Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

BEM-VINDO A LUANDA

O fedor.
Um cheiro a podre, quente e orgânico, quase doce.

Foi a primeira coisa que senti. Como um soco. Ainda as portas do avião não estavam completamente abertas e já o meu estômago se dobrava sobre si próprio e, com muita dificuldade, lá conseguia evitar que os meus primeiros momentos em África coincidissem com o meu primeiro vómito do ano de 2007. 

Nos três meses que se seguiram, seguindo o adágio popular que diz que, com o tempo, nos habituamos a tudo, acabei também eu por me habituar àquele cheirete húmido, fétido e omnipresente. Habituei-me também a não esperar nada do que tinha esperado em qualquer outro dos lugares onde já tinha estado. Coisas simples como água, luz, sei lá eu... gasolina, segurança.
Por exemplo, habituei-me à ideia que a partir das sete e meia, oito da noite, a distribuição de electricidade da rede pública, em absoluta sobrecarga, simplesmente parava, mergulhando a cidade simultaneamente na escuridão e no silêncio. Nessas alturas, habituei-me a ir até ao velho gerador a gasóleo, no quintal, e a pô-lo a funcionar, o que, se por um lado, de imediato resolvia a situação da iluminação, por outro, acrescia um fumo ensurdecedor por toda a casa.
Habituei-me a
nunca beber água da torneira e a tomar duches rápidos com a boca e os olhos fechados; a ligar a ventoinha do tecto do quarto, a toda a velocidade, dez minutos antes de ir dormir, e a borrifar lá para dentro – generosamente – um spray insecticida pestilento e muito pouco ozone friendly.

 Mas para falar verdade, o pior foi ter de me habituar a imensas outras coisas que nunca pensei que seria capaz:, nomeadamente, às pessoas em pedaços, mendigando pelas ruas entupidas de jipes e carros de luxo; sem mãos, sem pernas, braços... sem metade da cara. Habituei-me a conviver com a miséria humana numa escala como nunca tinha visto antes. Habituei-me... não me habituei nada. Quer dizer, habituei-me apenas a olhar pro outro lado.
E, para esquecer tudo, habituei-me a beber (muito) álcool e a dormir dez horas por noite... afinal de contas, enquanto estava a dormir não tinha de aturar aquela merda toda, certo?

EU – Estás aí há uma dezena de anos, como é que é a vida aí?
O MEU AMIGO – Pá, não te consigo explicar. Quando cá chegares vais perceber porquê.

Dormi a quase totalidade desse voo nocturno de Lisboa para Luanda.
Para que não houvesse dúvidas acerca do pesadelo que começava, a apresentação de passaportes na alfândega da capital africana roçou... não, passou muito para além do ridículo.
Chegada minha vez, encaminhei-me para o funcionário que, segurando meu passaporte aberto na mão esquerda e o carimbo fronteiriço na mão direita, me disse assim: 

FUNCIONÁRIO – Hoje ieufhawek reljfi um cafezinho.

EU – Hein???

FUNCIONÁRIO – Hoje (mesmo discurso incompreensível) um cafezinho.

EU – O quêê? 

Ele, fazendo uma cara misto de cansaço e paciência, esclareceu-me, por fim:

FUNCIONÁRIO – Hoje eu ainda não bebi nenhum cafezinho.

EU – (sem perceber) E...?

FUNCIONÁRIO – Tens dinheiro?

Olhou para mim. Olhou para o meu passaporte na mão esquerda. Olhou para o carimbo levantado na mão direita. Repetiu, em voz alta:

FUNCIONÁRIO – Tens dinheiro?

Balbuciei que sim, que tinha 5 euros. Perguntou-me se eram 5 euros em moedas ou em notas. Disse-lhe que era uma nota. Ordenou-me que lha desse, o que eu fiz. Depois, passados alguns segundos (suponho) que pareceram uma eternidade, misericordiosamente, aquele filho de uma grandessíssima puta, lá fez o favor de carimbar o meu maldito passaporte.