Fernando Correia

Crónica

Fernando Correia

Uma conversa com dois centímetros

Passei algum tempo da minha vida a falar de futebol, tentando explicar o inexplicável, ou seja, que apesar de não ser uma Escola de virtudes, o futebol profissional tinha os seus méritos; que os adeptos mereciam todo o respeito pela sua dedicação à causa; que os dirigentes exageravam nas suas opiniões, tantas vezes doentias e unipessoais; que os árbitros erravam demais transmitindo, algumas vezes, para as bancadas a ideia de uma condenável falta de isenção nos julgamentos; que eram ofensivos e pornográficos determinados ordenados pagos a jogadores e a treinadores; que as verbas envolvidas em transferências, desde os absurdos pagamentos às comissões atribuídas a empresários eram atentatórias da dignidade humana; que haver três jornais desportivos diários representava um atestado de incultura passado ao povo; que as televisões e as rádios vendiam futebol como quem vende água, só que a sede não era a mesma; que tudo o que é exagerado não presta.

Continuo a pensar que tudo o que é exagerado não presta, mas praticamente já não falo de futebol.

Abro uma excepção para saudar a introdução do papel do vídeo - árbitro na modalidade, pela clarificação que pode dar ao público em geral, relativamente a determinadas jogadas, faltas, foras de jogo, irregularidades, golos que são e outros que não são, etc.

Só que, recentemente, Portugal ganhou à Sérvia, mas o golo da vitória não contou, porque a equipa de arbitragem em campo não viu a bola passar, por completo, a linha de baliza e não havia vídeo – árbitro.

Não havia porquê? Não viram porquê?

Ninguém deu uma explicação razoável sobre estas duas dúvidas que ficaram assim mesmo, ou seja, metidas no saco do esquecimento, ignorando a FIFA, a UEFA e mais quem seja, que Portugal pode não ser apurado para a fase seguinte da prova apesar de ter marcado um golo legal, que é a finalidade e o objectivo do futebol.

Por outro lado, soube que, há dias, o vídeo – árbitro invalidou um golo porque o jogador que o marcou estava dois centímetros fora de jogo.

Espantoso!

Dois centímetros.

Imaginem a precisão que é preciso ter para garantir uma coisa destas. Porquê? Porque o operador que está a manusear a aparelhagem que conduz a esta realidade, ele próprio, não tem capacidade para garantir se aquele “frame” é o correcto para a visualização do lance, tal como ele sucedeu, ou se é uma “frame” mais à frente ou mais atrás. E basta esta dúvida para dar cabo da realidade virtual dos dois centímetros.

Um conselho aos senhores que pensam futebol: o homem erra, a máquina também. Então no caso deste disparate de uma posição irregular por escassos centímetros estabeleçam uma margem de erro. Sugiro que até aos cinco centímetros não anulem um golo, porque senão o vídeo – árbitro só serve para introduzir mais dúvidas no futebol. 

FERNANDO CORREIA
(Jornalista)