Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

UN BON MAITRE D'ARMES

Era ainda um adolescente quando pratiquei esgrima pela primeira vez.
Nessa altura, no fim dos anos 70, ainda era possível praticar o sabre na minha cidade natal; sendo que hoje, curiosamente, não se pratica esgrima nenhuma. Enfim, fui sabrista durante pouco mais do que meio-ano. Apesar da curta duração do
affaire, devo dizê-lo a bem da verdade, foi uma experiência bastante interessante.

Das três disciplinas de esgrima olímpica, o sabre é a que apresenta regras de combate ligeiramente diferentes: por exemplo, é a única que não admite ataques em flèche[1], mas permite, por outro lado, que o toque seja válido não só quando executado com a ponta, mas também com própria lâmina da arma, algo que não acontece com o florete e a espad... mas reparo que estou a esticar-me com esta conversa num sentido (tecnicista) que não me interessa agora para nada. Já o que me interessa sempre, sim, são as partes "mais filosóficas" destas actividades mais brutais. Um pouco como se precisasse de justificar – perante mim mesmo, sobretudo – esta minha tendência natural (?) para a violência... ou, pelo menos, a minha evidente predilecção por passatempos de cariz mais... confrontante.

Já Molière dizia acerca dela:
“o objectivo da esgrima é dar e nunca, de modo algum, receber.”

Sob esta estrutura frásica construída em tons de aparente altruísmo, esconde-se a brutalidade essencial desta actividade: Molière refere-se – obviamente – a dar e receber estocadas.

Precisei de ler “O Mestre de Esgrima” de Arturo Pérez-Reverte para me lembrar que não recordo nada acerca do meu primeiro instrutor: nome, idade, nacionalidade... nada. Talvez por isso mesmo vingou a minha indisciplina adolescente sobre a disciplina do sabre olímpico e não mais a voltei a praticar essa arma.
E precisei de quase vinte anos para que voltasse a praticar esgrima, mais exactamente, kendo. Uma esgrima diferente, japonesa, com um sabre diferente, mas uma esgrima na mesma.
Só que, desta vez, recebi instrução de um verdadeiro mestre. E tanto assim é que, apesar das imensas limitações físicas e logísticas que me limitam a prática, continuarei – pelo menos em espírito – a considerar-me um kendoka.

Engraçado como, ao ler as aventuras de Don Jaime Astarloa, maitre d'armes na Madrid de fins do século XIX, de Pérez-Reverte, foram muitas as vezes que me lembrei do meu maitre d'armes de esgrima (japonesa) na Lisboa dos fins do século XX.

As paradoxais lições de vida – retiradas de uma actividade cujo objectivo primário é a matar – sempre me fascinaram. Esta idealização da actividade bélica como representação de um estilo de vida exemplar, quase mítico, intrigou-me desde o primeiro momento.

Afinal, quem melhor para conhecer e, sobretudo,
transmitir o valor intrínseco da vida do que
alguém cujo mister principal é terminá-la?

Por outro lado, o valor simbólico do acto do confronto, ressoa-me sempre muito para além das meras medições de forças do reino animal. Sim, porque o resultado natural do conflito é – sempre –, mais tarde ou mais cedo, o (re)conhecimento dos próprios limites físicos. Se, para além disso, for ainda necessário lidar/gerir uma situação de derrota face a um adversário reconhecidamente mais forte, então aí, entramos no campo da educação cívica... pura e simples. 

E é precisamente nessas situações de frustração pessoal, física e intelectual – nesses momentos em que “morremos um pouco” – que o mestre d’armas tem o poder de nos ressuscitar, ao relativizar e transformar as mais amargas derrotas em lições de vida indispensáveis para o futuro. 

Um bom maitre d’armes é um oráculo. 


[1]    Segundo as regras, é proibido a um sabrista executar uma "flecha" antes de um ataque, ou seja, um passo para frente ou qualquer movimento em que o pé de trás ultrapasse completamente o pé da frente. Qualquer golpe feito desta forma é cancelado.