanha, numa terriola próxima de Granada — em La Peza, ou lá como se chama aquele desterro andaluz — dei comigo num Puesto da Guardia Civil por razões que não são agora para aqui chamadas. 

La Peza é um lugarejo sem graça: mil e duzentas almas — se calhar — salpicadas por um amontoado de betão novo e feio e mal sarapintado de branco. Branco, sim, mas sem aquela beleza dormente, continuamente resplandecente dos pueblos blancos do muy antiguo y dadivoso Al Andaluz. 

Situado na parte norte do povoado, o posto da Guardia Civil, esse então, é apenas um caixote neutro: aborrecido, burocrático e mal-parecido. Gradeado. Por grades completamente rodeado. Inesperadamente alto — quatro andares — não fui, com toda a certeza, o primeiro a interrogar-se o que diabo se passaria ali, naquele fim-do-mundo ibérico, capaz de justificar um edifício policial com tantos pisos?

No lado de dentro, a fealdade anónima fazia pandã com o lado de fora, monotónica, e a única coisa genuinamente boa era aquele arrepio que até congela almas tão típico dos aparelhos de ar-condicionado espanhóis; uma frescura que ali se colava às paredes enfadonhas dos corredores cobertas de azulejos entediantes, contrariando assim a canícula costumeira do exterior naquela época do ano. 

Quando me sentei no banco corrido da sala de espera, bem de frente para o guiché administrativo, não reparei logo no cigano velho. Na verdade, foi ele o primeiro a trocar palavras entre nós.

O gordo que o guardava — esticando-se desde o outro lado do banco — agarrou-lhe rápida e brutamente no braço quando ele, apontando para o maço de tabaco que eu colocara sobre o banco a meu lado, me perguntou se "podia". Só pela reacção do imbecil, que me irritou solenemente, só para chatear, disse logo que sim e eu mesmo abri, sem mais demoras, o topo do pacote de Camel e ofereci-lhe o conteúdo. Desta vez sem qualquer oposição, lá conseguiu retirar um cigarro do interior. O cretino que o guardava parecia já não se importar. Isso desagradou-me, confesso.  

Saquei o zippo do bolso do blusão de cabedal e dei-lhe lume.

Saboreou o fumo com lentidão e inclinou a cabeça para trás, quase até tocar na parede gelada. Por inveja, acendi também um para mim.  

Não ofereci nada ao parvalhão, claro. 


(3º acto - O Fantasma)

Num dia de um ano de um grupo de anos diferentes, em 1997, vinha eu cansado, mas tranquilo da vida da concentração dos Hell's Angels de Puy-de-Dôme e não é que dou por mim no sul de Espanha, numa aldeola não longe de Granada — em La Peza, ou lá como se chama aquele exílio andaluz — na sala de espera de um posto da Guardia Civil por motivos que não são para aqui chamados, fumando cigarros com um fantasma cigano? 

Segundos depois, quando voltou a sentar-se direito, lembro-me que ele olhou para mim como se me conhecesse desde sempre. Com a naturalidade de um reencontro entre velhos amigos, falou. E lembro-me perfeitamente que, como numa seguiriya[1], a voz era triste, funda e fúnebre, arrastada. Falava devagar, suspirava muitas vezes entre as palavras e dizia pequenas frases (mais ou menos) relacionadas:

Sou de Jerez e fui rei
dos gitanos sob o céu.
Mas família e amigos, de mim apenas dizem:
mira El Loco Mateo. 

Antes de vos contar o restante da história, porém, tenho de confessar uma coisa bem estranha que então sucedeu; por si só, os andaluzes já têm o hábito quotidiano de estropiar a seu bel-prazer o vocabulário da língua de Cervantes, transformando cada palavra de cada frase numa autêntica charada encriptada. Até para mim, que aprendi o linguarejar do Sul, primeiramente, nas lojas da rua das lojas de Ayamonte e, mais tarde, nos bares e tablaos de Sevilla e da Isla Cristina, até para mim, dizia, a andaluzada é — não raramente — difícil de entender. Ora, no presente caso, se à algaraviada andaluza, juntarmos igualmente o pesado sotaque do caló[2] que a voz de Mateo carregava, ainda hoje estou para perceber como compreendi tudo, mas tudo mesmo, o que ele me dizia.

Tal fenómeno, só o voltaria a testemunhar seis anos mais tarde no Japão. Mas divago. Adiante que o drama, por fim, se desenrola. 

Levava o cigarro à boca entre as tiradas obscuras que gerava e inspirava o fumo, sôfrego. A dada altura, deixou-o cair no chão axadrezado e foi quando notei que lhe faltava um dos sapatos. Reparou que eu tinha reparado e sorriu tristemente, emitindo um som, estranho, algures entre um riso e um suspiro. Resmungou então qualquer coisa em caliche[3] e descalçou o outro também. Introduziu a mão lá dentro e produziu, à frente de toda a gente, uma excessiva e pontiaguda navalha que, de um gesto só, abriu e cuja lâmina logo me enterrou no pescoço, dois dedos abaixo da minha orelha direita.

Desta vez, o gordo que o devia guardar, nem buliu.  

Cabrón.



[1]    Seguiriya (de seguidilla): estilo de cante flamenco geralmente composto por quadras com versos de seis (ocasionalmente sete) sílabas, excepto o terceiro verso composto de onze (ocasionalmente doze) sílabas;

[2]    Caló (ou Zincaló): língua de origem romena falada pelas comunidades ciganas de Espanha e Portugal;

[3]    Caliche: mesmo que caló;


(4º acto – A Morte Do Artista)

Num dia de um ano de um universo diferente, em 1997, vinha eu já cansado desde a concentração dos Hell's Angels de Puy-de-Dôme e não é que dou por mim, por motivos que não são para aqui chamados, no sul de Espanha, numa aldeola não longe de Granada — em La Peza, ou lá como se chama aquele remanso de pó andaluz — ... não é que dou por mim, dizia, esfaqueado no pescoço por um fantasma cigano na sala de espera de um posto da Guardia Civil? 

Caí. Sem espectáculo, sem coreografia, sem salero. Simplesmente deitei-me sem pressa no banco corrido da sala de espera sobre o lado esquerdo do meu corpo estafado. Depois deslizei — devagar, como que em câmara lenta — sem música ou efeitos especiais, até ao sossego frio do chão. Apesar do medo, soube-me bem, pois o sangue quente que golfejava ininterrupto do meu pescoço, por motivos que não consigo esclarecer, queimava-me as mãos e os pulsos. 

Eu nunca vira a morte, assim, tão próxima. Já algumas vezes a tinha visto lá fora, na estrada, em fugaz relance. Sempre tinha tido a impressão que não ia chegar a velho e imaginava — confesso que sim — imaginava como seria morrer num acidente de mota: como um míssil de duas rodas, num sonoro estoiro de pompa e circunstância. Nunca assim, no silêncio derrotado de um chão rubicundo, aquecido pelo meu próprio sangue.  

E, para complicar tudo, à medida que o meu sangue largava o meu corpo como lastro, a minha... huum... alma... o meu espírito começava desprender-se e a elevar-se. Sim, isso mesmo. Como nos relatos esotéricos de morte temporária, alguns instantes depois de tocar no chão, comecei a sentir a minha consciência, todo o meu campo de visão, a solevar-se e a ver — claramente vista — a cena de uma posição superior, como se esvoaçasse pela sala de espera do posto da Guardia Civil de La Peza, perto de Granada, na Andaluzia, em Espanha: lá estava eu, lá em baixo, como uma ilha, rodeado por aproximadamente cinco litros de mar vermelho.

Que situação tão perturbadora para me aperceber que, se calhar, o padre Henrique tinha razão nalgumas coisas que dizia. Para juntar à miséria, só me faltava uma luz muito intensa e música celestial. 

Todavia, tudo o que senti foi um vento cortante e sonoro que — literalmente — me regelou o espírito, pois enquanto esvoaçava pela sala, aconteceu a minha alma pairar muito próxima do enorme aparelho de ar-condicionado.

O efeito esternutatório foi imediato. Senti o meu nariz vibrar e o meu corpo contrair-se num espasmo impossível de conter. Fechei os olhos e... espirrei estrondosamente.

Tão forte foi o ruído que abri os olhos assustado e dei por mim sozinho, sentado no banco corrido da sala de espera. Num reflexo, procurei a facada, dois dedos abaixo da orelha direita. Sem sucesso. Nem facada, nem sangue... apenas algum ranho e saliva nos queixos, devidos, sem dúvida, ao violento espirro que me trouxera de volta a este universo diferente do ano de 1997, num pardieiro questionável na Andaluzia profunda.

Olhei de novo à volta, agora já mais tranquilo: tudo tranquilo. Do lado de dentro do guiché, os versos de uma seguiriya típica de Jerez de La Frontera ecoavam, doridos:

Yo no soy de esta tierra
no conozco a nadie.
El que jisiera un bien por mis niños
Dios se lo pague.

Nada de inusual na sala de espera do posto da Guardia Civil de La Peza... excepto, talvez, um sapato de homem, preto, sem dono, mesmo debaixo do banco corrido.


El Loco Mateo
Mateo de las Heras Carrasco (Jerez de la Frontera 1839 – 1887?) fez escola como
um dos mais perfeitos seguireyeros da história do cante flamenco. Alguns historiadores
atribuem o seu nome artístico a uma sensibilidade muito extrema, outros a neurose.