Fernando Vieira

à Deriva

Fernando Vieira

Delação não premiada

Causaram indisfarçável mal-estar no setor turístico-hoteleiro as polémicas declarações de Elidérico Viegas, histórico presidente da AHETA - Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve, segundo o qual as distinções internacionais que vêm premiando o país e a região algarvia nos últimos anos, enquanto destinos de eleição, teriam uma importância nula e subvertida, uma vez que vêm sendo negociadas com as entidades que as atribuem, a troco de avultadas quantias. 

E a polémica foi de tal monta que o próprio Elidérico optou por se demitir do cargo, que assumia ininterruptamente há mais de 25 anos, preferindo assim cortar pela raiz o coro de contestações vindas dos seus colegas de direção e de diversos quadrantes da atividade turística, a montante e a jusante. 

Porque vos trago este assunto, nada abonatório para a boa imagem do turismo nacional, especialmente o algarvio, despoletado precisamente quando o setor sofre os devastadores efeitos de um ano de quase total regressão, devido aos efeitos colaterais desta terrível pandemia? 

Precisamente porque Elidérico também criticou o plano de vacinação nacional contra a Covid-19, que considera aquém do desejado, o que prejudicará, no seu entender, uma imagem turística já de si bastante afetada por este longo e atípico período, cuja recuperação se afigura lenta e dolorosa. 

Em boa verdade, não sei se é verdadeira a denúncia relativa aos prémios alegadamente comprados, nem tão pouco se a planificação das vacinas estará assim tão atrasada e, caso esteja, se se trata de mera incapacidade organizativa das entidades competentes, sobre a qual em nada interferirá o contexto internacional relacionado com o rocambolesco processo de produção, homologação, aquisição, distribuição e confiança das benditas vacinas ao dispor. 

Caso se confirmem as duas críticas, ambas deverão merecer o mais cuidadoso e célere reparo que justificam, doa a quem doer.  

O que me faz espécie é entender se, no caso específico das placas e estatuetas – supostamente – a saldo, seria este o momento mais oportuno para levantar a lebre, ainda por cima sem a apresentação de quaisquer comprovativos? É esta a celeuma que o turismo mais precisa nesta altura do campeonato? Não haveria outras prioridades de fundo a debater, em prol do bem-estar do setor e de quantos nele trabalham e dele vivem? Alguém ficou a ganhar com tamanha revelação (ainda) não sustentada? Elidérico Viegas, ele mesmo, atirou ao lixo um desempenho de décadas, só porque sim? 

Em suma: isto foi para quê?