Joaquim Coelho

sem retorno

Joaquim Coelho

UMA DERROTA ENSINA MAIS DO QUE MIL VITÓRIAS
(2ª parte)

(Primeira entrevista de emprego em Woodlands ― Hospital de Saúde Mental em Hastings, Reino Unido).

ENTREVISTADOR ― Jiuâkuime (é assim que se pronuncia?), ok, então Jiuákuiu...me... heu... está um grupo de seis pessoas num bar. Se eu lhe disser que uma delas sofre de uma doença mental, você, só de olhar para elas, sabe qual delas é?
EU (apanhado de surpresa) ― Heuu... bom, assim de repente, não sei...
ENTREVISTADOR ― Exacto, Jóyâcueimmeh. Exacto. Essa é resposta certa! Exacto.

Não foi capaz de dizer com uma qualquer percentagem de certeza: foi nessa hora ou nesse dia ou nessa semana... E, um pouco como na anedota verídica contada logo acima, por fora não houve nada que fizesse reparar numa mudança. Por dentro, no entanto, as coisas foram mais complicadas.

Sei que o meu amigo deu por ele sentado numa conversa informal com uma psicóloga nas instalações da Fundação Isabel Blackman em St. Leonards-On-Sea.
Aí, às quintas-feiras ― se a memória não me trai ― a organização Health in Mind patrocinava uma tarde de consultas pro-bono (e, pormenor muito importante, anónimas) com uma série de jovens e não-tão-jovens psicólogos que, muito gentilmente, cediam o seu tempo para ajudar a comunidade, efectuando uma espécie de retrato psiquiátrico, voluntário e gratuito, da população do bairro.

Uma vez, enquanto jantávamos ― às 3 da matina
na sala do pessoal em Woodlands ― o melhor enfermeiro
de saúde mental que conheci disse-me uma coisa assim do género:
"Só há dois tipos de pessoas: umas que têm medo da morte
e outras, da loucura."

Não sei se é verdade ou apenas uma tirada pseudopsicológica, mas esse meu amigo de que vos falo, nesse ano de 2014 (confessou-mo), teve inúmeras vezes ― genuinamente ― medo de estar a enlouquecer.
O acumular de contactos disruptivos que a convivência (quase) diária com os pacientes de Woodlands lhe proporcionava, começou a provocar algumas brechas na sua (já de si não muito famosa) estrutura psíquica. Para sua defesa, há que ter em conta uma série de factores que contribuíam bastante para a situação; senão, vejamos: encontrava-se numa terra ― para todos os efeitos ― estranha, forçado a comunicar uma língua que não lhe era (nem nunca lhe será) nativa, a trabalhar numa área que nunca tinha sido sequer sonhada nos seus devaneios profissionais mais alucinados; distanciado de todos os que amava, gostava ou simplesmente conhecia... Enfim, longe de tudo aquilo que, uns meros três anos antes, tinham sido as suas zonas de conforto pessoal, social e ocupacional.
E sim, a vida romântica, ou sentimental, do meu amigo ― caso estejam a perguntar-se ― também era uma perfeita merda, nessa altura.
Por isso tudo, talvez, soube-lhe bem, a ideia de ter alguém com quem falar.

E bem queria, mas esta vergonha ― dos homens da Europa do sul? ― de mostrar (qualquer tipo de) vulnerabilidade é mesmo fodida.
Não deixa de ser curioso que podes escrever poesia, prosa ou teatro sobre as tuas fraquezas; podes pintá-las, podes filmá-las, podes musicá-las... olha, compor desde faduchos choradinhos de três minutos a óperas heróicas de três horas, tudo dedicado às tuas misérias mentais e/ou psicológicas que não há qualquer problema: é apenas arte. Está tudo bem. Não é a realidade. É uma grande metáfora. Ele não é assim... Ele tem uma grande imaginação, lá está.
Lá está, podes fazer tudo... Só não podes queixar-te. E quando te queixas, se te atreves a tal, falas sempre como se estivesses a falar de uma terceira pessoa:
― Ah e tal, tenho um amigo que assim e assado...

Mas, também, que diabo, homem que é homem não anda por aí a lamentar-se a estranhos. Come e cala, e aguenta-se à bronca... E, para mais, o quê? Saúde mental e depressão e paranóia e essas paneleirices modernas? Antigamente não havia nada disto. Pareces uma gaja, pá. Tás triste, bebe uns copos que isso passa.
Somos todos machos latinos.
Mas o meu amigo não queria ser macho latino.
Nada disso. Aos cinquenta e poucos anos, queria era finalmente identificar o mal que o atormentava. Fitar a forma exacta do punhal que, traiçoeiro ― sempre cobardemente ―, lhe esfaqueava a lucidez e a sangrava até que, da realidade, não lhe sobrassem mais do que dúvidas.

Voltou para casa, derrotado.
Silenciado pelo medo de falar e pela vergonha do seu silêncio.
Deu por si, sozinho na segurança do seu quarto, adornado com um adereço improvisado e, como quem busca preservar uma lição de vida inestimável, decidido a fotografar a sua vergonha, a sua loucura.

Mas só por fora: