Fernando Correia

Crónica

Fernando Correia

Meu querido “irmão” Carlos do Carmo

Afinal juntaste a tua saída dos palcos à tua saída da vida terrena! Não foi nada que eu não esperasse, porque te conheço bem e sei que és um homem determinado. Sempre foste, desde os tempos do “Faia”, da mãe Lucília, da Cila, do Becas e do Gil, até ao “João Sebastião Bar” onde afogávamos as dores de crescimento da democracia bebé em copos de bom vinho tinto, a acompanhar um prato de “camarões à baiana” feitos pela Eulália sob as ordens da amiga Vera.

Nessa altura andávamos a gatinhar à procura de um caminho saudável para as politiquices que discutíamos, uns mais esquerda, outros mais ao centro, com evidente repudio das “direitas” que alguns saudosistas do estado novo ainda defendiam, com mais unhas do que dentes.

Eram dias e dias, noites e noites, tu, eu, o Tordo, o Ary, o Solnado, o Bastos, o Cardoso Pires, o Orlando Costa, o Vitorino de Almeida, o Nicholson, o José Viana, o Henrique, e todos aqueles que iam lá para vos ver e para vos ouvir.

Às vezes nem saíamos de lá e juntávamos a noite ao dia em conversas saudáveis sobre o tempo novo que era o nosso.

Depois, ias cantar ao estrangeiro, naquelas salas cheias de saudade, dos portugueses trabalhadores que tinham saído da pátria desiludidos e que queriam voltar para participarem na nova vida portuguesa. Mas quando voltavas, lá estávamos todos à tua espera para mais uma boa conversa e para ouvir as boas notícias que trazias na bagagem.

Até que um dia fomos todos ao Rio de Janeiro e a São Paulo levar fado e poesia aos portugueses. E que êxito!... Eras tu a cantar, o Ary a dizer poesia e eu a apresentar os espectáculos.

Não é possível esquecer.

Como não é possível esquecer o programa “No calor da noite”, na Rádio Comercial, onde tu cantaste e contaste, em episódios semanais, a história do fado, cujas bobinas gravadas guardo no meu armário de vida, representando um dos meus grandes tesouros.

Como não é possível ignorar as tuas apresentações no “Olympia”, em Paris, onde Aznavour e Piaff  também aplaudiram o teu sucesso.

Recordo a tua generosidade, a tua ternura pelas minhas três filhas, as brincadeiras de criança com os teus três filhos, na Malveira, no “Burrico”, onde também cantaste.

E hoje a notícia, a primeira do ano de 2021.

Partiste para o Oriente desconhecido, onde te espera uma nova luz e a certeza derradeira da vida eterna.

Fico a olhar para ti.

Recordo Braga, o “Teatro – Circo”, onde iniciaste a tua última ronda de canções. Estivemos juntos no hotel. Jantamos juntos. A Maria Judite estava presente. Sempre presente.

Dia 1 de Janeiro.

Os jornais falam de ti, meu irmão.

Na Segunda–Feira é dia de luto nacional. Bem mereces que te lembrem. O professor Marcelo dedicou–te palavras bonitas e o António Costa, o filho do Orlando, falou no amigo que perdeu.

Não perdeu. Tu apenas foste preparar o teu próximo concerto fadista. No meio dos anjos.