Fernando Vieira

à Deriva

Fernando Vieira

Comer para (sobre)viver

Até onde a minha memória gustativa vai, lá para os três ou quatro anos de idade, venho-me alimentando (deliciado) com os ricos sabores da culinária algarvia, tão salutarmente influenciada pela dieta mediterrânica. 

Sendo daqueles que come para viver e não que vive para comer, nem por isso deixo de apreciar uns carapaus alimados, umas sardinhas assadas, umas papas de berbigão, uma salada de choco em sua tinta, uma caldeirada com o peixe da ocasião, uns búzios com feijão, uns guisados de grão e tantas e tantas especialidades típicas, que conjugam o que de melhor a terra e o mar nos proporcionam. Tudo bem acompanhado, claro está, com as pingas sulistas, de tinto e branco, trabalhadas pelo generoso sol, rematando cada refeição com uma bolinha de figo e amêndoa ou um doce fino, a que o cálice de medronho dá um toque especial. 

Ao longo destes anos – bem mais de meio século – fui experimentando casas tradicionais, das quais me tenho feito cliente habitual, pois preservam os sabores e saberes algarvios, passados de geração em geração. 

Por norma, são espaços rústicos, onde impera o asseio e as regras de acondicionamento e higienização alimentar impostas pelas autoridades do ramo, apanágio desses recantos de bem comer. 

De repente, com a intromissão descarada desta malfadada pandemia no nosso quotidiano, fiquei privado de os frequentar quando e como quero. 

E quem fala nestes paraísos dos petiscos, fala em alguns milhares de restaurantes e afins que, de barlavento a sotavento, lá vão sobrevivendo por entre restrições, limitações e castrações que lhes tolhem a faturação e indiciam o encerramento de portas, mais dia menos dia. Como já sucedeu demasiadas vezes. 

Nesta região tão dependente do turismo, é toda uma atividade empresarial a desmoronar, arrastando consigo largos milhares de postos de trabalho, dos quais dependem incontáveis agregados familiares. 

Perante esta crise sem fim à vista, e face a um futuro próximo que se afigura cada vez mais angustiante, empresários houve que chegaram a fazer greve de fome, exigindo objetivas medidas de apoio por parte do Estado. 

Mas... e nós, clientes (mais ou menos) assíduos? Mas… e nós, algarvios (mais ou menos) preocupados com este cenário, um de tantos outros que atingem de chofre a mono indústria turística que, para o bem e para o mal, é locomotiva económica do Algarve?  

O que fazer, para além de cumprirmos regras tão patéticas como passar o umbral da porta de máscara na cara, retirando-a logo a seguir, de nos sentarmos mesa sim, mesa não, de frequentarmos os restaurantes e similares das tantas às tantas, em determinados dias da semana, como se o coronavírus, nesses momentos, metesse folga? 

Porque estas questões me assaltam e incomodam, ao ponto de sentir necessidade de as partilhar convosco, pergunto: como poderemos contribuir para que a restauração continue a operar, mantendo a qualidade do serviço e o mapa de pessoal? 

Aceitam-se sugestões.

2-12-2020